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O problema raiz de todos os problemas
Se alguém
nada vê quando contempla o espaço,
se com a mente alguém observa a mente,
esse alguém destrói distinções
e alcança o estado de Buda
As nuvens que vagueiam pelo céu
não têm raízes, nem lar,
também assim são os pensamentos distintivos
vagando através da mente.
Desde que a mente-eu é vista,
cessa a discriminação.
Formas e cores formam-se no espaço,
mas o espaço não é tingido nem pelo branco, nem pelo negro.
da mente-eu todas as coisas emergem,
e a mente não é manchada nem por virtude, nem por vícios.
O problema raiz de todos os problemas é a própria mente.
Assim, a primeira coisa a ser compreendida é o que vem a ser
a mente, de que matéria é feita, se é uma entidade ou apenas
um processo, se é substancial ou apenas ideal. A não ser que
conheças a natureza da mente, não poderás resolver nenhum
dos problemas de tua vida.
Podes pensar duramente, mas, se tentares resolver problemas
isolados, individuais, estarás voltado ao fracasso - isso é
absolutamente certo. Porque, na realidade, não existe
problema individual: A mente é o problema. Resolver este ou
aquele problema de nada adiantará porque a raiz deles
permanece intocada.
É tal como cortar os galhos de uma árvore, podando as
folhas, sem desenraizá-la. Novas folhas virão, novos galhos
brotarão - até mais do que antes. A poda ajuda a árvore a se
tornar mais espessa. A menos que saibas como arrancá-la pela
raiz, tua luta será injustificada, tola. Destruirás a ti
mesmo, não a árvore.
Lutando, desperdiçarás tua energia, teu tempo, tua vida, e a
árvore continuará tornando-se cada vez mais forte, mais
espessa, mais densa. E ficas surpreendido com o que vai
acontecendo. Trabalhas tão duramente, tentando resolver este
e aquele problema, e estes continuam crescendo, aumentando.
E mesmo quando consegues que um problema seja resolvido, dez
outros, subitamente, ocupam seu lugar.
Não tentes resolver problemas individuais, isolados - eles
não existem: a própria mente é o problema. A mente, porém,
está oculta subterraneamente; por isso eu a chamo raiz, ela
não é aparente. Em qualquer ocasião em que te deparas com um
problema, ele está acima do solo; tu podes vê-lo, por isso
és iludido por ele.
Lembra-te sempre: O visível jamais é a raiz. A raiz sempre
permanece invisível, a raiz está sempre oculta. Nunca lutes
contra o visível, pois estarás lutando contra sombras. Será
em vão, não poderá haver nenhuma transformação em tua vida.
Os mesmos problemas aflorarão novamente, novamente e
novamente. Observa tua própria vida e verás o que eu quero
dizer. Não estou falando de teoria alguma sobre a mente, mas
sobre a "artificialidade" da mente. Este é o fato: É preciso
resolver a mente.
As pessoas vêm a mim e perguntam: "Como obter uma mente
pacífica?" Eu lhes respondo: "Não existe tal coisa, mente
pacífica. Jamais ouvi falar disso."
A mente nunca é pacífica. A "não-mente" é paz. A mente, em
si mesma, nunca pode ser pacífica, silente. A própria
natureza da mente é estar tensa, confusa. A mente nunca pode
ser clara, nem ter certeza, porque a a mente é, por
natureza, confusão, nevoeiro. A clareza é possível sem a
mente, a paz é possível sem a mente, o silêncio é possível
sem a mente - portanto, nunca tentes obter uma mente
silenciosa. Se o fizeres, desde o inicio te estarás movendo
num plano impossível.
Assim, a primeira coisa a compreender é a natureza da mente;
e só então, algo poderá ser feito.
Se observares, jamais encontrarás uma outra entidade
parecida à mente. Ela não é uma coisa, é apenas um processo;
não é uma coisa, é apenas um processo; não é uma coisa, é
como uma multidão. pensamentos individuais existem, mas seu
movimento é tão rápido que não podes ver as brechas entre
eles. Os intervalos não podem ser vistos porque não estás
consciente e alerta; precisas de uma visão interior mais
profunda. Quando teus olhos puderem ver profundamente,
verás, subitamente, um pensamento, outro pensamento e ainda
outro pensamento - mas não verás a mente.
Pensamentos reunidos, milhões de pensamentos, dão-te a
ilusão de que a mente existe: Como uma multidão, milhões de
pessoas em pé, em multidão; há tal coisa, multidão? Podes
encontrar a multidão separada dos indivíduos que ali estão?
Mas estão reunidos e a reunião faz com que sintas que existe
algo que é multidão -mas só indivíduos existem.
Este é o primeiro olhar interior para a mente. Observa e
encontrarás pensamentos, mas nunca te depararás com a mente.
E, se isso se tornar uma experiência tua - não porque eu o
digo, não porque Tilopa canta a esse respeito, só isso não
ajudaria muito -, se isso se tornar a tua própria
experiência, se isso se tornar um fato de teu próprio
conhecimento, então, subitamente, muitas coisas começarão a
se modificar. Porque terás compreendido algo tão profundo
sobre a tua mente, que muitas coisas podem seguir-se a isso.
Observa a mente e vê onde ela está, o que é. Sentirás
pensamentos flutuando e intervalos. E, se observares por
bastante tempo, verás que os intervalos existem em maior
número do que os pensamentos, porque cada pensamento precisa
estar separado de outro pensamento. de fato, cada palavra
precisa estar separada de outra palavra. Quanto mais
profundamente fores, mais e maiores brechas encontrarás. Um
pensamento flutua e, então, surge uma brecha onde não existe
pensamento. Então surge outro pensamento e outra brecha se
segue.
Se estiveres inconsciente, não poderás ver os intervalos, as
brechas. Saltarás de um pensamento a outro e nunca verás a
brecha. Se te tornares consciente, verás cada vez mais
brechas. Se te tornares perfeitamente consciente, então,
milhares de intervalos te serão revelados.
