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A Nova Alquimia (Osho)
O Poder que o Tornará Nada
Deseje ardentemente o poder.
...E o poder pelo qual o discípulo ansiará é aquele que,
aos olhos dos homens, o fará parecer nada.
Estaremos entrando cada vez mais em contradições. A
linguagem da religião é, obrigatoriamente, contraditória.
Aparentemente, isso parece irracional. De certo modo, a
religião é irracional, pois vai além da razão, transcende a
razão. Este sutra diz: Deseje ardentemente o poder -
mas aquele poder que o torna nada. Você se torna
inexistente.
Desejamos o poder a fim de nos tornarmos alguma coisa. O
poder que a riqueza pode oferecer, o poder que a política
pode fornecer, o poder que o prestígio pode fornecer.
Desejamos o poder para sermos alguma coisa, e esse sutra
diz: Deseje ardentemente o poder - mas aquele poder
que o tornará ninguém, nada.
Há dois tipos de poder. Primeiro, aquele poder que você pode
acumular a partir dos outros - aquele poder que lhe pode ser
dado pelos outros ou que você pode tomar dos outros. Ele
depende dos outros. O poder que depende dos outros fará com
que você se torne alguém aos olhos dos outros. Você
permanecerá o mesmo de antes mas, aos olhos dos outros,
tornar-se-á alguém. Esse “ser alguém” é uma pretensão do
ego. E o ego é a barreira.
Deseje esse poder - o do segundo tipo - que lhe faz
sentir-se ninguém. É difícil sentir que “eu sou ninguém”.
Todo mundo pensa que é alguém, quer os outros concordem ou
não. Todo mundo pensa que é alguém! Isso é ser comum; toda
mente comum pensa que é alguém. No momento em que você
compreender que é ninguém, tornar-se-á extraordinário, raro,
uma flor única, incomparável. O sentimento de ser ninguém
cria um espaço dentro de você. O ego se dissolve, seu falso
centro deixa de existir. Você se torna espaçoso. Agora, o
eterno pode entrar em você. Esse espaço, esse vazio, pode
permitir que a existência floresça em você.
Você está repleto desse sentimento de ser alguém. Você é
isto, você é aquilo. A mente é tão astuta que você pode até
mesmo tornar o ser ninguém em algo importante. Vou
contar-lhes uma historieta.
Um imperador, um imperador maometano, estava rezando numa
mesquita, num dia santificado. Ele estava orando a Deus e
dizia: “Eu sou ninguém. Sou nada. Tenha piedade de mim”.
Então, subitamente, ele ouviu um mendigo que também estava
rezando próximo a ele. O mendigo também dizia: “Eu sou
ninguém. Tenha piedade de mim”.
O imperador sentiu-se ofendido! Olhou para o mendigo e
disse: “Ouça, quem é você para competir comigo? Quando eu
digo, ‘Eu sou ninguém’,
quem mais se atreve a dizer ‘Eu sou ninguém’?
Quem é você para tentar competir comigo?”.
Até mesmo no estado de “ser ninguém” você pode ser um
competidor. Então, o essencial, o ponto principal, é
perdido. O imperador não podia tolerar que um outro, diante
dele, reivindicasse para si o ser ninguém. Quando ele dizia
para Deus que era ninguém, ele não queria dizer que era
ninguém. Através do “ser ninguém” ele estava criando o “ser
alguém”. Você também pode criar o ego a partir do nada.
Lembre-se de que o ego é poder em relação ao mundo, mas é
impotência no que se refere ao divino. Tudo o que parece ser
poder no mundo é impotência na dimensão divina. Nessa
dimensão, a ausência de poder é poder. Jesus sempre dizia a
seus discípulos: “Seja pobre de espírito.” Não apenas pobre,
pois você pode ser pobre sem ser pobre de riqueza. Se você
tiver um sentimento egoístico em relação à pobreza, então
sua pobreza não é pobreza. Ela não é pobreza de espírito.
Por isso, Jesus sempre repetia: “Seja pobre, pobre de
espírito”. Do contrário, você pode ser um mendigo na rua,
pode ter abandonado tudo, mas então, você se apega a esse
fato de ter abandonado tudo; apega-se à sua renúncia.
