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A Nova Alquimia (Osho)
Entregue-se ao que é
Três sutras básicos para a transformação da vida, que, de
certa forma, são supremos. O primeiro: Seja não-ambicioso.
Destrua totalmente a ambição.
A menos que a ambição seja destruída, você permanecerá na
miséria. A ambição é a fonte de todas as misérias. O que é
ambição? “A” quer ser “B”, o pobre quer ser rico, o feio
quer ser lindo. Todo mundo ambiciona ser algo mais, algo
diferente daquilo que é. Ninguém está contente consigo
mesmo. Isso é ambição.
Você nunca está contente com aquilo que você é, seja o que
for. Isso é ambição. Então você permanecerá
irremediavelmente miserável, porque você não pode ser outra
coisa. Você só pode ser você mesmo; nada mais é possível.
Tudo o mais é fútil, prejudicial, perigoso. Você pode
desperdiçar sua vida inteira, toda a sua existência.
Aquilo que você é, seja o que for, é você. Aceite-o; não
deseje ser diferente. A não-ambição significa isso. A
ausência de ambição é fundamental a toda transformação
espiritual, pois quando você se aceita, muitas coisas
começam a acontecer. Mas a primeira coisa... se você se
aceitar totalmente, a primeira coisa que lhe acontecerá será
uma vida não-tensa. Não haverá tensão. Você não deseja ser
algo mais; não há nenhum lugar para ir. Então você pode
estar aqui e agora. Não há comparação. Você próprio é único.
Não pensa mais em termos de outros.
Então não há mais futuro. A ambição precisa de futuro,
precisa de espaço para crescer. Ela não pode crescer aqui e
agora; não há espaço. Este momento é tão pequeno, tão
atômico. A ambição precisa do futuro; quanto maior a
ambição, maior o futuro de que se necessita.
Se sua ambição for tão grande a ponto de não poder ser
satisfeita nesta vida, então você criará uma vida após a
morte. Criará o céu, criará moksha, criará a idéia de
renascimento. Não quero dizer que o renascimento não exista.
Estou dizendo que você acredita no renascimento, não porque
ele exista, mas devido a suas ambições serem tão grandes que
não podem ser satisfeitas numa única vida. Sua crença no
renascimento, na reencarnação, não deriva de que isso seja
um fato. Deriva de sua ambição e desejo. A reencarnação pode
ser um fato, mas, para você, não passa de uma ficção. Para
você é apenas uma questão de futuro, de mais espaço para se
mover.
Lembre-se: você não pode ser ambicioso no momento presente.
É impossível. Não há espaço. O momento presente é tão
atômico, tão pequeno, que você não pode se mover nele. Você
pode estar nele, mas não pode desejar. Ele é suficientemente
amplo para o ser, mas não o é para o desejo. Para desejar,
você precisa do futuro, do tempo. Na verdade, o tempo existe
por causa do desejo. Para estas árvores, não há tempo. Para
estes pássaros que cantam, não há tempo. Para as estrelas,
para o Sol e para a Terra, não há tempo. O tempo existe por
causa do desejo humano. Se a humanidade não estivesse na
Terra, não haveria tempo; não haveria passado nem futuro.
Seu desejo cria o futuro. Sua memória cria o passado. Ambos
são partes de sua mente. Não deseje, e o futuro
desaparecerá. E quando não há futuro, como você pode ficar
tenso? Como? Não há possibilidade de se ficar tenso se não
há futuro. E se não há passado – se você sabe que o passado
é apenas a memória, a poeira acumulada durante o caminho –
como pode haver qualquer ansiedade? Com o passado vem a
ansiedade. Com o futuro – planos, imaginações, projeções –
surge a tensão. Quando o passado desaparece e o futuro não
está aberto, você está aqui, agora. Nenhuma ansiedade,
nenhuma tensão, nenhuma angústia.
A não-ambição significa aceitar-se tal como você é. Mas isso
não quer dizer que não haja possibilidade de crescimento. Ao
contrário. Quando você se aceita tal como é, a transformação
se inicia. Você começa a crescer, mas em outra dimensão.
Então a dimensão não está no futuro, mas no eterno.
Conheça bem essa distinção. Você pode se mover de dois
modos. Se você se move no futuro, está se movendo na mente;
num mundo de ficção, de sonho. Se você não se move no
futuro, então uma dimensão diferente se abre para você a
partir desse exato momento. Você está se movendo no eterno.
O eterno oculta-se no momento. Se você puder estar aqui,
agora mesmo, no momento, você penetrou no eterno. Se
continua pensando no futuro e no passado, está vivendo no
temporal. O temporal é o mundo, o eterno é o nirvana.
Conta-se que Buda repetia frequentemente que, se você puder
permanecer no agora, não há necessidade de qualquer técnica
de meditação. Isso é suficiente. Não é necessário mais nada.
Mas como você poderá permanecer no agora se for ambicioso?
