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Tantra - A Suprema Compreensão (Osho)
Mahamudra - A experiência definitiva
A
experiência do definitivo não é, absolutamente, uma
experiência, porque quem experimenta está perdido. E onde há
aquele que experimenta, o que se pode dizer da experiência -
Quem o dirá? Quem relatará a experiência? Quando não há
sujeito, o objeto também desaparece: as margens desaparecem,
apenas o rio da experiência permanece. O conhecimento ali
está, mas o conhecedor está ausente.
Este
tem sido o problema dos místicos. Alcançam o Definitivo, mas
não podem relatar aos que lhes vêm após. Não podem relatá-lo
a outros, que gostariam d ter essa compreensão intelectual.
Tornaram-se um com o Definitivo. Todo o seu ser o relata,
mas a comunicação intelectual é impossível. Poderão dá-lo a
ti, se estiveres pronto para recebê-lo, poderão permitir que
o alcances, se também o permitires, se fores receptivo e
aberto. Mas as palavras não farão isso, os símbolos não
ajudarão, teorias e doutrinas não serão de uso algum.
A
experiência é tal que mais se assemelha a um experimentar,
do que a uma experiência. É um processo: começa, mas jamais
termina. Tu entras nele, mas jamais o possuis. É como uma
gota caindo no oceano, ou o próprio oceano caindo na gota. É
uma fusão profunda, uma unidade: tu simplesmente te
dissolves nela. Nada fica para trás, sequer um traço; assim,
como te comunicarás? Voltarás para o mundo do vale? Quem
voltará daquela negra noite para te dizer?
Todos os místicos, em todo o mundo, sempre se sentiram
impotentes no que se refere à comunicação. A comunhão é
possível, mas a comunicação não o é. Isso deve ser entendido
desde o princípio. A comunhão possui uma dimensão totalmente
diferente; dois corações se encontram, e dá-se um caso de
amor. A comunicação se faz de cabeça para cabeça. A comunhão
se faz de coração para coração; a comunhão é um sentimento.
Comunicação é conhecimento: só palavras são dadas, só
palavras são ditas e só palavras recebidas e compreendidas.
E as palavras são tais, a própria natureza das palavras é
tão morta, que nada do que é vivo pode se relacionar através
delas. Mesmo na vida comum - deixando de lado o Definitivo -
mesmo um momento estático, quando realmente sentes algo e
tornas-te algo, é impossível dizê-lo através de palavras.
Na
minha infância eu costumava ir ao rio, logo ao amanhecer. A
povoação é pequena. O rio é muitíssimo preguiçoso, parece
mesmo que nem flui. Pela manhã, quando o sol ainda não se
levantou, não se pode ver se corre, tão lento e silencioso
ele se mostra. E pela manhã, quando não há ninguém ali,
antes de os banhistas chegarem, o silêncio do rio é
espantoso. Nem mesmo os pássaros cantam ainda, pela manhã; é
muito cedo e não há som algum, apenas uma insondabilidade
penetra tudo. E o cheiro das mangueiras suspende-se ao longo
de todo o rio.
Eu
costumava ir até lá, para o mais recuado canto do rio, só
para me sentar ali, só para estar ali. Não havia necessidade
de fazer nada; só o estar ali já era suficiente, tão bela
era a experiência. Tomava banho, nadava e, quando o sol se
erguia, ia para a outra margem, para a vasta extensão de
areia, enxugava-me sob o sol, deitando-me ali, e, às vezes,
adormecendo.
Quando voltava, minha mãe costumava perguntar: "Que
estiveste fazendo durante toda a manhã?" E eu respondia:
"Nada." Porque, realmente, eu nada estava fazendo. Ela
retornava: "Como é possível? Que não tenhas feito nada?
Deves ter estado a fazer alguma coisa." Ela tinha razão, mas
eu também não estava errado.
Eu
não tinha estado a fazer coisa alguma. Estivera apenas ali,
com o rio, sem nada fazer, deixando que as coisas
acontecessem. Se sentia vontade de nadar - preste atenção -,
se sentia vontade de nadar, nadava; mas não era um ato de
minha parte, eu não estava forçando nada. Se sentia vontade
de dormir, dormia. As coisas aconteciam, mas não havia o que
as fazia acontecer. E minha primeira experiência de satori
iniciou-se junto àquele rio: nada fazer, estar ali,
simplesmente, e milhões de coisas acontecendo.
Minha mãe, entretanto, insistia em que alguma coisa eu
estivera fazendo; então eu dizia: "Está bem, tomei um banho
e enxuguei meu corpo ao sol." Ela, então, se mostrava
satisfeita. Eu, porém, não o estava, porque o que se passava
no rio não podia ser expressado por palavras. "Tomei um
banho" parece algo tão falho e descorado! Brincar no rio,
boiar, nadar no rio eram experiências de tal modo profundas,
que não fazia sentido algum dizer simplesmente: "Tomei um
banho." Ou dizer apenas: "Eu estive ali, caminhei pela
margem, sentei-me ali" - palavras que nada transmitiram.
Mesmo na vida cotidiana sentimos a inutilidade das palavras.
E se ainda não sentiste a inutilidade das palavras, é porque
não estiveste vivo, viveste apenas superficialmente. Se o
que viveste, seja lá o que for, pode ser transmitido através
de palavras, isso significa que absolutamente não viveste.
Quando, pela primeira vez, algo para além das palavras
começa a acontecer, então a vida acontece para ti, a vida
bate à tua porta. E quando o definitivo bate à tua porta, tu
simplesmente te vês para além das palavras - tornas-te mudo,
não podes falar. Nem mesmo uma só palavra se delineará em
teu interior. E o que for que possas dizer parecerá tão
descorado, tão morto, tão sem sentido, tão destituído de
qualquer significação, que pensarás estar sendo injusto para
com a experiência que te aconteceu. Lembra-te disto, porque
Mahamudra é a última, a Definitiva experiência.
Mahamudra significa um orgasmo total com o Universo. Se
tiveres amado alguém, algumas vezes sentiste uma fusão, uma
submersão - os dois já não são dois. Os corpos permanecem
separados, mas há algo entre esses corpos, algo como uma
ponte, uma ponte de ouro, e a duplicidade interior
desaparece. Uma vida-energia vibra em ambos os pólos. Se
isso já aconteceu contigo, poderás compreender o que é
Mahamudra.
Milhões e milhões de vezes mais profunda,
milhões e milhões de vezes mais alta é Mahamudra.
É um orgasmo total com o Todo, com o Universo.
É fundir-se na fonte do Ser.
