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Tantra - A Suprema Compreensão (Osho)
Sê como um bambu oco
Nada faças com o corpo,
mas relaxa;
Fecha com firmeza a boca a permanece silente;
Esvazia a mente e em nada penses.
Como um bambu oco, repousa bem teu corpo.
Sem dar nem tomar, repousa tua mente.
Mahamudra é como a mente que a nada se prende.
Assim praticando alcançarás, em tempo, o estado de Buda.
Antes de mais nada, a
natureza da atividade e as correntes nela ocultas têm de ser
entendidas, pois se não, o repouso será impossível. Mesmo
que desejes, relaxar te será impossível se não tiveres
observado, contemplado, compreendido a natureza da tua
atividade; e a atividade não é um fenômeno simples.
Muitas pessoas gostariam de
relaxar, mas não o conseguem. O repouso é como um florescer:
não o podes forçar. Deves compreender todo o fenômeno: por
que és tão ativo, por que tanta ocupação com atividade, por
que estás obcecado por ela.
Lembra-te de duas palavras:
ação e atividade. A ação não é atividade e a
atividade não é ação. Suas naturezas são diametralmente
opostas. A ação existe quando a situação a solicita: tu
ages, tu respondes. A atividade existe não importa quando,
pois não é uma resposta. És tão inquieto interiormente que a
situação é apenas uma desculpa para tua atividade.
A ação advém de uma mente
silenciosa e é a coisa mais bela do mundo. A atividade advém
de uma mente inquieta e é a mais feia. A ação existe quando
há um propósito. A atividade é inconveniente. A ação existe
de momento para momento, é espontânea. A atividade está
carregada do passado. Não é uma resposta ao momento
presente, é, antes, o derramar-se da inquietação que vens
trazendo do passado, para o presente. A ação é criativa. A
atividade é muito, muito destrutiva - destrói-te, destrói os
outros.
Tenta perceber a delicada
distinção. Por exemplo: se tens fome e, então, comes,
trata-se de uma ação. Mas se não tens fome, não sentes a
menor fome e, ainda assim, comes, trata-se de uma atividade.
Este último ato de comer é uma violência: destróis o
alimento, moves os dentes, uns contra os outros, e destróis
o alimento. Isto te proporciona um pequeno desafogo em
relação à tua inquietação interior. Estás comendo, não
porque tenhas fome. Estás comendo simplesmente por causa de
uma necessidade interior, num impulso de violência.
No mundo animal, a violência
está associada à boca, às mãos, às unhas e aos dentes. Esses
elementos são violentos no reino animal. Ao alimentar-se,
quando comes, elas se reúnem. Com a mão tomas o alimento,
com a boca, o comer - a violência se desafoga. Mas, quando
não há fome, isso não é uma ação, é uma doença. A atividade
é uma obsessão. Não podes, naturalmente, continuar a comer
desmensuradamente, porque senão estourarias. Por isso, as
pessoas inventam estratagemas: mastigam pan, goma, ou
fumam cigarros - são falsos alimentos, sem qualquer
capacidade nutritiva, mas funcionam bem no que se refere à
violência.
Um homem, que masca pan,
o que está fazendo? Está matando alguém. Na mente, se ele se
tornar consciente, poderá surgir uma fantasia sobre
assassinato, morte. Ele está mascando pan, uma
atividade muito inocente em si mesma, que não prejudica
ninguém, mas muito perigosa para ti, porque pareces estar
completamente inconsciente sobre o que estás fazendo. Um
homem que está fumando, o que faz? Algo muito inocente, sob
certo aspecto: apenas suga a fumaça e a lança fora, inalando
e exalando; uma espécie de doentio pranayama e uma
espécie de secular Meditação Transcendental. Ele está
criando uma mandala: suga a fumaça, lança-a fora,
toma-a, lança-a - cria uma mandala, um círculo.
Através do fumo, ele faz uma espécie de cantochão, um
cantochão rítmico. Aquilo o acalma; sua inquietação interior
é um tanto aliviada.
Se estiveres falando com
alguém, lembra-te, sempre - e isso é quase cem por cento
correto - de que, se essa pessoa começa a procurar seus
cigarros, ela está entediada e deves, então, deixá-la. Ela
gostaria de mandar-te embora, mas não pode fazer isso, pois
seria demasiadamente indelicado. Em lugar disso, ela procura
seus cigarros. É como se estivesse dizendo: - “Bem, agora
chega! Estou farto!” No reino animal, ela teria saltado
sobre ti; mas, no caso, não pode saltar, pois trata-se de um
ser humano, civilizado. Salta, então, sobre o cigarro, e
começa a fumar. Agora já não se preocupa contigo -
encerrou-se em seu próprio cantochão de fumaça. Isso a
acalma.
Essa atividade, entretanto,
revela que estás obcecado. Não podes permanecer tu mesmo,
não podes permanecer silencioso, não podes permanecer
inativo. Através da atividade lanças tua loucura, tua
insanidade. A ação é bela, pois surge como resposta
espontânea: a vida necessita de respostas. A cada momento
tens de agira, mas a ação surge a partir do momento
presente. Tens fome, buscas alimento! Tens sede, buscas a
fonte! Estás te sentindo sonolento, vais dormir! É através
da situação total que tu te movimentas. A ação é espontânea
e total.
A atividade nunca é
espontânea; ela surge do passado. Podes ter acumulado
atividade durante muitos anos e, então, ela explode no
presente - e isso não é conveniente. A mente é esperta e
sempre encontrará justificativas para a atividade. A mente
sempre tentará provar que não se trata de atividade, mas de
ação: era necessária. Subitamente, encolerizas-te. Todas as
pessoas, em torno de ti, estão conscientes de que aquilo não
era necessário, de que a situação não pedia tal coisa, de
que tua cólera era simplesmente inconveniente - só tu não o
vês. Todo mundo pensa: - “Que estás fazendo? Não há
necessidade disso. Por que estás tão encolerizado?” Mas tu
encontrarás justificativas, justificarás, e dirás que era
necessário.
