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Tantra - A Suprema Compreensão (Osho)
A natureza das trevas e da
luz
As trevas dos tempos
Não podem amortalhar o sol fulgente;
Os longos kalpas do samsara
Jamais podem esconder a luz brilhante da Mente.
Embora palavras sejam ditas para explicar o vácuo, O Vácuo,
tal como é, jamais pode ser explicado.
Embora digamos que a Mente é uma luz brilhante,
Ela está para além de todas as palavras e símbolos.
Embora a Mente esteja vazia em sua essência,
Contém e abarca todas as coisas.
Meditemos um pouco,
primeiro, sobre a natureza das trevas. Eis uma das coisas
mais misteriosas da existência – e tua vida está ligada a
essa questão, não podes deixar de pensar nela. Precisamos
entender a natureza das trevas, porque da mesma natureza é o
sono, da mesma natureza é a morte e da mesma natureza é toda
a ignorância.
A primeira coisa que te será
revelada, se meditares sobre as trevas, é que as trevas não
existem, não têm qualquer existência. É mais misteriosa a
treva do que a luz, e não tem absolutamente existência –
pelo contrário, não passa de ausência de luz. Não há trevas
em lugar algum, tu não as pode encontrar, elas não têm
existência em si mesmas; acontece, simplesmente, que a luz
não está presente.
Se há luz, não há trevas; se
não há luz, as trevas aparecem. A treva é a ausência de luz,
não a presença de alguma coisa. Por isso é que a luz vai e
vem, mas a treva permanece. Não é, mas permanece. Podes
criar a luz, podes destruir a luz, mas não podes criar a
treva e não podes destruir a treva. Ela está sempre ali, sem
absolutamente estar ali.
A segunda coisa que
compreenderás, se contemplares a treva, é que, por causa da
sua não-existência, nada podes fazer com ela. E, se tentas
fazer algo, tu serás derrotado. As trevas não podem ser
derrotadas, pois como podes derrotar algo que não é? E, se
fores derrotado, pensarás: “isso é muito poderoso, pois
derrotou-me.” Mas será absurdo! As trevas não têm poder;
como pode uma coisa que não é ter poder? Tu não és derrotado
pelas trevas e seu poder, tu és derrotado por tua
insensatez. Em primeiro lugar, começas-te a lutar – e isso
foi insensato. Como podes lutar com alguma coisa que não é?
Lembra-te: Tens estado lutando com muitas coisas que não
são, como as trevas.
A moralidade como um todo
luta contra as trevas, por isso é estúpida. O todo da
moralidade, incondicionalmente, é uma luta com as trevas,
uma luta com algo que não é.
O ódio não é real, é apenas
a ausência do amor.
A cólera não é real, é
apenas a ausência da compaixão.
A ignorância não é real, é
apenas a ausência do estado de Buda, da iluminação.
O sexo não é real, é apenas a ausência de brahmacharya.
E toda a moralidade continua
lutando contra o que não é. Um moralista jamais poderá obter
sucesso; é impossível que o tenha. Terá que ser derrotado,
finalmente, pois todo o seu esforço é insensato.
E essa é a diferença entre
religião e moralidade: a moralidade tenta lutar contra as
trevas e a religião tenta acordar a luz que está escondida
no interior. Não se preocupe com as trevas, mas, e
simplesmente, tenta encontrar a luz íntima. desde que a luz
ali esteja, as trevas desaparecerão. Desde que a luz ali
esteja, não precisarás fazer nada em relação às trevas -
elas, simplesmente, não existirão.
Esta é a segunda coisa: nada
pode ser feito contra as trevas, diretamente. Se desejas
fazer algo com as trevas, terás de fazer algo com a luz, não
com as trevas. Apaga a luz e as trevas ali estarão; acende a
luz, e as trevas já ali não estarão - mas não podes ligar e
desligar as trevas, não podes trazê-las de algures, não
podes expulsá-las. se quiseres fazer alguma coisa com as
trevas, deves fazê-lo por intermédio da luz, deves procurar
o caminho indireto.
Nunca lutes com as coisas
que não existem. A mente é tentada a lutar, e a atenção é
perigosa: desperdiçarás tuas energias, tua vida e te
desgastarás. Não te deixes tentar pela mente; vê,
simplesmente, se algo tem existência real, ou se é apenas
uma ausência. Se é uma ausência, não a combatas, mas procura
a coisa da qual ela é a ausência - e estarás, então, na
pista certa.
A terceira coisa sobre as
trevas é que elas estão profundamente envolvidas em tua
existência, de milhões de maneiras.
Sempre que estás
encolerizado, tua luz interior desaparece. Na verdade, estás
encolerizado porque a luz desapareceu, as trevas entraram.
Só podes estar encolerizado quando estais inconsciente; não
podes, conscientemente, encolerizar-te. Tenta isto: ou
perdes a consciência e a cólera se instala, ou permaneces
consciente e a cólera não aparece - não podes estar
encolerizado conscientemente. O que significa isso?
Significa que a natureza da consciência é exatamente igual à
da luz e que a natureza da cólera é exatamente igual à das
trevas - não podes ter ambas. Se tens a luz, não podes ter
as trevas; se estás consciente, não podes estar colérico.