Essa
é a canção de Mahamudra. Foi belo da parte de Tilopa chamar
a isso canção. Tu podes cantá-la, mas não podes dizê-la;
podes dançá-la, mas não podes dizê-la. É algo tão profundo
que o cantar pode transmitir, dela, minúscula parte - não o
que cantares, mas a forma pelo qual cantares.
Muitos místicos simplesmente dançaram, depois de sua
experiência com o definitivo. Não poderiam fazer outra
coisa. Estavam dizendo algo através de todo o seu ser, de
todo o seu corpo: corpo, mente, alma, tudo se envolvia
naquela experiência. Dançavam, e aquelas não eram danças
comuns. Na verdade, toda a sua dança nascera deles mesmos:
era uma forma de contatar o êxtase, a felicidade, a
beatitude.
Algo
do desconhecido penetrara no conhecido, algo do além viera à
terra - e que outra coisa poderias fazer? Dançar o fato,
cantar o fato. Essa é a canção de Mahamudra.
E
quem a cantará? Tilopa já não existe. A sensação orgásmica,
ela própria está cantando, não é cantada por Tilopa. Tilopa
já não existe. A própria experiência vibra e canta. Daí, a
canção de Mahamudra, a canção do êxtase a canta. Tilopa
fundiu-se. Quando aquele que procura se perde, só então a
meta é atingida. Quando já não existe a experiência, a
experiência ali está. Procura e perderás o que procuras,
porque através da busca o que procuras se fortalecerá. Não
procuras e encontrarás. O próprio fato de procurar, o
próprio esforço torna-se uma barreira, porque quanto mais
procurares, mais o ego se fortalecerá, como também aquele
que procura... Não procures.
Esta
é a mensagem mais profunda em toda a canção de Mahamudra:
não procures; fica apenas onde estás, não vás a parte
alguma. Ninguém jamais alcança Deus, ninguém o pode fazer
porque não sabe qual é o endereço. Para onde irás? Onde
encontrarás o Divino? Não há mapas, não há caminhos e não há
ninguém para dizer onde Ele está. Não, ninguém jamais
alcança Deus. Sempre se dá o contrário: Deus vem a ti.
Quando estiveres pronto. E o estar pronto nada mais é do que
estar em receptividade. Quando estiveres completamente
receptivo, não haverá ego. Tu te tornarás um templo oco, sem
ninguém lá dentro.
Tilopa diz, na canção, para te tornares oco como um bambu,
nada por dentro. E, subitamente, no momento em que fores um
bambu oco, os lábios do Divino estarão sobre ti, o bambu oco
transformar-se-á numa flauta, e a canção começará - a canção
de Mahamudra. Tilopa tornou-se um bambu oco, o Divino veio e
a canção teve início. Não a canção de Tilopa, mas a canção
da própria experiência Definitiva.
Alguma coisa sobre Tilopa antes de entrarmos nesse belo
fenômeno. Não se conhece muito sobre Tilopa, porque nada, na
verdade, pode ser conhecido sobre tais pessoas. Elas não
deixam traços, não se tornam parte da História. Existem ao
lado, não são parte do trânsito principal em que toda a
Humanidade está se movendo. Elas não se movem no mesmo
terreno. Toda a Humanidade move-se através do desejo, e
pessoas como Tilopa movem-se na ausência do desejo. Elas
simplesmente se afastam do trânsito principal da Humanidade,
onde existe a História.
E,
quanto mais distantes se colocam, mais mitológicas se
tornam. Existem na qualidade de mitos; já não são
acontecimentos do tempo. E assim é que deve ser, porque elas
se movem para além do tempo - vivem na eternidade. Desta
dimensão da nossa Humanidade comum, elas simplesmente
desaparecem, evaporam-se. Só do momento em que estão
evaporando, só desse momento é que nós nos recordamos, até
então elas são parte de nós. Por isso é que não se conhece
muito sobre Tilopa, sobre quem era ele.
Só
existe a canção. É a dádiva de Tilopa; e foi concedida a seu
discípulo Naropa. Essas dádivas não podem ser concedidas a
ninguém - a não ser que exista uma profunda intimidade de
amor. A pessoa tem de ser capaz de receber tal dádiva. E
aquela canção foi concedida a Naropa, seu discípulo. Antes
de recebê-la, Naropa foi testado de mil maneiras: sua fé,
seu amor, sua confiança. Quando se soube que nada de
duvidoso existia nele, nem mesmo a mais insignificante
partícula de dúvida, quando seu coração estava inteiramente
repleto de confiança e de amor, a canção lhe foi dada.
A
indiferença é a chave; sê simplesmente indiferente. Ela aí
está - aceite-a. Leva tuas energias, mais e mais, em direção
à confiança e ao amor, porque a energia que se torna dúvida
é a mesma energia que se torna confiança. Mantém-se
indiferente à dúvida. No momento em que te tornares
indiferente, tua cooperação será rompida, tu não a estarás
alimentando - porque é através da atenção que todas as
coisas se alimentam. se deres atenção à tua dúvida, mesmo
que seja contra ela, será perigoso, porque essa mesma
atenção é alimento, é cooperação. Devemos, apenas, ser
indiferentes - nem a favor, nem contra: não sejas a favor da
dúvida e nem sejas contra a dúvida.
Assim, terás que compreender três palavras. Uma palavra é
dúvida, a outra é crença e a terceira é confiança ou fé,
aquilo que no Oriente se conhece como shraddha. A dúvida é
uma atitude negativa em relação a qualquer coisa. O que quer
que se diga é ouvido, de inicio negativamente. Tu te sentes
contra aquilo e encontras razões, racionalizações, que
apóiam tua "negatividade". Há, então, a mente da crença. É
tal e qual a mente da dúvida, só que de cabeça para baixo -
não há muita diferença. Tal mente vê tudo como positivo e
tenta encontrar razões, racionalizações, que apóiem essa
atitude "a favor". A mente que duvida suprime a crença, a
mente que acredita suprime as dúvidas - mas ambas são do
mesmo tipo, a qualidade não é diferente.
Há,
então, um terceiro tipo de mente; e dessa mente a dúvida
simplesmente desapareceu. Quando a dúvida desaparece, a
crença também desaparece. Fé não é crença, é amor. Fé não é
crença, porque não é a metade, é total. Fé não é crença,
porque nela não há dúvida, portanto, como podes crer? Fé não
é racionalização, absolutamente: não é contra, nem a favor
disto ou daquilo. Ter fé é ter confiança, uma confiança
profunda, amor. Não encontrarás racionalização para isso;
simplesmente é assim. Então, que fazer?
