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Tantra - A Suprema Compreensão (Osho)
A verdade inata
A prática do mantra e da
paramita,
a instrução em sutras e preceitos,
o ensino das escolas e das escrituras,
não levarão à percepção da Verdade Inata.
Porque, se a mente, quando tomada por algum desejo,
procura encontrar um objetivo,
apenas oculta a Luz.
Aquele que observa os
preceitos tântricos, ainda discrimina,
trai o espírito de samaya.
Cessa toda atividade, abandona todos os desejos,
deixa que os pensamentos subam e desçam,
Coisa que eles farão, como ondas no oceano.
Aquele que nunca prejudica o não-perdurável,
nem o princípio da não-distinção,
defende os preceitos tântricos.
O que abandona o desejo
insaciável
e não se prende a isto, nem àquilo
percebe o significado real dado nas escrituras.
A atitude tântrica é o
próprio ser de Tilopa. Deves entender, antes de mais nada, o
que vem a ser atitude tântrica e, só então, te será possível
entender o que Tilopa tenta comunicar.
Portanto, algo sobre a
atitude tântrica. A primeira coisa: não se trata de uma
atitude, porque Tantra vê a vida com visão total. Não é uma
atitude para ver a vida. Não possui conceitos, não é uma
filosofia. Não é, sequer, uma religião, não tem teologia.
Não acredita em palavras, em teorias, em doutrinas. Quer ver
a vida sem filosofia, sem qualquer teoria, sem qualquer
teologia. Quer ver a vida como ela é, sem colocar a mente de
permeio, porque isso causaria distorção. A mente projeta, a
mente mescla, e, então, já não podes distinguir aquilo que
é.
Tantra evita a mente e
encara a vida face a face, jamais pensando: “isto é bom”, ou
“isto é mau”; porém, e simplesmente, encarando-a como ela é.
Por isso é difícil dizer que Tantra é uma atitude - na
verdade, é uma não-atitude.
A segunda coisa a lembrar é
que o Tantra é um grande repetidor do “sim”; diz “sim” a
tudo. Nada há que se pareça com o “não” em seu vocabulário;
nada que seja negação. Nunca diz “não” a coisa alguma,
porque com o “não” se inicia a luta, com o “não” tu te
tornas o ego. No momento em que dizes “não” a qualquer
coisa, tornas-te já o ego. Um conflito surgiu e, agora,
estás em guerra.
Tantra ama, e ama
incondicionalmente. Nunca diz “não” a nada, seja o que for,
porque tudo faz parte do todo e tudo tem seu lugar próprio
no Todo; e o Todo só poderá existir quando nada lhe falte.
Diz-se que mesmo que
só uma gota d’água faltasse,
Toda a existência
teria sede.
Colhes uma flor no
jardim,
E colheste alguma
coisa de toda a existência.
Maltratas uma flor,
E maltratastes milhões
de estrelas -
Porque tudo é
inter-relacionado.
O Todo existe como um todo,
um todo orgânico. O Todo não existe como algo mecânico -
tudo está relacionado com tudo o mais.
Dessa forma, Tantra diz
“sim” incondicionalmente. Nunca houve qualquer outra visão
da vida que dissesse “sim”, incondicionalmente -
simplesmente “sim”, o “não” desaparecendo de teu próprio
ser. Quando não existe o “não” como podes lutar? Como podes
estar em guerra? Flutuas, simplesmente. Simplesmente
dissolve-te, desmanchas-te. Tornas-te um. Já não existem
fronteiras. O “não” cria fronteiras. O “não” é a fronteira
em torno de ti. Sempre que disseres “não”, observa:
imediatamente algo se fecha. Sempre que dizes “sim”, teu ser
se abre.
O verdadeiro ateu é aquele
que está sempre dizendo “não” à vida. O fato de ele dizer
“não” a Deus é apenas simbólico. Podes acreditar em Deus,
mas, se dizes “não” seja ao que for, tua crença não tem
valor, teu Deus é uma farsa, porque só o “sim” total cria um
Deus verdadeiro, revela o verdadeiro Deus. Quando dizes um
“sim” total à existência, toda ela subitamente se
transforma. Então, não há mais pedras, não há mais árvores,
não há mais pessoas, rios, montanhas - subitamente tudo se
torna um e essa unidade é Deus.
