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A Nova Alquimia (Osho)
Penetrando nos Corações
dos Homens
Respeite intensamente toda a vida que o rodeia.
...Respeite a vida que o rodeia e que está em constante
mudança e movimento, pois ela é formada pelos corações dos
homens; e quando você aprender a compreender a constituição
e o significado deles, será capaz, gradualmente, de
interpretar o mundo mais amplo da vida.
Reverência pela vida, respeito pela vida.
Geralmente, os assim-chamados religiosos são negativos em
relação à vida. Eles estão contra a vida. Observe seus
rostos, observe seus olhos. Eles condenam todas as coisas.
Essa atitude negativa causou em todo o mundo uma negação da
vida. A religião parece ter se tornado um aliado da morte e
não um amigo da vida. Ela parece ser contra a vida, pois lhe
diz constantemente: “Abandone a vida. Transcenda-a. Mova-se
na direção da outra vida, que se encontra além desta vida.”
Deus parece não concordar que você seja uma parte da vida. É
como se a vida fosse considerada uma punição. “Você está
aqui porque pecou. Você não estaria aqui se não houvesse
nenhum pecado em sua vida.” Mas essa atitude é inteiramente
doentia, patológica. Na verdade, o divino e a vida não são
duas coisas. Ao contrário, são uma extensão de um único
fenômeno.
Aqui e ali (isto e o além) não são duas coisas. O que está
aqui, esta vida, é um degrau na direção do além. Se você
negar esta vida, não alcançará a outra; não poderá ir além.
Para se ir além disto não é preciso nenhuma negação.
Para se ir além, é preciso uma profunda compreensão desta
vida. Como conseguir uma profunda compreensão desta vida?
Isso será impossível se você não reverenciar a vida.
Reverencie a vida sempre que a encontrar; ajude-a a crescer.
Seja criativo para com ela; não seja destrutivo.
Mas somos destrutivos de muitas maneiras. Olhe ao seu redor.
Todas as coisas que estão profundamente associadas à vida
são condenadas. O sexo é condenado, o amor é condenado,
porque são a fonte da vida.
Uma pessoa religiosa precisa ser um monge, um celibatário.
Por quê? Por que aquele que busca o divino precisaria ser um
celibatário? Qual a necessidade disso? Por que há tanta
propaganda contra sexo, contra o amor, contra a vida? É
porque o sexo parece ser a fonte da vida; parece ser a
energia original que move o mundo. Os que são contra o mundo
certamente serão contra o sexo. “Elimine totalmente o sexo
de sua vida!” - isso é o que eles ensinam. Mas se você
eliminar o sexo, eliminará a vida toda. Se você for contra o
sexo, não poderá reverenciar a vida. Você estará contra a
própria vida.
Estes sutras são muito significativos. Eles dizem para
reverenciar a vida em todas as suas formas, porque quanto
mais você a reverenciar mais profundamente poderá ir. Na
verdade, Deus não se encontra além desta vida, mas dentro
dela. Deus é o centro, o próprio centro, e a vida é apenas a
periferia. Penetre profundamente na vida e você chegará ao
verdadeiro centro, ao verdadeiro fundamento da própria vida.
Deus não é o criador; ele é a própria criatividade. As
concepções cristãs e maometanas a respeito de um “Deus
criador” criaram muita confusão. Essas atitudes são um tanto
infantis. São admissíveis se você estiver conversando com
crianças, mas absurdas se estiver conversando com pessoas de
discernimento.
Conclui-se dos dogmas cristão e maometanos que Deus criou o
mundo em algum lugar no passado. Ele criou o mundo em seis
dias e, no sétimo dia, descansou. E, depois disso, não fez
mais nada. O mundo começou a caminhar por si mesmo.
Essa concepção cria uma atitude dividida: que Deus e o mundo
são duas coisas diferentes. Isso não é verdade. Deus não
criou o mundo tornando-o separado de si mesmo. Não é como o
pintor que pinta um quadro. O pintor é uma coisa e o quadro
é outra. A concepção hindu é mais profunda. Ela diz que Deus
não é como um pintor, mas sim como um dançarino: Shiva, o
dançarino.
Semelhante a um dançarino, porque a dança e o dançarino não
são dois. Você não pode separá-los. O pintor pode ser
separado da sua pintura, mas o dançarino não pode ser
separado da sua dança. O dançarino e a dança são um.