Não
crie crenças contra a fé. Sê indiferente a ambas, crença e
dúvida, e leva tuas energias em direção ao amor: ama mais,
ama incondicionalmente. Não ames a mim apenas, porque isso
não é possível: se amas, simplesmente amas. Se amas,
simplesmente existes sob uma forma mais amorosa - tem amor
não só pelo Mestre, mas pelo céu e pela terra. Tu, o teu
ser, a tua própria qualidade de ser tornam-se um fenômeno de
amor. Então, surge a confiança. E só a confiança assim pode
ser concedida uma dádiva como a canção de Mahamudra. Quando
Naropa esteve pronto, Tilopa concedeu-lhe sua dádiva.
Portanto, recorda-te de que, com um Mestre, não estás
"viajando-com-a-cabeça". Dúvida e crença são, ambas,
"viagens-com-a-cabeça". Com um Mestre tu
"viajas-com-o-coração". E o coração não sabe o que é dúvida,
o coração não sabe o que é crença - o coração simplesmente,
confia. O coração é como a criança pequena que vai pela mão
do pai, e o segue para onde ele for, sem confiar, nem
duvidar: a criança é indivisa. A dúvida é metade, a crença é
metade. Uma criança ainda é total, inteira. Vai,
simplesmente, para onde quer que seu pai se dirija. Quando
um discípulo se torna tal qual uma criança, só então podem
ser concedidas as dádivas do mais alto grau da percepção.
Quando tu te tornas o mais profundo vale da recepção, os
mais altos graus da percepção te podem ser concedidos. Só um
vale pode receber um grau. Um discípulo deve ser
absolutamente feminino, receptivo, como um útero. Só então
tal fenômeno acontece, como vai acontecer nesta canção.
Tilopa é o Mestre, Naropa o discípulo, e Tilopa diz:
Mahamudra está para além das palavras e símbolos, mas para
ti, Naropa, sério e leal, isto deve ser dito...
Aquilo está para além de palavras e símbolos, de todas as
palavras e de todos os símbolos. Então, como pode ser dito?
Há, então, alguma forma? Sim, há uma forma. Se há um Naropa,
há uma forma. Se há, realmente, um discípulo, há uma forma.
Depende do discípulo o ser, ou não, encontrada essa forma.
Se o
discípulo for tão receptivo que não tenha mente própria, não
julgará se é errado ou certo: ele não tem mente própria,
cedeu sua mente ao Mestre; ele é, simplesmente,
receptividade, um vazio pronto para receber
incondicionalmente o que quer que lhe dêem - e então as
palavras e os símbolos não são necessários. E, então, algo
pode ser dado. Podes ouvir isso entre as palavras, podes ler
entre as linhas; e as palavras são apenas uma escusa. O que
é verdadeiro acontece exatamente às margens das palavras.
Palavras são apenas artifícios, expedientes. O real segue as
palavras como uma sombra. E, se estiveres muito preso à
mente, ouvirás as palavras, mas não poderás comunicar-te.
Mas se não fores absolutamente uma mente, então as sombras
sutis que seguem as palavras, muito sutis, só o coração as
pode ver, sombras invisíveis, ondulações invisíveis da
percepção, "vibrações"... então a comunhão será
imediatamente possível.
Diz Tilopa:
"Mas
para ti, Naropa, sério e leal, isto deve ser dito" - Aquilo
que não pode ser dito deve ser dito ao discípulo. Aquilo que
não pode ser dito, aquilo que é absolutamente invisível deve
se tornar visível para o discípulo. Isso depende, não apenas
do Mestre, mas, e ainda mais, do discípulo.
Tilopa foi afortunado, encontrando Naropa. Tem havido alguns
desafortunados mestres que jamais encontraram um discípulo
como Naropa. Assim, o que quer que tenham ganho desaparece
com eles, porque não há ninguém para receber.
Às
vezes, os mestres viajam milhares de milhas para encontrar
um discípulo. O próprio Tilopa foi da Índia para o Tibete
para encontrar Naropa, para encontrar um discípulo. Tilopa
vagueou por toda a índia e não pôde encontrar um homem
daquela qualidade, um homem que recebesse a dádiva, que a
apreciasse, que estivesse em condições de absorvê-la, de
renascer através dela. E, desde que a dádiva foi concedida a
Naropa, ele se transformou totalmente. Conta-se que Tilopa
disse a Naropa: "Agora vai e procura o teu Naropa."
Naropa também foi afortunado, pôde encontrar um discípulo
cujo nome era Marpa. Marpa também teve muita sorte:
encontrou um discípulo cujo nome era Milarepa. E então a
tradição desapareceu, não houve mais discípulos daquele
grande calibre que fossem encontrados. Por muitas vezes
surgiram e desapareceram religiões; por muito tempo
aparecerão e desaparecerão. Uma religião não se pode tornar
uma seita, uma religião depende de comunicação pessoal, de
comunhão pessoal. A religião de Tilopa existiu apenas
durante quatro gerações - de Naropa a Milarepa -, depois
desapareceu.
A
religião é como um oásis; o deserto é vasto, mas, às vezes,
em minúsculas partes do deserto aparece um oásis. Enquanto
dura, procura-o. Enquanto ele ali estiver, bebe da sua água
- ele é muito raro.
Jesus disse muitas vezes aos seus discípulos: "Um pouco mais
permanecerei aqui. E, enquanto eu estiver aqui, comam da
minha carne, bebam do meu sangue. Não percam essa
oportunidade" - por milhares de anos, um homem como Jesus
pode não aparecer aqui. O deserto é vasto. O oásis, às
vezes, aparece e desaparece, porque o oásis vêm do
desconhecido e precisa de uma âncora sobre esta terra. Se
não houver âncora, ele não poderá permanecer. Um Naropa é
uma âncora.
Se
te embriagares de Jesus ou Naropa, serás totalmente
transformado. A transformação é muito fácil e simples; é um
processo natural. Só precisa tornar-te solo e receber a
semente; tornar-te útero e receber a semente.
Mahamudra está para além das palavras e símbolos, mas para
ti, Naropa, sério e leal, isto deve ser dito...
Isso
não pode ser expresso - é inexprimível -, mas tem de ser
dito a um Naropa. Assim que o discípulo esteja pronto, o
Mestre aparecerá, terá de aparecer. Onde quer que exista uma
profunda necessidade, ela deve ser satisfeita. A completa
existência responde à tua necessidade mais profunda, mas
deves sentir a necessidade. De outra maneira, poderás passar
por um Tilopa, por um Buda, por um Jesus, e não serás capaz
nem mesmo de ver que passaste por Jesus.
Tilopa viveu neste país. Ninguém o ouviu, mas ele estava
pronto para conceder a dádiva do Definitivo. Que aconteceu?