O verdadeiro teísta é o que
diz “sim” a tudo, e não só a Deus, porque a mente é muito
engenhosa. Podes dizer “sim” a Deus e “não” ao mundo. Isso
tem acontecido. Milhões de pessoas perderam toda a sua vida
por causa disso.
Dizem “sim” a Deus e dizem
“não” à vida. Na verdade, pensam que, a menos que se diga
“não” à vida, é impossível dizer “sim” a Deus. Criaram a
divisão: negam o mundo para aceitar Deus. Mas a aceitação
que se apóia na negação não é, absolutamente, uma aceitação.
É falsa. É uma simulação.
Como podes aceitar o Criador
sem aceitar a criação? Se dizes “não” à criação, como podes
dizer “sim” ao Criador? Ambos são um. O Criador e a criação
não representam duas coisas: o Criador é a criação. Na
verdade, não há divisão entre o Criador e a criação,
trata-se de um processo contínuo de criatividade. Um pólo da
criatividade parece-se ao Criador e o outro pólo da
criatividade parece-se à criação - mas ambos são pólos do
mesmo fenômeno.
Tantra diz que, se dizes
“sim”, simplesmente dizes “sim”: não o dizer em oposição a
algum “não”. Mas todas as religiões fizeram isso: disseram
“não” ao mundo e “sim” a Deus. E disseram “não ao mundo,
energicamente, de forma que seu “sim” pudessse tornar-se
mais forte. Muitos dos chamados “santos” disseram isto:
“Deus, nós Te aceitamos, mas não aceitamos o Teu mundo.” Mas
que tipo de aceitação é essa? Isso é aceitação? Estão
escolhendo. Estão retalhando a existência em dois pedaços.
Estão se colocando acima de Deus. Dizem: “Isto que eu
aceito, isto eu renego.” Toda renúncia vem disso.
Quem pronuncia não é pessoa
religiosa. Segundo Tantra, quem renuncia é um egoísta.
Primeiro esteve acumulando coisas do mundo, e sua atenção
estava no mundo. Agora, renuncia, mas sua atenção ainda está
voltada para o mundo e ela permanece egoísta. O que tem
formas sutis de contentar a si próprio e retorna, muitas e
muitas vezes, em espiral. Repetidamente ele retorna - com
uma face nova, sob novas cores.
Isso aconteceu: eu estava em
minha aldeia e Mulla Nasrudin veio visitar-me. Naquele tempo
ele vivia em Nova Delhi, a capital, e estava tão
entusiasmada que chegava a parecer cego. Levei-o ao pequeno
forte da minha aldeia, e ele disse - “Quê! Tu chamas a isto
um forte? Devias ir a Nova Delhi e ver o Forte Vermelho.
Isto não é nada” Levei-o ao rio, e ele disse: - “Quê! Tu
chamas a isto um rio? Nunca na minha vida vi rio mais
nojento, mais mesquinho.” E o mesmo aconteceu m toda parte.
Então, veio a noite da lua
cheia e eu pensei que, pelo menos, ao ver a lua cheia ele se
sentiria feliz e não traria à conversa aquela pequena
aldeia. Mas eu estava errado. Levei-o ao rio; a noite era
bela e silenciosa. A lua surgiu, muito grande, simplesmente
maravilhosa. Olhei para Nasrudin e disse: - “Olha! Que
enorme lua!”
Ele olhou para a lua,
encolheu os ombros, e disse: - “Não é má de todo, para uma
aldeiazinha como esta.”
Assim é a mente: persiste,
ressurge em espirais - sempre e sempre a mesma coisa. Podes
renunciar ao mundo, mas não te tornarás de outro mundo.
Permanecerás mundano. E, se quiseres verificar isto, procura
os monges da Índia, os sadhus: eles permanecem
mundanos, enraizados no mundo. Renunciaram a tudo, mas seu
foco está no mundo, seu foco está na renúncia, centralizado
no ego, orientado pelo ego. Podem estar pensando que, ao
renunciar, aproximam-se de Deus - não. Ninguém jamais
alcançou o Divino por dizer “não” ao que quer que seja.
Essa é a visão do Tantra.
Tantra diz: “Dize ‘sim’. Dize ‘sim’ a tudo. Não precisas
lutar, não precisas nem mesmo nadar - flutua simplesmente,
ao sabor da corrente. O rio segue por si mesmo por sua
própria vontade, e tudo alcança o oceano definitivo. Não
cries qualquer perturbação, não empurre o rio; segue-o,
simplesmente.” Ir, flutuar, relaxar com ele - assim diz
Tantra.