As pessoas procuram-me
constantemente e perguntam como fazer para não se
encolerizarem. estão fazendo a pergunta errada, dificilmente
se consegue a resposta certa. Faze primeiro a pergunta
certa. Não perguntes como afastar as trevas, não pergunte
como afastar as preocupações, a angústia, a ansiedade.
Analisa tua mente e vê, antes de mais nada, por que elas
existem ali. Elas existem ali porque não és consciente o
bastante; portanto, faze a pergunta certa: como ser cada vez
mais consciente, ter cada vez mais maior percepção? Se
perguntares como fazer para não te encolerizares, serás
vítima de algum moralista. E, se perguntares como fazer para
estar mais consciente, de forma que a cólera não possa
existir, então estarás no caminho certo, então tu te
tornarás um investigador religioso.
A moralidade é uma moeda
falsa; engana as pessoas, não é, absolutamente, religião. A
religião não tem nada a ver com a moralidade, porque a
religião nada tem a ver com as trevas. Ela é um esforço
positivo para o despertar. Ela não se preocupa com o teu
caráter. Podes enfeitar, mas não mudar. Podes colori-lo de
muitas e belas maneiras, podes pintá-lo, mas não podes
mudá-lo.
Pode ocorrer somente uma
transformação, uma revolução; e a revolução não virá por
estar relacionada com o teu caráter, com os teus atos, com
aquilo que fazes, mas por estar relacionada com o teu ser.
Ser é um fenômeno positivo: desde que o ser está em alerta,
desperto, consciente, as trevas desaparecem, subitamente -
pois o ser é da natureza da luz.
A quarta coisa - e então
podemos entrar no sutra - diz que o sono é tal qual as
trevas. Não é por acaso que tens dificuldades em adormecer
quando existe luz; é que é simplesmente natural. As trevas
têm afinidade com o sono, por isso é tão fácil dormir à
noite. As trevas envolventes criam o ambiente no qual tu
podes adormecer muito facilmente.
Que acontece durante o sono?
Perdes gradualmente a consciência. Até que, durante um certo
intervalo, tu sonhas; o sonhar é um estado de
meia-consciência, exatamente o estado central, tendendo para
a inconsciência total. Do estado desperto estás seguindo
para a inconsciência total. No caminho existe o sonho, e os
sonhos significam, apenas, que estás meio desperto, meio
adormecido. Por isso é que, se sonhas continuamente, durante
toda a noite, sentes-te cansado pela manhã. E, se não
puderes sonhar, então também te sentirás cansado, porque os
sonhos existem por uma certa razão.
Durante as horas em que
estás desperto, acumulas muitas coisas, pensamentos,
sentimentos, assuntos incompletos, suspensos à mente. Vês
uma bela mulher no caminho e, subitamente surge o desejo em
ti. Mas és um homem de caráter, de maneiras, civilizado, de
modo que, repeles o desejo, não queres vê-lo, continuas com
o teu trabalho - e um desejo incompleto permanece suspenso
em tua mente. Ele precisa completar-se, de outra maneira não
poderás adormecer profundamente, porque ele virá de volta,
uma e mais vezes. E, dirá: - "Ouve! Aquela mulher é
realmente bela, seu corpo tem encanto. E tu és um tolo, o
que estás fazendo aqui? Procura-a. Tu perdeste uma
oportunidade!"
O desejo, suspenso, não
permitirá que adormeças. Então a mente cria um sonho: estás
de novo no caminho, a bela mulher passa, mas dessa vez estás
só e não há civilização alguma ao teu redor. Não há
necessidade de maneiras, nenhuma etiqueta é exigida. És como
um animal, natural; não há em ti moralidade. Aquele é o teu
mundo particular, não há policiamento que ali possa entrar,
não há juiz que ali possa julgar. Estás, simplesmente, a sós
e terás um sonho sexual. O sonho completa o desejo suspenso
e, então, adormeces. mas, se sonhares continuamente, também
te sentirás cansado.
Nos Estados Unidos existem
muitos laboratórios de sonhos; nesses laboratórios
descobriu-se este fenômeno: se uma pessoa não puder sonhar,
dentro de seis semanas ficará louca. É possível acordar
alguém, repentinamente, logo que começa a sonhar, porque há
sinais visíveis quando se começa a sonhar: as pálpebras,
particularmente, começam a mover-se rapidamente, o que
significa que a pessoa está tendo um sonho; quando não
sonha, as pálpebras permanecem em repouso. Isso acontece
porque quando sonha, os olhos funcionam. Acorde-se a pessoa;
repita isso durante toda a noite, sempre que ela comece a
sonhar - dentro de três semanas ela enlouquecerá.
O sono não parece ser tão
necessário. Se acordares uma pessoa, quando não estiver
sonhando, ela se sentirá cansada, mas não enlouquecerá. Que
significa isso? Significa que os sonhos são uma necessidade
para nós. Somos tão iludidos, toda a nossa existência é
feita de tanta ilusão - o que os hindus chamam maya - que os
sonhos se fazem necessários. sem sonhos não podes existir:
os sonhos são o teu alimento, os sonhos são a tua força; sem
sonhos, enlouquecerias. Os sonhos te desligam da loucura e,
assim que esse desligamento acontece, tu adormeces.
Do estado desperto passas ao
sonho, e do sonho passas ao sono. Durante toda a noite, uma
pessoa passa por oito ciclos de sonhos; entre dois desses
ciclos há algum momento de sono profundo. No sono profundo
toda a consciência desaparece, tudo é inteiramente escuro.