E isso aconteceu neste país muitas vezes; deve haver algo
por trás disso. E isto aconteceu neste país mais do que em
qualquer outro lugar, porque mais Tilopas foram nascidos
aqui. Mas por que acontece que um Tilopa tenha de ir ao
Tibet? Por que acontece que um Bodidarma tenha de ir à
China?
Este
país sabe demais, este país têm se tornado demasiadamente
preso à cabeça. Eis por que é difícil encontrar um coração -
o país dos brâmanes e pundites, o país dos grandes
conhecedores, dos filósofos. Eles conhecem todos os Vedas,
todos os Upanixades; podem dizer de memória todas as
escrituras: um país da cabeça. Por isso é que aquilo tem
acontecido muitas vezes.
Mesmo eu sinto, tantas e tantas vezes senti, que onde chega
um brâmane é difícil haver comunicação. Um homem que sabe
demais torna-se quase impossível, porque ele sabe sem saber.
Reuniu muitos conceitos, teorias, doutrinas, escrituras.
Apenas sobrecarregou sua percepção, não a fez florescer.
Nada do que sabe aconteceu a ele, tudo é emprestado; e tudo
o que é emprestado não passa de entulho, podridão. Deita
isto fora, assim que o puderes fazer.
Só o que acontece contigo é verdadeiro.
Só o que em ti floresce é verdadeiro.
Só o que em ti cresce é verdadeiro e vivo.
Lembra-te sempre disso: evita conhecimentos emprestados.
O
conhecimento emprestado torna-se um artifício da mente;
esconde a ignorância, jamais a destrói. E, quanto mais
estiveres rodeado de conhecimentos, bem profundamente, no
centro, na própria raiz do teu ser, haverá mais ignorância e
obscuridade. E um homem de conhecimento, de conhecimento
emprestado, está quase que completamente fechado dentro de
seu próprio conhecimento. E é difícil penetrá-lo, é difícil
encontrar-lhe o coração, pois ele próprio perdeu o contato
com o seu coração. Assim, não foi incidentalmente que Tilopa
teve que ir ao Tibete, e Bodidarma à China: a semente teve
de viajar para muito distante, não encontrando solo aqui.
Lembra-te disso, porque é muito fácil alguém tornar-se
fortemente apegado ao conhecimento: é uma paixão, uma droga.
O LSD não é tão perigoso, a maconha não é tão perigosa. De
certa forma, são similares, porque a maconha dá um vislumbre
de algo que ali não existe, dá-te um sonho de algo que é
inteiramente subjetivo, dá-te uma alucinação. O conhecimento
também: dá-te a alucinação de conhecer. Começas por sentir
que sabes, porque podes declamar os vedas; sabes, porque
podes argumentar; sabes porque tens a mente muito lógica e
aguda. Não sejas tolo! A lógica nunca levou ninguém à
Verdade. E uma mente racional é apenas um jogo. Todos os
seus argumentos são pueris.
A
vida existe sem argumento algum e a Verdade não necessita de
provas - necessita apenas do teu coração. Não de argumentos,
mas do teu amor, da tua confiança, da tua disponibilidade
para receber.
"O Vácuo não precisa de confiança,
Mahamudra repousa sobre nada.
sem fazer esforço,
mas permanecendo desprendido e natural,
é possível quebrar o jugo,
ganhando assim, a libertação."
Se
há alguma coisa, ela necessita de apoio, necessita de
confiança. Mas se nada há, se apenas o vazio existe, não há
necessidade de apoio nenhum. E esta é a compreensão mais
profunda de todos os conhecedores: que o seu ser é um
não-ser. Dizer-se que é um ser está errado, porque isso não
é nada, não se parece com coisa alguma. Parece-se a coisa
alguma: um vasto vazio, sem fronteiras. É apenas um anatma,
um não-eu; não é um eu dentro de ti.
Todos os sentimentos do eu são falsos. Todas as
identificações com "sou isto ou aquilo" são falsas.
Quando chegas ao Definitivo, quando chegas ao teu âmago mais
profundo, sabes, subitamente, que não és isto, nem aquilo;
que não és ninguém. Não és um ego; és apenas um vasto vazio.
E, algumas vezes, se te sentares, fecha os olhos e procuras
sentir o que és, para onde vais. Desce mais profundamente e
poderás ter medo, porque quanto mais profundamente desceres,
mais profundamente sentirás que és ninguém, que és um nada.
Por isso é que as pessoas temem a meditação: ela é a morte,
é a morte do ego; e o ego é apenas um falso conceito.
Agora os físicos chegaram a esta mesma verdade, através de
sua pesquisa científica, aprofundando-se no terreno da
matéria. O que Buda, Tilopa e Bodidarma encontraram mediante
a visão interior, a Ciência tem estado a descobrir também no
mundo exterior. Dizem, agora, que não há substância - e
substância é um conceito paralelo do ego.
Uma
pedra existe e sentes que ela é bem substancial. Podes
atirá-la à cabeça de alguém e ela produzirá sangue; a pessoa
atingida poderá até morrer. A pedra é muito substancial. Mas
indaga dos físicos, e eles dirão que ela é não substância,
que nada existe nela. Dirão que é apenas um fenômeno de
energia. Muitas correntes de energia cruzando-se sobre
aquela pedra dão uma sensação de substância, tal como tu,
quando riscas muitas linhas cruzadas sobre um pedaço de
papel: onde muitas linhas se cruzam, surge um ponto. O ponto
não estava ali. Duas linhas se cruzam e o ponto surge;
muitas linhas e se cruzam e um grande ponto surge. Aquele
ponto está, realmente ali? Ou apenas as linhas, ao se
cruzarem, é que dão a ilusão de que ali há um ponto?
Os
físicos dizem que correntes de energia, cruzando-se, criam
matéria. E, se perguntares o que são essas correntes de
energia, dirão que não são materiais, que não têm peso, que
são não materiais. Linhas não materiais cruzando-se dão a
ilusão de coisa material, substancial, como a pedra.
Buda
chegou a essa iluminação 2500 anos antes de Einstein. Dentro
não existe ninguém; apenas as linhas de energia cruzando-se
é que te proporcionam a sensação do eu. Buda costumava dizer
que o eu é como uma cebola: tu a descascas, jogas fora a
casca, mas uma outra surge. Se continuares descascando,
camada por camada, o que permanecerá, afinal? A cebola será
inteiramente descascada e nada encontrarás dentro dela.
O
homem é tal como uma cebola. Descasca-se a camada de
pensamentos, de sentimentos, e, finalmente, o que
encontramos? Um nada.