Deus não é criador, não é uma entidade separada. Deus é a
própria criatividade, a própria vida. Assim, se você é
contra a vida, você é contra Deus. Diz-se que Gurdjieff fez
em algum lugar uma declaração muito paradoxal mas bastante
verdadeira. Ele disse que as assim chamadas religiões são
todas contra Deus, porque são contra a vida. Mas a
verdadeira religiosidade é sempre a favor da vida, nunca
contra ela.
Se você entrar profundamente na dança, alcançará o
dançarino. A dança é apenas a forma. Se entrar profundamente
na dança, alcançará o próprio coração do dançarino. E se
você entrar profundamente na vida, alcançará o princípio
originador da vida: Deus.
Deus é criatividade. Ou, se me permitem dizê-lo, eu
preferiria dizer que Deus é a própria existência. Deus é
vida.
Jesus disse: “Deus é amor.” Essa foi uma das razões pelas
quais ele foi crucificado - porque ele chamou Deus de
“amor”. O amor é condenado, é um pecado, e ele chamou Deus
de “amor”. Isso fez com que ele parecesse muito rebelde; ele
deve ter se mostrado demasiadamente a favor da vida. A velha
mente judaica, a velha mente religiosa, não pôde tolerar
isso. Era um sacrilégio! Jesus falando sobre Deus em termos
de amor? Deus está além da vida e do amor! Você precisa
abandonar todas as coisas: a vida, o amor, tudo. Somente
então você pode encontrá-lo. E esse homem, Jesus, traz Deus
aqui para a Terra e fala em termos de amor!
Na verdade, Deus é vida, Deus é amor. Deus é este próprio
mundo. Não crie uma divisão, não crie um dualismo. Somente
então você pode reverenciar a vida. Sempre que, em qualquer
lugar, você se deparar com a vida - uma semente germinando,
uma árvore florescendo, estrelas se movendo, um rio fluindo,
uma criança rindo - lembre-se, Deus está perto de você.
Quando uma criança ri, observe o riso. Entre nele. Você terá
entrado no próprio templo. Quando o rio fluir, observe
amorosamente. Una-se a esse fluxo, permaneça em profunda
reverência.
Os hindus chamaram todos os rios de deuses; chamaram todas
as montanhas de divindades. Eles tornaram a Terra sagrada.
Essa é uma das coisas mais belas que já aconteceram à
consciência humana. Os hindus chamam o Ganges de Mãe. Isso
significa reverência pela vida. As montanhas eles chamam de
deuses. Isso significa reverência pela vida. Eles veneram as
árvores. Os que se tornaram intelectualmente sofisticados
pensam que os hindus são estúpidos, um povo supersticioso,
mas eles não o são. A árvore não é o ponto importante.
Quando eles estão venerando uma árvore ou um rio, estão
venerando a vida.
Uma árvore é mais viva do que qualquer templo, do que
qualquer igreja; um rio é mais vivo do que qualquer
mesquita. Os ídolos de pedra em seus templos estão mortos;
uma árvore é mais viva. Você pode ser supersticioso, mas a
pessoa que está venerando uma árvore não o é. Ela pode não
estar ciente do que está fazendo, mas há uma profunda
reverência pela vida em todas as suas formas, um profundo
respeito.
E celebre. Onde quer que você sinta que a vida está
crescendo, celebre-a, ame-a, acolha-a, e uma grande
transformação acontecerá a você. Se a vida é reverenciada em
todas as suas formas, você se torna mais vivo. Torna-se mais
receptivo à vida, e a vida começa a fluir abundantemente em
você; ela transborda em você. Bem-aventurança é isso: vida
transbordando.
Mas você está mais interessado na morte e menos interessado
na vida. Mais interessado na destruição, no ódio; mais
interessado nas guerras do que no amor, na vida. Isso o
torna morto e insensível. Antes de morrer realmente, você já
está morto. Quando a morte lhe sobrevém, você já está morto.
Você se transformará naquilo que você reverenciar. Se você
reverenciar a vida, tornar-se-á, cada vez mais, vida. Se
reverenciar a morte, tornar-se-á, cada vez mais, morte.
Lembre-se disto: Respeite a vida que o rodeia e que está
em constante mudança e movimento, pois ela é formada pelos
corações dos homens; e quando você aprender a compreender a
constituição e o significado deles, será capaz,
gradualmente, de interpretar o mundo mais amplo da vida.
Aprenda a olhar inteligentemente para os corações dos
homens.