Mas ainda estás na fronteira, pois qualquer emergência te
despertará; se a casa se incendeia, voltas à tua consciência
desperta; ou, se és mãe e teu filho começa a chorar, tu
corres, rapidamente para o despertar - de forma que
permaneces na fronteira. Penetras nas trevas profundas, mas
permaneces na fronteira.
Na morte, cais exatamente no
centro. A morte e o sono são similares, a qualidade é a
mesma. No sono, todos os dias, tu entras nas trevas, nas
trevas completas; torna-te completamente inconsciente, cais
num estado exatamente oposto ao estado de Buda. Um Buda está
totalmente desperto, ao passo que, a cada noite, tu tombas
totalmente adormecido, em trevas absolutas.
No Gita, Krishna diz a
Arjuna que, mesmo quando todos estão bem adormecidos, o
iogue permanece acordado. Isso não significa que ele nunca
durma: ele dorme, mas só seu corpo é que o faz, seu corpo
descansa. Ele não tem sonhos porque não tem desejos; se não
tem desejos, ele não pôde tê-los incompletos. E ele não
dorme, como tu - mesmo no mais profundo descanso, sua
consciência é clara, sua consciência arde como uma chama.
Todas as noites, quando
adormeces, entras em profunda inconsciência, em coma. Na
morte, entras em coma ainda mais profundo. Todas essas
situações são como as trevas e, por isso, tens medo da
escuridão. Porque ela se parece à morte. E há pessoas que
também têm medo de dormir, porque o sono também se parece
com a morte.
Conheci muitas pessoas que
queriam dormir, mas não conseguiam. Quando tentei
compreender-lhes as mentes, percebi que elas eram,
basicamente, temerosas. Diziam desejarem dormir porque
estavam fatigadas, mas bem no fundo receavam o sono - e isso
é que criava toda a perturbação. Noventa por cento das
insônias referem-se ao temor do sono. Tens medo. Tens medo
da escuridão, tens medo também de dormir; e esse medo se
relaciona ao medo da morte.
Se compreenderes que tudo
isso é escuridão e que tua natureza interior é a da luz, as
coisas começarão a se modificar. Então não haverá sono para
ti, apenas repouso; então não haverá morte para ti, apenas
uma mudança de roupagem, de corpos, uma mudança de
vestuário. Mas isso só poderá acontecer, se compreenderes a
flama interior, tua natureza, teu mais íntimo ser.
O Sutra:
As trevas dos tempos
não podem amortalhar o sol fulgente;
os longos kalpas do samsara
jamais podem esconder a luz brilhante da Mente.
Os que despertaram chegaram
a compreender que... as trevas dos tempos não podem
amortalhar o sol fulgente.
Tu podes ter vagado entre as
trevas durante milhões de vidas, mas não podes destruir tua
luz interior, porque as trevas não podem ser agressivas.
Elas não existem: como pode aquilo que não existe, ser
agressivo? As trevas não podem destruir a luz - como podem
as trevas destruir a luz? Mesmo uma chama pequena as trevas
não podem destruir; não podem saltar sobre ela, não podem
entrar em conflito com ela - como podem as trevas destruir
uma chama? Como podem as trevas amortalhar uma chama? Isso
é impossível, jamais aconteceu, porque simplesmente não pode
acontecer.
Mas as pessoas continuam
pensando em termos de conflito: pensam que as trevas estão
contra a luz. Isso é absurdo! As trevas não podem estar
contra a luz Como pode uma ausência estar contra aquilo de
que ela é a ausência? As trevas não podem estar contra a
luz: não há luta, há, simplesmente, ausência: pura ausência,
pura impotência - portanto, como pode ela atacar?
Tu continuas dizendo: "Que
posso eu fazer? Tive uma crise de cólera." - isso é
impossível: "Tive uma crise de ganância" - isso é
impossível. A ganância não pode atacar, a cólera não pode
atacar: elas são da natureza das trevas, e teu ser é luz:
assim, a simples possibilidade não existe. A cólera surge
apenas porque a tua chama interior foi completamente
esquecida, tu te tornaste inteiramente olvidado dela, não
sabes que ela existe. Esse esquecimento é que pode
amortalhá-la, mas não as trevas.
Assim, a escuridão
verdadeira é o teu esquecimento, que, por sua vez, chama a
cólera, a ganância, a sensualidade, o ódio, o ciúme. Mas não
são eles que te atacam. Lembra-te: tu foste o primeiro a
enviar o convite, vieram como hóspedes, como convidados.
Podes ter esquecido que lhes fizeste o convite; podes
esquecer, porque esqueceste a ti mesmo, podes esquecer tudo.
Esquecimento: eis a real
escuridão.
E, no esquecimento, tudo
acontece: tu és como um ébrio, te esqueceste inteiramente de
ti mesmo, de quem és, para onde vais, de por que vais.
Perdeste todas as direções; o teu próprio censo de direção
já não mais existe: és um ébrio. Por isso é que todos os
ensinos religiosos básicos insistem na auto-recordação. O
esquecimento é a doença; assim, a auto-recordação deve ser o
antídoto.
Tenta lembrar de ti mesmo.
