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A Nova Alquimia (Osho)
Soltar as Amarras da
Personalidade
Respeite mais intensamente o seu coração.
Pois através do seu coração surge a única luz que pode
iluminar a vida e torná-la clara a seus olhos.
“...Só uma coisa é mais difícil de se conhecer - o
seu coração. Antes que as amarras da personalidade sejam
soltas, o profundo mistério do eu não pode começar a ser
visto. Enquanto você não sair do caminho, ele não se
revelará, de modo algum, à sua compreensão. Só então, e
jamais antes, você poderá apreendê-lo e governá-lo. Só
então, e jamais antes, você poderá usar todos os seus
poderes e devotá-los a um trabalho valioso.”
A coisa fundamental a ser entendida é que você não pode
conhecer sua própria natureza, seu próprio coração, seu
próprio ser, por causa de sua personalidade, por causa de
uma entidade falsa que você criou ao seu redor. Vivemos
encerrados dentro de personalidades. As personalidades são
falsas. Elas são, simplesmente, máscaras, fachadas a serem
mostradas aos outros. Mas esse hábito torna-se tão arraigado
que você se esquece completamente de sua face original.
Mostrando suas falsas faces aos outros, aos poucos você se
identifica com elas e começa a pensar que elas são as suas
faces. Então, sua face original, sua face real, permanece
oculta.
O que quer que você faça, como quer que você aja, seja o que
for que você diga, lembre-se sempre de ver se isso vem de
seu coração ou de sua personalidade. Distinga claramente.
Isso lhe será de grande auxílio na busca interior.
Quando você diz a alguém: “Eu te amo” - de onde estão vindo
estas palavras? De onde? Qual é a sua origem? Estão vindo do
seu coração? Seu coração está realmente repleto de amor? Ou
estão vindo meramente de sua personalidade, de sua face
falsa? Você as está dizendo apenas de um modo polido, como
uma formalidade, uma etiqueta, ou as está dizendo para
expressar algo mais?
Você pode desejar o corpo de alguém, pode desejar
sexualmente alguém, mas você diz: “Eu te amo.” Essa
afirmação não passa de uma simulação. Seria melhor se você
dissesse, “Desejo você sexualmente, mas não existe amor. Seu
corpo me atrai, me seduz, mas não existe amor. Pode ser que
o amor aconteça, mas por enquanto ele não existe. Estou
apenas interessado em seu corpo.”
Mas se alguém disser que é somente o seu corpo que o atrai,
você não quererá essa pessoa. Você se esquivará! Dirá: “Que
absurdo você está dizendo?” A face falsa precisa estar
presente. Só então o corpo pode ser dado ou tomado.
Assim, você continua a cultivar a sua personalidade. Quando
se sente magoado, triste interiormente, mesmo assim, você
continua a sorrir. Considere se o seu sorriso é apenas um
sorriso pintado em seus lábios, um exercício dos lábios ou
se ele nasce lá dentro e se espalha pelos lábios. A fonte se
encontra em algum lugar lá dentro, ou não há nenhuma fonte,
e ele é apenas um sorriso pintado? Quando você sorrir,
observe o seu sorriso e poderá saber se ele é falso ou real.
Quando alguém está triste, ou sofrendo, por ter perdido um
amigo, a namorada, o marido ou a esposa, aproxime-se dele.
Você se mostrará triste e pesaroso. Lembre-se, e observe
profundamente em seu interior, se essa tristeza é real, ou
se você está apenas aparentando-a enquanto no fundo está
enfadado, tentando descobrir uma desculpa para ir embora, ou
está pensando em outras coisas e não está de modo algum
interessado na pessoa: em seu sofrimento, em sua mágoa.
Fique observando isso e conhecerá duas camadas diferentes em
seu interior. A camada falsa é a personalidade.
A palavra “personalidade” é muito significativa. Ela se
origina da palavra grega persona. Persona
significa “máscara”. Nos dramas gregos, os atores usavam
máscaras, faces falsas. Essas faces falsas eram chamadas
personae. E foi dessa palavra que se originou a palavra
“personalidade”. Ela é perfeita. Significa que você está
agindo com uma face falsa. Ela não é você. Você está se
ocultando por trás da face falsa, porque não pode revelar a
sua verdadeira face.