As justificativas ajudam-te
a permanecer inconsciente da tua loucura. Gurdjieff
costumava chamá-las “amortecedores”. Crias amortecedores de
justificativas em torno de ti, de movo a não compreender
qual é a situação. Amortecedores são usados em trens: entre
dois truques, dois compartimentos, usam-se amortecedores,
para o caso de haver parada súbita, evitando-se, assim, um
choque demasiado forte para os passageiros; os amortecedores
absorvem o choque. Tua atividade é continuadamente
inconveniente, mas os amortecedores das justificativas não
permitem que vejas a situação. Os amortecedores cegam-te - e
a atividade continua.
Se a atividade está em ti,
não podes relaxar. Como poderias relaxar? A atividade é uma
necessidade obsessiva: queres fazer alguma coisa, seja lá o
que for.
Há loucos neste mundo que
saem por aí dizendo: - “Faze alguma coisa, é melhor do que
nada fazer.” E há tolos perfeitos que criaram um provérbio
corrente em todo o mundo: Mente vazia é oficina do diabo.”
Não é verdade. Uma mente vazia é oficina de Deus. Uma mente
vazia é a coisa mais bela do mundo, a mais pura. Como
poderia uma mente vazia ser uma oficina do diabo? O diabo
não pode entrar numa mente vazia, é impossível! O diabo só
pode entrar numa mente obcecada pela atividade: neste caso,
sim, o diabo toma conta de ti e pode mostrar-te meios, modos
e métodos de seres mais ativo. O diabo nunca diz: -
“Relaxa!” Ele diz: - “Por que estás perdendo teu tempo? Faça
alguma coisa, homem! Move-te! A vida está correndo, faze
alguma coisa!” E todos os grandes professores, professores
que acordaram para a verdade da vida, chegaram a compreender
que uma mente vazia é um espaço onde o Divino penetra.
A atividade pode ser usada
pelo diabo, mas não a mente vazia. Como pode o diabo usar
uma mente vazia? Ele não se atreverá a aproximar-se, porque
o vazio simplesmente o mataria. Mas, se estás repleto de
profundos anseios quanto a ser ativo, então o Diabo tomará
conta de ti, guiar-te-á - então será o único a guiar-te.
Gostaria de dizer-te que
aquele provérbio é inteiramente errado. Só o próprio Diabo o
poderia tê-lo sugerido.
Essa obsessão deve ser
observada. E deves observá-la em tua própria vida, porque,
seja o que for que eu ou Tilopa digamos, nada terá muita
significação, a não ser que tu próprio a vejas, que a sintas
como inconveniente e desnecessária. Por que tanta atividade
em ti?
Viajando, tenho visto
pessoas, constantemente, fazendo a mesma coisa, muitas e
muitas vezes. Durante vinte e quatro horas estive com um
passageiro , num trem. Ele leu o mesmo jornal várias vezes,
nada encontrando para fazer. Fechada no compartimento de um
trem, uma pessoa não tem muitas oportunidades para ser
ativa; por isso ele lia e relia o jornal. Que estava fazendo
aquele homem?
Um jornal não é o Gita ou a
Bíblia. Podes ler o Gita muitas vezes, porque, a cada vez,
encontras nova significação. Mas um jornal não é o Gita:
desde que o leste, acabou-se! Não vale a pena lê-lo nem
mesmo uma vez mais e, contudo, as pessoas lêem, relêem e
continuam a ler. Qual é o problema? É uma necessidade isso?
Não. - Essas pessoas estão obcecadas, não podem permanecer
em silêncio, inativas. É impossível para elas; consideram
que a inatividade se parece à morte. Têm de ser ativas.
Viajando por muitos anos,
tive muitas oportunidades de observar as pessoas sem que
elas o percebessem; às vezes, só uma pessoa estava comigo,
em meu compartimento, e fazia todos os esforços para
levar-me a conversar. Eu dizia sim ou não, até que ela
desistisse. Então eu podia simplesmente observar - uma bela
experiência, sem qualquer despesa.
Observava a pessoa: ela
abria a maleta - e eu podia ver que nada estava fazendo -
olhava para dentro, fechava-a. Então abria a janela e depois
fechava. Voltava ao jornal, fumava, tornava a abrir a
maleta, arranjava-a de novo, abria a janela, olhava para
fora... que estava fazendo? E por quê? Por causa de
um anseio interior, algo que tremia dentro dela, um estado
de espírito febril. Tinha de fazer alguma coisa, para não se
sentir perdida. Devia tratar-se de alguém de vida ativa que,
agora que tinha um momento para relaxar, não podia fazê-lo -
o velho hábito persistia.
Dizem que Aurangzeb, um
imperador mongol, aprisionou seu velho pai. O pai de
Aurangzeb, Shan Jehan, construiu o Taj Mahal. Aurangzeb
destronou-o e o aprisionou. Dizem - e consta da
autobiografia de Aurangzeb - que, depois de alguns dias,
Shan Jehan não se preocupava com o fato de estar preso,
porque fora rodeado de todo o luxo. Estava num palácio e
vivendo como vivia antes. Aquilo não se parecia a uma
prisão; tudo, absolutamente tudo o que lhe fosse necessário,
encontrava-se ali. Só uma coisa faltava - atividade. Então,
ele disse a Aurangzeb: - “Está certo; providenciaste tudo
para mim e tudo é lindo. Se puderes fazer apenas uma coisa
mais, serei eternamente agradecido. Manda-me trinta rapazes.
Eu gostaria de dar-lhes lições.”
Aurangzeb não podia
acreditar no que ouvia. - “Por que meu pai gostaria de dar
lições a trinta rapazes? Jamais mostrou qualquer inclinação
para o magistério, jamais se interessou por nenhum tipo de
educação. Que aconteceu a ele?” - Mas atendeu ao pedido.
Foram mandados aos trinta rapazes e tudo estava bem. Ele se
tornava, de novo, o imperador - de trinta rapazinhos.
