|
A Nova Alquimia (Osho)
O Segredo Derradeiro
Pergunte ao mais íntimo, ao uno, sobre o segredo
derradeiro que ele guarda para você através dos tempos.
A grande e difícil vitória, a conquista dos desejos da
alma individual, é um trabalho que requer tempo; portanto,
não espere obter sua recompensa, enquanto não forem
acumulados muitos anos de experiência. Quando o momento de
aprender esta regra é chegado, o homem está a ponto de se
tornar mais do que homem.
O conhecimento, que agora é seu, só lhe pertence porque
sua alma tornou-se una com todas as almas puras e com o mais
íntimo. Ele é um bem que lhe é confiado pelo Supremo.
Traia-o, faça mal uso de seu conhecimento ou negligencie-o,
e é possível que, mesmo agora, você caia do elevado estado
que alcançou. Seres notáveis já caíram, até mesmo do limiar,
incapazes de sustentar o peso de suas responsabilidades,
incapazes de passar adiante. Portanto, aguarde, sempre com
respeito e temor, por este momento, e esteja preparado para
a batalha.
Pergunte ao mais íntimo, ao uno, sobre o segredo
derradeiro que ele guarda para você através dos tempos.
Somos muitos apenas na periferia; a multiplicidade existe
apenas na circunferência. Quanto mais nos movemos em direção
ao centro, mais nos movemos em direção ao uno. No centro,
somos um.
Na periferia, existimos como muitos. Sua personalidade é
diferente da personalidade do seu vizinho. Sua
individualidade é diferente de todas as demais. Mas seu
centro mais profundo não é diferente. Seu centro mais
profundo é o centro mais profundo de tudo. Quando você o
alcança, alcança o uno.
O mundo todo é apenas a circunferência. O centro - você pode
chamá-lo de Deus ou pode chamá-lo de alma suprema ou do que
preferir - mas quando você alcança o seu centro mais
profundo, alcança o centro mais profundo de tudo. E aí,
nesse uno, todos os segredos estão ocultos. Aí, todos os
mistérios podem ser revelados a você.
Você não pode conhecê-los antes disso. A menos que penetre
no templo mais profundo do uno, os mistérios permanecerão
mistérios. Você pode criar muitas teorias e filosofias sobre
eles, mas não serão de nenhuma utilidade; serão fúteis,
insignificantes. Você pode filosofar à vontade, mas nada
pode ser concluído. Isso tem acontecido por muito tempo.
Muitos séculos se passaram e os homens estiveram
filosofando, criando milhares e milhares de filosofias,
teorias e sistemas sem nenhum resultado. Você pode criá-los,
mas trata-se de algo mental. Você não conhece.
Você pode imaginar. Pode criar um sistema bastante coerente
de pensamentos, mas não será outra coisa senão seus
pensamentos, seus sonhos. Os filósofos são criativos, mas
criam sonhos, fantasias. Criam sistemas lógicos, apresentam
argumentos para defendê-los, mas a verdade não pode ser
criada através de sistemas lógicos; a verdade não pode ser
alcançada por argumentos. Seja o que for que você alcance,
será apenas uma hipótese. A verdade só pode ser alcançada
através da experiência.
Essa é a diferença entre filosofia e religião. A religião
diz que a verdade não é conhecida porque você não é capaz de
conhecê-la. A menos que você seja totalmente transformado -
a menos que se torne um ser diferente, a menos que sua
perspectiva mude, que seu modo de ver mude, que seus olhos
mudem, que seu coração mude - você não conhecerá a verdade.
A verdade não pode ser conhecida através da contemplação;
ela só pode ser conhecida através da sua transformação
interior.
A contemplação é possível, mas você permanece o mesmo;
apenas continua a pensar com a sua cabeça. Você pode criar
muitas coisas em sua cabeça. Pode acreditar nelas, mas sabe
que elas são criações suas. A verdade não é uma criação;
você não pode criá-la. Pode apenas revelá-la, descobri-la -
ela está oculta. Os argumentos não serão de nenhuma ajuda.
Somente uma autêntica viagem para dentro será de alguma
utilidade.
A religião é antifilosófica. Ela diz que a filosofia não tem
nenhuma utilidade; trata-se apenas de uma ginástica
intelectual. Você pode apreciá-la; é um jogo de palavras, de
lógica, de argumentos, mas não lhe dará nada; você não
chegará a parte alguma. Estará apenas sentado em sua cadeira
confortável, com os olhos fechados, pensando, pensando e
pensando. Você pode continuar pensando por muito tempo. Pode
pensar coerentemente, consistentemente, mas, mesmo assim,
não dará um passo sequer na direção da verdade.