Esse
nada não precisa de apoio.
Esse
nada existe por si mesmo.
Eis
por que Buda disse que não existe Deus: Não há necessidade
de Deus, porque Deus é um apoio. E diz que não há criador,
porque não há necessidade de criar um nada. Este é um dos
conceitos mais difíceis de entender - a não ser que o
compreendas.
Por isso é que Tilopa diz: "Mahamudra está para além de
todas as palavras e símbolos."
Mahamudra é uma experiência do nada - simplesmente, tu não
és.
E,
se não és, quem está aí para sofrer?
Quem
está aí, em dor e angústia?
E,
quem está aí para estar feliz e bem aventurado?
Buda
diz que, se sentires que estás bem aventurado, tornarás a
ser vítima do sofrimento, porque ainda estás ali. Quando não
estiveres, então não haverá sofrimento, nem bem-aventurança;
e essa será a verdadeira bem-aventurança. Então, não poderás
recuar. Atingir o nada é atingir tudo.
Todo
o meu esforço em relação a ti também é para conduzir-te ao
nada, levar-te ao vácuo total.
"O vácuo não precisa de confiança,
Mahamudra repousa sobre nada.
Sem fazer esforço,
Mas permanecendo desprendido e natural,é possível quebrar o
jugo,
ganhando assim, a libertação."
A
primeira coisa a compreender é que o conceito do eu é criado
pela mente - não há eu em ti.
Isto aconteceu de fato: Um grande budista, homem de
esclarecimento, foi convidado pelo rei para ministrar-lhe
ensino. O nome do monge budista era Nagasen; o rei era o
vice-rei de Alexandre. Quando Alexandre retornou da Índia,
deixou ali Minander como seu vice-rei. Seu nome hindu era
Milinda. Milinda pediu a Nagasen que viesse ensinar-lhe.
Estava realmente interessado e ouvira muitas histórias sobre
Nagasen. Muitos rumores haviam chegado à corte: "É um
fenômeno raro! Raramente acontece que um homem floresça, e
aquele homem floresceu. Tem, ao derredor, um aroma de algo
desconhecido, uma energia misteriosa. Caminha sobre a terra,
mas não é da terra." O rei ficou interessado e o convidou.
Um
mensageiro foi ter com Nagasen e voltou bastante perplexo,
pois ele lhe havia dito: "Sim, se ele convida, Nagasen
irá;mas diga-lhe que não há ninguém como Nagasen. se é
convidado, irá, mas diga-lhe, exatamente, que não há ninguém
que seja "eu sou". Eu já não sou."
O mensageiro ficou perplexo, porque, se Nagasen já não era,
quem viria? Milinda também ficou perplexo e disse: "Esse
homem fala por enigmas. Mas deixemos que venha." Milinda era
grego, e a mente grega é basicamente lógica.
Há
apenas duas mentes no mundo: A hindu e a grega. A hindu é
ilógica e a grega é lógica. A hindu move-se nas
profundidades das trevas, estranhas profundidades onde não
há fronteiras, onde tudo é vago, enevoado. A mente grega
caminha sobre a linha lógica, reta, onde tudo está definido
e classificado. A mente grega move-se no conhecimento. A
mente hindu move-se no desconhecido, e , ademais, no
incognoscível. A mente grega é absolutamente racional, a
mente hindu é absolutamente contraditória. Portanto, se
encontrares demasiadas contradições em mim, não te aborreças
- essa é a forma. Na contradição está a forma oriental de
relatar.
Milinda disse: - "esse homem parece ser irracional, parece
ter enlouquecido. Se ele não é, então como pode vir? mas
deixemos que venha. Eu provarei, apenas pela sua vinda, que
ele é."
Então, Nagasen veio. Milinda o recebeu ao portão e a
primeira coisa que disse foi: - "estou perplexo por teres
vindo, apesar de teres dito que já não és."
Nagasen respondeu: - "Ainda digo isso. Portanto, vamos
resolver o caso aqui mesmo."
Um
grupo reuniu-se, toda a corte apareceu ali e Nagasen disse:
"Tu fazes as perguntas."
Milinda perguntou: - "Dize-me, antes de mais nada: Se algo
não é, como pode vir? Se, em primeiro lugar, ele não é,
então não há possibilidade para a sua vinda; mas tu vieste.
É simples lógica a constatação de que tu és."
Nagasen riu e disse: - "Olha para este ratha" (o carro em
que tinha vindo). Olha para ele. Tu o chamas de ratha, um
carro puxado por cavalos." Milinda confirmou. Então Nagasen
mandou que seus acompanhantes retirassem os cavalos. Uma vez
desatrelados os animais, Nagasen perguntou: - "Os cavalos
são o carro?"
Milinda disse: - "Claro que não!" Então aos poucos, tudo
quanto havia no carro foi sendo retirado, parte por parte.
As rodas foram removidas, e ele perguntou: "essas rodas são
o carro?" Milinda disse: - "está certo que não!"
Quando tudo foi removido, nada mais restando, Nagasen
indagou: - "Onde está o carro em que vim? Não removemos o
carro, e tudo quanto foi removido não era, segundo foi
confirmado, o carro. Assim, onde está o carro?"
E
nagasen explicou: -"è exatamente assim que Nagasen existe.
Remove as partes e ele desaparecerá." Apenas linhas cruzadas
de energia: removam-se as linhas e o ponto desaparecerá. O
carro era apenas uma combinação de partes.
Tu
também és uma combinação de partes, o eu é uma combinação de
partes. Remove coisas e o eu desaparecerá. Por isso é que,
quando os pensamentos são removidos da percepção, não podes
dizer eu, porque não há eu - apenas um vácuo é deixado.
Quando os sentimentos são removidos, o eu desaparece
completamente. Tu és, e contudo não és: És apenas uma
ausência sem fronteiras, vacuidade.
Essa
é a obtenção final; esse estado é Mahamudra, porque só nesse
estado podes ter o orgasmo com o Todo. Quando não há mais
fronteiras, não existe eu. Agora já não há fronteiras para
ti.
O
Todo não tem fronteiras. Tu deves tornar-te como o Todo -
mas para isso deve haver um encontro, uma fusão. Quando
estás vazio, estás sem fronteiras, e, subitamente, tornas-te
o Todo.
Quando não és,
tornas-te o Todo.
Quando és, tornas-te um feio ego.
Quando não és, tens toda a expansão da existência para que o
teu ser seja.