Observemos uma escola primária; o professor é quase o
imperador: manda que se sentem e os alunos têm de sentar-se.
Pode ordenar que se levantem, e eles terão de levantar-se.
E, naquela sala, com os trinta rapazinhos, Shan Jehan criou
toda a situação da sua corte: um velho hábito, e o velho
apego à droga de dar ordens às pessoas.
Os psicólogos suspeitam que
os professores são, na verdade, políticos. Não bastante
autoconfiantes para ingressarem na política, vão para as
escolas e ali se tornam presidentes, primeiros-ministros,
imperadores. Como seus alunos são crianças pequenas, eles
lhes dão ordens, forçam-nas.
Os psicólogos suspeitam,
também, que os professores inclinam-se ao sadismo, e que
gostariam de torturar. E não há lugar melhor para isso do
que uma escola primária. Podes torturar crianças inocentes -
e podes torturá-las por elas mesmas, para o bem delas.
Observa! Estive em escolas primárias, falando, e estudei os
professores. E o que os psicólogos suspeitam é verdade para
mim: são torturadores. Não é possível encontrar vítimas mais
inocentes, completamente desarmadas, sem possibilidade
sequer de resistir que as crianças. São tão fracas e
indefesas que, diante delas, o professor levanta-se como um
imperador.
Aurangzeb escreve, em sua
autobiografia: “Meu pai, exatamente por causa dos velhos
hábitos, ainda quer fazer de conta que é o imperador.
Deixemo-lo fazer de conta, iludir-se, nada há de mal nisso.
Mande-se-lhe trinta rapazinhos, ou trezentos, quantos ele
quiser. Que ele dirija uma madersa, uma pequena
escola, e seja feliz.”
A atividade existe quando a
ação não é importante. Observa em ti mesmo: noventa por
cento da tua energia perde-se em atividade. E, por esse
motivo, quando chega o momento da ação, não te sobra energia
alguma. Uma pessoa relaxada é, simplesmente, uma pessoa
destituída de obsessão; a energia acumula-se nela. Conserva
sua energia automaticamente e, então, quando chega o momento
de agir, todo o seu ser flui para a ação. Por isso a ação é
total. A atividade, por outro lado, é sempre exercida como
meia disposição, porque não é possível que nos
iludamos completamente. Nós sabemos que é inútil. Estamos
conscientes de que fazemos determinadas coisas por algumas
razões febris interiores, que nem mesmo são muito claras
para nós, pois se apresentam vagas.
Podes mudar as atividades,
mas, a menos que sejam transformadas em ações, não
adiantarão. As pessoas dizem: - “Eu gostaria de deixar de
fumar.” E eu digo: “Por quê? É uma MT tão bonita! Continua,
porque, se deixares, começarás outra coisa: poderás começar
a mascar pan, poderás mascar goma ou a fazer coisas
ainda mais perigosas. Estas são coisas inocentes porque,
quando mascas goma, estás mascando a ti próprio. Podes ser
um tolo, mas não és violento, não és destrutivo para ninguém
mais. Se parares de mascar goma, de fumar, o que farás? Tua
boca precisa de atividade, ela é violenta e, então, falarás,
falarás continuamente - blá, blá, blá - e isso é mais
perigoso.
A esposa de Mulla Nasrudin
veio cá um desses dias. Raramente me visita, mas, quando
vem, eu percebo, imediatamente, que deve ter havido alguma
crise. Então, perguntei: - “Que aconteceu?” Ela usou trinta
minutos e milhares de palavras para dizer-me: - “Mulla
Nurasdin fala quando dorme. Tu sugeres alguma coisa? Que
deve ser feito? Ele fala demais e torna-se difícil dormir no
mesmo quarto, pois ele grita e diz coisas obscenas.”
Então, respondi: - “Nada
deve ser feito. Dê-lhe, apenas, a possibilidade de falar
quando estão ambos acordados.”
As pessoas falam, sem dar
qualquer oportunidade às demais. Falar é como fumar. Se
falas vinte e quatro horas por dia... e falas... falas
enquanto estás acordado. Teu corpo se cansa e adormeces, mas
continuas a falar. O relógio faz toda a sua volta, vinte e
quatro horas e tu estás falando, falando. É como fumar,
porque o fenômeno é o mesmo: a boca precisa de movimentos. A
boca é a atividade básica, porque é a primeira atividade que
inicias na vida.
Uma criança nasce e começa a
sugar o seio materno: essa é a primeira atividade. E fumar é
como sugar um seio; o leite morno flui como flui a fumaça
morna, quando se fuma. E o cigarro entre os lábios é como o
bico do seio materno. Se não te permitirem fumar, masca um
pouco de goma, ou qualquer coisa assim, pois, senão, tu
falarás, o que é mais perigoso, porque estarás atirando teu
lixo para as mentes de outros.
Consegues ficar em silêncio
por muito tempo? Os psicólogos dizem que, se permaneceres em
silêncio durante três semanas, começarás a falar contigo
mesmo. Então, estarás dividido em dois: falarás e ouvirás
também. E, se permaneceres em silêncio durante três meses,
estarás inteiramente pronto para o hospício, porque, então,
já não te incomodarás em saber se alguém está ou não a teu
lado. Falarás e, não só falarás, como responderás também -
estarás completo, dependerás de ninguém. Assim é um
lunático.
O lunático é uma pessoa cujo
mundo está confinado inteiramente a si próprio. É ele quem
fala e é ele quem ouve. É o ator e espectador, é tudo; todo
seu mundo está confinado a si próprio. Dividiu-se em muitas
partes e fragmentou-se. Por isso é que as pessoas receiam o
silêncio - sabem que podem enlouquecer. E, se receias o
silêncio, é porque tens, dentro de ti, uma mente obsessiva,
febril, doente, que está constantemente pedindo para ser
ativa.
