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A Nova Alquimia (Osho)
A Voz Silenciosa
Está escrito que, para aquele que está no limiar da
divindade, nenhuma lei pode ser criada, nenhum guia pode
existir. Contudo, a fim de instruir o discípulo, o esforço
final pode ser expresso da seguinte maneira:
Agarre-se firmemente àquilo que não tem nem substância
nem existência.
Está escrito que, para aquele que está no limiar da
divindade, nenhuma lei pode ser criada, nenhum guia pode
existir. O supremo é desconhecido. Nada se pode
dizer sobre ele porque nada que possa ser dito será
verdadeiro. Ele permanece indefinível, desconhecido,
inexplorado, por muitas razões. Não somente desconhecido,
mas, em certo sentido, desconhecível.
A primeira razão é que aqueles que nele penetram nele se
dissolve. Eles não podem permanecer eles mesmos. São
totalmente destruídos por ele. Eles renascem, são totalmente
novos. E somente o velho pode definir.
Tente compreender isto. Somente o velho pode definir. Se eu
vejo você e já o vi antes, reconheço-o prontamente. Quem o
reconhece? O passado. Porque o conheci antes, lembro-me do
seu rosto, reconheço-o. O reconhecimento vem do passado. Mas
se minha mente estiver totalmente limpa e eu tiver esquecido
completamente o passado, ou se minha memória for eliminada e
não houver nenhuma conexão com o passado, não posso
reconhecê-lo. Aquele que penetra no supremo perde
completamente seu passado; assim, ele não pode reconhecer o
que está acontecendo agora. Não há nenhuma referência.
Em segundo lugar, você pode reconhecer apenas aquilo que
conheceu antes. E este fenômeno do divino é absolutamente
desconhecido. Você nunca o conheceu antes. Em que termos
interpretá-lo, defini-lo? Você não tem nenhuma referência,
não possui nenhum termo, não tem nenhuma definição. A
experiência é absolutamente nova - como traduzi-la numa
linguagem?
Em terceiro lugar, quando você penetra no supremo, a
linguagem torna-se impossível, pois toda a linguagem se
baseia na dualidade. Você define a vida pela morte. Talvez
não esteja consciente desse absurdo. Você define a matéria
pela mente, define a mente pela matéria. Se alguém pergunta:
“Que é matéria?” - você responde: “É aquilo que não é
mente.” - Mas tem certeza? Que é mente? Então você define a
mente como aquilo que não é matéria. Você se move em
círculos.
Quando lhe é feita a pergunta a respeito da matéria, você
fala a respeito da mente como se conhecesse a mente. Você
diz: “Aquilo que não é mente.” Mas se alguém lhe pergunta:
“Que é mente?” - você passa a defini-la em termos de
matéria: “Aquilo que não é matéria.” Ambas são
desconhecidas. Mas você está enganando a si mesmo. Quando
lhe perguntam a respeito de uma, você a define pela outra.
Quando lhe perguntam a respeito da outra, você a define pela
primeira. Ambas são indefiníveis.
No que se refere às atividades terrenas, não há nada de mal
em agir dessa maneira. É proveitoso, útil. Não verdadeiro,
mas útil. Porém, quando você penetra no supremo, esse
dualismo não será de nenhuma serventia. Você não pode
definir o divino por alguma coisa que esteja em oposição a
ele, porque não há nada que esteja em oposição a ele. Ele é
o todo.
Você pode dizer que a matéria não é mente, ou pode dizer que
a mente não é a matéria, porque a mente não é o todo; a
matéria existe como seu oposto. Você pode definir cada um
deles pelo seu oposto. Pode dizer que a vida não é morte;
pode dizer que a morte não é vida. Pode dizer que a
escuridão não é luz e que luz não é escuridão. Pode dizer
que homem não é mulher e que mulher não é homem. Pode
continuar definindo através do oposto.