Dirás: - "Conheço-me e me lembro de mim! De que estás
falando?" - Então, tenta: mantém um relógio de pulso diante
de ti, olha para o ponteiro que mostra os segundos e recorda
apenas uma coisa: "Estou olhando para este ponteiro que
marca os segundos." Não conseguirás recordar durante três
minutos seguidos; esquecerás por muitas vezes uma coisa tão
simples: "Estou olhando e me recordarei do que estou
olhando."
Esquecerás; muitas coisas
virão à tua mente: tens um encontro e, o fato de olhar para
o relógio far-te-á lembrar-te: "às cinco horas tenho de
encontrar-me com um amigo." Surge um pensamento e te
esqueces de que estavas olhando para o ponteiro. Só por
estares olhando para o relógio, podes começar a pensar na
Suíça, porque ele foi feito lá. Basta olhar para o relógio,
e podes começar a pensar: - "Como sou tolo. Que estou
fazendo aqui, perdendo tempo?" - Mas não te conseguirás
recordar, mesmo durante três segundos consecutivos, de que
estás olhando para o ponteiro que se move marcando os
segundos.
Se fores capaz de conseguir
um minuto de auto-recordação, eu prometo fazer de ti um
Buda. mesmo por um minuto, sessenta segundos, será o
bastante. Pensarás: - "Tão barato, tão fácil?" - e não é.
Não sabes o quão profundo é o teu esquecimento. Não poderás
fazer isso durante um minuto, continuamente, sem que um só
pensamento venha a perturbar tua auto-recordação.
Essa
é a escuridão real.
Se recordares, tornar-te-ás luz.
Se esqueceres, tornar-te-ás treva.
E, às trevas, naturalmente,
chega toda espécie de ladrões; toda sorte de gatunos te
assaltam, toda sorte de contratempos acontecem.
A auto-recordação é a chave.
tenta recordar, mais e mais, porque, quando tentas recordar
mais e mais, tornas-te centralizado, estás em ti mesmo, tua
mente viajeira volta ao seu próprio eu. De outra maneira
irás por aí: a mente está continuamente criando novos
desejos, e seguirás e perseguirás a mente em muitas
direções, simultaneamente. Por isso é que te encontras
dividido; não és um, e tua chama, a chama interior, continua
vacilando - uma folha sob vento forte.
Quando a flama interior se
torna inabalável, passas, subitamente, por uma mutação, uma
transformação; um novo ser nasce, um ser da natureza da luz.
No momento, és da natureza das trevas, és, simplesmente, a
ausência de algo possível. Na verdade, não és ainda;
ainda não nasceste. Tiveste muitos nascimentos e mortes, mas
ainda não nasceste. Teu nascimento real ainda deve
acontecer, e esse nascimento se dará quando transformares
tua natureza interior, passando do esquecimento para a
auto-recordação.
Não te imponho nenhuma
disciplina, não te digo: "Faze isso e não faças aquilo".
Minha disciplina consiste no fazer o que se deseje - mas
fazê-lo com auto-recordação: faze com que te lembres do que
estás fazendo. Ao caminhar, lembra-te de que estás
caminhando. Não será preciso verbalizar, porque a
verbalização não ajudará. pois poderá torna-se uma
distração. Não precisas andar, dizendo intimamente "estou
andando" será o esquecimento, e, então, não conseguiras
recordar. Lembra-te, simplesmente: não há necessidade de
verbalizar tuas ações.
Eu verbalizo porque estou
falando contigo; mas quando estiveres andando, recorda,
simplesmente, o fenômeno, o andar; cada passo deve ser dado
com plena consciência. Comer, comendo. Não estabeleço o que
comer e o que não comer. Come o que quiseres, mas com
auto-recordação do que estás comendo. E depressa verás que
se tornou impossível fazer muitas coisas.
Com auto-recordação, não
podes comer carne, é impossível. É impossível ser violento,
se recordares. É impossível prejudicar seja quem for porque,
quando recordas a ti próprio, vês, subitamente, que a mesma
luz, a mesma chama está ardendo em toda parte, dentro de
cada corpo, de cada unidade. Quanto mais conheceres tua
natureza interior, mais penetrarás a do outro. Como poderás
matar para comer? Comer carne tornar-se-á simplesmente
impossível. Não que faças disso uma prática; seria falso, se
fosse uma prática. Será falso te empenhares em ser ladrão;
tu continuarás a ser ladrão; encontrarás formas sutis de
sê-lo. Se praticares a não-violência, atrás dela estará
escondida a tua violência.
Não, a religião não pode ser
praticada, A moralidade pode ser praticada e, por isso, cria
hipócritas, cria rostos falsos. A religião cria seres
autênticos; não pode ser praticada, Como podes praticar o
ser? Torna-se simplesmente mais consciente, e as cosias
começarão a se modificar. Torna-te mais da natureza da luz,
simplesmente, e as trevas desaparecerão.
As trevas dos tempos
não podem amortalhar o sol fulgente...
Durante milhões de vidas,
por muitas eras, permaneceste nas trevas; mas não te sintas
deprimido nem desesperançado, porque, mesmo tendo estado nas
trevas durante milhões de vidas, neste mesmo momento podes
alcançar a luz.