A atividade é a tua fuga de
ti mesmo. Na ação, tu és; na atividade tu te esqueces; não
há preocupações, nem angústia, nem ansiedade. Por isso é que
precisas estar constantemente ativo, fazendo isto ou aquilo,
mas nunca num estado em que o não-fazer floresça e
desabroche em ti.
A ação é boa. A atividade é
má. Procura a distinção, dentro de ti, entre o que é
atividade e o que é ação: esse é o primeiro passo. O segundo
é envolver-se mais na ação, de forma que a energia se
transforme em ação; e, onde quer que haja atividade, sê mais
observador a esse respeito, mais alerta. Se estiveres
consciente, a atividade cessará, a energia será preservada e
se transformará em ação.
A ação é imediata.
Não é preparada, não é pré-fabricada. Não te dá qualquer
oportunidade de preparação de passar por um ensaio. A ação é
sempre nova e revigorante como o orvalho da manhã. E a
pessoa de ação é, também, alguém sempre revigorante e jovem.
O corpo pode ficar velho,
mas o frescor continua.
O corpo pode morrer, mas sua
juventude continua.
O corpo pode desaparecer,
mas ele continua - porque Deus ama o frescor.
Deus está sempre com o que é
novo e revigorante.
Deixa de lado, cada vez
mais, a atividade. Mas como farás isso? Podes tornar esse
mesmo desejo de deixar de lado uma obsessão. Foi isso o
que aconteceu aos monges, nos mosteiros? Deixar de lado a
atividade tornou-se para eles uma obsessão. Estão
continuamente fazendo alguma coisa para deixá-la: rezas,
meditações, ioga, isto ou aquilo - coisas que também são
atividades. Não a podes deixar de lado dessa maneira, pois
ela entrará pela porta dos fundos.
Presta atenção. Vê qual é a
diferença entre ação e atividade. E, quando a atividade
tomar conta de ti - e na verdade isso pode ser chamado de
possessão -, quando a atividade se apossar de ti, como um
fantasma (e a atividade é um fantasma, vem do passado, está
morta), quando a atividade se apossar de ti, digo, então tem
ainda mais cuidado: é tudo quanto podes fazer. Observa-a.
Mesmo que a tenhas de usar, usa-a em perfeita consciência.
Fuma, mas fuma bem devagar, com perfeito conhecimento, de
forma que possas ver o que está fazendo.
Se és capaz de observar o
ato de fumar, chegará o dia em que o cigarro cairá de teus
dedos, porque o absurdo do fumar te será revelado. É algo
estúpido, simplesmente estúpido, idiota! Quando
compreenderes isso, o cigarro, simplesmente, cairá de teus
dedos. Não o podes atirar, porque atirar é uma
atividade. Por isso é que o cigarro simplesmente cairá, tal
como folha morta caindo da árvore. Se o tiveres atirado,
irás apanhá-lo novamente, sob outra forma, de uma outra
maneira.
Deixa que as coisas caiam;
não as faças cair. Deixa a atividade desaparecer, mas não a
forces a isso, porque o próprio esforço para levá-la a
desaparecer é novamente atividade, sob outro aspecto. Vigia,
sê alerta, consciente e alcançarás um fenômeno muito, muito
milagroso: quando algo cai por si mesmo, de seu próprio
acordo, não deixa traços em ti. Se forças a queda, porém,
então fica o traço, fica a cicatriz. Sempre te gabarás de
que fumaste durante trinta anos e, então, tu deixaste
o cigarro. Bem, essa gabolice é atividade: falando sobre
isso estás agindo da mesma maneira: não fumas, mas falas
demais sobre o fato de teres deixado de fumar. Teus lábios
estão de novo em atividade, tua boca está funcionando, tua
violência está presente.
Quando um homem realmente
compreende, as coisas caem e, então, ninguém pode receber
crédito por isso. “Eu deixei”. Elas próprias deixaram. Tu
não deixaste. Dessa maneira o ego não se fortalece através
disso. E, então, mais e mais ações se tornarão possíveis.
Quando quer que tenhas uma oportunidade de agir
totalmente, não a percas, não vaciles - age.
Age mais e deixa que as
atividades caiam por sua própria vontade. Uma transformação
se fará em ti, paulatinamente. Leva tempo, é preciso
amadurecimento, mas também não há pressa.
Agora, entremos no sutra.
Nada faças com o
corpo, porém relaxa;
fecha com firmeza a
boca e permanece silente;
esvazia tua mente e
não penses em nada.
Nada faças com o corpo,
porém relaxa.
Agora podes compreender o que significa relaxar. Significa
que não há em ti anseio de atividade. Relaxar não significa
ficar deitado como um morto e, além disso não podes ficar
deitado como um morto - só podes fazer de conta. Como podes
ficar deitado, tu, como um morto? Estás vivo; podes
apenas fazer de conta. Podes relaxar apenas quando
não há anseio de atividade em ti. A energia está presente e
não anda se movendo por aí. Se determinadas situações
aparecem, tu agirás e isso é tudo, mas não estarás
procurando pretextos para agir. Estás de bem contigo mesmo.
Estar relaxado é estar em casa.
Há alguns anos atrás, eu
estava lendo um livro cujo título era Deves Relaxar.
Só o título já era simplesmente absurdo, porque o deve
é contra o ato de relaxar - livros assim só podem ser
vendidos na América. Deve significa atividade, é uma
obsessão. Sempre que há um deve, há uma obsessão
escondida atrás dele. Há ações na vida, mas não há deve;
quando não, o deve originará a loucura. Deves
relaxar - e o ato de relaxar torna-se a obsessão. Deves
tomar esta ou aquela postura, deitar-te, sugerir
afrouxamento ao teu corpo, da cabeça aos pés. Dize aos dedos
dos pés: “Relaxem!” e, então, ergue-te...
Por que deves? O
repouso, o afrouxamento só vêm quando não há deves em
tua vida. O repouso não é apenas do corpo, não é apenas da
mente, é de todo o teu ser.