E, nesses intervalos acontece o satori,
Nesses intervalos, a Verdade bate à tua porta.
Nesses intervalos, Deus é compreendido,
ou a forma, seja lá qual for, em que expresses tal coisa.
Então, a percepção é absoluta.
Então, haverá apenas um vago intervalo de inanidade.
Observa as nuvens: as nuvens movem-se e podem ser tão densas
que não consegues ver o céu através delas. A vasta extensão
azul do céu está perdida e tu estás coberto pelas nuvens.
Então, continuas a observar: Uma nuvem se move e outra ainda
não chegou ao teu campo de visão - subitamente, há um ponto
na vastidão azul do céu.
O mesmo acontece interiormente: Tu és a vastidão azulada do
céu, e os pensamentos são nuvens pairando em torno de ti.
Mas os intervalos existem, o céu existe. Ter um vislumbre do
céu é satori; tornar-se o céu é samadhi. De satori a samadhi,
todo o processo é uma profunda visão interior para a mente;
nada mais, o processo é uma profunda visão interior para a
mente; nada mais.
Em primeiro lugar: A mente não existe como uma entidade;
apenas os pensamentos existem.
Em segundo lugar: Os pensamentos existem separados de ti;
não são ligados à tua natureza. Eles vêm e vão - tu
permaneces, tu persistes. Tu és como o céu: Nunca vem, nunca
vai, está sempre ali.
As nuvens podem ir e vir, são fenômenos momentâneos, não são
eternas. Mesmo que tentasses agarrar-te a um pensamento, não
o poderias reter por muito tempo. Ele tem de ir, tem seu
próprio nascimento e morte. Os pensamentos não são teus, não
te pertencem. Chegam como visitantes, hóspedes, mas não são
o hospedeiro.
Observa profundamente e te tornarás o hospedeiro e terás
pensamentos como hóspedes. Como hóspedes, eles são belos;
mas se esqueces completamente que és o hospedeiro, eles se
tornam os hospedeiros e tu ficas em confusão. Isso é o
inferno. Tu és o dono da casa, a casa te pertence, mas os
hóspedes se tornaram donos. Recebe-os, cuida deles, mas não
te identifiques com eles; de outra maneira, eles se farão
senhores.
A mente torna-se problema porque tomaste os pensamentos tão
profundamente, dentro de ti, que esqueceste por completo a
distância, o fato de eles serem visitantes, de irem e virem.
Lembra-te sempre do que é duradouro: O que é a tua natureza,
teu Tao. Fica sempre atento ao que nunca vem e nunca se vai,
tal como o céu.
Muda o gestalt: Não faças dos visitantes o teu foco;
permanece enraizado no hospedeiro. Os visitantes vão e vêm.
Há, naturalmente, bons e maus visitantes, mas não precisas
preocupar-se com eles. Um bom hospedeiro trata todos os
hóspedes da mesma maneira, sem fazer distinções. Um bom
hospedeiro é apenas um bom hospedeiro: Quando um mau
pensamento surge, ele trata o mau pensamento da mesma forma
como trataria um bom pensamento. Não é de sua competência
julgar o pensamento bom ou mau.
Que estás fazendo quando distingues este pensamento como bom
e aquele como mau? Estás trazendo o bom pensamento para mais
junto de ti, e empurrando para longe o mau pensamento. Mais
cedo ou mais tarde, estarás identificado com o bom
pensamento, que passará a ser o hospedeiro. E qualquer
pensamento, quando se torna o hospedeiro, cria sofrimento -
porque não é a verdade. O pensamento é um simulador, e tu te
identificas com ele. A identificação é doença.
Gurdjieff costumava dizer que só uma coisa é necessária: Não
se identificar com o que vem e vai. A manhã vem, depois dela
o meio-dia, vem a tarde, e todos eles se vão. Chega a noite
e, novamente, a manhã. Tu permaneces - não como tu, porque
isso também é um pensamento, mas como pura percepção. Não o
teu nome, porque isso também é um pensamento; não tua forma,
porque isso também é um pensamento; não teu corpo, porque um
dia compreenderás que também ele é um pensamento. Apenas
pura percepção, sem nome, sem forma: Somente a pureza,
somente o que não tem forma nem nome, somente o próprio
fenômeno de estar consciente - só isso é duradouro.
Se te tornas identificado, tornas-te mente. Se te tornas
identificado, tornas-te corpo. Se te tornas identificado,
tornas-te um nome e uma forma - o que os hindus chamam nama,
rupa, nome e forma - e, então, o hospedeiro está perdido.
Esqueces o eterno e o momentâneo torna-se importante. O
momentâneo é o mundo, o eterno é o Divino.
Esta é a segunda visão interior a ser obtida; a de que és o
hospedeiro e os pensamentos são os hóspedes.
O terceiro passo, se continuares observando, depressa será
compreendido. O terceiro passo diz que os pensamentos são
estrangeiros, intrusos, estranhos. Nenhum pensamento é teu.
Eles sempre vêm de fora; tu és apenas uma passagem. Um
pássaro entra numa casa por uma das portas, e sai, voando,
por uma outra. É exatamente assim que os pensamentos vêm e
saem de ti.
Continuas a pensar que os pensamentos são teus. Não só isso;
também lutas pelos teus pensamentos, dizendo: "Este é o meu
pensamento, esta é a verdade." Discutes, debates,
argumentas, tentas provar que "isto é o meu pensamento".
Nenhum pensamento é teu, nenhum pensamento é original -
todos os pensamentos são empréstimos. E não são apenas de
segunda mão, porque antes que os fizesses milhões de pessoas
já reivindicaram esses mesmos pensamentos. O pensamento é
tão exterior como um objeto.
O grande fisico Eddington disse, algures, que, quanto mais
profundamente se entra por um assunto, mais se vai
compreendendo que as coisas são pensamentos. Talvez seja
assim, eu não sou um físico; Eddington pode estar certo.