Observa: supõe que uma casa
ficou fechada, durante cem anos, no escuro; tu entras nelas
e acendes uma luz. Dirá a escuridão: "Eu tenho cem anos e
esta luz mal acaba de nascer"? Dirá a escuridão: "Não vou
desaparecer. Terás de acender uma luz durante, pelo menos
cem anos e só então desaparecerei"? Não; mesmo uma luz
acabada de nascer é suficiente para dispersar uma escuridão
muito antiga. Será que, em cem anos, a escuridão se fez
inveterada? Mas não, a escuridão não se pode ter feito
inveterada, porque não existe. Ela apenas espera pela
luz - no momento em que a luz penetra, a escuridão
desaparece; ela não pode resistir, porque não tem
existência positiva.
Há quem venha a mim,
dizendo: - "Tu dizes que a Iluminação súbita é possível.
Então, o que acontece com as nossas vidas passadas e nossos
passados karmas?" - Nada. Eles são da natureza da escuridão.
Tu podes ter sido um assassino, tu podes ter sido um ladrão,
assaltante, tu podes ter sido um Hitler, um Gengis Khan, ou
até pior, que não faz diferença. Desde que te recordas de ti
mesmo, a luz se fará presente e todo o passado imediatamente
desaparecerá; não permanecerá mais nem por um só momento. Se
mataste, isso não significa que sejas um assassino. Mataste
porque não estavas consciente de ti mesmo, não estavas
consciente do que fazias.
Conta-se que Jesus disse, na
cruz: "Perdoai-lhes, Pai, porque não sabem o que fazem. Ele
estava dizendo: " Eles não são da natureza da luz, não se
recordam de si próprios. Estão agindo em completo
esquecimento, movem-se e tropeçam na escuridão.
Perdoai-lhes; eles não são responsáveis pelo que quer
que façam." Como pode uma pessoa que não se recorda de si
própria se responsável?
Ser responsável significa
recordar.
Seja o que for que tenhas
feito, digo-te, não te preocupes. Aconteceu porque não
estavas consciente. Acende tua chama interior, procura-a,
busca-a, ela existe - e, de um momento para outro, todo o
passado desaparecerá, como se tudo tivesse acontecido num
sonho. Na verdade, teu passado foi um sonho, porque não
estavas consciente. Todos os karmas aconteceram em sonho;
são da mesma matéria com que são feitos os sonhos.
Não precisas esperar que
teus carma sejam esgotados - caso contrário, terás de
esperar por toda a eternidade. Mesmo estão, não poderás sair
da roda porque, simplesmente, não podes esperar pela
eternidade: estarás fazendo muitas coisas, nesse entretempo,
e, então, o circulo jamais se completará. Tu te moverás
continuamente e, continuamente farás coisas e novas coisas
te ligarão a outras coisas futuras - e, então, onde estará o
fim? Não, não há necessidade. Simplesmente, faze-te
consciente e, de súbito, todos os karmas tombam. Num só
momento de intensa consciência, todo o passado desaparece,
torna-se refugo.
Essa é uma das coisas
mais fundamentais que o Oriente descobriu. O
cristianismo não pode entendê-la. Continua a pensar em
termos de julgamento, Dia do Juízo Final, quando todos
deverão ser julgados pelos seus atos. Se assim fosse, Cristo
Ter-se-ia enganado quando disse: "Perdoai-lhes porque não
sabem o que fazem." Os judeus não podem entender isso; os
muçulmanos também não podem entender isso.
Os hindus pertencem,
realmente, à mais audaciosa das raças; penetraram no âmago
do problema: o problema não é agir, o problema é
ser. Desde que compreenda teu ser interior e a luz, já
não serás deste mundo. O que quer que tenha acontecido no
passado foi um sonho. Por isso dizem os hindus que todo este
mundo é um sonho; só tu não és um sonho, só o sonhador não é
u sonho. À exceção de ti, tudo é um sonho.
Observa a beleza desta
verdade: só o sonhador não é um sonho; o sonhador não pode
ser um sonho porque, de outra maneira, o sonho não poderia
existir. Pelo menos alguém, o sonhador, tem de ser um
fenômeno real.
Durante o dia tu estás
acordado e fazes várias coisas: vais à loja, vais ao
mercado, trabalhas numa fazenda, ou numa fábrica, fazes
milhões de cosias. À noite, quando adormeces, te esqueces de
tudo, tudo desaparece e um novo mundo tem início - o mundo
do sonho. E, agora, os cientistas dizem que deves dar ao
sonho o mesmo tempo que dás ao despertar. O mesmo número de
horas que passas acordado, deves passar dormindo. Em
sessenta anos, se vinte anos forem devotados ao trabalho,
que realizas acordado, vinte anos deverão ser devotados ao
sonho. O mesmo tempo, exatamente o mesmo tempo, deve ser
devotado ao sonho. Assim, o sonho não menos real, tem o
mesmo valor.
À noite tu sonhas e te
esqueces de teu mundo desperto. Em profundo sono, esqueces
tanto o teu mundo desperto, como o teu mundo de sonho. Pela
manhã, novamente no mundo desperto, que voltou a existir, te
esqueces de teu sonho e de teu sono. Mas uma coisa permanece
continuadamente: TU. Quem recorda os sonhos? Pela manhã,
quem diz: "Sonhei na noite passada"? Pela manhã, quem diz:
"Na noite passada, dormi bem, profundamente, sem sonhar"?
Quem?
Para que isso ocorra, deve
haver uma testemunha que permanece a teu lado, que sempre
fica de lado, observando. O despertar vem, o sonho vem, o
sono vem e alguém está a teu lado observando. Só isso é
real, porque existe em todos os estados. Outros
estados desaparecem, mas essa presença permanece em todos os
estados; é a única coisa permanente em ti.