A mente ambiciosa não pode estar no agora. Pode estar em
qualquer outra parte, mas não pode estar no agora. A mente
ambiciosa sempre se move para longe do presente. Ela pensa
no que está por vir; pensa no amanhã. Pensa numa vida após a
morte; não se interessa pela vida que está aqui.
Interessa-se por algo que poderia ser. Não se
interessa pelo que é; está sempre interessada pelo que
deveria ser, pelo que poderia ser. Esse interesse é
não-religioso. Uma mente religiosa, uma consciência
religiosa, interessa-se pela existência tal como ela é. O
primeiro sutra é: Destrua totalmente a ambição para que você
possa penetrar no eterno.
Destrua o desejo pela vida - o segundo sutra.
Destrua o desejo pela vida. As leis da vida são muito
paradoxais. Se você desejar a vida, a perderá. Esse é o
caminho mais seguro para perdê-la. Se você desejar a vida, a
perderá; mas se você não a desejar, vida abundante
acontecerá a você.
Através do desejo você se move contra a vida. Parece
paradoxal, e é. Essa lei paradoxal precisa ser profundamente
entendida.
Por que é que quando você deseja a vida, você a perde? Por
quê? Não deveria ser assim. Logicamente, matematicamente,
não deveria ser assim. Se alguém deseja a vida, por que a
perderia? O mecanismo é tal que, ao desejar, você se moveu
novamente para o futuro. E a vida está aqui! A vida já
existe – como você pode desejá-la? Apenas aquilo que não
existe pode ser desejado. Mas a vida é. Como você pode
desejá-la? Ela já é; já está acontecendo. Você é vida.
Se você desejar a vida, a perderá. Através do desejo, você
se distancia da vida. Todo desejo a leva cada vez mais
longe. Por isso há tanta insistência na ausência de desejo.
Isso não significa que Buda ou todos aqueles que falam sobre
a ausência de desejo estejam contra a vida. Ao contrário,
eles são, de fato, a favor da vida. Mas dizem: “Não deseje”
– e isso nos soa como se eles fossem contra a vida, como se
fossem negadores da vida. Eles não o são.
Através do desejo, estamos perdendo a vida. É por isso que
Buda diz: “Não deseje.” Que acontece se você não deseja? A
vida acontece a você. Ela já está acontecendo, mas você não
pode olhar para ela porque seus olhos estão fixados no
futuro. Você está em outro lugar; sua mente não está aqui. A
vida está aqui e você não está aqui; portanto, o encontro
torna-se impossível. Então, você ansiará pela vida, a
desejará, mas continuará a perdê-la.
Permita que a vida aconteça a você. Como isso pode ser
feito? Estando atento ao que se passa aqui. Não tendo
desejos de estar em outro lugar.
No momento em que você começa a desejar a vida, torna-se
temeroso da morte. Isso é inevitável, porque o desejo pela
vida cria o medo da morte. Não existe nenhuma morte. Na
verdade, nada morre; nada pode morrer. É impossível. A morte
nunca acontece; a morte não existe. Então por que sentimos
tanto a morte e a tememos tanto? Por que tememos algo que
não existe?
Tememos a morte devido ao nosso desejo pela vida. O desejo
pela vida cria um medo pelo oposto: o medo da morte. Não
conhecemos a vida, mas a desejamos. Então surge o medo de
que a vida seja destruída.
Vemos a morte acontecendo... alguém morre. Você já reparou
no fato de que é sempre outra pessoa que morre, nunca você?
É sempre outra pessoa. Você vê a morte do lado de fora;
nunca a vê do lado de dentro. Você vê alguém morrendo, mas
não sabe o que está acontecendo no fundo do seu ser. Sabe
apenas o que está acontecendo na periferia. A periferia está
morta; não está mais viva, a pessoa não pode mais respirar.
Mas o que aconteceu no âmago da pessoa, no próprio ser, no
centro? Você não sabe.
Ninguém testemunhou a morte. E isso não é possível, pois há
apenas um modo de testemunhá-la: você precisa se mover até o
íntimo de seu ser, e aí testemunhá-la. Mas aí a morte nunca
acontece. É por isso que um Buda, um Krishna, riem da morte.
Krishna diz a Arjuna no Gitã: “Não receie. Não pense que
alguém morrerá.” Ninguém morre; você não pode matar ninguém.
É impossível. Neste mundo, nada pode ser destruído, nem
mesmo um microorganismo pode ser destruído. A destruição não
é possível. Só a mudança é possível.
A vida continua a se mover. Uma onda morre (parece morrer) e
então uma outra se levanta. Só as formas desaparecem e novas
formas aparecem, mas nada morre e nada nasce.
Se nada morre, então nada nasce, pois a morte só é possível
se algo nasce. Nascimento e morte são duas ilusões. Você
existiu antes do seu nascimento - de outro modo o nascimento
não teria sido possível - e você existirá após a sua morte -
caso contrário, não lhe seria possível estar aqui e agora.
Mas o desejo de se apegar à vida cria o medo da morte.
Se você parar de desejar a vida, o medo da morte
desaparecerá imediatamente. E quando o medo da morte
desaparece, você pode saber o que é a vida. Uma mente
trêmula, com medo e angústia, não pode saber. O saber requer
uma consciência calma e destemida.