Se podes dizer “sim”, uma
profunda aceitação acontece em ti. Se dizes “sim”, como
podes te queixar? Como podes ser infeliz? Então, tudo é como
deveria ser. Não estás lutando, não estás negando - aceitas,
apenas. E, lembra-te, essa aceitação difere da aceitação
comum.
Habitualmente, uma pessoa
aceita determinada situação quando se sente impossibilitada
de fazer outra coisa, porém essa é a aceitação da
impotência. Não te levará a parte alguma; a impotência não
pode te levar a parte alguma. Uma pessoa aceita uma situação
quando se sente perdida: “Nada pode ser feito, portanto, que
fazer? Pelo menos aceitar, para salvar a dignidade.” A
aceitação tântrica não é desse tipo. Ela vem de uma
super-realização, vem de um profundo contentamento - não vem
da sensação de estar perdido, da frustração, do desamparo.
Vem quando não se diz “não”; surge inesperadamente. Todo o
teu ser se toma de um profundo contentamento.
Essa aceitação possui uma
beleza própria. Não é forçada, nada praticaste para obtê-la.
Se a forçares, ela será falsa, será uma hipocrisia. Se a
forçares, ficarás dividido em dois: por fora aceitarás, mas
no fundo estarás fervendo, pronto a explodir a qualquer
momento. Apenas superficialmente fingirás que tudo está bem.
A aceitação tântrica é
total, não se divide. Todas as religiões do mundo, exceto
Tantra, criaram personalidades divididas. Todas as religiões
do mundo, exceto Tantra, criaram esquizofrenia. Elas te
dividem. Fazem em ti algo mau e algo bom. E dizem que o bem
deve ser alcançado e o mal renegado; o Diabo tem de ser
negado e Deus tem de ser aceito. Criam em ti a divisão e a
luta. Então, tu te sentes constantemente culpado, porque
como podes destruir aquilo que a ti está ligado
organicamente? Podes chamar a isso o mal, podes dar-lhe os
nomes que quiseres, que não fará nenhuma diferença. Pois não
podes destruir algo que não criaste, algo que encontraste,
que te foi dado. A cólera existe, o sexo existe, a ambição
existe - tu não os criaste, eles são fatos da vida, que te
foram dados tal como teus olhos ou tuas mãos. Podes dar-lhes
nomes, podes dizer que são feios ou belos, ou o que quer que
seja, mas não podes destruí-los.
Nada pode ser eliminado e
retirado da existência, nada pode ser destruído.
Tantra diz que uma
transformação é possível, mas a destruição nunca. A
transformação vem quando aceitas teu ser total. Então, e de
súbito, tudo entra em ordem, tudo toma seu próprio lugar. A
cólera é absorvida, a ambição também é absorvida. Assim, sem
que tentes o retalhamento de teu ser, todo esse teu ser se
recompõe. Se aceitas e dizes “sim”, acontece uma
recomposição, e onde antes havia rumor, clamor interno,
nasce música, melodia, harmonia.
Entre o rumor e a harmonia,
qual é a diferença? São as mesmas ondas sonoras, arranjadas
de uma ou outra forma. Mas no rumor não há um núcleo, um
centro. Se um louco toca piano as notas são as mesmas, os
sons são os mesmos, mas não existe um centro que os
organize. Tu podes dar um centro ao rumor, tudo se tornará
orgânico e ele se transformará em música. Se um louco toca
piano, um ajuntamento de notas, separadas e individuais é o
que é emitido, não uma melodia. Mas quando um músico toca o
mesmo piano, com os mesmos dedos, ocorre uma mutação
alquímica: agora, as mesmas notas entram num esquema,
alcançam uma unidade orgânica, encontram um centro; já não
são um ajuntamento, são uma família. Um amor sutil as reúne
- agora são uma só coisa. E nisso está toda a arte: trazer
as notas para um fenômeno amoroso, de forma que elas se
tornem harmoniosas.
Tantra diz que, tal como és
agora, és rumos. Nada há de errado nisso - tu, simplesmente,
não tens um centro. Desde que tenhas um centro, tudo entra
na ordem e tudo se torna belo.