Estás demasiadamente ativo
e, portanto, cansado, dissipado, ressecado, gelado. A
energia vital não se move. Há apenas blocos, blocos e
blocos. Tudo quanto fazes, o fazes em loucura. É natural que
a necessidade de relaxar apareça. Por isso é que tantos
livros sobre o ato de relaxar são escritos todos os meses;
mas eu nunca vi alguém que se relaxasse por ter lido um
livro sobre o ato de relaxar - essa pessoa torna-se mais
febril ainda, ao ver que toda a sua vida de atividade
permanece intacta. A obsessão de ser ativa permanece nela, a
doença permanece nela, e ela fantasia estar relaxada e
deita-se. Todo o torvelhinho interior, todo o vulcão estão
prestes a irromper e ela diz estar relaxando, seguindo as
instruções de um livro: como relaxar.
Não há livro algum que te
possa ensinar a relaxar, a não ser que leias teu próprio ser
interior, e, nesse caso, o ato de relaxar não será um dever.
O relaxar é uma ausência, uma ausência de atividade, não de
ação. Portanto, não há necessidade de mudar para os
Himalaias. Algumas pessoas fizeram isso: para relaxar, foram
aos Himalaias. Qual a necessidade há de ir para os
Himalaias? Não se pode deixar de lado a ação, porque, ao
deixares de lado a ação, deixas de lado a vida. Então
estarás morto, mas não relaxado. Por isso, nos Himalaias,
encontrarás sábios que estão mortos, mas não relaxados.
Fugiram à vida, à ação.
Esta é a sutileza a ser
entendida: a atividade deve ser eliminada, mas não a ação -
e eliminar ambas é fácil. Podes abandoná-los e fugir para os
Himalaias, isso é fácil. Ou, há outra coisa fácil: continuar
as atividades e forçar-te, a cada manhã, ou a cada noite, a
relaxar durante alguns minutos. Não compreendes a
complexidade da mente humana, o seu mecanismo. O relaxamento
é um estado. Tu não o podes forçar. Abandona, simplesmente,
as negatividades, os obstáculos, e ele virá, borbulhará por
si mesmo.
Que fazes quando vais
dormir, todas as noites? Fazes alguma coisa? Se fazes, és um
insone, tens insônia. Que fazes? Simplesmente deitas-te e
dormes. Não há “fazer” nisso. Se “fizeres”, ser-te-á
impossível dormir. Na verdade, para dormir, o necessário é,
apenas, interromper, na mente a continuação das atividades
do dia. Isso é tudo! Quando a atividade não está mais na
mente, ela relaxa e adormece. Se fizeres alguma coisa
para adormecer, estarás perdido, o sono será impossível. Não
há a menor necessidade de se “fazer” algo.
Diz Tilopa: - “Nada faças
com o corpo, a não ser relaxar.” Nada faças! Não há
necessidade de postura iogue, não há necessidade de
distorções e contorções do corpo. Nada faças! Só a ausência
de atividade é que é necessária. E como a obteremos? Através
da compreensão. A compreensão é a única disciplina.
Compreende as tuas atividades, que, então, em meio a essa
atividade, tornar-te-ás consciente e deterás a ti mesmo. Se
te tornares consciente do porquê de fazeres o que fazer, a
atividade cessará. E essa imobilidade é o que Tilopa quer te
fazer sentir, quando diz: - “Nada faças com o corpo, a não
ser relaxar.”
O que é relaxamento? É um
estado em que tua energia não se dirige para parte alguma,
nem para o futuro, nem para o passado - está ali
simplesmente, contigo. Na concentração silenciosa de tua
própria energia, em seu calor, permaneces envolvido. Esse
momento é tudo. Não há outro momento. O tempo pára e, então,
o relaxamento existe. Se o tempo está presente, não há
relaxamento. Simplesmente, o relógio pára; não há tempo.
Esse momento é tudo. Tudo não pedes mais nada, apenas gozas
o momento. As coisas simples podem ser gozadas, apreciadas,
porque são belas. Na verdade, nada é comum - se Deus existe,
tudo é extraordinário.
Há pessoas que me procuram e
perguntam: - “Acreditas em Deus?” - Eu respondo: - “Sim,
porque tudo é tão extraordinário que como poderia ser sem
que em tudo houvesse uma profunda consciência?”
Pequenas coisas, apenas:
Caminhas sobre a grama
quando as gotas de
orvalho ainda não se evaporaram,
e sentindo totalmente
a textura, o toque da
grama,
a frescura das gotas de
orvalho,
o vento da manhã, o
nascer do sol.
Que mais precisas tu para
ser feliz?
Que mais é necessário
para ser feliz?
Apenas deitar-te à noite em
teu leito, sentindo-lhe a textura, sentindo que ele se vai
tornando aquecido, que estás envolvido pela escuridão, pelo
silêncio da noite. Com os olhos fechados, tu simplesmente
sentes a ti mesmo. De que mais precisas? Isso é demais e uma
profunda gratidão surge: isso é relaxamento.
O relaxamento significa que
o momento é mais do que suficiente, mais do que se pode
solicitar ou desejar - e, então, a energia não se desloca
para parte alguma.
Ela se torna uma plácida
concentração.
Em tua própria energia tu
te dissolves.
Esse momento é o do
relaxamento.
O relaxamento não é do
corpo nem da mente,
o relaxamento é do total.
Por isso é que os Budas
diziam: - “Faze-te sem desejos.” Sabiam que, quando há
desejo, não há relaxamento. E mandavam que se enterrassem os
mortos, porque, se te preocupares demais com o passado, não
poderás relaxar. E ainda diziam mais: - “Goza cada momento.”
Jesus disse: - “Olhai os
lírios do campo, que não trabalham e são mais belos; seu
esplendor é maior do que o do rei Salomão. Estão envolvidos
por um aroma mais belo do que aquele de que jamais o Rei
Salomão fez uso. Olha, considera os lírios!”
Que queria dizer com isso?