Mas qual é o oposto do divino? Não há nada em oposição a
ele. “Divino” significa o todo, a totalidade; portanto, como
defini-lo? Ele é indefinível, porque todas as definições se
baseiam nos opostos e nada está em oposição a ele. A
linguagem mostra-se inútil. Ela diz: “Não posso penetrar
nessa dimensão.” - A linguagem existe na dualidade e não
pode penetrar no não-dual.
O divino é desconhecido porque é exatamente como o céu. Não
é como a Terra. Se você caminha sobre a Terra, deixa pegadas
atrás de você; outros podem segui-lo. Você passou por um
certo lugar - outros podem segui-lo. Seguindo suas pegadas,
eles podem chegar ao lugar onde você chegou. Mas a
totalidade - o divino, ou Deus, ou como você preferir
chamá-lo: X, Y, Z, o total - é exatamente com o céu.
Pássaros voaram através dele mas nenhuma pegada foi deixada.
Você não pode segui-los. Precisa começar do ABC.
Sempre que você penetra no divino... Buda penetrou antes de
você, Jesus penetrou antes de você, Krishna penetrou antes
de você, mas não há pegadas. Quando você penetra no divino,
é como se o homem estivesse penetrando pela primeira vez. O
céu permanece virgem, intacto, sem marcas. Mas isso é bom.
Essa absoluta virgindade é boa porque então a experiência é
unicamente sua.
De outro modo, se você encontrasse as pegadas de Buda, as
pegadas de Krishna - mapas, definições, manuais - tudo seria
de segunda mão. Muitos conheceram isso, muitos chegaram
antes de você. Eles diriam tudo o que você poderia chegar a
conhecer. Tudo seria de segunda mão.
Mas o divino não é de segunda mão; é sempre de primeira mão.
Sempre que você penetra nele, é como se estivesse penetrando
pela primeira vez. Ninguém penetrou antes de você e ninguém
penetrará depois, porque nenhuma pegada pode ser deixada;
cada um é único.
É por isso que todas as experiências terrenas tornam-se
cansativas. Ficamos farto porque tudo se torna de segunda
mão; tudo se torna emprestado. Algum outro já conhece; nada
é virgem.
O divino é sempre virgem, absolutamente virgem. Você não
pode estragá-lo, não pode torná-lo velho, não pode torná-lo
repetitivo. É por isso que nada pode ser definido, nada pode
ser mapeado, nenhum guia pode ser fornecido.
Contudo, a fim de instruir o discípulo, o esforço final
pode ser expresso da seguinte maneira... Mas
apenas para instruir o discípulo - aquele que ainda não
penetrou mas que está a um passo, pronto para dar o salto -
pode-se tentar dizer alguma coisa, podem ser dadas algumas
indicações. Mas não se deve tomá-las em nenhum sentido
absoluto. Trata-se apenas de uma ajuda, de última ajuda que
pode ser dada.
Esta é a última instrução do Mestre:
Agarre-se firmemente àquilo que não tem substância nem
existência.
Agarre-se firmemente àquilo que não tem substância nem
existência. Temos aqui duas coisas. A matéria tem
substância; é substancial. Se eu atirar uma pedra em você,
há nela substância, massa. Ela o atingirá; matéria é
substância. Mas o que é a mente? O que é você, em seu
interior, em sua consciência?
A consciência não é uma substância. Ela existe, tem
existência, mas não é uma substância. Não posso atirar uma
consciência em você. E, mesmo se eu pudesse, você não seria
atingido. A consciência existe; a matéria subsiste. A
matéria tem substância; a consciência tem existência.
Este sutra diz: Agarre-se firmemente àquilo que não tem
nem substância nem existência. O divino não tem
nem uma nem outra. Ele não é como a matéria, não é como a
substância. Ele não é como a mente ou a consciência. Você
não pode dizer que Deus é substância e não pode dizer que
Deus existe.
Há muitas razões para isso. Quando você diz que Deus existe,
está fazendo uma afirmação tautológica, uma repetição.
