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Você é um místico ou um cientista?

Um místico não tem que provar nada para ninguém, nada precisa ser comprovado. Para um cientista tudo tem que ter um porque, uma razão, uma ordem. Para um místico, as coisas são o que são, como se apresentam, ou não. Podemos corromper nossos sentidos com os desejos ou as necessidades pessoais, tudo é relativo. O importante é que o crescimento vêm com a experimentação, por si só, sem definição, sem complexidades que não sejam apenas o ato de abrir-se à experimentação sem análise. É algo que não se pode explicar o porque de ser assim, aberto e receptivo. Simplesmente ninguém pode dar provas sobre a natureza real das coisas, a linguagem é um artifício, a comunicação é um artifício. A natureza das coisas não se encontra na linguagem nem na comunicação e o real só pode ser experimentado na sua própria natureza. Quando você entra na realidade de algo você a altera, a corrompe, ela se torna a sua experiência pessoal, a sua própria experiência com o real.

Todas as coisas têm seu outro lado. Captar o outro lado das coisas e dar-se conta de que o visível é parte do invisível: eis a obra da mística.
Que é mística? Ela deriva de mistério. Mistério não é o limite do conhecimento. É o ilimitado do conhecimento. Conhecer mais e mais, entrar em comunhão cada vez mais profunda com a realidade que nos envolve, ir para além de qualquer horizonte é fazer a experiência do mistério. Tudo é mistério: as coisas, cada pessoa, seu coração e o inteiro universo.

O mistério não se apresenta aterrador, como um abismo sem fundo. Ele irrompe como voz que convida a escutar mais e mais a mensagem que vem de todos os lados, como apelo sedutor para se mover mais e mais na direção do coração de cada coisa. O mistério nos mantém sempre na admiração até o fascínio, na surpresa até a exaltação.

Que há de mais misterioso que a pessoa amada? Que mais profundo que o olhar inocente de um recém-nascido? Que mais majestático que o céu estrelado nas noites escuras de inverno ou do cerrado do Brasil Central?

Mística significa, então, a capacidade de se comover diante do mistério de todas as coisas. Não é pensar as coisas, mas sentir as coisas tão profundamente que percebemos o mistério fascinante que as habita.

Mas a mística revela a profundidade de sua significação, quando captamos o elo misterioso que une e re-une, liga e re-liga todas as coisas fazendo que sejam um Todo ordenado e dinâmico. É a Fonte originária da qual tudo promana e que os cosmólogos chamam com o nome infeliz de ''vácuo quântico''.

As religiões ousaram chamar de Deus a essa realidade frontal. Não importam os mil nomes, Javé, Pai, Tao, Olorum. O que importa é sentir sua atuação e celebrar a sua presença.
Mística não é, portanto, pensar sobre Deus, mas sentir Deus em todo o ser. Mística não é falar sobre Deus, mas falar a Deus e entrar em comunhão com Deus. Quando rezamos, falamos com Deus. Quando meditamos, Deus fala conosco. Viver essa dimensão no cotidiano é cultivar a mística.

Ao traduzirmos essa experiência inominável, elaboramos doutrinas, inventamos ritos, prescrevemos atitudes éticas. Nascem então as muitas religiões. Atrás delas e nos seus fundamentos há sempre a mesma experiência mística, o ponto comum de todas as religiões. Todas elas se referem a esse mistério inefável que não pode ser expresso adequadamente por nenhuma palavra que esteja nos dicionários humanos.

Cada religião possui sua identidade e o seu jeito próprio de dizer e celebrar a experiência mística. Mas como Deus não cabe em nenhuma cabeça, pois desborda de todas elas, podemos sempre acrescentar algo a fim de mais bem captá-lo e traduzi-lo para a comunicação humana. Por isso as religiões não podem ser dogmáticas e sistemas fechados. Quando isso ocorre, surge o fundamentalismo, doença freqüente das religiões, seja no cristianismo seja no islamismo.

A mística nos permite viver o que escreveu o poeta inglês William Blake (+1827): ''Ver um mundo num grão de areia, um céu estrelado numa flor silvestre, ter o infinito na palma de sua mão e a eternidade numa hora''. Eis a glória: mergulhar naquela Energia benfazeja que nos enche de sentido e alegria.

Osho

 

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