Transforma sua pobreza em riqueza; orgulha-se dela. Olhe
para os sannyasins, os monges, os bhikkhus. Olhe em
seus olhos. Eles possuem um profundo orgulho pelo fato de
terem abandonado o mundo, de terem renunciado. Eles
renunciaram ao mundo, mas agora sua renúncia tornou-se um
crédito bancário. Orgulham-se disso; sentem-se superiores.
Quando Jesus diz: “Seja pobre de espírito” - ele quer dizer:
não seja superior a ninguém.
Mas, lembre-se: ele não quer dizer para você ser inferior.
Esse é o problema. Ele não quer dizer: seja inferior, porque
se você for inferior - se sentir que é inferior - isso será,
outra vez, uma superioridade de cabeça pra baixo, nada mais.
Superioridade de ponta-cabeça torna-se inferioridade. Se
você se sente inferior, a ânsia de ser superior está
presente.
Quando Jesus diz: “Seja pobre de espírito” - ele não quer
apenas dizer: não seja superior. Ele quer dizer isso, mas
também quer dizer: não seja inferior; seja apenas você
mesmo. Não se compare aos outros; fique tranqüilo consigo
mesmo.
Então, você será ninguém, porque para ser alguém é
necessário comparação. Como você pode ser alguém se não há
comparação: Você é mais bonito, nunca é simplesmente bonito.
Você jamais pode ser simplesmente bonito; é sempre bonito em
comparação a algum outro. Você é rico em comparação a algum
outro, é mais inteligente em comparação a algum outro. A
superioridade e a inferioridade são sempre comparações. Você
é alguém quando comparado a outros. Se não houver
comparação, quem você será? Você não pode ser apenas bonito,
pode? Você não pode ser apenas inteligente, pode?
Imagine o seguinte: Você está sozinho na Terra; toda a
humanidade desapareceu. O que você será? Inteligente ou
tolo? Bonito ou feio? Um homem notável ou apenas um homem
comum? O que você será? Sozinho na Terra - toda a humanidade
desapareceu - você será apenas você mesmo. Não será capaz de
dizer: “Eu sou isto ou aquilo.” Você não será alguém. Você
será ninguém.
O verdadeiro sannyas, a verdadeira renúncia significa
que você está totalmente sozinho, como se todo o universo,
toda a humanidade tivesse desaparecido. Não há possibilidade
de comparação. Nesse caso, quem é você? Ninguém. Esse estado
de ser ninguém é poder - poder no mundo divino.
Jesus diz: “Aqueles que são os primeiros neste mundo, serão
os últimos no reino de Deus, e aqueles que aqui são os
últimos, serão os primeiros no reino de Deus.” Aquilo que
neste mundo é poder, na jornada divina é ausência de poder,
e aquilo que neste mundo é a ausência de poder, é poder na
jornada divina.
Este sutra diz: Deseje ardentemente o poder - mas
lembre-se do significado de “poder”. Significa uma ausência
de poder. É um sentimento de ser ninguém, de nada, de vazio.
E o poder pelo qual o discípulo ansiará é aquele que, aos
olhos dos homens, o fará parecer nada.
Deseje fervorosamente a paz.
...A paz que você desejará é aquela paz sagrada que nada
pode perturbar e na qual a alma floresce como o faz a flor
sagrada nas lagoas calmas.
Deseje fervorosamente a paz. Ninguém deseja a paz.
Você vive falando de paz e se iludindo dizendo que a deseja,
mas ninguém a deseja - porque quando a paz é desejada, ela
acontece, e ela não aconteceu para você.
Ninguém deseja a paz. Mesmo que você diga que deseja a paz,
você não a deseja, porque uma das leis supremas afirma: se
você deseja a paz, ela acontece. Então, onde está o erro?
Muitas pessoas me procuram. Um estudante procurou-me - ele
estava indo prestar seu exame final de mestrado.
Perguntou-me: “Como posso manter-me em paz? Como posso
manter-me calmo? Ajude-me. Desejo a paz. Ando tão inquieto,
tão tenso.”
Eu lhe perguntei: “Por que você deseja a paz?”