...Estude os corações dos homens, a fim de que possa
saber o que é este mundo no qual você vive e do qual você
será uma parte.
Jamais olhamos diretamente para o coração de alguém. Isso é
perigoso, inseguro, porque então você pode ficar envolvido;
você precisará fazer alguma coisa. Assim, jamais tocamos em
alguém. Permanecemos apenas à distância, longe, afastados.
Movimentamo-nos sem tocar em ninguém. E, quando digo isto,
não o estou dizendo apenas no sentido físico.
Psicologicamente também. Movimentamo-nos sem tocar em
ninguém fisicamente. Temos medo de tocar em alguém ou de ser
tocados por alguém. Psicologicamente, também vivemos dentro
de uma casca: fechados, encapsulados.
Há motivos para isso. Se você penetrar no coração de alguém,
terá de fazer alguma coisa a respeito. Você será inundado de
amor, de valores mais nobres, superiores. Então não poderá
permanecer tão mesquinho como você é, tão cruel e insensível
como você é, tão egocêntrico como você é. Se olhar para o
coração do outro, você terá de se dissolver. O próprio ato
de olhar para o coração do outro tornar-se-á uma fusão de
seus egos.
Assim, ninguém olha para ninguém. Nem sequer olhamos para os
corações de nossos amigos. Nós os tomamos como algo
conhecido. Nunca olhamos sequer para os corações de nossas
esposas ou de nossos maridos, de nossos amantes ou amados.
Criamos uma imagem e vivemos com a imagem. Nunca conversamos
um com o outro diretamente, porque se você conversa
diretamente não se sente seguro; torna-se vulnerável.
Lembre-se disto: se você penetrar no coração de alguém,
simultaneamente seu próprio coração se torna vulnerável. Não
é possível de outra maneira. Se olho profundamente para
dentro de você, torno-me acessível a você. Você também
poderá olhar profundamente para dentro de mim.
Mas isso parece perigoso. Não quero que ninguém olhe
profundamente para dentro de mim porque, na superfície, sou
diferente, uma pessoa falsa. Lá dentro, lá no fundo, sou
outra pessoa. Na superfície, continuo a sorrir - muito
gentil, muito amável -, e lá dentro há muito ódio, muita
feiúra. Assim, não quero que ninguém penetre em meu
interior.
Mas se eu penetrar em seu interior, o próprio esforço para
penetrar em você torna-me simultaneamente acessível a você.
Temos medo. Não queremos que ninguém nos invada, olhando
para dentro de nós. É perigoso olhar para dentro do coração
de alguém e ter nosso interior exposto aos olhos de alguém.
Tornamo-nos encapsulados, mortos. Ficamos nos movendo dentro
de uma prisão.
Dessa maneira, como você pode conhecer a vida? Se até mesmo
um coração humano lhe é estranho, e se você nunca olhou para
dentro dele, como pode penetrar profundamente no interior do
imenso coração divino, do próprio centro da existência?
Aprenda a olhar. Olhando os corações dos outros, você pode
aprender a olhar profundamente. Trata-se das profundezas das
pessoas. A profundeza da pessoa é o seu coração.
Conversamos através da mente, mas a mente não é o profundo.
A mente está na superfície, na periferia. Conversamos,
discutimos, comunicamo-nos apenas com palavras. Jamais
ficamos em silêncio, nem mesmo por alguns instantes. Mesmo
os que estão amando continuam a conversar incessantemente,
porque, se você estiver em silêncio, o coração pode ser
penetrado. Assim, continuamos a conversar e a conversar.
O marido chega em casa. Começa a falar. Coisas bobas,
irrelevantes. O que aconteceu no mercado, o que aconteceu na
loja, o que está nos jornais, o que se falou no rádio.
Continua a falar. E a esposa também fala sem cessar: o que
as outras esposas estão falando a respeito de suas casas e
assim por diante. Falam, falam, falam sem cessar até caírem
adormecidos. Por que tanta conversa? Qual é o propósito
disso? Eles estão realmente interessados em comunicar alguma
coisa? Não! Eles estão com medo de comunicar. Se ficarem em
silêncio, então seus corações começarão a se comunicar; por
isso, eles continuam a falar. A conversa cria uma barreira.
Eles se encontram de mente para mente para que não se
encontrem de coração para coração. Um encontro de corações
só é possível em silêncio.
É assim que vivemos. Então dizemos que nossa vida é uma
miséria. Que mais poderia ser? A miséria será inevitável.