Mas
há contradições. Portanto, tenta compreender: Torna-te um
pouco semelhante a Naropa, de outra forma estes símbolos
nada levarão até ti. Ouve-me com confiança. E quando eu
falo, ouve-me com confiança; se te digo que conheci isso, é
assim como digo. Sou uma testemunha, dou um testemunho
disso, isso é assim. Pode não ser possível dizê-lo, mas tal
coisa não significa não significa que isso não seja. Podes
dizer algo que não é, e podes ser incapaz de me compreender,
se fores como Naropa, se me ouvires com confiança.
Não
estou ensinando uma doutrina. De forma alguma ter-me-ia
preocupado com Tilopa se essa também não fosse a minha
própria experiência.
Tilopa disse isso muito bem:
"O vácuo não precisa de segurança,
Mahamudra repousa sobre nada.
Sobre nada Mahamudra repousa."
Mahamudra significa, literalmente, o grande gesto, ou o
gesto definitivo; o último que podes ter e para além do qual
nada é possível.
"Mahamudra repousa em nada.
Sê um nada e, então, tudo estará obtido.
Morre e te tornarás um Deus.
Desaparece e te tornarás o Todo.
Aqui a gota desaparece
e ali o oceano passa a existir."
Não
te agarres a ti mesmo - isso é o que tens feito em todas as
tuas vidas passadas: Agarrar-te, receoso de, se não te
agarrares, ter de olhar para baixo e encontrar um abismo sem
fundo.
Por isso é que nos agarramos a coisas insignificantes,
triviais, e continuamos agarrados a elas. O agarrar-se
mostra que também és consciente de um vasto vazio interior.
Precisas de alguma coisa em que agarrar-te, mas isso é o teu
samsara, a tua angústia. Deixa-te cair no abismo. E, uma vez
que tenhas caído no abismo, tornar-te-ás o próprio abismo.
Então, não há morte, porque como pode um
abismo morrer?
Então, não haverá fim, porque como pode o nada acabar?
Algo pode acabar, terá de acabar - mas só o nada pode ser
eterno.
mahamudra repousa sobre o nada.
Deixa que te explique, através da experiência que tens.
Quando amas uma pessoa, tens que tornar-te nada. Quando amas
uma pessoa, tens que tornar-te um não - eu. Por isso é que o
amor se torna tão difícil. É por isso que Jesus disse que
Deus é igual a amor. Jesus sabia alguma coisa sobre
Mahamudra, porque antes de iniciar seus ensinamentos em
Jerusalém ele tinha estado na Índia. Também esteve no
Tibete,onde encontrou pessoas como Tilopa e Naropa. Estagiou
em mosteiros budistas e aprendeu o que é aquilo a que as
pessoas chamam o nada. Então, tentou passar todo o seu
conhecimento para a terminologia judaica. E foi aí que tudo
se tornou confuso.
Não
podes passar o entendimento budista para a terminologia
judaica. É impossível porque a terminologia judaica depende
de termos positivos e a terminologia budista depende de
termos absolutamente niilistas: nada, vacuidade. Mas, aqui e
ali, nas palavras de Jesus há vislumbres. Ele diz: "deus é
amor" e está insinuando algo. O que?
Quando amas, tens que tornar-te um ninguém. Se permaneces
alguém, o amor jamais acontece. Quando amas uma pessoa,
mesmo por um só momento, quando o amor acontece e floresce
entre duas pessoas, há dois nadas, não duas pessoas. Se já
tiveste essa experiência de amor, poderás entender.
Dois
amorosos, sentados lado a lado, um ao lado do outro, ou dois
nadas sentados juntos: Só então o encontro é possível,
porque as barreiras foram destruídas, as fronteiras postas
de lado. A energia pode mover-se de cá para lá, não há
obstáculos. E só em tais momentos é que um profundo orgasmo
de amor é possível.
Quando dois amorosos estão fazendo amor, o orgasmo só
acontece se forem, ambos, não-eus, nada. Então a energia de
seus corpos, todo o seu ser, perde completamente a
identidade. Eles já não são eles próprios, tombaram no
abismo. Mas isso só dura por um momento. De novo voltam, de
novo recomeça o apego. Por isso é que as pessoas também tem
medo de amar.
No
amor profundo, as pessoas temem enlouquecer, ou morrer,
temem o que pode vir a acontecer. O abismo abre sua boca,
toda a existência boceja e, subitamente, estás ali, podes
tombar ali. As pessoas tornam-se medrosas do amor e, então,
satisfazem-se com o sexo e chamam ao sexo "amor".
O
amor não é sexo. O sexo pode acontecer no amor, pode ser
parte dele, parte integral, mas o sexo, em si mesmo, não é
amor - é um substituto. Tentais evitar o amor através do
sexo. Dais a vós mesmos, a sensação de estar amando, mas não
vos estais movendo em amor. O sexo é tal qual o conhecimento
emprestado: dá a sensação de saber, sem saber, dá a sensação
de amor e de estar amando, sem amar.
Amando não estais e o outro também não: Então, subitamente,
os dois desaparecem. O mesmo acontece com Mahamudra.
Mahamudra é o orgasmo total com a completa existência.
Por isso é que em Tantra - e Tilopa é um Mestre Tântrico - o
coito profundo, o coito orgasmático entre dois amorosos é
também chamado Mahamudra; e dois amorosos em profundo estado
orgasmático estão representados nos templos tântricos, em
livros tântricos. Essa figura tornou-se um símbolo do
orgasmo final.
E
esse é todo o método de Tilopa e todo o método do Tantra:
"Sem fazer esforço"... porque, se fazes esforço, o ego se
robustece. Se fazes esforço, estás ali.
Portanto, o amor não é um esforço, não podes fazer esforço
para amar. Se fizeres esforço, não haverá amor. Tu fluis
para ele, tu não fazes esforço, simplesmente consentes que
ele aconteça; não fazes esforço. Não é uma ação, é uma
contecimento: "Sem fazer esforço"... E o mesmo se dá com o
final, com o total: tu não fazes esforço, simplesmente
flutua nele...
Mas
permanece desprendido e natural. essa é a forma, esse é o
próprio terreno de Tantra.
O Ioga diz que se faça esforço, o Tantra diz que não se faça
esforço. O Ioga é orientado para o ego - até que finalmente
ele abandone a si mesmo - mas Tantra, desde o princípio, é
orientado para o não-ego. O Ioga, ao final de sua prática,
atinge tal significação, sentido e profundidade, que diz
àquele que procura: "Agora, deixa cair o ego" - mas isto
apenas no fim. Tantra diz isso desde o inicio - e Tantra
leva à Meta Definitiva. O Ioga pode preparar para Tantra,
isso é tudo, porque o ato final deve ser feito sem esforço,
"desprendido e natural".