Quando Gurdjieff se zanga,
isso é belo. Quando te zangas, isso é feio. A cólera não é
feia nem bonita. Quando Jesus se encoleriza, é pura música -
mesmo a cólera. Quando Jesus toma de um chicote e expulsa os
vendilhões do templo, há nesse gesto uma sutil beleza. Até
mesmo Buda carece dessa beleza, Buda parece unilateral; nada
dele permite entrever a presença da cólera. A tensão da
cólera, o sal da cólera não existem nele. Buda não tem o
mesmo bom sabor que Jesus. Jesus tem algum sal, pode até
zangar-se. Mesmo sua cólera tornou-se parte de seu ser
total; nada foi negado, tudo foi aceito.
Mas Tilopa é incomparável.
Jesus nada é... Os Mestres tântricos são simplesmente flores
selvagens, há de tudo neles. Tu devias ver os retratos de
Bodidarma. Se não os viste, olha - é tão feroz o semblante
de Bodidarma que, se meditares sobre o que viste à noite e a
sós, não poderás dormir, pois ele te obcecará. Dizem dele
que, pelo simples fato de olhar para alguém, faz com que
esse alguém passe a ter contínuos pesadelos. Seu olhar era
feroz, obcecava a quem os visse. Contam que, quando
Bodidarma ou Tilopa falavam, sua fala era como o rugido de
um leão, como uma nuvem trovejante, como uma formidável
cascata, selvagem e ardente.
Se, entretanto, esperares um
pouco, sem julgá-los com demasiada rapidez, encontrará neles
o mais amoroso dos corações. Sentirás, então, a música, a
melodia que existe neles. E, de súbito, compreenderás que
eles nada negaram, que absorveram tudo, mesmo a ferocidade.
Um leão é belo, até sua ferocidade possui uma beleza
própria. Se tirares a ferocidade de um leão, então ele
passará a ser um leão empalhado, morto.
Tantra diz que tudo tem de
ser absorvido, tudo! Lembra-te, sem qualquer condição. O
sexo tem de ser absorvido, para que se torne uma força
tremenda, em ti. Um Buda, um Tilopa, um Jesus possuem uma
grande força magnética em torno deles - e que é isso? Sexo
absorvido. O sexo é magnetismo humano. Subitamente, tu
tombas no amor deles. Basta que cruzes o seu caminho para
seres levado a um mundo inteiramente diferente. És arrancado
de teu velho mundo e levado para algo novo, algo com que
jamais pudeste sonhar. Que força é essa? É a mesma energia,
sexo, que se transformou: agora é magnetismo, é carisma.
Buda tem a cólera absorvida e a própria cólera
transformou-se em compaixão. E, quando Jesus toma o chicote
nas mãos, o faz também movido pela compaixão. Quando Jesus
fala, tomado de ardor, é a mesma compaixão que se faz
presente.
Lembra-te disto: Tilopa
aceita-te em tua totalidade. Quando vens ter comigo, eu te
aceito em tua totalidade. Não estou aqui para te ajudar a
negar coisa alguma. Estou aqui para te ajudar a recompor, a
alcançar o centro de todas as tuas energias, a convergi-las
para um centro. E digo-te que serás mais rico se tiveres a
cólera absorvida, serás mais rico se tiveres o sexo
absorvido, serás mais rico se tiveres o ódio e o ciúme
absorvidos - eles são os temperos da vida e precisas
experimentá-los. Não te tornarás sem sabor, terás um
sabor próprio. Precisas de um pouco de sal. E a cólera vem
na medida exata que é necessária. Quando ela te domina,
torna-se feita. Se comeres apenas sal, morrerás. O sal, em
determinada proporção, é uma necessidade, é absolutamente
necessário. Lembra-te disto.
No caminho encontrarás
muitas pessoas que gostariam de te incapacitar, cortar e
dividir. Dirão: - “Essa mão é má, corta-a! Esse olho é mau,
atira-o fora! A cólera é má, o ódio é mau, o sexo é mau.”
Continuarão a cortar-te e, quando te deixarem, estarás
simplesmente paralisado, aleijado. Não te deixarão com vida.
Isso mostra como toda a civilização tornou-se paralisada,
aleijada.
A menos que Tantra se torne
o alicerce de toda a mente humana, o homem não será completo
- porque nenhuma outra visão aceita o homem em sua
totalidade. Mas a aceitação, lembra-te novamente, vem do
transbordamento; não é nascida da impotência.
Uma pessoa vive a sua vida,
vai através dela: cada nuance tem de ser vivida, cada gosto
tem de ser provado. Mesmo a perambulação, mesmo o estar
extraviado têm significação, porque se nunca te extraviares
não alcançarás uma iluminação enriquecida, nunca serás
simples. Poderás ser um simplório, mas nunca serás simples -
e um simplório não é um simples.