Alcança essa testemunha cada
vez mais. Torna-se mais e mais alerta, torna-te mais e mais
uma testemunha. Em lugar de ser um ator, no mundo, sê uma
testemunha, um espectador. Tudo o mais é sonho; só o
sonhador é a verdade. Ele precisa ser verdadeiro; se não o
for, com acontecerão os sonhos? Ele é a base. As ilusões só
acontecerão se ele ali estiver.
E, desde que te recordes,
começarás, a rir. Que tio de vida existe sem a recordação?
Tu és um ébrio, passando de um estado a outro, sem saber
porquê, vagando sem direção. Mas:
As
trevas dos tempos não podem
ocultar o sol fulgente;
os longos kalpas do samsara...
(milênios, longas eras, kalpas),
... jamais podem escolher a luz brilhante da Mente.
Ela
está sempre ali, é o teu próprio ser.
Embora palavras sejam ditas para explicar o Vácuo,
o Vácuo, tal como é, jamais pode ser explicado.
Embora digamos "a mente é uma luz brilhante",
ela fica para além de todas as palavras e símbolos.
Uma coisa ajudará a
entender. Há três abordagens possíveis da realidade: uma é a
abordagem empírica, a abordagem da mente científica, feita
com base na experimentação com o mundo objetivo e, a não ser
que algo seja provado pela experiência, não é aceito. A
outra abordagem é a da mente lógica. Essa não realiza
experiências; pensa, simplesmente, argumenta, encontra prós
e contras, e, só pelo esforço mental , raciocinando,
conclui. E a terceira abordagem é a metafórica, a abordagem
da poesia e da religião. Essas três abordagens existem: Três
dimensões através das quais procura-se chegar à realidade.
A ciência não pode ir além
do objeto, porque a própria abordagem cria a limitação. A
ciência não pode ir além do exterior, porque as experiências
são são possíveis com o que é externo. A filosofia e a
lógica não podem ir além do subjetivo, porque são esforços
da mente, trabalhos da mente. Não é possível dissolver a
mente, não é possível a ninguém ir além da mente. A ciência
é objetiva, a lógica e a filosofia são subjetivas. A
religião e a poesia vão além: são pontes de ouro que ligam o
objeto à substância. E, então, tudo se transforma num caos -
criativo, naturalmente. Na verdade, não há criatividade se
não houver caos. Tudo se torna indiscriminado e as divisões
desaparecem.
Eu gostaria de dizer o que
disse da seguinte forma: a ciência é abordagem do dia, em
pleno meio-dia; tudo é claro, distinto, delimitado e podes
ver bem o outro. A lógica é a abordagem da noite; é o tatear
no escuro apenas com a mente, sem qualquer apoio
experimental, apenas usando o pensamento. A poesia e a
religião são abordagens crepusculares, estão exatamente no
meio:
Já
não é dia,
o brilho do meio-dia se foi,
as coisas não aparecem tão distintas, tão claras.
A noite ainda não veio,
as trevas ainda não envolveram tudo.
As trevas e o dia se encontram,
há um brando acinzentado,
nem branco nem preto -
fronteiras encontram-se e fundem-se,
tudo se torna indiscriminado,
tudo é outro tudo.
Essa é a abordagem metafórica.
É por isso que a poesia fala
por metáforas; e a religião é a poesia definitiva, a
religião fala por metáforas. Lembra-te, as metáforas não
devem ser tomadas literalmente, senão perdes o propósito.
Quando digo "luz interior", não penses em termos literais.
Quando digo "luz interior", faço uso de uma metáfora. Algo é
indicado, mas não é demarcado ou definido. Algo que tem a
natureza da luz, mas não exatamente a luz - eis a metáfora.
E isso torna-se um problema,
porque a religião fala por metáforas; não pode falar de
outra maneira, não há outra maneira. Se estive num outro
mundo onde vi flores que não existem nesta terra, e chego
junto a ti para falar dessas flores, que poderei fazer?
Terei de usar metáforas e símiles. Direi "como rosas" - mas
não eram rosas. Se assim não fosse, por que diria "como
rosas, se simplesmente poderia dizer "rosas?". Mas não se
trata de rosas, aquelas flores têm uma qualidade diferente.
"Tal como" significa que
estou tentando ligar meu conhecimento do outro mundo a teu
conhecimento deste mundo - daí os símiles, as metáforas. Tu
conheces rosas, mas não conheces as flores de um outro
mundo. Eu as conheço e tento transmitir-te algo daquele
mundo; por isso digo que as flores são tal como rosas. Não
te zangues comigo, quando chegares àquele mundo e não
encontrares rosas; não me arrastes a um tribunal, porque
jamais tive a intenção de ser literal. Apenas a qualidade da
rosa é indicada, apenas um gesto, um dedo apontando para a
lua e esquece o dedo . Esse é o significado da metáfora: Não
te agarres à metáfora.
Muitas pessoas mergulham
fundo em águas escuras por causa disso: agarram-se à
metáfora. Eu falo em luz interior e, depois de alguns dias,
as pessoas começam a procurar-me, dizendo: "Vi a luz
interior". Encontram as rosas daquele outro mundo, mas elas
não existem neste mundo. Por causa da linguagem metafórica,
muitas pessoas tornam-se, simplesmente, imaginativas.
