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A Nova Alquimia (Osho)
Desejando o Inacessível
Deseje apenas o que está dentro de você
Parece absurdo, paradoxal, ilógico: Deseje apenas o que
está dentro de você. Desejamos, basicamente, aquilo que
não está em nós. Desejar significa querer algo que não está
em nós. Se já estivesse em nós, qual seria então a
necessidade de desejá-lo?
Nós nunca nos desejamos tal como somos. Sempre desejamos
algo mais. Ninguém deseja a si mesmo; não há necessidade.
Você já é isso; não está faltando nada. Você deseja aquilo
que está faltando.
O sutra diz: Deseje apenas o que está dentro de você
- por muitas razões. Em primeiro lugar, se você desejar algo
que não está dentro de você, poderá obtê-lo, mas ele nunca
será seu. Não pode ser. Na verdade, você nunca poderá ser o
senhor dele; tornar-se-á apenas um escravo. O possuidor é
sempre possuído por suas posses. Quanto maior a quantidade
de coisas possuídas, maior a escravidão criada.
Você é possuído por suas posses e deseja ser o senhor. A
frustração se inicia porque toda a sua esperança foi
frustrada. Você chega a um ponto no qual as coisas que
desejava estão presentes, tudo o que você desejou aconteceu,
mas você se tornou o escravo. Agora, o reino parece ter se
tornado uma prisão, e tudo o que você possui, ou pensa
possuir, não é realmente possuído, pois lhe pode ser tomado
a qualquer momento. Mesmo se ninguém o tomar, a morte
certamente o tomará.
Na terminologia religiosa, aquilo que pode ser tomado pela
morte não lhe pertence. A morte é o critério. Há apenas um
critério para julgar se você realmente possui alguma coisa.
Julgue levando em consideração a morte, e veja se você ainda
possuirá aquela coisa após a morte. Se a morte a tomar de
você, você nunca a possuiu. Era apenas uma ilusão.
Há algo que a morte não lhe pode tirar? Se não há nada,
então a religião é inútil, sem sentido. Mas há algo que a
morte não pode tomar, e esse algo está oculto dentro de
você. Você já o possui. Se a possuísse, ela poderia ser
tomada.
Você é ela; ela é o seu próprio ser. É a sua própria base,
sua existência. É isso que é chamado de atman.
Atman significa aquilo que você já é. Ninguém pode
tomá-lo de você; nem mesmo a morte pode destruí-lo. O sutra
diz: Deseje apenas o que está dentro de você. Deseje
o atman, deseje seu eu mais profundo, deseje o centro
que você já possui, mas do qual se esqueceu completamente.
Por que o homem se esquece? Isso é uma necessidade. Para
sobreviver, precisa-se prestar atenção ao mundo exterior.
Para sobreviver, existir, permanecer vivo, você precisa
continuar prestar atenção às coisas: comer, abrigar-se. O
corpo necessita de atenção. Ele fica doente, está propenso a
sofrer. O corpo está continuamente se esforçando para
sobreviver, porque, para o corpo, há morte. O corpo está em
constante luta com a morte; portanto, uma atenção permanente
deve ser dada a ele.
O corpo sempre se encontra em estado de emergência, porque a
morte pode ocorrer a qualquer momento. Você precisa estar
ininterruptamente atendo e consciente acerca dessa luta
contra a morte; portanto, toda a sua atenção se move para o
exterior. Não sobra nenhuma energia para se mover para
dentro. Trata-se de uma necessidade de sobrevivência. Por
esse motivo, continuamos a esquecer que existe dentro de nós
um centro imortal, um centro eterno, um centro de
bem-aventurança absoluta.
A dor atrai a atenção; o sofrimento atrai a atenção. Se você
está com dor de cabeça, sua atenção se dirige para a cabeça;
você se torna consciente de que possui uma cabeça. Se não há
dor, você se esquece de sua cabeça. Torna-se sem cabeça -
como se você não tivesse cabeça.