Não estou dizendo para você sair por aí mostrando sua
verdadeira face por toda parte. Não é necessário. Em alguns
lugares, a persona é necessária. Mas deve ficar claro
que, nesses casos, trata-se da persona, não se trata
de você. Interiormente, você precisa saber quando está
representando e quando é verdadeiro. Você não deve se deixar
enganar por sua representação! Não deve se identificar com a
sua representação! Eu sei que as faces são necessárias. De
outro modo, seria difícil viver em sociedade, muito difícil.
De certo modo, as faces são boas. Elas facilitam, servem
para lubrificantes. E numa grande sociedade, com tantas
pessoas, você não precisa revelar sua realidade por toda
parte.
Alguém se encontra com você pela manhã. Você se sente
incomodado com esse encontro. Você pensa: “Por que tenho de
ver esse homem esta manhã? Sua presença pode estragar todo o
meu dia.” Mas, exteriormente, você sorri e diz: “Bom-dia.
Fico feliz em vê-lo.” Interiormente, você não está de modo
algum feliz!
Contudo, no que se refere à educação, não há nada de errado
nisso. Não seria adequado dizer ao homem: “Sinto-me
totalmente infeliz. Você estragou a minha manhã. Sua
presença é uma ameaça. Receio que, pelo fato de tê-lo visto,
meu dia esteja arruinado.” Isso não seria adequado.
Desnecessário. Iria perturbar desnecessariamente o outro
homem. Não há necessidade disso.
Mas você precisa saber o que é uma máscara e o que é real.
Precisa estar ciente daquilo que está acontecendo dentro. O
que acontece no interior é o seu ser real e o que acontece
na superfície é apenas uma utilidade social. Se você pode
fazer uma distinção nítida entre você e sua personalidade,
então a personalidade torna-se como uma roupa. Você pode
abandoná-la a qualquer momento e ficar nu.
Se você pode abandoná-la, isso significa que você está tão
preso a ela que não consegue distinguir-se dela, separar-se
dela; não há nenhuma distinção. Essa distinção é necessária
para que pelo menos em seu quarto, em seu banheiro, você
possa colocar sua personalidade de lado e tornar-se real;
pelo menos em meditação, você pode jogar sua personalidade
fora e tornar-se real. Ali ela não é necessária.
A meditação não é social. Ela não diz respeito a ninguém
mais; só diz respeito a você mesmo. Assim, nenhuma máscara é
necessária; você pode ser autêntico. Mas você não pode ser
autêntico porque não conhece a distinção. Até mesmo ao
meditar, eu sinto que você está fazendo muitas coisas
falsas.
Freud se conscientizou - quando iniciou a psicanálise ele
ainda não havia se conscientizado disso, mas, aos poucos,
percebeu que os pacientes diziam coisas que não eram
verdadeiras, apenas para deixá-lo feliz, para confirmar suas
teorias porque, quando Freud ficava feliz, eles também
ficavam felizes - somente depois de vinte anos de
psicanálise foi que ele se conscientizou de que o que os
pacientes diziam não era verdadeiro.
Por exemplo: Freud diz que o sexo é a raiz de toda
perturbação mental. Os pacientes iam vê-lo e contavam-lhe a
respeito de suas perturbações. Então eles revelaram que o
sexo era a raiz de suas perturbações. Freud pensava que suas
teorias estavam sendo confirmadas por centenas e centenas de
exemplos. Só mais tarde, ele se conscientizou de que muitos
de seus pacientes estavam mentindo, apenas para deixá-lo
feliz, para confirmar sua teoria.
Às vezes, eu sinto a mesma coisa. Quando digo: “Fique
louco!” - e você fica louco, sei que você está fazendo isso
apenas para me deixar feliz. Mas não há necessidade. Eu já
sou muito feliz! Não há necessidade. Não faça nada que não
seja verdadeiro, pelo menos em sua meditação - porque ela só
diz respeito a você.
Tillich disse, em algum lugar, que a religião é algo que diz
respeito ao indivíduo, é um assunto totalmente pessoal de
cada um consigo mesmo. Ela não diz respeito a ninguém mais.
A religião é individual; portanto, durante a meditação, você
não precisa se preocupar com mais ninguém, nem mesmo comigo.
Seja verdadeiro. Jogue fora suas máscaras. Qualquer coisa
autêntica o ajudará a mover-se para dentro, qualquer coisa
não verdadeira o ajudará a mover-se para fora.