Você pode até mesmo se afastar cada vez mais, porque a
verdade não é uma construção mental. Ela já está aí; não é
uma construção mental. Ao contrário, por causa de sua ação
mental, devido à excessiva atividade de sua mente, a verdade
se oculta. Sua mente cria as nuvens. Você fica se movendo
nas nuvens e o céu se oculta. Disperse as nuvens, disperse
os pensamentos, disperse os argumentos, a lógica, as
filosofias, e subitamente a verdade se revela. Ela sempre
esteve aí; ela já é um fato. Você não precisa fazer nada
para criá-lo. Você precisa simplesmente ser dócil a ela,
render-se a ela, sem pensamentos, alerta, atento, e ela se
manifesta. Ela sempre esteve aí. A verdade está oculta
dentro de você; portanto, você não precisa ir a parte
alguma. Não há necessidade de ir para o Himalaia. A única
coisa necessária é ir para dentro.
Este sutra diz: Pergunte ao mais íntimo, ao uno, sobre o
segredo derradeiro que el guarda para você através dos
tempos. Mas somente através do não-pensar é que
você pode perguntar. Isso parece contraditório, pois sempre
que perguntamos utilizamos o pensamento. O nosso método
habitual de perguntar consiste em pensar e pensar. Mas esse
questionamento, o questionamento religioso, não consiste em
pensar. O questionamento religioso pode ser feito somente
quando você está alerta e sem pensamentos.
Lembre-se disto: dou ênfase ao estado de se estar alerta,
sem pensamentos, porque quando você não está pensando, caso
não estiver também alerta, poderá adormecer. Então não será
de nenhuma utilidade. Quando você está pensando, está
alerta, mas de nada adianta, porque o pensamento cria as
nuvens. Ou então, você pode estar sem pensamentos e
adormecido. Isso também de nada adianta, porque o céu está
ali mas você está adormecido e não pode vê-lo. Portanto,
duas coisas são necessárias: o não-pensar e o estar alerta.
Consciência, sem nenhum pensamento. Atenção, sem nenhuma
mente. Se você pode criar este fenômeno em seu interior (de
um lado, nenhuma mente, de outro, atenção), isso é
meditação; é a isso que denomino dhyana.
Nesta situação, a verdade torna-se revelada. E essa verdade
é una, a mais profundamente una. Ela não é sua. Esse centro
é o centro de toda a existência.
Você existe apenas na periferia, na circunferência. Quanto
mais para dentro você se move, menor você se torna. Quando
alcança o centro mais profundo, você não existe mais. Num
certo sentido, você não existe mais; o velho morreu. Mas,
num outro sentido, você existe pela primeira vez, pois agora
a realidade mais profunda lhe é revelada, o eterno lhe é
revelado. Agora você alcançou aquilo que nunca muda.
A grande e difícil vitória, a conquista dos desejos da
alma individual, é um trabalho que requer tempo; portanto,
não espere obter sua recompensa, enquanto não forem
acumulados muitos anos de experiência. Quando o momento de
aprender esta regra é chegado, o homem está a ponto de se
tornar mais do que homem.
Quando você vai para dentro, em direção ao uno, atinge um
novo estado de existência e de ser. Torna-se mais do que
homem; torna-se um super-homem. Você vai mais alto que a
condição humana; o animal humano é transcendido.
O animal humano vive adormecido, num sono profundo,
inconsciente. Você vai fazendo coisas enquanto está
profundamente adormecido. Anda pela rua e está adormecido.
Come seu alimento e está adormecido. Ouve minhas palavras e
está adormecido. Você não está alerta, não está atendo.
Interiormente, a mente continua a tecer coisas, o sonho
continua.
Você pode estar aqui fisicamente. Psicologicamente, você
pode não estar aqui. Então, você está adormecido. Em sua
mente, você pode ter se movido para alguma outra parte. Se
você se moveu para alguma outra parte, então,
conscientemente, você não está aqui. Apenas seu corpo físico
está aqui.
Lembre-se disto: o que quer que esteja fazendo, faça-o de
tal modo alerta, com tamanha atenção, que sua consciência
esteja ali; não permita que ela se mova. Só então você
saberá o que significa estar atento. A cada instante,
mova-se no presente. Não se distancie do presente, ou terá
ido para os sonhos. Essa atenção torna-se totalmente
diferente da humanidade comum. Você está alerta. Tornou-se
mais do que homem.
O conhecimento, que é agora seu, só lhe pertence porque
sua alma tornou-se una com todas as almas puras e com o mais
íntimo. Assim, não assuma de modo algum uma
atitude egoística em relação a esse conhecimento, não pense
que adquiriu um estado super-humano porque você está alerta.
Você está alerta, está atento, transcendeu a humanidade
apenas porque agora você está se tornando uno com todas as
grandes almas. Está se tornando uno com a própria
existência.