Quando diz que as coisas se parecem mais e mais com
pensamentos, à proporção que nos aprofundamos, mas, por
outro lado, eu gostaria de dizer-te que, se te aprofundares
em ti mesmo, os pensamentos parecerão coisas, cada vez mais.
Na verdade, são dois aspectos do mesmo fenômeno: Uma coisa é
um pensamento, um pensamento é uma coisa.
Quando digo que um pensamento é uma coisa, o que estou
querendo dizer? Quero dizer que podes lançar teu pensamento,
tal como lanças um objeto. Podes ferir uma pessoa com um
pensamento, tal como o farias com um objeto. Podes matar uma
pessoa através do pensamento, tal como se atirasses uma
adaga. Podes dar teu pensamento como uma dádiva, ou como uma
infecção. Pensamentos são coisas, são forças, mas não te
pertencem. Vêm, permanecem durante algum tempo contigo e
depois deixam-te. O universo todo está cheio de pensamentos
e coisas. As coisas são somente a parte física dos
pensamentos, e os pensamentos são a parte mental das coisas.
Por isso, pelo fato de os pensamentos serem coisas, muitos
milagres acontecem. Se uma pessoa pensa constantemente em ti
e em teu bem-estar, ele virá, porque essa pessoa estará
continuamente lançando forças sobre ti. É por isso que as
bênçãos são úteis, auxiliadoras. Se puderes ser abençoado
por alguém que atingiu a não-mente, a bênção será
verdadeira, porque um homem que nunca usa pensamentos
acumula a energia do pensamento, de forma que, o que quer
que ele diga será verdadeiro.
Em toda tradição oriental, antes de uma pessoa começar a
aprender a não-mente, ensinam-se técnicas, dando muita
ênfase ao fato de que ela deve deixar de ser negativa,
porque, uma vez atingida a não-mente, se a tendência dessa
pessoa permanece negativa, ela pode tornar-se uma força
perigosa. Antes que a não-mente seja atingida, a pessoa deve
tornar-se absolutamente positiva. Aí reside toda a diferença
entre a magia branca e a magia negra.
A magia negra nada mais é do que um homem que acumulou
energia de pensamento sem, primeiro, rejeitar sua
negatividade. E a magia branca nada mais é do que um homem
que obteve muita energia de pensamento e baseou seu eu total
numa atitude positiva. A mesma energia, possuindo
negatividade, torna-se negra. Idêntica energia, com
positividade, torna-se branca. Um pensamento é uma grande
força; é uma coisa.
Essa é a terceira visão interior. Tem de ser entendida e
vigiada dentro de ti.
às vezes, percebes teu pensamento funcionando como uma
coisa, mas, por causa de um condicionamento demasiado
materialista,pensas que isso é apenas uma coincidência.
Negligencias o fato, simplesmente não lhes dás atenção,
permaneces indiferente, esqueces. Mas, muitas vezes, sabes
que pensaste sobre a morte de uma certa pessoa - e ela
morreu. Ou, às vezes, pensas num amigo, em como seria bom se
ele viesse - e ele bate à tua porta. Pensas que se trata de
uma coincidência. Não é uma coincidência. Na verdade, não
existe isso a que chamam coincidência; tudo tem sua causa.
Teus pensamentos não cessam de construir um mundo em torno
de ti.
Teus pensamentos são coisas; portanto, tem cuidado com eles.
Maneja-os cuidadosamente. se não estiveres muito consciente,
podes criar sofrimento para ti mesmo e para os outros - e já
fizeste isso. E, lembra-te, quando crias sofrimento para
alguém, inconscientemente, estás, ao mesmo tempo, criando
sofrimento para ti mesmo - porque um pensamento é uma espada
de dois gumes. Corta-te, simultaneamente, quando corta
alguma outra pessoa.
Há uns dois ou três anos, um israelense, Uri Gueller, que
trabalha com a energia do pensamento, exibiu uma experiência
na televisão, na BBC da Inglaterra. Ele consegue entortar
qualquer coisa apenas pensando: Alguém segura uma colher a
uns três metros de distância de Uri Gueller, ele apenas
pensa nela - e a colher entorta-se imediatamente. Tu não a
poderias entortar com a tua mão, e ele a entorta com o seu
pensamento. Mas um fenômeno muito raro ocorreu na BBC, e
mesmo Uri Gueller não supunha que tal fosse possível.
Milhares de pessoas, em suas casas, estavam observando a
experiência. E, quando ele a realizou, entortando objetos,
em muitas residências muitos objetos caíram ao chão,
retorcidos - milhares de objetos, em toda a Inglaterra. Foi
como se a energia tivesse sido irradiada. Ele estava
realizando a experiência a uma distância de três metros e,
então, nas casas dos que observavam, a partir da tela do
televisor, também a uma distância de três metros, muitas
coisas aconteceram: Objetos entortaram-se, caíram,
retorceram-se. Foi fantástico!
Os pensamentos são coisas, coisas muito poderosas. Há uma
mulher, na Rússia soviética, Mikhailova. Ela é capaz de
fazer muitas coisas com objetos a uma grande distância; é
capaz de atrair as coisas para si através do pensamento. A
Rússia soviética não acredita no oculto - trata-se de uma
nação comunista, atéia - de forma que examina o trabalho de
Mikhailova, busca saber o que acontece de uma forma
científica. Mas, a cada vez que ela realiza a experiência,
perde um quilo. O que significa isso?
Significa que ela lança pensamentos como tu lanças energia -
e estás continuamente fazendo isso.
Tua mente é tagarela.
Estás irradiando coisas, desnecessariamente.
estás destruindo pessoas em torno de ti.
estás destruindo a ti próprio.
És um perigo - constantemente irradiando.
E muitas coisas estão acontecendo por tua causa. E isso é,
também, uma grande rede: O mundo inteiro, a cada dia, está
se fazendo mais sofredor, porque é sempre maior o número de
pessoas que vivem na terra, e elas irradiam cada vez maior
volume de pensamentos.