Essa é a razão pela qual Shankara chama o mundo de ilusão.
Quanto mais você se move para fora de si mesmo, tanto mais
você se move na ilusão; e quanto mais você vai para dentro,
mais você se move na realidade. Sua personalidade é a porta
para a ilusão, para um mundo irreal de sonhos. Livre-se
dessa parte, livre-se completamente dessa ponte. Pelo menos
na meditação.
Não estou lhe dizendo para ser autêntico ao comportar-se na
sociedade. Você ficará em dificuldades. Se tiver vontade de
fazê-lo, pode fazê-lo, mas não estou pedindo isso; não me
responsabilize. A sociedade lhe criará problemas. Ela não
quer as suas faces verdadeiras; quer as suas faces falsas.
Mas, no que se refere à sociedade, não há nenhum problema
quanto à isso. Use uma face falsa quando se dirigir para
fora, mas quando se dirigir para dentro livre-se
completamente dessa face. Não permaneça identificado com
ela, não a carregue para dentro. Um dia poderá vir no qual
você se tornará tão forte que até mesmo na sociedade você
gostará de se comportar com sua face verdadeira, mas isso
depende de você. Primeiro olhe para dentro e, pelo menos
momentaneamente, coloque de lado sua personalidade.
Pois, através de seu coração, surge a única luz que pode
iluminar a vida e torná-la clara a seus olhos.
“...Só uma coisa é mais difícil de se conhecer - o seu
coração. Antes que as amarras da personalidade sejam soltas,
o profundo mistério do eu não pode começar a ser visto.”
A personalidade age como uma barreira e a luz de seu coração
não pode chegar até você. Desfaça-se da personalidade, mesmo
que momentaneamente, temporariamente, e a luz o inundará, e
você penetrará num mundo diferente: o mundo do coração.
“Enquanto você não sair do caminho, ele não se revelará, de
modo algum, à sua compreensão.”
Você precisa se colocar de lado: sua personalidade, seu ego.
”Enquanto você não sair do caminho, ele não se revelará, de
modo algum, à sua compreensão. Só então, e jamais antes,
você poderá apreendê-lo e governá-lo. Só então, e jamais
antes, você poderá usar todos os seus poderes e devotá-los a
um trabalho valioso.”
E enquanto você mesmo não entrar em profundo contato com o
âmago do seu coração, não poderá fazer nada que seja bom,
que seja valioso. Não poderá prestar nenhuma ajuda a
ninguém. Tudo o que você fizer, mesmo que seja com boa
intenção, criará o mal, porque aquele que faz o mal é
ignorante. O que você faz não é importante. Mais importante
é quem você é.
Se você é ignorante, se vive em total escuridão - se a luz
do coração não penetrou em você, ainda não o preencheu -
você pode ter boas intenções, boa vontade, mas tudo o que
fizer resultará em mal, porque nada de bom pode vir de um
coração escuro. Assim, não tente prestar nenhuma ajuda a
alguém, a menos que você tenha alcançado a luz interior.
Então, toda a sua vida tornar-se-á uma ajuda. Não haverá
mais necessidade de fazer disso um dever; você não ajudará
mais a alguém por mera obrigação. Então, a ajuda fluirá
espontaneamente de você.
E quando a ajuda se torna espontânea, isenta de qualquer
noção de dever, quando ela se torna amor, você não pode
fazer outra coisa senão ajudar; quando não há a preocupação
de fazer os outros felizes, quando, na verdade, ocorreu o
contrário: você está tão feliz que agora a felicidade
transborda de você e atinge os outros - só então tudo o que
você fizer terá bons resultados.
Se você está repleto de luz, de felicidade, o bem acontece,
sem que qualquer boa vontade se faça necessária. Contudo,
boa vontade em demasia, sem que haja luz interior, pode ser
perigosa aos outros. As pessoas que se ocupam em ajudar os
outros, sem possuírem qualquer sadhana interior,
criam muito mal. Toda a sociedade está sofrendo por causa
dessas pessoas maléficas que se põem a ajudar os outros sem
terem, de algum modo, realizado sua própria luz interior.
Lembre-se disto: a primeira coisa é a sua própria
auto-realização. Ajudar os outros é secundário. E não pense
que, por ajudar os outros, você pode se realizar. É
realizando-se que você poderá ajudar os outros, e não o
contrário.