Não assuma uma atitude egoística em relação a isso, porque,
se isso acontecer, a jornada cessa. Você pode recuar
novamente. O egoísmo é o último ponto pelo qual o sono pode
entrar outra vez. O egoísmo é o ponto pelo qual a
inconsciência pode, de novo, vir a você. Você pode cair de
volta na armadilha, pode começar a sonhar novamente.
Ele é um bem que lhe é confiado pelo Supremo.
Essa consciência é um bem que lhe é confiado pelo Supremo,
pela unidade mais profunda.
Traia-o... Você pode, mesmo agora, traí-lo; pode
recuar novamente. Você ainda é fluido; ainda não está
cristalizado. O velho estado foi-se embora, o novo ainda
está se formando - está num estado fluido. Você pode voltar
atrás, pode recuar. A transformação não aconteceu em sua
totalidade. Você está diferente apenas em parte. Uma parte
de você ainda é o velho.
Ele é um bem. Traia-o, faça mal uso de seu conhecimento...
Você pode traí-lo. Se assumir uma atitude egoística - se
disser: “Este conhecimento é meu” - se disser: “Eu consegui
conhecer. Eu compreendi. Eu conheci Deus. Eu me tornei isto
e aquilo” - se você reivindicar, terá traído. A
reivindicação mostra que o ego ainda persiste em você; o ego
está por trás dela. Você tornou a cair na armadilha. Aquele
que conheceu não alegará que conheceu. Não há nenhuma
necessidade de se reivindicar. Toda a reivindicação vem do
ego; reivindicação significa ego. Se você reivindica, está
traindo esse bem.
Faça mal uso de seu conhecimento... Você pode
usá-lo mal. Pode usá-lo para explorar os outros, pode usá-lo
para dominar os outros, pode usá-lo para fins que não são
espirituais, mas então você recuará. O conhecimento é
perigoso porque conhecimento é poder, e se você o usar para
fins que não sejam corretos, perderá o controle; você
recuará. Aquilo que lhe foi dado pode ser tomado de volta.
Ninguém o retira de você - você, você mesmo, é que o perde.
Ou negligencie-o... Você pode negligenciá-lo. Se
negligenciá-lo, ele cessará de se desenvolver. E, lembre-se,
se alguma coisa não está se desenvolvendo, você está
voltando para trás. Na existência, nada é estático. Ou você
se desenvolve ou você retrocede; ou se move para a frente ou
se move para trás. Você não pode permanecer em repouso.
Eddington disse, em algum lugar, que a palavra “repouso” é a
palavra mais ilusória. Não há no mundo nada que se assemelhe
a isso. Ou as coisas estão avançando ou estão retrocedendo.
Ou você está crescendo em alguma coisa, ou está decrescendo.
Não há nada semelhante ao repouso; seja onde for que você
esteja, você não pode repousar. Se estiver tentando
repousar, você recuará. Mesmo se quiser repousar no ponto em
que se encontra, precisa se desenvolver mais. Somente
através do desenvolvimento você pode repousar. De outro
modo, recuará.
... negligencie-o - você pode negligenciá-lo - e é
possível que, mesmo agora, você caia do elevado estado que
alcançou. Seres notáveis já caíram, até mesmo no limiar,
incapazes de sustentar o peso de suas responsabilidades,
incapazes de passar adiante. Portanto, aguarde, sempre com
respeito e temor, por este momento, e esteja preparado para
a batalha.
Até mesmo do próprio limiar do templo do divino você pode se
afastar. Bastaria uma batida e a porta teria sido aberta;
mas se você não bater, poderá ir-se embora. Quanto mais
perto você está, maior a possibilidade de se afastar, porque
você se torna mais seguro de que alcançou o conhecimento.
Isto é ainda mais perigoso. A menos que você tenha alcançado
o conhecimento tornando-se uno com a chama, não fique
demasiado seguro. Você pode perdê-lo a qualquer momento. A
segurança pode ser perigosa.
Ocorre que, sempre que você chega bem perto da meta,
sente-se muito cansado. Quer repousar. Você sabe que agora o
templo está bem próximo e que pode alcançá-lo a qualquer
momento; não há nenhuma dificuldade. “Posso relaxar um
pouco, repousar um pouco.” Então você pode perder aquilo que
estava bem próximo. Ele pode se distanciar. Relaxar perto da
meta é perigoso porque, no momento em que você relaxa, pode
recuar. E quando você se tornar novamente atento, descobrirá
que o templo desapareceu.
Quando a meta está próxima,
não relaxe seu esforço. Ao contrário, concentre agora toda a
sua energia nisso; deixe-se absorver totalmente. Este é o
momento referido no sutra, quando diz, aguarde, sempre
com respeito e temor, por este momento. Não relaxe. Não
há relaxamento enquanto você não se tornar uno com Deus.
Antes disso, nenhum relaxamento é possível. |