Mas não se trata do seu destino. A miséria é criação sua
você mesmo a produziu. Encapsulado, você estará na miséria.
Aberto, vulnerável, você se tornará capaz de ser
bem-aventurado. Essa abertura será aprendida olhando-se
dentro do coração dos homens.
Este sutra diz:
Aprenda a olhar inteligentemente para o coração dos
homens.
“...A inteligência é imparcial: nenhum homem é seu inimigo;
nenhum homem é seu amigo. Todos, sem distinção, são seus
professores. Seu inimigo torna-se um mistério que precisa
ser resolvido, mesmo se levar muito tempo: pois o homem
precisa ser compreendido. Seu amigo torna-se uma parte de
você mesmo, uma extensão de você mesmo, um difícil enigma a
ser decifrado.”
O sutra diz: Aprenda a olhar inteligentemente... Por
“inteligentemente” quer-se dizer: ser imparcial. Se você é
parcial, não pode chegar ao coração. Toda parcialidade
deixa-o focado na mente; apenas a consciência imparcial
chega ao coração.
O coração é imparcial; a mente sempre é parcial. A mente
sempre é partidária, sectária, a favor disto e contra
aquilo. O coração não é nem a favor nem contra. O coração
está simplesmente aberto, receptivo, acolhedor. Ele não tem
inimigos nem amigos; apenas a mente tem inimigos e amigos.
“Inteligência” significa imparcialidade. Somente então você
é inteligente.
Se você é parcial, não é inteligente. Você pode dar a
impressão de ser sofisticado, instruído, lógico, mas não é
sábio, não é realmente inteligente. A inteligência se
caracteriza por não ser preconceituosa, parcial, com
sentimentos a favor ou contra, pois somente assim você pode
olhar para o todo.
Por exemplo: se digo que você é meu amigo, será impossível
para mim entrar no seu coração. Ou se digo que você é meu
inimigo, também será impossível alcançar o seu coração.
Quando digo que você é meu amigo, ou meu inimigo, já o
rotulei. Sinto que o conheço. Penso que já o compreendi. De
outro modo, como seria possível a amizade? Quando digo que
você é meu amigo, demonstro que gosto de você; estou dizendo
que gosto de você. E quando digo que gosto de você, torno-me
parcial. Então não posso alcançar o seu coração. Minha
preferência tornar-se-á uma barreira.
Quando digo que gosto de você, estou, na verdade, impondo-me
a você. Você é a minha preferência. Digo que você é
bom porque seu modo de ser está de acordo com a minha
preferência. Então, eu entrei em você, eu me impus a você.
Não posso atingir o seu coração, não posso conhecê-lo como
você é, por causa da minha preferência.
Quando digo que você é meu inimigo, estou dizendo que não
gosto de você, que não simpatizo com você. Essa antipatia
torna-se uma barreira. Quando digo que gosto de você,
procuro descobrir as coisas de que eu gosto. Quando digo que
não gosto de você, procuro descobrir as coisas de que não
gosto. Então, estou apenas tentando comprovar essas coisas,
e não tentando conhecê-lo como você é. Simpatia/amizade,
antipatia/inimizade são minhas interpretações, minhas
ficções. Sua realidade nua, aquilo que você é realmente,
fica esquecido.
Inteligência significa que você não é nem meu amigo nem meu
inimigo. Você é você, eu sou eu. Não me imporei a você.
Tentarei compreender o que você é. Não segundo minhas
simpatias e antipatias, mas o que você é. Cada homem é um
mistério, cada homem é um enigma. Se você tentar solucionar
o mistério de pelo menos um único indivíduo, se for capaz de
decifrar pelo menos um único enigma, tornar-se-á capaz de
muito mais, porque mesmo um único indivíduo só é
compreendido através do coração. Você terá conseguido
descobrir a arte de como penetrar no coração.
E a mesma técnica, o mesmo método, ajudará você a penetrar
no coração divino. O coração divino é imenso, infinito, mas
o coração humano é um lampejo dele. O coração humano é um
fragmento dele, vivo. Assim, não fique morto em relação à
humanidade que está ao seu redor. Aprenda a amá-la, a
reverenciá-la. E aprenda a olhar inteligentemente para o
coração dos homens.
Esse aprendizado o tornará
mais maduro; esse aprendizado o tornará mais sensível em
relação a um aprendizado superior, que é divino. O coração
do divino pode ser penetrado somente por aqueles que se
tornaram capazes de conhecer o coração humano tal como ele
é. |