A simplicidade precisa
apoiar-se em uma experiência profunda e complexa. Um
simplório é simplesmente alguém sem qualquer experiência.
Pode ser um tolo, mas jamais será um sábio. Um sábio é
aquele que viveu todos os pecados da vida, que nada negou,
que a nada chamou pecado, que simplesmente aceitou o que
quer que acontecesse e que permitiu que isso acontecesse,
que se movimentou com cada onda, que derivou, que se
extraviou, que caiu nas profundezas do inferno.
Nietzsche diz, algures: -
“Se uma árvore quiser alcançar o céu, suas raízes precisam
aprofundar-se até o mais profundo inferno.” Ele tem razão.
Se quiseres um florescimento verdadeiro no céu, tuas raízes
precisarão ir ao mais profundo inferno da terra.
Quando um pescador torna-se
um sábio, este sábio tem uma beleza própria. Quando um sábio
é simplesmente um sábio, sem se ter tornado um pecador, não
passa de um simplório, deixou passar a vida. E não há
virtude que se erga sem que tivesse havido uma perambulação,
um estado de extravio.
Há uma bela parábola em que
Jesus diz: “Um pai tinha dois filhos. O mais novo pediu sua
herança, levou-a consigo, desperdiçou-a na cidade com vinho
e mulheres e tornou-se um mendigo. O outro filho permaneceu
com o pai, trabalhou duramente na fazenda e acumulou grande
fortuna. Um dia, o filho mendigo, o filho que havia se
extraviado, veio a seu pai e disse: - ‘Estou de volta, fui
um tolo, desperdicei teu dinheiro. Perdoa-me. Agora não
tenho para onde ir, aceita-me, estou de volta.’ E o pai
disse aos servos: - ‘Celebremos esta ocasião; mata-se a
ovelha mais gorda, façam-se muitas e deliciosas comidas,
distribuam-se doces por toda a cidade, procurem para meu
filho o mais velho dos vinhos. Vamos ter uma festa: meu
filho se extraviou e agora está voltando para casa.’
Algumas pessoas da aldeia
foram à fazenda e disseram ao outro filho: - ‘Vê que
injustiça! Tu tens estado com teu pai, prestando-lhe auxílio
como se fosses um dos servos, jamais te extraviaste, jamais
fizeste coisa alguma contra ele e, entretanto nunca foi
feita uma festa em tua honra, jamais houve uma celebração
dedicada a ti. E, agora, aquele vagabundo, aquele mendigo,
que desperdiçou o dinheiro de teu pai e que viveu em pecado,
está de volta. E vê que injustiça - teu pai está fazendo
disso uma celebração. Vai à cidade! Estão distribuindo
doces, uma grande festa está sendo preparada.’
Como é natural, o filho mais
velho ficou muito zangado. Voltou à casa muito triste e
disse ao pai: - ‘Que tipo de justiça é essa? Tu jamais
mataste uma ovelha por mim, nunca me deste qualquer
presente. E, agora, aquele teu filho está de volta, ele, que
desperdiçou teu dinheiro, o dinheiro que tu lhe deste; e o
desperdiçou em coisas erradas - e tu estás celebrando a sua
volta!’
O pai disse: ‘Sim, porque tu
estiveste sempre comigo, e, portanto, nunca houve essa
necessidade. Mas a volta dele precisa ser comemorada: ele se
extraviou, era a ovelha desgarrada, e foi de novo
encontrado.’ ”
Essa história não foi tomada
em toda a sua significação pelos cristãos. Na verdade, ela
diz o que eu te estou dizendo, o que Tantra quer dizer. É
uma história tântrica. Ela significa que, se ficares sempre
no caminho certo, não serás celebrado pela Existência. Serás
um simplório, não terás enriquecido a tua vida. Não haverá
sal em ti: podes ser nutritivo, mas não tens temperos.
Poderás ser muito simples e bom, mas tua bondade não terá,
em si mesma, uma harmonia complexa. Serás uma nota apenas,
não milhões de notas formando uma melodia. Serás uma linha
reta, sem curvas nem cantos. Essas curvas e cantos dão
beleza, tornam a vida mais misteriosa, oferecem
profundidade. Serás raso em tua santidade; não haverá
profundidade em ti.