P. D. Ouspensky criou uma
palavra: imaginazione. Sempre que alguém chegava e começava
a falar a respeito de experiências interiores, como: "O
kundalini surgiu; vi uma luz em minha cabeça; os chakras
estão se abrindo", ele imediatamente fazia-o calar-se,
dizendo: "Imaginazione." Então as pessoas perguntavam: - "o
que vem a ser esta imaginazione?" - E ele respondia: - "A
doença da imaginação" - e, simplesmente, deixava morrer o
assunto. Ou dizia, imediatamente: "Pára! Tu foste a vítima."
A religião fala por
metáforas; não há outra forma, porque a religião fala de um
outro mundo, o mundo do além. tenta encontrar símiles neste
mundo, usa palavras impróprias, mas essas palavras
impróprias são as únicas disponíveis, de forma que temos de
usá-las.
Podes entender facilmente a
poesia. A religião é mais difícil, porque, quando se trata
de poesia, tu já sabes que é imaginação e não há problemas.
Podes entender facilmente a ciência, porque sabes que não é
imaginação, que é um fato empírico. Podes entender
facilmente a poesia; sabes que é poesia, mera poesia,
enfim, é imaginação. Excelente! Bela! Podes deleitar-te com
ela - ela não é uma verdade.
E o que farás com a
religião? A religião é a poesia definitiva. Não é
imaginação. E, digo-te, é empírica; tão empírica quanto a
ciência, mas não pode usar expressões científicas, porque
são demasiadamente objetivas. Não pode usar expressões
filosóficas, porque são demasiadamente subjetivas. Deve usar
algo que não é nem uma coisa, nem outra; deve usar algo que
ligue ambas - e use a poesia.
Toda religião é poesia
definitiva, poesia essencial. Não encontrarás poeta maior
que Buda. Naturalmente, ele jamais tentou escrever um só
poema. Estou aqui, contigo, e sou um poeta. Não compus um só
poema, nem mesmo um haikai, mas estou continuamente
falando por metáforas, estou continuamente tentando
preencher o espaço que é criado pela ciência e pela
filosofia. Estou tentando dar-te a sensação do todo, do
indiviso.
A ciência é metade, a
filosofia é metade - que fazer? Como obter a idéia do todo?
Se mergulhares na filosofia, chegarás ao que Shankara
chegou. Ele disse: “O mundo é ilusório, não existe; apenas a
consciência existe.” Mas essa afirmação é demasiadamente
unilateral. Se te ligares a cientistas, chegarás ao que Marx
chegou - Marx e Shankara são pólos opostos. Marx disse: “Não
há consciência; só o mundo existe.” E eu sei que ambos estão
certos e ambos estão errados. Ambos estão certos, porque
estão dizendo meia verdade e ambos estão errados, porque
estão negando a outra metade. E, se tenho que falar no todo,
como fazê-lo? A poesia é a única forma; a metáfora é a única
saída. Lembra-te disto:
Embora palavras sejam
ditas para explicar o Vácuo, o Vácuo, tal como é, jamais
pode ser explicado.
Por isso é que os sábios
continuam insistindo: “Seja o que for que digamos, não
podemos dizê-lo. É o inexprimível, e, ainda assim, tentamos
explicá-lo.” Sempre dão ênfase a esse fato, porque existe a
possibilidade de serem compreendidos literalmente.
O Vácuo é vácuo, no sentido
de que nada do que és será ali deixado; mas o Vácuo não é
vácuo em outro sentido, porque o Todo descerá até ele - o
Vácuo será o mais perfeito e realizado fenômeno. Portanto,
como dizê-lo? Se digo “Vácuo”, tua mente, de súbito, pensa
que é o nada: então, por que estar preocupado? E, se digo
que não é o vácuo; que é o ser mais perfeito, tua mente
entra num “caminho-de-ambição”: como tornar-se o ser mais
perfeito - e então o ego introduz-se nela.
Para afastar o ego, a
palavra vácuo é enfatizada. Mas, para te tornar consciente
do fato de que o Vácuo não é realmente um vácuo, diz-se,
também, que ele está tomado pelo Todo.
Quando não és, toda a
existência vem ter contigo.
Quando a gota desaparece,
torna-se o oceano.
Embora digamos que “a
Mente é uma luz brilhante”, ela está para além de todas as
palavras e símbolos.
Não te deixes iludir pela
metáfora; não te ponhas a imaginar uma luz interior. Fazer
isso é imaginazione. Podes fechar os olhos e imaginar
uma luz. És tão bom sonhador, pode sonhar com tantas coisas,
por que não com uma luz?
A mente tem a faculdade de
criar qualquer coisa que desejes; basta apenas um pouco de
persistência. Podes criar belas mulheres em tua mente, por
que não uma luz? Que há de errado com a luz? Podes criar
mulheres tão lindas, na mente, que mulher alguma, na vida
real, poderá ser satisfatoriamente comparada a elas, pois
jamais lhes alcançará o padrão. Podes criar todo um mundo de
experiências interiormente. Atrás de cada sentido há um
centro imaginativo próprio.
Na hipnose, a imaginação
começa trabalhando com toda a sua capacidade e a razão,
adormecida, desaparece completamente. A hipnose nada é senão
o sono da razão, o sono daquela que duvida; por isso, na
hipnose, a imaginação funciona perfeitamente. Não há freio
para ela, apenas aceleração - tu segues para a frente, para
a frente, sem encontrar freio.