Que
entende Tilopa por "desprendido e natural"? Não lutes
consigo mesmo, desprende-te. Não tentes formar uma estrutura
em torno do teu caráter, de tua moralidade. Não te
disciplines demais, de outra forma tua própria disciplina se
tornará dependência. Não cries uma prisão em torno de ti.
Conserva-se desprendido, flutuando, move-te com a situação,
responde à situação. Não te movas com um colete-caráter em
torno de ti, não te movas numa atitude fixa. Permanece
desprendido como água e não imóvel como o gelo. Permanece
movendo-te e flutuando. Para onde a natureza te levar, vai.
Não resistas, não tentes impor coisa alguma a ti mesmo, ao
teu ser.
Toda
a sociedade, entretanto, ensina-te a impor algo aos outros.
Sê bom, sê moral, sê isto, sê aquilo. E Tantra está
inteiramente para além da sociedade, da cultura, da
civilização. Ele diz que, se fores demasiadamente culto,
perderás tudo quanto é natural e, então, serás uma coisa
mecânica, sem flutuar, sem fluir. Portanto, não forces uma
estrutura em torno de ti - vive momento a momento, vive em
vigilância. E isso já é profundo o bastante para ser
entendido.
Por
que razão as pessoas tentam criar uma estrutura em torno
delas? Para não necessitarem da vigilância - porque, se não
tiveres um caráter em torno de ti, precisarás estar muito,
muito atensivo: cada momento terás de tomar uma decisão. E
tu não tens decisões pré-derteminadas, não tens uma atitude.
No entanto, tens de responder a uma situação: algo está ali
e estás inteiramente despreparado para isso. Terás de ser
muito, muito consciente.
Para
evitar a vigilância as pessoas criaram um artifício, e o
artifício é o caráter, Force-se uma pessoa a determinada
forma de disciplina e, esteja ela ou não em vigilância, a
disciplina por si só ocupar-se-á de tomar conta. Tome-se
como hábito o dizer sempre a verdade, faça-se disso
realmente um hábito, e já não será mais preciso ter
preocupações. Alguém fará uma pergunta e, pela força do
hábito, será preciso dizer a verdade. Mas, dita pela força
do hábito, a verdade estará morta.
E a
vida não é tão simples. A vida é um fenômeno muito complexo.
Às vezes, uma mentira é necessária, como, às vezes, uma
verdade pode ser perigosa - devemos estar atentos. Por
exemplo, se através da nossa mentira a vida de alguém é
salva, se através dela ninguém é prejudicado e a vida de
alguém é salva, que faremos? Se tivermos a mente fixa na
idéia de que devemos ser verdadeiros, mataremos então, uma
vida.
Nada
é mais valioso do que a vida, verdade alguma é mais valiosa
do que a vida. E, às vezes, nossa verdade pode matar a vida
de alguém. Que farias? Só para salvar teu velho padrão e
hábito, teu próprio ego, o "sou um homem verdadeiro",
sacrificarias uma vida - só para ser um homem verdadeiro, só
por isso? Estarás completamente louco! Se uma vida pode ser
salva, mesmo que as pessoas te achem um mentiroso, que mal
há nisso? Por que dar tanta importância ao que as pessoas
dizem a teu respeito?
É
difícil! Não é assim tão fácil criar um padrão fixo porque a
vida segue, movendo-se e modificando-se e, a cada momento,
há uma nova situação para a qual é preciso dar resposta.
Responde com inteira consciência, isso é tudo. E deixa que a
decisão saia da própria situação, não pré-fabricada, não
imposta. Não tenhas contigo uma mente inteiramente
edificada; conserva-te desprendido e natural.
Assim é um homem realmente religioso. De outra forma, as
pessoas tidas como religiosas estão mortas. Agem de acordo
com seus hábitos, continuam agindo de acordo com seus
hábitos - isto é condicionamento, não liberdade. E percepção
exige liberdade.
Sê
desprendido: Recorda-te desta palavra o mais profundamente
possível. Deixa que ela penetre em ti: Sê desprendido, de
forma que, a cada situação, possas fluir facilmente como a
água. A água, quando despejada num copo, toma a forma desse
copo. Ela não resiste, ela não diz: "Essa não é minha
forma." Se a água for despejada num jarro, ou num cântaro,
toma a forma deles. Não tem resistência; é desprendida.
Conserva-te desprendido como a água.
Algumas vezes terás de mover-te para o norte, às vezes para
o sul. Terás constantemente de mudar de direção e, conforme
a situação, terás de fluir. Mas, se souberes como fluir,
isso bastará. O oceano não estará tão longe, se souberes
como fluir.
Portanto, não cries um padrão. Toda sociedade tenta criar um
padrão, e todas as religiões tentam criar um padrão. Só umas
poucas pessoas, pessoas iluminadas, têm sido corajosas o
bastante para dizer a verdade; e a verdade é esta: Sê
desprendido e natural! Se fores desprendido, serás natural,
é evidente.
Tilopa não diz: "Sê moral!" Mas diz: "Sê natural!" E essas
são dimensões diametralmente opostas. Um homem moral nunca é
natural, não pode sê-lo. Se se sentir encolerizado, não
poderá demonstrá-lo porque a moralidade não o permite. Se
sentir amor, não poderá amar porque a moralidade está
presente. É sempre de acordo com a moralidade que ele age, e
nunca de acordo com a sua natureza.
Eu,
porém, te digo: Se te começares a mover de acordo com
padrões morais, e não de acordo com a tua natureza, jamais
alcançarás o estado de Mahamudra, porque esse é um estado
natural, o mais alto grau do ser natural. Eu te digo: Se te
sentes encolerizado, mostra-te encolerizado - mas a perfeita
consciência deve ser retida. A cólera não deve sobrepor-se à
tua percepção; isso é tudo.
Deixa que a cólera flua, deixa que ela aconteça, mas
mantém-se inteiramente alerta para o que se passa. Permanece
desprendido, natural, consciente, observando o que acontece.
Aos poucos, verás que muitas dessas coisas simplesmente
desapareceram, já não acontecem; e sem qualquer esforço de
tua parte. Não tentaste suprimi-las e elas, no entanto,
desapareceram.
Quando uma pessoa está consciente, a cólera, aos poucos,
desaparece. Torna-se simplesmente estúpida - não má,
lembra-te, porque má tem valor majorado. Ela torna-se,
simplesmente, estúpida. Não será pelo fato de ela ser má que
tu deixarás de permanecer tomado por ela, mas sim porque
será uma tolice. Não um pecado, mas simplesmente uma
estupidez. A avidez desaparece, ela é estúpida. O ciúme
desaparece, ele é estúpido.