Quanto mais recuas, mais pacífica se torna a terra - cada
vez menor é o número de irradiadores. Nos dias de Buda, ou
nos dias de Lao-Tsé, o mundo era muito pacífico, natural:
Era um paraíso. Por que? A população era pequena; o povo não
era dado a pensar demais, era mais inclinado a sentir. E,
também, mais do que pensar, as pessoas estavam a rezar. Pela
manhã, a primeira coisa que faziam era rezar. E, durante o
dia inteiro, sempre que tinham um momento, rezavam
intimamente.
O que é a oração?
Orar é enviar bênção a todos.
Orar é enviar tua compaixão a todos.
Orar é criar um antídoto contra os pensamentos negativos - é
uma positividade.
Esta é a terceira visão interior sobre os pensamentos: Eles
são coisas, forças, e deves manejá-los cuidadosamente.
habitualmente, sem disso estares consciente, segues pensando
em tudo. É difícil encontrar uma pessoa que não tenha
cometido muitos assassinatos em pensamento, é difícil
encontrar uma pessoa que não tenha cometido toda a sorte de
pecados e crimes dentro da mente - e esses pensamentos podem
se concretizar. E- lembra-te - podes não ser um assassino,
mas o fato de pensares constantemente no assassinato de
alguém pode criar uma situação através da qual essa pessoa
seja assassinada. Alguém pode tomar o teu pensamento, porque
há pessoas mais fracas em toda parte e os pensamentos fluem
como a água: Para baixo. Se pensas constantemente em alguma
coisa, alguém que é fraco pode tomar teu pensamento e matar
alguém.
Por isso é que os que conhecem a realidade interior do homem
dizem que, seja o que for que aconteça nesta terra, a
responsabilidade é de todas as pessoas, de todas as pessoas.
Quanto ao que quer que aconteça no Vietnam, a
responsabilidade não será apenas de Nixon; todos os que
pensam são responsáveis. Só um tipo de pessoa não pode ser
responsável: A pessoa que não tem mente. Exceto nesse caso,
todas as pessoas são responsáveis pelo que acontece. Se a
terra é um inferno, tu és o criador dele; tu participas.
Não continues a atirar a responsabilidade sobre os outros -
tu também és responsável, isso é um fenômeno coletivo. A
doença pode borbulhar em qualquer lugar, a explosão pode
acontecer a milhares de milhas de distância do ponto onde
estás, mas não faz qualquer diferença, porque o pensamento é
um fenômeno não-espacial, não precisa de espaço.
Por isso é que o pensamento é o mais velos dos viajantes.
Nem mesmo a luz desloca-se tão rápido, porque até para a luz
há necessidade de espaço. O pensamento é o mais rápido
viajante. Na verdade, não usa o tempo para viajar, para ele
o espaço não existe. Podes estar aqui, pensando em alguma
coisa, e o que pensas pode acontecer no outro lado do mundo.
Como podes ter sido o responsável? Tribunal algum pode
punir-te, mas no tribunal definitivo da existência serás
punido. Por isso é que te sentes infeliz.
Há pessoas que vêm a mim e dizem: - "Nós nunca fizemos nada
de mal a ninguém, e, ainda assim, somos tão infelizes."
Podem não ter feito nada de mal a ninguém, mas podem ter
pensado algo - e o pensamento é mais sutil do que a ação.
Uma pessoas pode proteger-se da ação, mas não pode
proteger-se do pensamento. Ao pensamento todos são
vulneráveis.
"Não-pensar" é uma necessidade absoluta, se queres ficar
completamente livre do pecado, livre do crime, livre de tudo
o que se passa em torno de ti - e isso significa ser um
Buda. Um Buda é uma pessoa que vive sem a mente, de forma a
não ser responsável. No Oriente, dizemos que tal pessoa
nunca acumulou carma, nunca acumulou qualquer complicação
para o futuro. Ela vive, caminha, move-se, come, fala, faz
muitas coisas, de forma que deveria acumular carma, porque
carma significa atividade, Mas no Oriente, diz-se que, ainda
quando um Buda mate, ele não acumulará carma. Por quê?
É simples: O que quer que um Buda esteja fazendo, ele o faz
sem colocar naquilo a mente.
Ele é espontâneo, não é atividade.
Ele não está pensando naquilo, mas aquilo acontece.
Ele não é o que realiza a ação.
Ele não se move como um vazio.
Não tem mente para aquilo, não estava pensando em fazê-lo.
Mas, se a existência permite que aconteça, ele deixa que
aconteça.
Já não tem ego para resistir, já não tem ego para fazer.
este é o significado do estar vazio, do não-eu: ser, apenas,
um não-ser, anatta, "não-personalidade". Então, tu nada
acumulas. Então, não és responsável por coisa alguma que
aconteça em torno de ti. Então tu transcendes.
Cada pensamento isolado cria algo para ti e para os outros.
Fica alerta!
Mas, quando digo "fica alerta", não quero dizer que devas
pensar bons pensamentos, não. Porque, sempre que tens bons
pensamentos, simultaneamente estás tendo maus pensamentos.
Como pode o bom existir sem o mau? Se pensas em amor, bem ao
lado, por detrás dele, o ódio está escondido. Como podes
pensar em amor, sem pensar em ódio? Podes não pensar
conscientemente, o amor pode estar na camada consciente de
tua mente, mas o ódio estará escondido no inconsciente -
ambos se movem juntos.
Sempre que pensas em compaixão, pensas em crueldade. Podes
pensar em compaixão, sem pensar em crueldade? Podes pensar
em não-violência, sem pensar em violência? Mesmo na
expressão não-violência a violência está presente, no
próprio conceito. Podes pensar em Brahmacharya, celibato,
sem pensar em sexo? E, se brahmacharya está baseada no
pensamento de não-sexo, que tipo de brahmacharya é?
Não; há uma qualidade totalmente diferente de ser, que vem
com o não-pensamento; nem bom, nem mau, simplesmente um
estado de não-pensamento. Tu simplesmente observas, tu
simplesmente permaneces consciente, mas não pensas. E, se
algum pensamento surgir... surgirá, porque os pensamentos
não são teus, estão flutuando no ar.