O corpo é sentido apenas quando está doente. Se seu corpo
está absolutamente saudável, você não o sente. Você fica
leve. Na verdade, você se torna incorpóreo. Esse é o único
critério da autêntica saúde: o corpo não é absolutamente
sentido. Sempre que o corpo é sentido, significa que há
alguma doença, algum distúrbio. Sua atenção é reclamada.
Há tantos problemas oriundos do exterior que sua atenção
está constantemente ocupada com ele. Por isso, você se
esquece de que alguma coisa existe exatamente no centro do
seu ser, alguma coisa imortal, divina, bem-aventurada. O
sutra diz:
Deseje apenas o que está dentro de você.
...Pois dentro de você está a luz do mundo - a única luz
que pode iluminar o Caminho. Se você é incapaz de percebê-la
em seu interior, é inútil procurá-la em outra parte.
O sutra seguinte:
Deseje apenas o que está além de você.
Deseje apenas o que está além de você. Deseje sempre
o impossível, porque só através desse desejo você cresce. E
o que é impossível? Escalar o Monte Everest não é
impossível; tampouco ir à Lua. Ambos tornaram-se possíveis.
Alguém já escalou o Everest. Mesmo se ninguém o tivesse
escalado, isso não seria impossível. Difícil, mas não
impossível. Está ao alcance da capacidade humana escalá-lo.
Ir à Lua também está dentro de nossa capacidade e, em breve,
o homem alcançará igualmente outros planetas. Isso não é
impossível, apenas difícil. Algum dia tornar-se-á possível.
Somente uma coisa é impossível, está além de você: seu eu
mais profundo.
Por quê? Afirmo que a Lua não é tão difícil de se alcançar,
embora esteja tão distante; e afirmo que seu eu mais
profundo é mais impossível de se alcançar, embora esteja
exatamente dentro de você. Por que então é tão difícil
alcançá-lo? Porque está dentro de você, justamente por isso.
Você sabe apenas alcançar o que está fora. Suas mãos podem
alcançar o que está fora, seus olhos podem ver o que está
fora. Seus sentidos abrem-se para o exterior; você não
possui sentidos que possam ajuda-lo a olhar para dentro. Sua
mente se move para fora; não pode se mover para dentro. É
por isso que a mente precisa ser abandonada. Somente então
você pode entrar em meditação.
A mente é basicamente um movimento para fora. Você pode
observar isso muito facilmente. Sempre que você pensa, está
pensando em algo que está fora de você. Seja qual for o seu
pensamento, ele é sempre a respeito de algo que está fora.
Você já pensou sobre alguma coisa que está dentro de você?
Não há necessidade de pensar sobre algo interior, pois você
pode experimentá-lo. Não há necessidade de pensar a seu
respeito; o pensamento é um substituto. Você pode perceber o
que está dentro de você. Está bem próximo. Basta mudar sua
atitude, mudar sua direção. De fora, você se volta para
dentro, e pode experimentá-lo. Qual a necessidade de pensar
sobre ele?
Porém, estamos sempre pensando sobre o de dentro. Pensamos
sobre o que é atman. Pensamos: “O que é o eu?” -
Criamos filosofias e sistemas. Criamos teorias de que o eu
significa “isto”, de que a definição é “esta” e de que
ninguém tenta senti-lo. Ele está tão perto de você - qual a
necessidade de teorias?
Teorias são necessárias para o que está distante, pois você
não pode alcançá-lo neste exato momento. Precisa criar uma
ponte. Precisa-se de teorias para se alcançar a Lua, mas
elas não são necessárias para alcançar o seu centro
interior, pois não há nenhuma distância. Não há nada para se
transpor; você já está ali. É necessário apenas uma mudança
de atitude, e você pode perceber esse centro. Não há
necessidade de teorizar, de filosofar. Mas continuamos a
criar filosofias. Criamos milhares e milhares de filosofias,
e os filósofos continuam desperdiçando suas vidas a pensar
sobre aquilo que já se encontra dentro deles. Eles poderiam
saltar para dentro a qualquer momento.