Quando digo que esta mesa existe, essa afirmação é
significativa, porque a mesa pode deixar de existir; podemos
destruí-la. Mas quando digo que Deus existe, trata-se de uma
afirmação sem sentido, porque Deus não pode deixar de
existir e não pode ser destruído. A existência é
significativa somente se a não-existência for possível. Se a
não-existência é impossível, a existência não tem sentido.
Quando você diz que Deus existe, o que você quer dizer? Que
Deus pode não existir? Então, essa afirmação seria
significativa. Mas se você quer dizer que ele não pode estar
num estado de não-existência, então o que você realmente
está dizendo é que Deus é existência, e não que Deus existe.
Deus não pode existir; Deus somente pode ser a existência.
Quando digo que a mesa existe, a mesa não é a existência.
Ela pode sair da existência; portanto, a proposição é
significativa. Quando digo que Deus existe, a proposição é
sem sentido, porque ele não pode sair da existência. Quando
digo que Deus existe, estou dizendo que a existência existe.
Uma tautologia, uma repetição, inútil. Até mesmo dizer que
Deus é trata-se de uma proposição sem sentido, porque ele é
o próprio estado-de-ser. Não há necessidade de se dizer é.
Deus não é; ele é o estado-de-ser.
Você não pode dizer que Deus é substância, assim como não
pode dizer que ele existe. Ele está além de ambos: além da
matéria e além da mente. Ou, ele é as duas. De qualquer
maneira, ele transcende.
Assim, estas são as últimas instruções para o discípulo,
quando está prestes a penetrar no templo do divino. Nada
mais pode ser dito.
Lembre-se, Deus não é matéria. Possuímos uma idéia de Deus
enquanto matéria. É por isso que criamos ídolos, criamos
templos, fazemos imagens. Substâncias!
O islamismo não permite que se façam ídolos de Deus
justamente por este motivo: para que Deus não seja
identificado, de modo algum, com a matéria. Nenhum ídolo,
nenhuma imagem pode ser feita de Deus, porque uma imagem
produz a idéia de substância, e ele não é substância.
Mas então concebemos Deus enquanto mente: o controlador, o
criador, o que dá o sustento. Temos uma vaga idéia de Deus
como uma mente suprema, que está sentado em algum lugar no
céu controlando todas as coisas. Mas, nesse caso, Deus
torna-se a mente. Ele pode ser um notável engenheiro ou,
como diz Platão, um grande matemático, mas a idéia é de que
ele é a mente. Ele não é nem mente nem matéria. Ele está
além de ambas.
Este sutra diz: lembre-se dessa transcendência. Ele não é
nem o exterior nem o interior. Não é nem o corpo nem a
mente. Não é nem uma coisa nem um pensamento. Antes de você
penetrar no templo supremo de onde nenhum retorno é
possível, lembre-se disto: Agarre-se firmemente àquilo
que não tem nem substância nem existência.
Ouça apenas a voz que é silenciosa.
Ouça apenas a voz que é silenciosa. Todos os
sons são criados. Todos os sons que conhecemos são, de um
modo ou de outro, criados. O vento sopra, e um som é criado.
Você bate palmas e um som é criado. Eu falo, e um som é
criado. Mas todos estes sons são criados. Eles morrerão,
porque aquilo que nasce está destinado a morrer, aquilo que
é criado será destruído.
Há algum som que seja incriado? Se há algum som incriado, a
verdade pode ser expressa somente através dele - porque
aquilo que pode morrer não pode expressar a verdade. É por
isso que se diz frequentemente que a verdade só pode ser
expressa no silêncio; não pode ser dita através das
palavras.