Ele disse: “Desejo conseguir a melhor nota. O exame será em
breve. Sempre obtive as melhores notas, mas este será meu
último exame e eu desejo obter a melhor nota. Mas se minha
mente está tão tensa, como vou consegui-la? Assim, ajude-me
a ficar em paz.”
Veja a contradição! E isso está acontecendo com todo o
mundo. Eu disse ao jovem: “Se não houvesse nenhum exame, se
você não sentisse nenhum desejo de tirar a melhor nota, se
não tivesse nenhuma ambição de ser o melhor da classe,
haveria alguma inquietação em seu interior? Sua paz seria
perturbada?”.
Ele disse: “Não. Não haveria motivo. Não haveria nenhum
problema. Eu estaria em paz. Mas agora, o exame está próximo
e desejo obter a melhor nota. Assim, ajude-me a ficar em
paz.”
A ambição estava destruindo a sua paz. Ele permanecia preso
à sua ambição e ao mesmo tempo desejava a paz. A paz não
pode estar a serviço da ambição; é impossível,
contraditório. A ambição não pode ser pacífica. A ganância
de ser bem-sucedido não pode ser pacífica.
Se você desejar a paz, deseje-a por si mesma. Não faça dela
um meio para obter algo mais. Ela não pode tornar-se um
meio. Quando este sutra diz: Deseje fervorosamente a paz
ele se refere à paz como um fim e não como um meio. Ninguém
deseja os meios. Os fins é que são desejados e, por causa
dos fins, os meios são desejados. Mas a paz não pode jamais
ser um meio. Na existência, tudo aquilo que é belo,
verdadeiro, bom, profundo, não pode ser transformado num
meio. É sempre o fim. Mas até mesmo Deus é desejado como um
meio. Ninguém deseja Deus por si mesmo; desejamos Deus por
algum outro propósito. Então, o desejo é falso.
É isso o que quero dizer quando afirmo que ninguém deseja
verdadeiramente a paz, a não ser que a deseje por si mesma.
Você pode alcançá-la facilmente se desejá-la como um fim.
Deseje-a por si mesma e ela acontece, pois no verdadeiro
desejo pela paz a ambição se extingue; no verdadeiro desejo
pela paz, a ansiedade desaparece; no verdadeiro desejo pela
paz, a angústia desaparece. Se você continuar a ser
ambicioso - desejando o sucesso, desejando ser isto ou
aquilo, ser alguém - então a paz não lhe acontecerá. Você
continuará inquieto, dominado pela ansiedade, tenso.
Continuará angustiado e nada do que fizer poderá lhe ser de
alguma ajuda. Assim, esteja ciente disso. Se você quer a
paz, deseje-a diretamente, como um fim. Nesse caso, o
próprio desejo pela paz transformará você.
Na verdade, a paz é natural. Não se trata de algo que
precise ser desejado. Você, você mesmo, a perturba. Ela já
está presente. A paz é natural em você; ela é o seu próprio
ser. Você a perturba devido à ambição, à ganância, à raiva,
à violência. Ela já está presente, mas você a perturba.
Não a perturbe! Se você a deseja realmente, não a perturbe.
E então, você começará a senti-la.
Para se alcançar a paz, é preciso remover tudo aquilo que a
está obstruindo. Descubra por que você não está em paz. Por
quê? Então, remova a causa. Se a ambição estiver pertubando
a paz, livre-se da ambição e a paz acontecerá. A paz já está
presente; você não precisa aspirá-la. Torne-se apenas
consciente de como você a está perturbando, e não a
perturbe; isso é tudo. E ela acontecerá. É por isso que eu
digo que quando a paz é realmente desejada, ela acontece
imediatamente. Não se precisa esperar nem mesmo um único
instante.
Deseje, acima de tudo, posses.
Este sutra parece muito perigoso: Deseje, acima de tudo,
posses. Posses? A própria palavra produzirá uma
perturbação em sua mente, pois todos os grandes mestres
ensinam: não deseje posses. Buda diz: “Seja não-possessivo.”
Mahavir diz: “Aparigraha: nenhuma posse.” Jesus diz:
“Abandone todas as riquezas, todas as posses”.