Em derredor, há uma esfera-de-percepção, uma
esfera-de-pensamento. Como existe o ar, existe o pensamento
em torno de ti, e ele vai penetrando por sua própria
vontade. Só deixará de fazer isso, assim que te tornares
mais perceptivo. Se te tornas mais e mais perceptivo, o
pensamento simplesmente desaparece, desfaz-se, porque a
percepção é uma energia maior que o pensamento.
A percepção é como o fogo para o pensamento. É algo como
quando uma lâmpada é acesa, em tua casa, e a escuridão não
pode entrar. Apagas a luz e, num momento, a escuridão
penetra - vem de toda parte, sem a menor demora. Se há uma
luz acesa na casa, a escuridão não pode entrar. Os
pensamentos são como a escuridão: Só entram, se não houver
luz lá dentro. A percepção é o fogo: Tu te tornas mais
perceptivo e os pensamentos estarão cada vez menos.
Se te tornares realmente integrado com a tua percepção, os
pensamentos não penetrarão absolutamente em ti: Tu te
tornaste uma fortaleza inexpugnável, nada é capaz de
penetrá-la. Não porque a tenhas fechado, lembra-te, estás
inteiramente aberto. Apenas a própria energia da percepção é
que tornou-te a tua fortaleza. E, se os pensamentos não
podem entrar, virão e passarão ao teu lado. Verás que eles
surgem, mas, simplesmente, no momento em que se aproximarem
de ti, se desviarão. Então podes ir a qualquer lugar, então
podes ir para o próprio inferno - nada pode afetar-te. Isso
é o que entendemos por iluminação.
Experimenta compreender agora este sutra de Tilopa:
Se alguém nada vê, quando contempla o espaço, se alguém com
a mente, então, alguém observa a mente, esse alguém destrói
distinções e alcança o estado de Buda.
Se alguém nada vê, quando contempla o espaço...
Esse é um método, um método do Tantra: Olhar para o espaço,
para o céu, sem ver. Olhar com olhos vazios. Olhando e,
ainda assim, não procurando algo: Apenas um olhar vazio.
Às vezes vês um olhar vazio nos olhos de um louco - os
loucos e os sábios parecem-se, em certas coisas. Um louco
olha para o teu rosto, mas percebes que ele não está olhando
para ti. Ele apenas olha através de ti, como se fosses feito
de vidro, transparente. Estás no caminho dele, mas ele não
está olhando para ti. Para ele, tu és transparente. Ele olha
para além de ti, através de ti. Olha sem olhar para ti; o
para não está presente, ele simplesmente olha.
Olha para o céu sem procurar algo, porque se procurares algo
será possível que surja uma nuvem: "Algo" significa uma
nuvem, "nada" significa a vasta extensão do azul celeste.
Não procures nenhum objeto; uma nuvem aparecerá e, então,
olharás para ela. Não olhes para as nuvens. Mesmo que haja
nuvens, não olhes para elas - olha simplesmente. Deixa que
flutuem, elas estão ali. Até que chega um momento em que
sincronizas com esse olhar-não-olhar: As nuvens desaparecem
para ti, só o vasto céu permanece. Isso é difícil, porque
teus olhos estão focalizados e sincronizados para olhar as
coisas.
Olha para uma criança pequena no dia em que nasce. Tem os
mesmos olhos de um sábio - ou de um louco: soltos e
flutuantes. Ela pode trazer ambos os olhos para o centro,
deixar que eles flutuem para os cantos opostos, seus olhos
ainda não estão fixos. Seu sistema é líquido, seu sistema
nervoso ainda não é uma estrutura, tudo é flutuante. Assim,
uma criança olha as coisas sem olhar, é o olhar de um louco.
Observa a criança: O mesmo olhar te é necessário, porque
deves conseguir, de novo, uma infância.
Observa um louco, porque o louco saiu fora da sociedade. A
sociedade significa o mundo fixo dos papéis, dos jogos. Um
louco é louco porque agora não tem um papel fixo, saiu de
seu papel, é um perfeito desaparecido, em dimensão
diferente. Ele não é louco; na realidade, é a única
possibilidade de sanidade pura. Mas o mundo inteiro é louco,
fixo - por isso o sábio também parece louco. Observa um
louco: Esse é o olhar necessário.
Nas antigas escolas do Tibete havia sempre um louco, só para
que os inquiridores pudessem observar seus olhos. O louco
era muito importante. Procuravam-no porque um mosteiro não
podia existir sem um louco. Tornava-se objeto a ser
observado. Os inquiridores observavam o homem, seus olhos,
e, então, tentavam olhar para o mundo como ele olhava. Eram,
aqueles, dias muito belos.
No Oriente, os loucos nunca sofreram como sofrem no
Ocidente. No Oriente eram valorizados, um louco era algo
especial. A sociedade cuidava dele, respeitava-o, porque o
louco tem certas características de sábio, certas
características da criança. É diferente da chamada
sociedade, da cultura, da civilização; saiu para fora de
tudo isso. Naturalmente, caiu. Um sábio se evade para cima,
um louco, para baixo - essa é a diferença - mas ambos se
evadem. E têm similaridades. Observa um louco e, então,
tenta deixar que teus olhos permaneçam fora de foco.
Em Harvard fez-se uma experiência, há alguns meses, que
surpreendeu os experimentadores; não podiam acreditar
naquilo. Tentava-se descobrir se o mundo, tal como o vemos,
é assim mesmo, ou não - porque muitas coisas vieram à tona
nestes últimos anos. Tentaram a experiência com um jovem:
Deram-lhe óculos com lentes distorcidas para que os usasse
durante sete dias. Durante os três primeiros dias, o jovem
viveu em estado de angústia, porque tudo se apresentava
distorcido, o mundo todo, ao redor, estava distorcido. Isso
produziu-lhe grave dor de cabeça, e ele não conseguiu
dormir. Mesmo com os olhos fechados, as figuras distorcidas
apareciam: Rostos distorcidos, árvores distorcidas, estradas
distorcidas. Ele nem mesmo podia caminhar, porque não era
capaz de distinguir entre o que era verdadeiro e o que era
projeção das lentes distorcidas. Mas um milagre aconteceu!