As palavras podem levá-lo ao silêncio, mas não podem
exprimir a verdade. As palavras morrerão, e aquilo que é
imortal não pode ser dito através de palavras mortais. Como
poderão sê-lo? É impossível. Como aquilo que é eterno pode
estar contigo no temporal? Como aquilo que é atemporal pode
ser trazido para o tempo? Como aquilo que está além do
espaço pode ser colocado em algum lugar num templo, num
espaço? A verdade só pode ser revelada através de alguma
coisa que seja eterna.
Por intermédio da meditação, muitos buscadores chegaram a
conhecer, em seu interior, um som sem som, um som
silencioso. As palavras são contraditórias: um som sem som.
Ele é sem som porque você não pode ouvi-lo através de seus
ouvidos. Ele é sem som porque o som é sempre criado através
do conflito, e não há nenhum conflito. O som é sempre criado
através da dualidade, duas coisas em conflito; mas não há
duas coisas no coração. Ele é sem som porque não pode ser
ouvido; só pode ser vivenciado.
Lembre-se: Ouça apenas a voz que é silenciosa.
Como se pode ouvir uma voz que é silenciosa? Há, no Zen, um
koan: ouvir o som de uma única mão batendo. Os monges zen
chamam a isto de a mais profunda meditação: tentar ouvir um
som incriado. Se você ficar meditando, meditando - apenas
sentado e meditando, tentando ouvir - ouvirá muitas coisas.
Esta é uma das técnicas mais belas. Feche os olhos, sente-se
sob uma árvore e comece a ouvir. Você ouvirá muitos sons
novos, dos quais nunca esteve consciente antes. Pássaros,
insetos... Lentamente, muito lentamente, você se tornará
consciente de muitos sons ao seu redor. Continue procurando
qual som é incriado.
Todo som é criado. Um pássaro começa a cantar e então pára.
Aquilo que foi criado moveu-se agora para a não-existência.
Continue ouvindo, continue ouvindo. Continue tentando
encontrar qual é o som incriado. Aos poucos, sons ainda mais
sutis serão ouvidos. Você começará a ouvir as batidas do seu
próprio coração, começará a ouvir sua própria respiração.
Mas isso também é criado. Seu coração parará, sua respiração
não pode continuar eternamente. Ela não esteve sempre aí.
Quando uma criança nasce, não há nenhuma respiração. Então,
de repente, a criança começa a chorar e a respiração se
inicia.
Continue ouvindo profundamente. Estes não são sons sem som.
Jogue-os fora, elimine-os. Você começará a ouvir o som de
sua circulação sangüínea. Ainda mais sutil. Você não tem,
habitualmente, consistência da circulação de seu sangue.
Você o ouvirá circulando, ouvirá o som. Mas este também é um
som criado, criado pela circulação, pelo conflito. Continue
eliminando. Se você persistir o bastante, chegará finalmente
um momento em que todos os sons terão desaparecido, você não
pode ouvir nada. Uma brecha é criada; todos os sons
desaparecem. E, com esses sons, todo o universo desaparece
para você, como se você tivesse caído num vazio.
Agora, não tenha medo. Caso contrário, você recuará
novamente para o mundo dos sons. Permaneça sem nenhum
receio. Isto será semelhante à morte, e é uma morte porque
quando todos os sons são perdidos, você também perdeu sua
mente. Sua mente é apenas uma caixa barulhenta. Você não tem
mais nenhuma mente. Com a ausência dos sons, o mundo não
está mais presente. Você se sentirá como se tivesse morrido;
você não existe mais. Você não era mais do que uma
combinação, uma reunião de sons.
Persista. Esta morte é bela porque é a porta para o divino.
Continue tentando ouvir o que está agora aí. Depois desse
intervalo, se você passou por ele sem se tornar amedrontado
e assustado...
Se você se amedrontar, recuará novamente; correrá de novo
para o mundo dos sons. A mente começará a funcionar outra
vez. Mas se você permanecer sem nenhum temor e conseguir
persistir nesse intervalo, onde não há som algum,
tornar-se-á consciente de um novo som, que é incriado. Este
som é chamado pelos hindus de omkar: aum. Aum é
apenas um símbolo para o som que está sempre presente no
centro mais profundo. Aum, aum, aum - esse som está
vindo de dentro, incriado. Ninguém o está emitindo. Ele
apenas está ali.