Por isso é que Tantra diz
que tudo é belo. Mesmo o pecado é belo, porque o pecado dá
profundeza à tua santidade. Mesmo o extravio é belo, porque,
voltando, a pessoa se torna mais enriquecida. Precisas deste
mundo para te moveres nele, profundamente, de forma a
esqueceres por completo de ti próprio - e então voltarás.
As pessoas perguntam: - “Por
que existe este mundo, se Deus é contra ele? Por que Ele nos
atira ao mundo, ao mundo dos carmas, dos pecados, dos erros?
Por que Ele nos atira? Ele pode, simplesmente, redimir-nos.”
Isso não é possível. Assim serias raso, superficial. Tens de
ser atirado ao mais remoto canto do mundo, para que possas
voltar. Essa volta possui algo em si mesma - e esse algo é a
cristalização do teu ser.
Tantra aceita tudo, vive
tudo. Por isso é que Tantra nunca foi uma ideologia muito
aceita. Permaneceu sempre uma ideologia marginalizada,
algures, na fronteira, fora da sociedade, da civilização,
porque a civilização preferiu ser superficial e dizer “não”
a muitas coisas. A civilização não tem a coragem suficiente
para aceitar tudo, para aceitar tudo quanto a vida oferece.
A maior coragem neste mundo
é aceitar tudo quanto a vida nos dá. E é para que chegues a
isso que estou tentando ajudar-te: para que aceites tudo
quanto a vida te dá, com profunda humildade, como uma
dádiva. E quando digo isso refiro-me mesmo àquelas coisas
que a sociedade te condicionou a considerar erradas e más.
Aceita o sexo, e dele virá um florescimento. Uma
brahmacharya virá; uma pureza, uma inocência virão; dele
surgirá virgindade - mas como uma transcendência.
Através da experiência a
criatura transcende.
Movendo-se pelas escuras
vielas da vida, nossos olhos tornam-se treinados e começamos
a ver luz mesmo na escuridão. Que beleza existe no poderes
ver a luz quando é dia! Há beleza, também, quando se trata
da mais escura das noites, e teus olhos estão de tal forma
treinados para a escuridão, que podes ver o dia ali oculto.
Quando, na mais escura das
noites, podes ver a manhã,
então há beleza; então, tu
alcançaste.
Quando no mais baixo podes
ver o mais alto, quando mesmo no inferno podes criar um céu,
então, te tornaste um
artista da vida.
E Tantra quer fazer de ti um
artista da vida - não negador, mas grande semeador do “sim”.
Aceita e aos poucos sentirás
que quanto mais aceitares, menos desejo haverá. Como poderá
haver desejo, se aceitares? Seja qual for a situação,
aceita-a. Então, não haverá motivo para qualquer outra
coisa. Vives essa situação momento a momento, com profunda
aceitação, cresces sem que haja qualquer objeto, sem que
haja qualquer desejo de ir a lugar algum, de ser alguma
outra coisa ou alguma outra pessoa.
Tantra diz: - “Sê tu mesmo”
- e esse é o único ser que podes alcançar. Com a aceitação,
os desejos desaparecem. Com a aceitação, uma ausência de
desejos vem por si mesma. Tu não a praticas, tu não a
forças. Não eliminas teus desejos - pela tua aceitação é que
eles desaparecem.
E quando, de súbito, chega
um momento em que aceitas totalmente e que os desejos todos
se foram, há uma inesperada Iluminação. De súbito, sem que
nada tenhas feito, acontece. Essa é a maior dádiva que esta
existência te pode oferecer.
Essa é a atitude tântrica
diante da vida. Não há outra vida a não ser essa, e não há
outro mundo a não ser este. Este próprio samsara é o
nirvana. Tu só precisas ser um pouco mais
compreensivo, mais tolerante, mais como as crianças, menos
egoísta.
Agora, os sutras de Tilopa:
A prática do mantra e
da paramita,
a instrução em sutras
e preceitos,
o ensino das escolas e
das escrituras
não levam à percepção
da Verdade Inata.
Os Vedas não nos serão
úteis, nem a Bíblia. A prática do mantra pode não nos ajudar
em nada, antes pode se tornar um obstáculo. Na verdade, que
é um mantra? O que está o Iogue Maharishi Mahesh ensinando,
quando ensina meditação transcendental? O que fazes quando
repetes um mantra? O iogue diz para repetires uma certa
palavra, ou um certo mantra continuamente, dentro de ti:
Ram, Ram, Ram; AUM, AUM, AUM - qualquer coisa, mesmo teu
próprio nome servirá. Mesmo que repitas H2O, H2O, H2O
servirá - porque não se trata do som ou da palavra, trata-se
de repetir continuamente; e pela própria repetição é que
algo acontece. Que é isso?