Depois do terceiro dia, o jovem acostumou-se com a nova
situação e a distorção desapareceu. As lentes permaneceram
tal qual eram, distorcidas, mas ele recomeçou a olhar o
mundo da mesma forma antiga. Dentro de uma semana tudo
voltou à sua ordem: Não havia dor de cabeça, não havia
problemas; os cientistas ficaram simplesmente surpreendidos,
sem poderem acreditar no que estava acontecendo. Os olhos se
haviam deslocado completamente; era como se os óculos ali já
não estivessem. Mas os óculos ali estavam, e distorcidos;
não obstante os olhos voltaram a ver o mundo para o qual
haviam sido treinados.
Vemos o mundo, não como ele é; vemo-lo como esperamos vê-lo,
projetamos algo sobre ele.
Aconteceu, certa vez, que, em uma pequena ilha do Pacífico
pela primeira vez chegou um grande navio. As pessoas da ilha
não o virão, nenhuma delas! O navio era imenso, mas as
pessoas estavam adaptadas, seus olhos estavam adaptados,
para barcos pequenos. Jamais tinham conhecido um navio tão
grande, jamais tinham visto coisa igual. Seus olhos
simplesmente não apanharam o vislumbre, seus olhos
simplesmente não apanharam o vislumbre, seus olhos
simplesmente recusaram-se.
Ninguém sabe o que estamos vendo, ou se o que vemos está ali
ou não. Pode não estar ali, ou pode estar, mas de uma forma
totalmente diferente. As cores que vês, as formas que vês,
tudo é projetado pelos olhos. E quando quer que olhes
fixamente, focalizando segundo teus velhos padrões, vês as
coisas de acordo com teu próprio condicionamento. Por isso é
que o louco possui um olhar líquido, ausente, esteja ou não
olhando.
Esse olhar é belo. É uma das maiores técnicas tântricas: Não
vejas,olha apenas. Nos primeiros dias, renovadamente verás
alguma coisa, porque esse é um velho hábito. Ouvimos coisas
por causa de um velho hábito, vemos coisas por causa de um
velho hábito, entendemos coisas por causa de um velho
hábito.
Um os maiores discípulos de Gurdjieff, P.D,Ouspensky,
costumava insistir sobre certas coisas com seus discípulos -
e todos se ressentiam disso. Muitas pessoas o abandonavam,
apenas por causa dessa insistência. Se alguém dizia: "Ontem
o senhor disse..." ele, imediatamente, interrompia, falando:
"Não digas isso assim; dize: Eu entendi que o senhor disse,
ontem, tal e tal coisa. Acrescenta o "eu entendi que o
senhor disse"; não digas "o que o senhor disse". Não podes
saber o que eu disse. Fala sobre o que ouviste!" Ele
insistia tanto porque nós somos pessoas de hábitos.
Se de outra vez alguém dizia: "Diz a Biblia que..." ele
interrompia: "Não digas isso! Dize simplesmente, que
entendeste que isto é dito pela Biblia." A cada sentença ele
insistia:
"Lembrai-vos, sempre, de que isso é o que vós entendestes!"
Nós continuamos nos esquecendo. Seus discípulos continuaram
esquecendo muitas e muitas vezes, todos os dias, mas ele era
obstinado quanto a esse ponto. Não permitia que
continuassem. Dizia: "Volta. Dize primeiro: Eu entendi que o
senhor disse. foi assim que eu entendi, porque tu ouves
conforme tu mesmo, vês de acordo contigo mesmo; tens um
padrão fixo para ver e ouvir."
É preciso abandonar essa maneira de ser.
Para conhecer a existência, todas as atitudes fixas devem
ser abandonadas.
teus olhos devem ser janelas, não projetores.
Teus ouvidos devem ser apenas portas, não projetores.
Isto aconteceu: Um psicanalista que estudava com Gurdjieff,
tentou, numa cerimônia de casamento, uma experiência muito
simples, porém bonita. Ficou ao lado, na fila da recepção.
As pessoas iam passando e ele as observava; então, percebeu
que ninguém estava ouvindo o que se dizia, tantas eram as
pessoas - tratava-se do casamento de um ricaço. Então
aproximou-se, e disse à primeira pessoa da fila, muito
mansamente: "minha avó morreu hoje." O homem respondeu:
"Muito gentil da sua parte, muito amável." Então, disse a
mesma coisa à seguinte e ela respondeu: "Tão amável da sua
parte." e quando chegou a vez do noivo este respondeu: "meu
velho, já é tempo de fazeres o mesmo."
Ninguém ouve ninguém. Ouves o que esperas ouvir. A
expectativa funciona como um par de óculos. Teus olhos
deveriam ser janelas - esta é a técnica.
Nada deve sair de teus olhos, porque, se algo sai, uma nuvem
é criada. Então, vês coisas que não existem e sofres sutil
alucinação. Faze com que em teus olhos e ouvidos haja pura
claridade. Todos os teus sentidos deveriam estar claros, tua
percepção pura - só então a Existência te poderia ser
revelada. Quando conheceres a Existência, saberás que és um
Buda,um Deus, porque na Existência tudo é Divino.
"Se alguém nada vê, quando contempla o espaço, se com a
mente, então, alguém observa a mente..."
Contempla,primeiro, o céu. Deita-te no chão e fica apenas
olhando para o céu. Só uma coisa deve ser tentada: Não olhes
para nada. No início cairás muitas e muitas vezes,
esquecerás muitas e muitas vezes; não te poderás lembrar
continuamente, mas não te sintas frustrado; isso é natural,
sendo o hábito tão antigo como o é. Cada vez que te tornares
a lembrar, retira teus olhos do foco, faze com que fiquem
soltos e olha apenas o céu - sem fazer nada, olhando apenas.