Mas isso está além. Além dos sentidos, pois os sentidos não
podem se abrir para aquilo que está dentro; eles se abrem na
direção oposta. E também está além da mente, pois a mente
não pode conduzi-lo até ali; ela sempre o conduz a outro
lugar. A mente é um instrumento para o mundo; é um mecanismo
que permite o movimento para fora, para longe de você. Ela
serve para isso. Por essa razão, enfatiza-se tanto que em
samadhi não há mente. Samadhi é um estado de
não-mente; a mente cessa.
Nas técnicas de meditação que estamos fazendo, todo o
esforço consiste em se deixar de ser uma mente, em abandonar
a mente, em parar de pensar, em atingir um instante onde não
exista nenhum pensamento, onde apenas a atenção, apenas a
consciência existe. “Não pensar” significa que não há
nenhuma nuvem no céu; apenas o céu está ali. “Não pensar”
significa que não há nuvens na mente, apenas a consciência.
Nessa consciência, você está dentro.
Quando você está na mente, está fora; quando você está na
não-mente, está dentro. Nessa transferência, da mente para a
não-mente, consiste toda a jornada. Se você puder
acrescentar “não” à sua mente, você alcançou o conhecimento.
Por isso é denominado além.
Deseje apenas o que está além de você - além de seus
sentidos, além da sua mente, além de seu ego. “Você” não
estará ali. Seu centro mais profundo não é você; você é
apenas a periferia. A periferia não pode estar no centro.
Quando você se move em direção ao centro, abandona a
periferia. A periferia não pode existir no centro. Ela
pertence ao centro, mas existe fora do centro, ao seu redor.
Tudo quanto você conhece a seu respeito é apenas a
periferia: seu nome, sua identidade, sua imagem. Você é
hindu ou maometano ou cristão; você é negro ou branco; você
é isto ou aquilo. Seu país, raça, cultura - tudo isso
pertence apenas à periferia; todos os seus condicionamentos
estão apenas na periferia.
O mundo não pode penetrar em seu centro. Ele só pode
cultivar a periferia, só pode atingir você em sua
superfície. Apenas a sua superfície pode ser hindu, apenas a
sua superfície pode ser cristã, apenas a sua superfície pode
ser jaina. “Você” não é; você não pode ser. Somente sua
superfície pertence à Índia, ou ao Paquistão, ou à América.
Você não pode pertencer a nenhuma nação, a nenhuma raça.
Você pertence à própria existência. No centro, todas as
divisões são falsas; elas só dão significantes na periferia.
Tudo quanto você conhece a respeito de si mesmo refere-se ao
seu ego. “Ego” é apenas uma palavra utilitária. Toda a sua
periferia significa “você”. Mas esse “você” desaparecerá
quando você começar a ir para dentro; esse “você” se
desvanecerá aos poucos; esse “você” desaparecerá; esse
“você” se evaporará. Então, surgirá um momento em que você
será, autenticamente, você mesmo; seu velho eu não estará
mais presente. Por isso é que se diz: Deseje apenas o que
está além de você... Está além de você, pois quando você o
alcança, você se perde.
Deseje apenas o que é inacessível. O que é
inacessível? Olhe ao redor - todas as coisas são acessíveis.
Pode ser que você não as tenha conseguido, mas elas são
acessíveis. Se você fizer o esforço necessário, poderá
obtê-las. Potencialmente, elas são acessíveis.
Alexandre construiu um grande império. Pode ser que você não
tenha construído um, mas o que Alexandre pôde fazer, você
também pode. Não é impossível; não é inacessível. Pode ser
que você não tenha acumulado tanta riqueza quanto
Rockefeller ou algum outro, mas o que Rockefeller pôde
fazer, você também pode. Isso é humano; está ao alcance da
sua capacidade. Você pode fracassar, pode não ser capaz de
obter essa riqueza, mas ela é alcançável. Seu fracasso é o
seu próprio fracasso; potencialmente você poderia ter sido
um sucesso; portanto, um objeto não pode ser considerado
inacessível.