Queria dizer: - “Relaxa! Não precisas labutar na verdade,
está provido de tudo.” Jesus disse: - “Se Ele cuida das aves
do espaço, dos animais, das feras, das árvores e das
plantas, por que então, te preocupas? Ele não irá cuidar de
ti?” Isso é relaxamento. Por que te preocupas tanto com o
futuro? Considera os lírios, observa os lírios, sê como os
lírios - e então relaxarás. O relaxamento não é uma postura,
o relaxamento é a transformação total da tua energia.
A energia tem duas
dimensões. Uma delas é motivada, vai a algum lugar, a um
objetivo que está algures. O momento é apenas um meio; o
objetivo tem de ser alcançado em outro lugar. Essa é uma das
dimensões da tua energia, essa é a dimensão da atividade
orientada para um objetivo - neste caso, tudo é um meio.
Farás seja o que for que tenhas de fazer, para alcançar o
objetivo: então, relaxarás. Entretanto, o objetivo jamais é
alcançado, porque essa energia se modifica a cada momento,
tornando-se um meio para alguma outra coisa, situada no
futuro. O objetivo permanece sempre no horizonte. Tu
continuas correndo, mas a distância permanece a mesma.
Existe uma outra dimensão da
energia: é uma celebração não-motivada. O objetivo está
presente agora; o objetivo não é uma outra coisa. Na
verdade, não há outra realização a não ser essa, deste
momento; considera os lírios. Quando és tu o objetivo e
quando o objetivo não está no futuro, nada há a ser
alcançado e tu estarás, então, celebrando-o; já o
alcançaste, ele está ali. Isso é relaxamento, energia
não-motivada.
Por isso, para mim, há dois
tipos de energia: a dos buscadores de objetivos e a dos
realizadores. Os que são orientados para o objetivo são os
loucos, enlouquecem aos poucos e criam suas próprias
loucuras. As loucuras têm seu próprio impulso; aprofundam-se
os buscadores de objetivos cada vez mais nelas e, então,
ficam completamente perdidos. O outro tipo de pessoa não é
um buscador de objetivos, não é absolutamente um buscador, é
realizador.
E isto eu te ensino:
sê um realizador, realiza! Já existe demais o que celebrar:
as flores desabrocharam, os pássaros estão cantando, o sol
ali está, no céu - celebra isso! Tu respiras, estás vivo,
tens deixa de haver tensão; então, já não existe angústia.
Toda a energia transformada em angústia torna-se, então,
gratidão: teu coração continua batendo com agradecida
potência - isso é uma oração. Isto é o que significa toda
oração: um coração que bate, profundamente agradecido.
Nada faças com o
corpo, a não ser relaxar.
Não há necessidade de fazer
coisa alguma para isso. Compreende, apenas, o movimento da
energia, do não-motivado movimento da energia. Ele flui, mas
não para um objetivo; flui para uma celebração. Move-se, não
para um alvo, move-se por causa de sua própria e
transbordante energia.
Uma criança está dançando,
saltando e correndo, e tu perguntas: - “Para onde vais?” -
Ela não vai a parte alguma e parecerás um tolo para aquela
criança. As crianças sempre acham que os adultos são tolos.
Que pergunta disparatada - “Para onde vais?” Há, por acaso,
necessidade de ir a algum lugar? A criança não pode
responder tua pergunta, simplesmente porque ela é
despropositada. Ela não está indo a parte alguma.
Simplesmente encolherá os ombros, e dirá: - “A nenhum
lugar.” - E daí, a mente, orientada para o objetivo,
pergunta: - “Então, por que estás correndo?” Para nós uma
atividade é relevante quando leva a algum lugar.
E eu te digo
que não há para onde ir,
aqui está tudo;
toda a existência culmina
neste momento,
converge para este
momento.
Toda a existência já se
está derramando neste momento;
tudo quanto nela existe
já está se derramando para este momento - está aqui, agora.
Uma criança está,
simplesmente, gozando a energia. Ela a tem demais. Está
correndo, não porque tenha de chegar a algum lugar, mas
porque tem energia demais; precisa correr.
Age sem motivação, apenas
como um transbordamento da tua energia. Compartilha, mas não
comercies, não faças barganhas. Dá porque tens; não dês para
receber em troca, porque senão cairás em desgraça. Todos os
comerciantes vão para o inferno. Se quiseres encontrar os
maiores negocistas e barganhadores, vai ao inferno que ali
os encontrarás. O céu não é para comerciantes; o céu é para
os que celebram.
Sempre, na teologia cristã,
durante séculos, foi feita uma pergunta: que fazem os anjos
no céu? Eis uma pergunta apropriada para os que são
orientados para um objetivo. Que fazem os anjos no céu? Nada
parece que se faça lá; nada há de fazer no céu. Alguém
perguntou a Meister Eckhard: - “Que fazem os anjos no céu?”
E ele respondeu: - “Que espécie de tolo és tu? O céu é um
lugar para celebração. Eles não fazem coisa alguma.
Simplesmente, celebram aquela glória, aquela magnificência,
aquela poesia, aquele florescimento - celebram, apenas.
Cantam, dançam, celebram.” Não penso, contudo, que aquela
pessoa tivesse ficado satisfeita com a resposta de Meister
Eckhard, porque, para nós, uma atividade só tem propósito
quando leva a alguma coisa, quando há um objetivo.
Lembra-te, a atividade é
orientada para um objetivo; a ação não o é. A ação é um
transbordamento de energia, a ação existe neste momento; é
uma resposta não-preparada, não-ensaiada. Toda a existência
vem a teu encontro, enfrenta-te, e tua resposta sai
naturalmente. Os pássaros estão cantando e tu começas a
cantar - isso não é atividade. Subitamente acontece.
Subitamente, vês que está acontecendo; vês que começaste a
cantarolar - isso é ação.