O desejo pela vida significa medo da morte. O sutra diz:
Destrua o desejo pela vida, para que o medo da morte
desapareça. E quando não houver morte, nem nenhum apego à
vida, você saberá o que é a vida, pois ela está acontecendo
a você. Você é a vida! A vida não é algo extrínseco; é algo
intrínseco. Já está acontecendo. Você está respirando nela.
Você é exatamente como um peixe no oceano da vida, mas não
está consciente disso porque sua atenção está obcecada pelo
futuro. Desejo significa obsessão pelo futuro. Não-desejo
significa viver aqui e agora.
E o terceiro sutra:
Destrua o desejo de conforto,
O desejo de felicidade.
Destrua-o.
Isso parece muito melancólico, triste, negativo. Não é.
Quanto mais você desejar conforto, mais desconforto estará
criando para si mesmo, porque o desconforto é proporcional
ao desejo de conforto.
Quanto mais você procurar felicidade, tanto mais sofrerá. O
sofrimento é uma sombra. Quanto maior o desejo de
felicidade, maior será a sua sombra. Procure a felicidade e
você nunca a obterá. Somente sentirá frustração. Por que?
Porque há apenas um modo de ser feliz, que é ser feliz aqui,
agora. A felicidade não é um resultado. É um modo de vida.
A felicidade não é o resultado final do desejo. É uma
atitude, não um desejo. Você pode ser feliz aqui e agora se
souber como ser feliz, mas você nunca será feliz se não
souber como ser feliz e continuar desejando a ser feliz. A
felicidade é uma arte. É um modo de vida.
Neste exato momento, se você puder permanecer calado e
consciente da vida ao seu redor e no seu interior, você será
feliz. Os pássaros estão cantando, o vento está soprando. As
árvores estão felizes, o céu está feliz, todas as coisas
existentes estão felizes, exceto você. A existência é
felicidade, é uma celebração eterna, uma festividade. Olhe
para a existência! Cada árvore está em festa, cada pássaro
está em festa. Exceto o homem, tudo está em festa. Toda a
existência é um festival, um constante e contínuo festival.
Nenhuma tristeza, nenhuma morte, nenhuma miséria existe em
lugar nenhum, a não ser na mente humana. Algo está errado
com a mente humana, não com a existência. Algo está errado
com você, não com a situação.
Por que o homem é infeliz? Nenhum animal é tão infeliz,
nenhum pássaro é tão infeliz, nenhum peixe é tão infeliz
quanto o homem. Por que o homem é tão infeliz? Porque o
homem deseja a felicidade, mas os pássaros estão felizes
neste exato momento; as árvores estão felizes neste exato
momento. O homem deseja a felicidade; ele nunca está feliz
aqui e agora. Ele sempre deseja a felicidade e continua a
perdê-la. A felicidade está aqui. Ela está acontecendo ao
seu redor. Permita que ela entre em você.
Faça parte da existência. Não se mova para o futuro. A
existência nunca se move para o futuro; apenas a mente se
move.
É a isso que chamo meditação: estar aqui, sem se mover para
o futuro. Não seja ambicioso, destrua todo desejo pela vida,
não deseje a felicidade, e então você será feliz e ninguém
poderá destruir a sua felicidade. Ser-lhe-á impossível ser
infeliz. Então você será imortal e a vida eterna terá
acontecido. Na verdade, ela já aconteceu, mas você não está
consciente dela. Então você estará realizado. Sem ambição,
você estará realizado.
Você é único. Tudo, toda experiência máxima que é possível a
alguém também é possível a você; mas acontecerá de um modo
único. Aconteceu a Buda, a Jesus, a Zaratustra, e acontecerá
a você também. Mas nunca acontece do mesmo modo. Não
acontecerá a você do mesmo modo que aconteceu a Buda. Não
lhe acontecerá assim como aconteceu a Jesus. Acontecerá a
você de um modo único, individual. Quando acontecer a você,
será absolutamente nova. A essência da experiência será a
mesma - a mesma bem-aventurança, o mesmo silêncio, a mesma
iluminação - mas na periferia tudo será diferente.
Portanto, não imite ninguém. Isso faz parte da ambição. Não
imite Buda, não imite Jesus. Tente ser você mesmo. Ou
melhor: seja você mesmo, pois tentar ainda é fútil. Quando
você é você mesmo, está aberto a todas as responsabilidades.
Quando você é você mesmo, toda a existência começa a
ajudá-lo. Você não briga com ela.
Quando você não está em
luta... É isso o que significa confiar. Quando você não está
em luta, a existência acontece a você. Se você está lutando
com a existência, está simplesmente se destruindo,
destruindo suas possibilidades, sua energia, sua vida, sua
existência. Não lute! Entregue-se à existência. Aceite a si
mesmo, do modo que o todo quer que você seja; não tente ser
outra coisa, e a iluminação pode acontecer a qualquer
momento. Pode acontecer neste exato momento; não é preciso
esperar. |