“É impossível ajudar os outros antes de ter alcançado algum
conhecimento de si próprio. Quando você tiver aprendido as
primeiras 21 regras e tiver penetrado no Saguão do Saber com
seus poderes desenvolvidos e sua inteligência liberada,
então você descobrirá que há em seu interior uma fonte da
qual nascerá a fala.”
“...Essas palavras estão escritas só para aqueles que podem
ler o que escrevi tanto com o sentido interior como o
exterior.”
Lembre-se disto. É impossível ajudar os outros antes de ter
alcançado algum conhecimento de si próprio. Resista à
tentação de ajudar os outros. Será desastroso, a menos que
você tenha algum conhecimento de si próprio. Não tente ser
um guru, não tente prestar nenhuma ajuda, porque você
causará danos, criará mais problemas. Não se esqueça de que
você não pode ajudar, não pode orientar ninguém, a menos que
tenha alcançado a luz interior. Quando a luz interior está
presente, a ajuda, a orientação, fluirá de você.
Resista à tentação. A tentação é enorme porque o ego se
sente muito satisfeito. Alguém lhe pede um conselho. Você é
tentado a dar o conselho sem saber o que está fazendo, sem
estar consciente de que não sabe. Se alguém lhe pergunta se
Deus existe, você não é suficientemente forte para dizer:
“Eu não sei.” Você diz alguma coisa. Ou diz: “Sim, Deus
existe. Sou um crente” - ou então “Não, Deus não existe. Sou
um descrente” - mas, em ambos os casos, você deu a sua
opinião. Em ambos os casos, você confirmou algo que não
sabe.
Lembre-se disto: trata-se de um ponto básico, muito
importante a qualquer buscador espiritual: confirme aquilo
que você sabe realmente. Se não sabe, é melhor dizer: “Não
sei.”
Uma vez perguntaram a Albert Einstein: “Qual a diferença
entre ciência e filosofia?”
Sua resposta foi uma das mais sábias. Ele disse: “Se você
procurar um cientista e lhe fizer uma centena de perguntas,
para noventa e nove dessas perguntas ele lhe dirá: ‘Não sei.’ Apenas a uma delas ele dirá: ‘Eu sei.’
Contudo, acrescentará: ‘Mas trata-se apenas de um
conhecimento relativo. Amanhã ele pode mudar. Não é
absoluto.”
“Se você procurar um filósofo e lhe fizer uma única
pergunta, ele lhe dará uma centena de respostas. E com
absoluta convicção de que essas são as respostas corretas.
Se alguém der alguma outra, será escorraçado. O filósofo
dirá: ‘Ele está errado!’.”
É por isso que a filosofia não leva a parte alguma.
Respostas e respostas e respostas não levam a parte alguma.
Tantas respostas para não responder nem mesmo a uma única
pergunta. Falta o fundamental: o filósofo não é bastante
forte para dizer: “Não sei.”
O cientista é mais forte. Ele pode dizer: “Não sei.” E mesmo
quando ele diz: “Eu sei” - acrescenta: “Até o momento isto é
considerado verdadeiro. Mas nada posso dizer quanto ao
amanhã. As coisas podem mudar, muitos fatos novos podem se
tornar conhecidos e então a verdade terá de ser reajustada.”
Eu gostaria de dizer que a ioga também é uma ciência; não é
uma filosofia. A meditação é uma ciência; não é uma
filosofia. Lembre-se disto: não dê nenhuma orientação a
ninguém, a menos que você tenha algum conhecimento, alguma
experiência. E, mesmo nesse caso, não deixe de dizer aos
outros que “essa é a minha experiência. Pode não ser assim
para você. É a maneira pela qual eu cheguei a isso. Seu
caminho pode ser outro; isto pode não se mostrar verdadeiro
para você. Portanto, não siga o meu conselho cegamente. Você
pode experimentá-lo. É uma experiência aberta.”
Então você pode ser de alguma ajuda. De outro modo, poderá
criar perturbações. Não se deixe levar pelas tentações. Não
aconselhe, a menos que saiba realmente. Não oriente.
Primeiro, seja um discípulo; não tente ser um mestre. Um dia
você será um mestre. Quando tiver se tornado um discípulo
total e completo, o mestre emergirá de você. Mas não antes
desse momento, não antes desse tempo. Aguarde. O tempo virá.
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