Sob hipnose tudo pode ser
imaginado. Podes dar uma cebola a uma pessoa hipnotizada e
dizer-lhe: “Aqui está uma linda e deliciosa maçã.” Ela
comerá a cebola e dirá: “É realmente linda. Jamais comi uma
maçã tão deliciosa.” Se lhe deres uma maçã dizendo tratar-se
de uma cebola, os olhos dela começarão a encher-se d’água e
o comentário será: “Muito, muito forte” - e estará comendo
uma maçã. Por que isso acontece? Aquela que duvida, a razão,
não está presente; há uma hipnose; aquela que duvida
adormeceu. Agora, a imaginação funciona e não há controle.
Esse é, também, o problema da religião.
A religião precisa de
confiança. A confiança pode fazer com que a faculdade de
duvidar da mente adormeça; é parecida à hipnose. Assim,
quando as pessoas te dizem “Esse homem, esse Rajneesh
hipnotizou-te”, têm razão, de certa forma: se confias em
mim, estás como que hipnotizado. Bem acordado deixaste que
tua razão se desvanecesse - e, agora, a imaginação funciona
com capacidade total; agora estás numa situação perigosa.
Se deres oportunidade à
imaginação, poderás imaginar toda sorte de coisas:
kundalini está chegando, chakras se estão
abrindo. Toda sorte de coisas tu poderás imaginar, e elas
acontecerão contigo. E são belas - mas não são verdadeiras.
Assim, quando confiares numa pessoa, mesmo confiando deves
ter consciência da imaginação. Confia, mas não te tornes uma
vítima da imaginação. O que quer que esteja sendo dito aqui
é metafórico. E recorda-te, sempre, de que todas as
experiências são imaginação. Todas as experiências, digo eu,
incondicionalmente - só o experimentador é a verdade.
Assim, seja qual for a tua
experiência, não lhe dês muita atenção e nem comeces a
gabar-te dela. Lembra-te, apenas, de que tudo quando é
experimentado é ilusório; só aquele que realiza a
experiência é verdadeiro. Atenta para a testemunha; focaliza
a testemunha, e não as experiências. Por mais belas que
sejam, todas as experiências são semelhantes ao sonho e é
preciso que se vá além delas.
Assim, se a religião é
poética, temos de falar metaforicamente. O discípulo que
confia profundamente pode, facilmente, ser vítima da
imaginação - é preciso estar bem alerta. Confia, ouve as
metáforas, mas recorda-te de que são apenas metáforas.
Confia; muitas coisas começarão a acontecer, mas lembra-te:
tudo é imaginação, menos tu. E tens de chegar a um ponto
onde não há experiências, onde só existe o experimentador,
silenciosamente; nenhuma experiência se faz, não há objetos,
nem luz, nem flores desabrochando - nada.
Lin-Chi estava em seu
mosteiro, um pequeno mosteiro no alto de uma colina.
Sentava-se sob uma árvore, perto de uma rocha, e alguém
perguntou: “O que acontece quando alguém atingiu?” E Lin-Chi
disse: - “Eu estou sentado aqui, sozinho: as nuvens passam e
eu observo, as estações vêm e eu observo, visitantes às
vezes aparecem e eu observo. E fico sentado aqui, sozinho.”
Só a testemunha, a
consciência, permanece observando tudo. Todas as
experiências desaparecem e só o próprio cenário de todas as
experiências permanece. Tu permaneces; tudo está perdido.
Lembra-te, porque confias em mim, que falo por metáforas - e
então a imaginação é possível. Imaginazione: cuidado
com essa doença.
Embora digamos que “a
mente é uma luz brilhante”, ela está para além de todas as
palavras e símbolos.
Embora a mente seja
vazia em sua essência, contém e abarca todas as coisas.
Essas afirmativas parecem
contraditórias: dizem que a mente é vazia e, logo depois,
que ela contém tudo. Por que essas contradições? Porque essa
é exatamente a natureza de toda a experiência religiosa. As
metáforas precisam ser usadas, mas imediatamente deves ser
alertado para não te tornares vítima das metáforas.
Ela é vazia em essência,
mas contém todas as
coisas.
Quando te tornares
totalmente vazio,
só então, poderás ser
completo.
Quando já não fores,
então, pela primeira vez,
serás.
Diz Jesus:
Se te perderes,
alcançarás.
Se te agarrares a ti
mesmo, perder-te-ás.
Se morreres, renascerás.
Se puderes apagar-te
completamente,
Tornar-te-ás eterno,
tornar-te-ás a própria eternidade.
Todas essas palavras são
metáforas, mas, se confiares, amares, permitires que teu
coração se abra para mim, então poderás entendê-las. Esse
entendimento ultrapassa todos os entendimentos. Não é
intelectual, mas se dá de coração a coração. É uma energia
que salta de um coração para outro.
Estou aqui tentando falar
contigo, mas isso é secundário. O essencial é saber se estás
aberto para que eu possa derramar-me em ti. Se minha
conversa contigo puder ajudar a fazer-te cada vez mais
aberto, já terá cumprido sua tarefa. Não estou tentando
dizer-te algo, estou apenas tentando fazer-te mais aberto -
isso é o bastante. Então, poderei derramar-me em ti... pois,
a não ser que sintas o meu sabor, não poderás compreender o
que estou dizendo. |