Assim sendo, o que é inacessível? Aquilo que não pode ser
atingido? Se esse é o significado, então qual a finalidade
de se desejá-lo? Se algo não pode ser alcançado, então o
desejo é fútil. Por que desejar o que é inacessível? O que
isso significa?
O significado é muito profundo, muito esotérico. O
significado é que seu eu mais profundo é inacessível porque
ele já foi alcançado. Você não pode alcançá-lo porque você é
ele. Não pode tornar isso uma conquista. Não se trata de
algo a ser alcançado. Ele já está aí, você nunca esteve
longe dele. Nunca o perdeu; ele é a sua própria natureza.
Ele é você, o seu ser mais profundo. Você não pode
alcançá-lo; pode apenas descobri-lo. Não pode chegar até
ele; pode apenas reconhecê-lo.
Não é possível inventá-lo; ele já está aí. Não é para ser
adquirido; já está aí. Não é para ser adquirido; já está aí.
Você precisa apenas lhe dar a sua atenção. Precisa focar sua
consciência nele e, subitamente, aquilo que nunca foi
perdido é encontrado.
Quando Buda alcançou a iluminação, alguém lhe perguntou: “O
que você alcançou?”
Buda disse: “Nada, porque qualquer coisa que eu tenha
alcançado, sei agora que sempre esteve presente. Nunca foi
perdida. Simplesmente, eu a descobri. Tomei conhecimento de
um tesouro que sempre esteve dentro de mim.”
...É inacessível porque reflui continuamente. Você
penetrará a luz, mas nunca tocará a chama.
É também inacessível num outro sentido. Você nunca será
capaz de dizer: “Eu o alcancei (o conhecimento)” - pois quem
dirá que o alcançou? Aquele “eu” que pode reivindicar não
existe mais. Aquele ego - a periferia - não existe mais.
Para alcançar o conhecimento, para descobri-lo, ele precisa
ser perdido. O ego precisa ser jogado fora, abandonado. Você
só pode alcançar o conhecimento quando se tornou sem ego.
Não pode alcançar o conhecimento com o ego, porque o próprio
ego é a barreira.
Dessa forma, quem estará ali para reivindicar? Diz-se nos
Upanishads que se alguém afirma que alcançou o conhecimento,
não tenha dúvidas, ele não o alcançou, pois a própria
afirmação é egoística. Se alguém diz: “Conheci Deus” - não
tenha dúvidas, ele não conheceu Deus; pois quando Deus é
conhecido, quem está ali para afirmar? O conhecedor se perde
no próprio fenômeno do conhecimento. O conhecimento só
ocorre quando o conhecedor não está presente. Quando o
conhecedor está ausente, o conhecimento ocorre - assim, quem
lhe afirmará?
Havia um monge zen, Nan-in. Alguém lhe perguntou: “Você
conhece a verdade?”
Ele riu, mas continuou em silêncio. O homem disse: “Não
posso compreender esse riso misterioso. Tampouco posso
compreender seu misterioso silêncio. Use palavras. Diga-me.
E seja claro. Diga-me sim ou não. Você conhece a verdade, o
divino?”
Nan-in disse: “Você está tornando as coisas difíceis para
mim. Se eu disser sim, as escrituras dizem: ‘Aquele que diz,
‘Eu conheço, não conhece. Portanto, se eu disser sim,
significará não. E se eu disser não, isso não será
verdadeiro. Assim, o que devo fazer? Não me obrigue a usar
palavras. Tornarei a rir e a manter silêncio. Se você puder
compreender, ótimo. Se não puder compreender, ótimo também.
Mas não usarei palavras. Não me obrigue a isso, porque se eu
disser sim, significará que não conheço, e se eu disser não,
isso não será verdade.”
Você alcançará o conhecimento, mas em sua pureza. Nessa
pureza, seu ego não estará presente. O ego é o elemento
impuro, estranho, dentro de você - apenas a poeira acumulada
ao seu redor. Ele não é você. Nu, você alcançará o
conhecimento. Seu ego é exatamente como suas roupas. Ele não
estará presente.
Deseje apenas o que é
inacessível. |