E, se te tornares cada vez
mais envolvido na ação e cada vez menos ocupado com a
atividade, tua vida se modificará e se tornará um profundo
relaxamento. Então, tu “ages”, mas permaneces relaxado. Um
Buda jamais está cansado. Por quê? Porque é uma pessoa de
ação. O que quer que tenha, ele dá, ele transborda.
Nada faças com o
corpo, a não ser relaxar;
Fecha tua boca com
firmeza, e permanece silente.
A boca é, realmente, muito,
muito significativa, porque é ela que exerce a primeira
atividade; teus lábios iniciam sua primeira atividade. A
partir da região da boca inicia-se toda a atividade: tu
respiraste, tu choraste, tu começaste a procurar o seio de
tua mãe. E tua boca permaneceu, sempre, em franca atividade.
Por isso é que Tilopa sugere: “Compreende a atividade,
compreende a ação, relaxa, e... fecha com firmeza tua
boca.”
Quando quer que te sentes
para meditar, quando quer que desejes permanecer em
silêncio, a primeira coisa a fazer é fechar completamente a
boca. Se fechares completamente a boca, tua língua tocará o
palato e ambos os lábios permanecerão completamente
fechados. Fecha-a completamente - mas isso só poderá ser
feito, se estiveres seguindo as coisas que te tenho estado a
dizer, e não antes.
És capaz disso! Fechar a
boca não requer um esforço muito grande. Podes permanecer
sentado como uma estátua, com a boca inteiramente fechada,
mas isso não deterá a atividade. Bem lá na profundidade, o
pensamento continuará e, se o pensamento continua, tu podes
sentir a sutil vibração dos lábios. Outros podem não ser
capazes de observá-la, porque ela é muito sutil, mas, sempre
que estás pensando, teus lábios fremem um pouquinho, um
frêmito muitíssimo sutil.
Quando realmente relaxas, o
frêmito cessa. Não estás falando, não estás tendo nenhuma
atividade interior. “Fecha com firmeza tua boca e
permanece silente.” E então, não penses.
Que farás? Os pensamentos
vêm e vão. Deixa que venham e vão, pois esse não é o
problema. Não te envolvas; conserva-te distante, desligado.
Observa-os, simplesmente, conforme vêm e vão. Nada tens com
eles. Fecha tua boca e permanece silente. Aos poucos e
automaticamente os pensamentos cessarão - eles precisam da
tua cooperação para se apresentarem. Se cooperares, estarão
ali; se os combateres, também estarão ali - porque ambas as
coisas são formas de cooperação: uma pró, outra contra, mas
ambas são uma espécie de atividade. Tu deves apenas
observar.
Fechar a boca, entretanto,
ajuda muito. Assim, em primeiro lugar, conforme tenho
observado em muitas pessoas, sugiro que primeiro bocejes:
abre tua boca tão amplamente quanto possível, estira tua
boca tão amplamente quanto possível, boceja completamente, a
ponto de sentires alguma dor; e faze isso por duas ou três
vezes. Isso te ajudará a manter a boca fechada por mais
tempo. E então, durante dois ou três minutos, fala em voz
alta uma algaravia qualquer, uma tolice qualquer. Tudo
quanto te vier à mente, dize em voz alta, gozando aquilo.
Então, fecha tua boca.
É sempre mais fácil partir
do lado oposto. Quando quiseres relaxar tua mão, é melhor
fazê-la, antes, o mais tensa possível. Fecha os punhos o
mais tensamente possível - faze o oposto - e, então, relaxa.
Assim conseguirás um relaxamento mais profundo do sistema
nervoso. Faze gestos, caretas, movimentos do rosto,
distorções, bocejos, fala tolices durante dois ou três
minutos e, então, fecha tua boca. Essa tensão irá dar-te uma
possibilidade mais profunda de relaxar os lábios e a boca.
Fecha a boca e passa a ser apenas um observador. Depressa o
silêncio descerá sobre ti.
Há dois tipos de silêncio.
Um é o silêncio que forças a descer sobre ti. Não é muito
benéfico; é uma violência, uma espécie de estupro da mente,
é agressivo. E há outra espécie de silêncio, que desce sobre
ti como a noite. Vem e te envolve. Tu apenas crias a
possibilidade de ele acontecer (é a receptividade), e ele
vem. Fecha a boca, observa e não tentes permanecer
silencioso. Se tentares, poderás forçar alguns minutos de
silêncio, mas não terão valor algum, pois, dentro de ti,
continuas fervendo. Portanto, não tentes ficar silencioso.
Cria, simplesmente a situação - o solo; planta a semente e
espera.
Esvazia tua mente e
não penses em nada.
Como farás para esvaziar a
mente? Quando os pensamentos vierem, observa. A observação
tem de ser feita com uma precaução: deve ser passiva,
e não ativa. Há mecanismos sutis que deves compreender,
senão poderás falhar em algum ponto. E, se falhares numa
pequena coisa, tudo mudará de qualidade. Observa: observa
passivamente, não ativamente.
Qual é a diferença? Quando
estás esperando por tua namorada, ou por teu apaixonado,
observas ativamente. Alguém passa pela porta e tu saltas,
para ver se ela chegou. Depois, apenas ouves folhas
sacudidas pelo vento e pensas que talvez ela tenha chegado.
Estás sobressaltado; tua mente mostra-se muito inquieta,
muito ativa. Não; isso não adiantará. Se estiveres demasiado
inquieto e demasiado ativo, não te chegarás ao silêncio de
Tilopa, ou ao meu silêncio. Sê passivo como quando te sentas
à margem de um rio, enquanto ele flui; simplesmente observa.
Não há aflição, não há urgência, não há emergência. Ninguém
te está forçando. Mesmo que deixes passar, nada estará
perdido. Tu, simplesmente, observas, olhas apenas. Mesmo a
palavra observa não é boa, porque traz, em si, um
elemento de atividade. Tu, simplesmente, olhas e nada tens a
fazer. Senta-te, simplesmente, à margem do rio, olha
enquanto o rio flui. Ou olha para o céu enquanto as nuvens
flutuam; olha passivamente.