Esse é o som sem som - incriado. E somente com esse som você
pode penetrar no santuário.
Olhe somente para aquilo que é igualmente invisível aos
sentidos internos e externos.
Olhamos para o mundo com os sentidos externos. A matéria é
percebida. Mas a matéria não está realmente ali. Os físicos
dizem, atualmente, que a matéria não existe. Ela é
simplesmente energia, energia vibrando. A matéria é
ilusória. Isso é muito estranho. No Oriente, os místicos
sempre disseram que a matéria é ilusória, maya. Com
isso, eles queriam dizer que tudo não é o que parece. Os
físicos de hoje concordam com Shankara; Einstein concorda
com o Vedanta. Os cientistas também afirmam, atualmente, que
a matéria é ilusória. Jamais alguém pensou ou imaginou que
algum dia também a ciência afirmaria que a matéria é
ilusória.
A matéria parece ser, mas não é. Ela é energia. Mas energia
movendo-se com tamanha velocidade, com uma velocidade tão
incrível, que não pode vê-la se mover. É por isso que ela
parece ser matéria imóvel. Os elétrons se movem com uma
velocidade tão espantosa que você não pode vê-los em
movimento. Eles dão a ilusão de imobilidade, de substância.
A matéria não existe realmente. Mas, através de seus
sentidos externos, a matéria aparece. Trata-se de sua
interpretação. A mente também não existe; mas através de
seus sentidos internos ela parece existir. Então, o que é
real? Se você olha através de seus sentidos externos, a
matéria aparece, mas ela é irreal, não-real; e se você olha
com seus sentidos internos, a mente aparece, mas ela também
é irreal, também é uma interpretação dos sentidos. O
misticismo oriental diz que o real só pode ser encontrado
quando você deixou de usar tanto os sentidos externos quanto
os internos. Quando nenhum sentido é usado, não há
possibilidade de se distorcer a realidade. Então,
imediatamente, você está na realidade.
Os sentidos fazem distinções. Eu olho para você. Não sei o
que você é, como você é, mas meus olhos olham para você e me
fornecem uma determinada informação. Não posso chegar em
você diretamente; os olhos são os mediadores. Seja o que for
que eles disserem, tenho de acreditar.
Seja o que for que meus sentidos disserem, você tem de
acreditar. Não pode saber se é uma realidade ou não. Seus
sentidos podem ser deficientes, ou podem estar interpretando
o mundo de uma maneira errônea. Não há nenhum modo de saber
se os seus sentidos estão interpretando de forma errada ou
correta. Não há como saber, pois, seja o que for que você
souber, saberá através dos sentidos. Não há outro modo de
saber, de julgar e de comparar.
Por esse motivo, Emmanuel Kant disse que nenhuma coisa pode
ser conhecida em si mesma. Não há nenhuma maneira de se
conhecer uma coisa em si mesma, pois, seja o que for que
você conheça, você a conhece através dos sentidos. Você não
pode conhecer nada diretamente, apenas indiretamente. Você
tem de acreditar em seus sentidos. Quem sabe o que é que
está realmente ali? Você nunca esteve ali. Seus sentidos vão
até ali e o informam. Você está sempre à distância,
interpretando.
A mesma coisa acontece quando você começa a usar seus
sentidos internos. Eles o informam a respeito daquilo que se
encontra do lado de dentro: o que é a alma, o que é o eu.
Mas isso também é apenas uma interpretação dos sentidos.
Este sutra diz: Olhe somente para aquilo que é igualmente
invisível aos sentidos externos e internos. - O
real é invisível a ambos. Não pode ser conhecido através da
mente; não pode ser conhecido através da meditação. Quando
tanto a mente como a meditação são lançadas fora, só então
você pode penetrar na realidade. Quando não há meditação,
quando você chega diretamente até ela, quando você penetra
nela, quando não há mais distância, quando você tornou-se a
realidade, só então você pode conhecê-la.