Depressa chegará o momento em que poderás olhar para o céu,
sem tentar ver algumas coisa ali.
nesse momento, tenta isso com o teu céu interior:
"... Se com a mente, então, alguém observa a mente..."
Fecha os olhos, então, e olha para o interior, sem procurar
coisa alguma, com o mesmo olhar ausente. Os pensamentos
flutuam, mas tu não procuras por eles, nem olha para eles -
estás, simplesmente, olhando. Se vierem, será bom, se não
vierem, também será bom. E, daí, serás capaz de ver as
brechas: Um pensamento passa, passa também um outro - e a
brecha. Então, aos poucos, poderás ver o pensamento
tornar-se transparente: mesmo quando o pensamento estiver
passando continuarás a ver a brecha, continuarás a ver o céu
escondido atrás da nuvem.
E, quando mais te tornares sintonizado com essa visão, mais
pensamentos irão tombando, aos poucos, diminuindo e
diminuindo, diminuindo e diminuindo. As brechas se tornarão
mais largas: Durante alguns minutos não haverá pensamentos;
tudo se fará silencioso e quieto, interiormente - estais
juntos pela primeira vez. Tudo parecerá absolutamente
beatífico, não havendo perturbação. E, se essa maneira de
ver tornar-se natural em ti - e torna-se, é uma das coisas
mais naturais, basta desfocar, descondicionar-se -, então:
"... esse alguém destrói distinções..."
Nada existe de bom, nada existe de mau, nada é feio, nada é
belo,
"... e alcança o estado de Buda."
O estado de Buda significa o mais alto despertar. Quando não
há distinções, quando todas as divisões se perderam,
atinge-se a unidade, e só um permanece.
Não podes sequer dizer "um",porque o um também é parte da
dualidade. O um permanece, mas não podes dizê-lo, porque
sabes que não podes dizer um, sem, bem lá no fundo, estar
dizendo dois. Não, tu não dizes que o um permanece, mas
simplesmente que o dois desapareceu, que os muitos
desapareceram. Agora o que existe é uma vasta unidade; já
não há fronteiras para nada:
... uma árvore fundindo-se em outra árvore, a terra
fundindo-se nas árvores, as árvores fundindo-se no céu, o
céu fundindo-se no além... tu fundindo-te em mim, eu me
fundindo em ti... tudo fundindo-se... as distinções
perdidas, desfazendo-se e imergindo, como ondas, em outras
ondas... uma vasta unidade vibrando, viva, sem fronteiras,
sem definição, sem distinções... o sábio fundindo-se no
pecador, o pecador fundindo-se no sábio... o bom tornando-se
mau, o mau tornando-se bom... a noite fazendo-se dia e o dia
fazendo-se noite... a vida desfazendo-se na morte, e a
morte, novamente, modelando a vida... então tudo se tornou
um...
Só nesse momento é que o estado de Buda é obtido: Quando há
nada de bom, nada de mau, nem pecado, nem virtude, nem
trevas, nem luz, nada, nenhuma distinção.
"As distinções existem por causa de teus olhos treinados.
A distinção é algo aprendido.
A distinção não existe na vida.
A distinção é projetada por ti.
A distinção é dada ao mundo por ti - não está nele.
É um ardil de teus olhos lançando mão de um ardil."
As nuvens vagueiam pelo céu
Não têm raízes nem lar;
Também assim são os pensamentos distintivos
vagando através da mente.
desde que a mente é vista, cessa a discriminação.
As nuvens
que vagueiam pelo céu não têm raízes nem lar... E o mesmo é
verdadeiro em relação a teus pensamentos, e o mesmo é
verdadeiro em relação a teu céu interior: teus pensamentos
não têm raízes, não têm lar; tal como as nuvens, eles
vagueiam. Assim não precisas combatê-los, nem sequer
precisas tentar detê-los.
isso deve tornar-se um profundo conhecimento em ti, porque
sempre que uma pessoa se torna interessada em meditação,
começa por tentar deter o pensamento. E, se tentares deter o
pensamento, ele jamais se deterá, porque o próprio esforço
para meditar é um pensamento. E como podes deter um
pensamento com outro pensamento? Estarás agarrando-te à
outro pensamento. E isso continuará, e continuará, até à
náusea, e não terá fim.
Não lutes, porque quem lutará? Quem és tu? Apenas um
pensamento; portanto não te faças o campo de batalha de uma
luta de pensamentos. Sê, antes, uma testemunha, observa
apenas a flutuação dos pensamentos. Eles cessarão, mas não
porque tu os tenhas detido. Cessarão porque te tornaste mais
perceptivo, e não por qualquer esforço de tua parte; não,
dessa forma eles jamais cessam, eles resistem. tenta e
descobrirás: tenta deter um pensamento e o pensamento
persistirá. Os pensamentos são obstinados, irredutíveis. São
hatha yogis, persistem. Tu os repeles e eles retornam um
milhão de vezes. Tu te cansarás, não eles.
Aconteceu que um certo homem foi ter com Tilopa. Esse homem
desejava obter o estado de Buda e ouvira dizer que Tilopa o
atingira. Tilopa estava estagiando num templo, algures, no
Tibete. Quando o homem chegou, Tilopa estava sentado e o
visitante disse: - "Eu gostaria de deter meus pensamentos."
Tilopa respondeu: - "Isso é muito fácil. Eu te ensinarei um
plano, uma técnica. faze exatamente o que digo: senta-te e
não penses em macacos. Isso bastará."
O homem disse: - "É assim tão fácil? Basta não pensar em
macacos? mas nunca andei pensando neles..."
Tilopa disse: _ "faze o que eu disse e, amanhã pela manhã
vem contar o que passou."