Quando repetes uma certa
palavra continuamente, cria-se um ritmo interior: Ram, Ram,
Ram - um ritmo foi criado, um ritmo monótono. Sempre que
repetes continuamente certa palavra, vem a monotonia.
Repetir continuamente uma palavra é monótono e começas a
sentir-te sonolento. Isso é o que faz a hipnose, isso é a
auto-hipnose. Repetir um mantra é praticar a auto-hipnose.
Vais ficando ébrio com teu próprio e monótono som ritmado.
Isso é bom! Nada de mau há
nisso, pois podes ter um sono muito bom, muito revigorante.
Se estás cansado, eis aí um bom estratagema mental que te
deixa descansado, mesmo mais descansado do que podes
sentir-te com o teu sono normal, porque o sono normal não
pode ser tão profundo como o sono do mantra, já que nele os
pensamentos continuam, os sonhos continuam e perturbam
continuadamente. Mas, se repetes um certo mantra, sem
cessar, nada mais pode estar ali, apenas o mantra. E ele te
leva a um sono muito, muito profundo.
Em Ioga temos uma palavra
especial para isso: em sânscrito o sono é chamado nidra,
o sono criado por um mantra cantado é chamado tandra.
O sono causado pela Ioga, pelo mantra cantado - um sono
profundo, mas ainda sono - é chamado ioga-tandra.
Se teu sono é perturbado, a
Meditação Transcendental pode ser útil. Por isso parece que
a influência de Maharishi tem sido grande na América, o país
mais perturbado no que se refere ao sono. São usados tantos
tranqüilizantes, tantas pílulas para dormir são consumidas,
que as pessoas perderam a capacidade natural para dormir -
daí a influência da MT. Na Índia, ninguém faz caso da MT
porque as pessoas já dormem tão profundamente que se torna
difícil acordá-las.
O mantra te oferece um sono
sutil e até aí ele é bom; mas não penses que isso é
meditação, se não queres enganar-te. Não penses que isso é
meditação, pois não passa de um tranqüilizante mental. E é
tão químico como qualquer pílula sonífera, porque o som
modifica a química do nosso corpo, o som é parte da química
do nosso corpo. Por isso é que certo tipo de música faz com
que te sintas muito repousado: a música desce sobre ti,
limpa-te, como se tivesses tomado um banho. O som muda a
química do nosso corpo. Há certos tipos de músicas que te
fazem sentir muito apaixonado e sexual: seus sons batidos
mudam a química do teu corpo.
O mantra cria música
interior com uma só nota: a monotonia lhe é básica. Não há
necessidade de fazer perguntas ao Iogue Maharishi Mahesh
sobre isso - todas as mães deste mundo sabem a respeito.
Quando quer que a criança se mostre inquieta, ela sussurra
um acalanto - e um acalanto é um mantra: bastam duas ou três
palavras, mesmo que nada queiram dizer, pois não há
necessidade de significação. Ela senta-se ao lado da
criança, ou toma a criança ao colo, junto de seu coração -
as batidas do coração também são música monótona. Assim,
quando a criança está inquieta, a mãe põe sua cabeça sobre o
seu coração e a batida desse coração torna-se um mantra. E a
criança é iludida e adormece. Ou, se a criança é um tanto
mais crescida e não pode ser iludida facilmente, ela canta
um acalanto - duas ou três palavras, palavras simples e
monótonas, que vai repetindo. A monotonia ajuda e a criança
adormece - não há nada de mau nisso. É um tranqüilizante
melhor do que qualquer pílula química, mas ainda assim um
tranqüilizante, uma sutil pílula de som que afeta a química
do corpo.
Assim, se tens perturbações
de sono, se sofres de um certo grau de insônia, um mantra é
bom, mas não penses que a meditação é isso. Isso te fará
mais ajustado, mas não te transformará. E toda a sociedade
está sempre tentando fazer-te mais ajustado em relação a
ela. Para fazer-te mais ajustado em relação a ela, lançou
mão da religião, da moralidade, dos mantras, das iogas. Tem
recorrido à psicanálise e a muitos tipos de psiquiatria para
trazer-te de volta à sociedade ajustada. A meta principal da
sociedade é conseguir uma forma de criar o indivíduo
ajustado. Mas, se toda a sociedade está errada, ser ajustado
a ela não pode ser bom. Se toda a sociedade é louca, estar
ajustado a ela não significa outra coisa do que tornar-se
igualmente louco.