Isso pode ser dito de um modo diferente. Você não pode
conhecer Deus, a menos que se torne o próprio Deus. Se você
diz que pode conhecer Deus sem tornar-se Deus, está dizendo
algo que é impossível. Por causa disso, uma coisa muito
estranha tem acontecido. Tanto o cristianismo como o
maometismo pensam que afirmar que você pode tornar-se Deus é
sacrílego, profano, irreligioso; não demonstra respeito. A
atitude maometana a esse respeito tem sido tão obstinada que
os maometanos mataram Mansoor e outros místicos sufis por
terem declarado que eram Deus.
Mansoor disse: “Analhaque. Eu sou o divino: Aham
brahmasmi.” Ele foi morto, porque isso é demais! Um ser
humano dizendo que é Deus? Mas o que Mansoor está dizendo é
uma verdade muito simples, básica. Ele está dizendo que você
ou pode dizer que Deus não pode ser conhecido ou pode
admitir que o homem pode tornar-se Deus. Pois, como pode
Deus ser conhecido, a menos que você esteja nele? A menos
que você penetre nele e torne-se um com ele, como pode
conhecê-lo? Você pode apenas ficar dando voltas e mais
voltas ao redor dele. Mas, seja o que for que venha a
conhecer, é apenas uma informação obtida do exterior; não é
um conhecimento direto.
Mansoor diz que você pode conhecer Deus somente se se tornar
o próprio Deus. Não há outro modo. Como você pode conhecer a
partir do exterior? Como pode conhecer, a menos que se torne
o próprio coração da divindade, a menos que você mesmo se
torne divino?
Este sutra diz que a realidade não pode ser conhecida, quer
pelos sentidos externos - os sentidos externos interpretam a
realidade como matéria -, quer através dos sentidos internos
- os sentidos internos interpretam a realidade como mente. A
realidade só pode ser conhecida quando você dá um salto na
própria realidade, sem quaisquer mediadores; quando você
perde sua mente e também sua meditação.
A meditação está concluída quando você é capaz de largá-la.
Então você entra em samadhi, entra na realidade, no
supremo.
Que a paz esteja com você.
Só então a paz pode estar com você; nunca antes. Antes
disso, você permanecerá, de um modo ou de outro, angustiado;
permanecerá, de um modo ou de outro, tenso. Você é a tensão,
é a angústia. O problema é o seu sentimento de que você é.
Quando você não é, o problema não existe.
Como você pode estar num estado de não-existência? Como pode
cessar de existir? Esse é o caminho para a paz. Se você pode
cessar de ser, você penetra na realidade; penetra na paz
infinita, na paz absoluta.
Seu ser, enquanto separado do todo, é o problema. Você se
sente como um intruso, um estranho, um alienado. Essa
alienação cria a perturbação, essa alienação cria o medo,
essa alienação cria a morte. Você não pode estar em paz.
Quando você joga fora completamente sua alienação e se
dissolve na realidade, funde-se nela, perde-se a si mesmo
nela - você não é mais; só a realidade é -, então, apenas
você pode encontrar aquela paz que é impossível de ser
perturbada, que nada pode perturbar.
Lembre-se de que você é a doença. Você não pode ser curado
porque você é a doença. Se a doença fosse outra coisa
qualquer, poderia ser curada, mas você é a doença. Não pode
ser curado; você é incurável. Jogue fora a doença. Jogue
fora a si mesmo, sinta como se você não existisse. Crie,
cada vez mais, o sentimento de ser ninguém, de ser o nada.
Mova-se para o não-ser,
porque o não-ser é a porta para o ser supremo. Quando você
cessar completamente de ser, você será divino. Quando você
não for, você será o próprio Deus. |