Jesus diz: “Até mesmo um camelo pode passar através do
orifício de uma agulha, mas um homem rico não pode passar
através da porta do reino de meu Deus.” E este sutra diz:
Deseje, acima de tudo, posses. Mas o sutra é belo. Ele
quer dizer a mesma coisa que Mahavir, Buda e Jesus estão
dizendo, mas o diz de uma maneira muito contraditória.
Ele diz que todas aquelas coisas que você considera posses
não são posses, porque você não pode possuí-las realmente.
Você pode possuir as coisas? Pode possuir os outros? Pode
possuir alguma coisa no mundo? Você pode apenas se iludir de
que possui alguma coisa. Na verdade, você não pode possuir
nada, pois a morte destruirá tudo.
Outra coisa: tudo o que você possui, seja o que for,
torna-se o seu possuidor. O possuidor é possuído pelas suas
posses. Você se torna um escravo; você não é o senhor.
Assim, o que adianta dizer que você possui o mundo? Ninguém
possui coisa alguma. Somente uma coisa pode ser possuída: o
seu próprio eu. Nada mais pode ser possuído.
Você só pode tornar-se o senhor do seu próprio eu. Se tentar
ser o senhor de qualquer outra coisa, será apenas um
escravo. Você pode considerar esta escravidão como um
“domínio”, pode rotulá-la de “domínio”, mas estará apenas se
enganando. Mentiras são mentiras. O fato de se alterar o
rótulo não muda nada.
Olhe para as suas posses. Você as possui? Se sua casa for
destruída, você chorará, gritará, ficará furioso; mas se
você morrer, sua casa não chorará, Não ficará furiosa.
Assim, quem era o verdadeiro proprietário? A casa possui
você. Ela não está nem um pouco preocupada se você mora nela
ou não. Na verdade, ela se sentirá muito melhor se você for
embora. Será mais tranqüilo. Ela não depende de você. Você
está justamente perturbando a sua paz. Se você morrer, a
casa se sentirá ótima. Assim, quem é o possuidor?
Nesse sentido, este sutra é significativo: somente o eu pode
ser possuído, nada mais. E se você não pode possuir o seu
eu, que mais você pretende possuir?
Assim, seja um senhor - o senhor do seu próprio eu - e não
faça nenhum esforço para possuir coisa alguma. Não quero
dizer que você deva abandonar todas as coisas. Essa não é a
questão. Use todas as coisas, mas não pense em termos de
posse. Use a casa, mas não seja o proprietário. Use a
riqueza, mas não seja o dono dela. Use o mundo todo, mas não
pense que você o possui. Você é apenas um viajante de
passagem. Quando cansado, você descansa sob uma árvore. Mas
você não possui a árvore. E se você não a possuir, sentirá
uma profunda gratidão pela árvore. Ao anoitecer, quando
estiver de partida, você a agradecerá. Sentir-se-á
agradecido porque, quando estava cansado e a estrada estava
quente, a árvore deu-lhe abrigo; a árvore estava fresca. Mas
não procure possuir a árvore, pois assim, você não se
sentirá agradecido.
Quando você possui, não sente gratidão. Não possua a sua
esposa, não possua o seu marido. Quando estiver cansado, sua
esposa lhe dará amor. Sinta-se grato.
E se você não possuir a sua esposa, não será possuído por
ela. O relacionamento só acontece quando não há posse. Se há
posse, há sempre conflito. Maridos e esposas estão sempre
brigando; você não encontrará inimigos mais profundamente
envolvidos. Eles são inimigos íntimos; vivem juntos apenas
para brigar um com o outro. Todo o relacionamento fica
envenenado porque o marido tenta possuir a esposa e a esposa
tenta possuir o marido, mas ninguém pode possuir ninguém; a
posse é impossível. Você pode apenas possuir a si mesmo;
somente isso é possível, tudo o mais é impossível. Mas
quando se tenta possuir e fazer o impossível, tudo vai mal;
o relacionamento fica envenenado. A vida torna-se uma
miséria.
Deseje, acima de tudo, posses.
Mas essas posses devem
pertencer somente à alma pura e, portanto, serem igualmente
possuídas por todas as almas puras, sendo, dessa maneira,
propriedade especial do todo, apenas quando unido. Deseje
essas posses que podem ser possuídas pela alma pura, e você
acumulará riqueza para aquele espírito unido de vida que é o
seu único eu verdadeiro. |