É muito, mas muito essencial
que essa passividade seja compreendida, porque a tua
obsessão pela atividade pode tornar-se inquietação, pode
fazer-se uma espera ative e, então, podes pôr tudo a perder.
A atividade pode tornar a entrar pela porta dos fundos. Sê
um observador passivo.
Esvazia tua mente e
não penses em nada.
A passividade esvaziará
automaticamente tua mente. Ondulações de atividade,
ondulações de energia mental se aquietarão, aos poucos, e
toda a superfície da tua consciência ficará sem ondas, sem
qualquer ondulação. Tornar-se-á um espelho silencioso.
Como um bambu oco,
repousa bem teu corpo.
Esse é um dos métodos
especiais de Tilopa. Cada Mestre tem seu método especial,
através do qual ele alcançou e através do qual gostaria de
ajudar outros. Essa é a especialidade de Tilopa: Como um
bambu oco, repousa bem teu corpo.
Um bambu é completamente oco
por dentro. Quando repousas, procura sentir-te como um
bambu: completamente oco e vazio por dentro. E é realmente
assim: teu corpo é tal e qual um bambu, oco por dentro. Tua
pele, teus ossos, teu sangue, fazem parte do bambu mas
dentro há espaço, esvaziamento.
Quando estás sentado, a boca
inteiramente silenciosa, inativa, a língua tocando o palato
e silente, sem fremir com os pensamentos, a mente observando
passivamente, sem esperar por coisa alguma em particular,
sentes-te como um bambu oco - e, subitamente, infinita
energia começa a derramar-se dentro de ti; ficas repleto do
Desconhecido, do misterioso, do Divino.
Um bambu oco torna-se
uma flauta
e o Divino começa a
tocar com ela.
Desde que estejas vazio não
haverá barreiras para o Divino entrar em ti.
Tenta isso: é uma das mais
belas meditações - a meditação de se tornar um bambu oco.
Não precisas fazer nada. Tu simplesmente te transformas - e
tudo o mais acontece. Subitamente, sentes que algo desce
para o teu espaço vazio. És como um útero e vida nova está
entrando em ti; uma semente está caindo. E chega o momento
em que o bambu desaparece completamente.
Como um bambu oco,
repousa bem teu corpo.
Repousa bem, não desejes
coisas espirituais, não desejes o céu, nem mesmo desejes
Deus. Deus não pode ser desejado. Quando estiveres
destituído de desejos, Ele virá ter contigo. A libertação
não pode ser desejada, porque o desejo é um laço. Quando
estás livre de desejos, estás liberado. O estado de Buda não
pode ser desejado, porque o desejo é um obstáculo. Quando
não existem barreiras, Buda explode em ti. Já tens a
semente. Quando estás vazio, há um espaço - e a semente
explode.
Como um bambu oco,
repousa bem teu corpo.
Sem dar nem receber,
repousa tua mente.
Não há nada a dar, nada a
receber. Tudo está absolutamente em ordem, tal como está.
Não há necessidade alguma de dar ou receber. Estás
absolutamente perfeito, como és.
Esse ensinamento do Oriente
tem sido muito mal interpretado no Ocidente, porque dizem:
que espécie de ensinamento é esse? Então as pessoas não
lutarão, não tentarão chegar a maior altura? Então, não
farão um esforço para modificar seu caráter, para mudar suas
maneiras más, obtendo as boas? Acabarão vítimas do Diabo. No
Ocidente, “Melhora a ti mesmo” é a recomendação. Em termos
deste mundo, ou em termos de outro mundo, mas melhora. Como
melhorar? Como tornar-se maior e ganhar grandeza?
No Oriente entendemos isso
muito mais profundamente: compreendemos que o próprio
esforço se constitui numa barreira, porque já estás levando
teu ser contigo. Não precisas transformar-te em coisa
alguma; basta que compreendas quem és, isso é tudo.
Compreende, apenas, quem se esconde dentro de ti. Melhorar,
seja no que for que melhores, sempre te trará angústia e
ansiedade, porque o próprio esforço para melhorar te estará
levando para o caminho errado. Isso torna o futuro
significativo, o objetivo significativo, os ideais
significativos e, assim, tua mente torna-se um infinito
desejar.
Põe de lado o desejar. Deixa
que o desejar desapareça, torna-te um silencioso lago de
não-desejos - e, de repente, serás surpreendido:
inesperadamente, ele estará ali. E rirás gostosamente, como
Bodidarma riu. Os seguidores de Bodidarma dizem que, quando
tornas a ficar silencioso, podes ouvir-lhe a gargalhada. Ele
ainda está rindo. Não parou de rir desde então. Ri porque
“que tipo de brincadeira é essa? Já és o que estavas
tentando ser! Como podes ter êxito, se já és aquilo que
estás tentando ser? Teu fracasso é absolutamente certo. Como
é possível que te tornes aquilo que já és?” Por isso é que
Bodidarma riu.
Bodidarma foi um
contemporâneo de Tilopa. Talvez se tenham conhecido,
possivelmente não fisicamente, mas devem ter se conhecido -
eram seres da mesma qualidade.
Sem dar nem receber,
repousa tua mente.
Mahamudra é como a
mente que a nada se prende.
Alcançaste, se não te
prendeste. Nada em tuas mãos, e alcançaste.
Mahamudra é como a
mente que a nada se prende.
Assim praticando,
alcançarás, em tempo, o estado de Buda.
Que se deve praticar,
então?
Estar cada vez mais à
vontade.
Estar, cada vez mais,
aqui e agora.
Estar, cada vez mais, em
ação
e cada vez menos em
atividade.
Ser, cada vez mais, oco,
vazio, passivo.
Ser, cada vez mais, um
observador -
Indiferente, sem nada
esperar, sem nada desejar.
Ser feliz contigo, tal
como és.
Estar em celebração.
E, então, a qualquer
momento, a qualquer momento, quando as coisas
estiverem maduras e a estação certa chegar, tu florescerás
como um Buda. |