Bem podes compreender o que se passou com o pobre homem:
macacos, macacos e macacos em torno dele. À noite não pôde
dormir, nem mesmo cochilar. Abria os olhos e ali estavam
eles. Fechava os olhos e ali estavam eles, e fazendo
caretas. O homem estava simplesmente estupefato: Ora essa,
por que aquele homem lhe havia ensinado aquela técnica? Como
poderiam os macacos ser o problema, se nunca tinha pensado
neles! Isso estava acontecendo pela primeira vez! mas
tentou, e pela manhã, ainda tentou. Tomou um banho e
sentou-se, sem nada fazer: Os macacos não o largavam.
Voltou à noite, quase louco, porque os macacos o estavam
seguindo e ele estava falando com os macacos. Chegou e
disse: - "Dá um jeito em me salvar disto. Não quero saber
dessa história. Eu estava muito bem, não quero saber de
nenhuma meditação. Não quero saber da tua Iluminação -
Livra-me desses macacos!"
Se pensares em macacos, pode ser que eles não venham ter
contigo. Mas, se quiseres que eles não venham, eles te
seguirão. Eles têm seus egos e não poderão deixar-te tão
facilmente. E que achas de ti mesmo tentando não pensar em
macacos? Os macacos se irritam, isso não pode ser suportado.
O mesmo acontece com as pessoas. Tilopa estava gracejando,
dizendo que, se tentas deter um pensamento, não o podes
deter. Pelo contrário, o próprio esforço para detê-lo dá-lhe
energia, o próprio esforço para evitá-lo torna-se atenção.
Assim, sempre que queres evitar algo dás demasiada atenção a
esse algo. Se não quiseres pensar um pensamento, já estarás
pensando nele.
Lembra-te disso; quando não, estarás no mesmo apuro em que
se viu o pobre homem, que ficou obcecado pelos macacos, por
ter desejado detê-los. Não há necessidade de deter a mente.
Os pensamentos não têm raízes, são vagabundos sem lar; não
precisas preocupar-te com eles. Observa, simplesmente
observa, sem olhar para eles; simplesmente observa.
Se os pensamentos vêm, não te sintas mal por isso; Se
tiveres a mais leve impressão de que eles não são bons, já
começarás a combater. É certo e natural: Assim como as
folhas chegam para as árvores, os pensamentos chegam para a
mente. Isso está certo, é exatamente o que deveria ser. Se
eles não surgem, é belo. Conserva-te, simplesmente, como
imparcial observador, nem a favor nem contra, não apreciando
nem condenando, sem qualquer avaliação. Conserva-te,
simplesmente, dentro de ti mesmo, e olha, olha sem olhar.
E, quanto mais olhares, menos encontrarás; quanto mais
profundamente olhares, maior numero de pensamentos
desaparecerão, dispersar-se-ão. Desde que saibas disso, tens
a chave em tua mão. E essa chave revela o mistério mais
secreto: o mistério do estado de Buda.
As nuvens que vagueiam pelo espaço não têm raízes nem lar;
também assim são os pensamentos distintivos vagando através
da mente. Desde que a mente-eu é vista, cessa a
discriminação.
E, desde que possas ver que os pensamentos são flutuantes,
que não és os pensamentos, mas o espaço nos quais eles
flutuam, terás atingido a tua mente-eu, terás compreendido o
fenômeno da tua percepção. Então, a discriminação cessará:
Então, nada será bom, nada será mau; qualquer desejo
simplesmente desaparecerá, porque não haverá nada de bom,
nada de mau, nada a ser desejado, nada a ser evitado.
Tu aceitas e te tornas desprendido e natural. Tu
simplesmente, começas a flutuar com a existência, sem ir a
parte alguma, porque não há meta; não te moves em direção de
alvo algum, porque não há alvo. Começas a gozar cada
momento, seja o que for que ele traga - seja o que for,
lembra-te. E podes gozá-lo, porque agora não tens desejos
nem expectativas. Nada pedes; portanto és grato ao que quer
que recebas. Só o estar sentado e respirar é tão belo, só
estar em algum lugar é tão maravilhoso, que cada momento da
vida torna-se uma coisa mágica, um milagre em si mesmo.
Formas e cores formam-se no espaço, mas o espaço não é
tingido nem pelo branco nem pelo preto. Da mente-eu todas as
coisas emergem, e a mente não é manchada, nem por virtudes,
nem por vícios.
Quando Buda alcançou o Definitivo, a perfeitamente
Definitiva Iluminação, perguntaram-lhe: Que conquistaste? -
Ele riu e disse: - "nada, porque o que quer que eu tenha
conquistado já estava dentro de mim. Não atingi nada de
novo. Isso sempre esteve em mim, desde a eternidade, é a
minha verdadeira natureza. Eu, porém, não tinha noção disso,
não tinha consciência disso. O tesouro sempre esteve ali,
mas eu o havia esquecido."
Tu esqueceste, eis tudo - essa é a tua ignorância. Entre um
Buda e ti não há distinção, no que se refere à natureza. Só
existe uma distinção; não te recordas de quem és, mas ele se
recorda. Sois os mesmos, mas ele se recorda e tu não te
recordas. Ele está acordado, tu estás profundamente
adormecido, mas a vossa natureza é a mesma.
Trata de viver dessa maneira - Tilopa está falando sobre
técnicas; vive no mundo como se estivesses no céu, faze teu
próprio estilo de vida. Se alguém se zanga contigo,
insulta-te - observa; se a cólera crescer em ti, observa; sê
um observador sobre a montanha, e olha, olha, olha. E, só
por olhar, sem olhar para nada, sem te tornares obcecado por
coisa alguma, quando tua percepção se fizer clara,
subitamente, num momento, na verdade sem qualquer tempo, um
fato acontecerá, subitamente, fora de qualquer medida de
tempo, e estarás plenamente acordado, serás um Buda,
Tornar-te-ás um Iluminado, o Acordado.
Que ganha com isso um Buda? Nada. Pelo contrário, perde
muitas coisas: O sofrimento,a dor, a angústia, a ansiedade,a
ambição, o ciúme, o ódio, a dominação, a violência - perde
tudo isso. E não obtém nada. Obtém o que ali já estava:
Recorda-te.
Osho
Tantra - A Suprema
Compreensão |