Lembra-se dessa avaliação. Na moralidade existe algo bom e
algo mau. E em ser natural existe algo sensato e algo
estúpido, não mau. Nada é mau, nem bom; só existem coisas
sensatas e coisas estúpidas. E, se és tolo, prejudicas a ti
próprio e aos demais. Se és sensato não prejudicas a ninguém
- nem aos outros, nem a tua própria pessoa.
Não existe pecado
não existe virtude
Sensatez é tudo.
Se a quiseres chamar virtude,
chama-a virtude.
E há a ignorância;
se a quiseres chamar pecado,
esse será o único pecado.
Assim, como transformar tua ignorância em sensatez? Essa é a
única transformação que importa e não podes forçá-la:
Acontecerá quando tiveres desprendido e natural.
"... permanecendo desprendido e natural, é possível quebrar
o jugo, ganhando, assim, a libertação."
E, então, a pessoa se torna totalmente livre. É difícil, a
princípio, porque os velhos hábitos constantemente
ressurgirão, forçando-te a fazer algo: Gostarias de ficar
encolerizado, mas o velho hábito simplesmente produzirá um
sorriso em teu rosto. Há pessoas que apesar de sorrirem,
podes estar certo, acham-se encolerizadas. Mesmo naquele
sorriso mostraram sua cólera. Ocultam algo e um falso
sorriso aflora em seus lábios. São esses os hipócritas.
Um
hipócrita é um homem não natural: Se nele há cólera, ele
sorri; se há ódio, demonstra amor; se há desejos assassinos,
simula compaixão. Um hipócrita é um perfeito moralista,
absolutamente artificial, flor de plástico, feia, que não se
quer usar. Não uma flor de verdade, mas uma simulação.
Tantra é o caminho natural: Sê desprendido e natural. Será
difícil, porque os velhos hábitos terão de ser rompidos.
Será difícil porque tens e terás de viver em uma sociedade
de hipócritas. Será difícil, porque em toda parte entrarás
em conflito com os hipócritas - mas será preciso passar por
isso. Será árduo, porque há muito empenho em ostentações
falsas e artificiais. Poderás sentir-se completamente a sós,
mas essa fase será passageira. Depressa outras virão,
sentindo a tua autenticidade.
Recorda-te: Mesmo uma cólera autêntica é melhor que um
sorriso falso, porque, pelo menos, é autêntica. E um homem
que não pode sentir-se autenticamente encolerizado não pode,
absolutamente, ser autêntico. Pelo menos ele é autêntico,
verdadeiro para com o seu ser. Seja o que for que aconteça,
poderás confiar nele, porque é verdadeiro.
E
minha observação é esta: uma verdadeira cólera é bela e um
falso sorriso é feio. Uma cólera verdadeira tem sua própria
beleza, tal como o verdadeiro amor - porque a beleza está
relacionada à Verdade. Não se relaciona ao ódio, nem ao
amor. A beleza diz respeito ao verdadeiro. A Verdade é bela,
seja qual for a forma que tome. Um homem verdadeiramente
morto é mais belo do que um homem falsamente vivo, porque ao
menos a qualidade básica de ser verdadeiro está presente
nele.
A
esposa de Mulla Nasrudin morreu. Os vizinhos reuniram-se,
mas Mulla Nasrudin permanecia em pé, completamente
tranqüilo, como se nada tivesse acontecido. Os vizinhos
começaram a gritar, a chorar e disseram: -"Que estás tu
fazendo aí, em pé, Nasrudin? Ela está morta!"
Nasrudin disse: - "Esperem! Ela era tão mentirosa que eu
devo esperar pelo menos três dias para ver se é verdade ou
não."
Mas
recorda-te disto: A beleza é a da Verdade, da autenticidade.
Torna-te mais autêntico, e florescerás. E, quanto mais
autêntico te tornares, mais sentirás que muitas coisas se
estão desprendendo por elas próprias. Tu não terás feito
esforço algum para que isso acontecesse; tal coisa,
tornar-te-ás mais e mais desprendido, mais e mais natural,
autêntico. E diz Tilopa:
... é possível quebrar o jugo
ganhando assim, a liberdade.
A liberdade não está
muito distante, está somente oculta atrás de ti. Desde que
sejas autêntico a porta se abrirá; mas és tão mentiroso,
simulador e hipócrita, tu és tão profundamente falso, que
sentes que a liberdade está muitíssimo distante. E não é
assim! Para um ser autêntico, a liberdade é apenas natural.
Tão natural como qualquer outra coisa.
Como a água flui em direção ao oceano,
Como o vapor ergue-se em direção ao céu,
Como o sol é quente e a lua é fria,
Assim é a liberdade para um ser autêntico.
Não
se trata de algo de que nos possamos gabar. Nada de que
possamos falar a outros, contando que a ganhamos.
Quando perguntaram a Lin Chi: - "Que te aconteceu? As
pessoas dizem que te tornas-te um iluminado" - ele encolheu
os ombros e disse: - "O que aconteceu? Nada; eu corto
madeira na floresta e levo água ao Ashran. Tiro água do poço
e corto madeira, porque o inverno está se aproximando." - E
sacudiu os ombros, num gesto muito significativo.
Estava dizendo - "nada aconteceu. Que tolice me estão
perguntando! Cortar lenha na floresta e tirar água do poço é
coisa natural. A vida é absolutamente natural." E Lin Chi
dizia ainda: "Quando sinto sono, vou dormir, quando sinto
fome, como. A vida tornou-se absolutamente natural."
Liberdade é seres perfeitamente natural. A liberdade não é
algo de que nos gabemos, dizendo que atingimos algo muito
grande. Nada é grande, nada é extraordinário. Tudo estará
sendo apenas natural, se fores tu mesmo.
Põe
de lado as tensões, põe de lado a hipocrisia, põe de lado
tudo quanto cultivaste em torno do teu ser, e torna-te
natural. De inicio será coisa muito árdua, mas só de inicio.
Desde que o consigas, outros também começarão a sentir que
algo te aconteceu, porque o ser autêntico possui muita
força, muito magnetismo. As pessoas começarão a sentir que
algo te aconteceu: "Este homem já não vive como se
pertencesse ao nosso meio, ele se tornou totalmente
diferente.” E não estarás perdido, porque apenas perdeste
coisas artificiais.
Assim que o vácuo for criado, com o descarte das coisas
artificiais, das simulações, das máscaras, então o ser
natural começará a florescer. Ele precisa de espaço.
Esvazia-te, sê desprendido e natural. Deixa que isso se
torne o princípio mais fundamental da tua vida. |