Certa vez alguém perguntou a
Sigmund Freud: - “Na verdade, o que o senhor pretende
fazendo psicanálise e qual é o objetivo dela?” Ele, que era
uma pessoa autêntica como raras o são, respondeu: - “O
máximo que podemos fazer é isto: fazer pessoas
histericamente infelizes tornarem-se normalmente infelizes;
trazemo-las de volta a infelicidade normal, como a de toda a
gente. Essas pessoas estavam indo muito longe, estavam
criando infelicidade demais e se transformando em
neuróticas. Nós as trazemos de volta à neurose normal da
Humanidade.” - Continuou Freud: - “O homem jamais pode ser
feliz. O homem só pode ser, ou neuroticamente infeliz, ou
normalmente infeliz, mas nunca pode ser feliz.”
No que concerne ao comum da
humanidade, seu diagnóstico está aparentemente correto, mas
ele não tem conhecimento daquilo que é um Buda ou um Tilopa,
ele nada sabe daqueles que alcançaram um estado de beatitude
total do ser. Não poderia ser diferente, porque um Buda
nunca iria tratar-se com Freud - para quê? Só pessoas
histéricas procuram Freud, e ele as trata. E todo o seu
conhecimento, toda a sua experiência, referem-se a pessoas
histericamente neuróticas. Ele não conheceu uma só pessoa,
em seus quarenta anos de experiência com pacientes, que
fosse feliz. Assim, ele está certo, empiricamente certo. Sua
experiência mostra que há apenas dois tipos de pessoas: as
normalmente infelizes e as histericamente infelizes. O
máximo que ele pode fazer é torná-las mais ajustadas.
Mantra, psicanálise,
religião, moralidade, igrejas, orações, todas essas coisas
foram usadas para te fazer mais ajustado. Mas a religião
verdadeira tem início quando começas uma viagem de
transformação: não para estares ajustado à sociedade, mas
sim em harmonia com o cosmos. Ser ajustado com a sociedade
implica em queda.
Muitas vezes acontece que um
louco nada tem de errado, o louco tem, simplesmente, excesso
de energia; por isso não consegue se ajustar à sociedade e
aliena-se. Um louco é demasiadamente individualista, um
louco é tão talentoso em certas coisas que não pode se
ajustar facilmente à sociedade. Deves lembrar que todos os
gênios sempre permanecem mal ajustados à sociedade e, de cem
gênios, quase oitenta tiveram seu estágio de hospício. Isto
porque vão além do que a sociedade permite.
A sociedade comum é como um
peso de papéis sobre ti: não permite que voes. Um gênio
atira fora o peso de papéis e gostaria de ser levado por
suas asas até o mais afastado ponto do céu. Desde o momento
em que vais para além da linha da sociedade, da fronteira,
estás louco. E toda a sociedade tenta reajustar-te.
Tantra diz que o
reajustamento ou ajustamento não são os objetivos, de nada
valem - o objetivo é a transformação. Que fazer então? Não
tentes estratagemas para fazer-te reajustado - e o mantra é
um estratagema. Se sentes que não podes dormir, não procures
encontrar o sono através de mantras. Pelo contrário, tenta
saber qual é a inquietação que te está produzindo essa falta
de sono. Podes estar desejando demais, podes ser
excessivamente ambicioso. Tua ambição não te permite dormir,
tua inquietação continua, tua mente desejosa se movimenta
sem parar e o processo de pensamento prossegue. Por isso é
que não podes dormir. Bem, há duas maneiras de consegui-lo.
Uma através do mantra, outra através do Tantra.
Mantra diz: Não te preocupes
com as causas, repete o mantra simplesmente e adormece. Isso
é tão superficial: não te preocupes com as causas, repete o
mantra, simplesmente - quinze minutos pela manhã e quinze
minutos à noite - e poderás dormir. Irás sentir-te bem e
saudável. Mas, ainda que te sintas bem e saudável, o que
acontecerá contigo? Há muitas pessoas saudáveis que dormem
lindamente, sem que nada tenha acontecido a elas - o
florescimento definitivo não chegou. A saúde é um bem em si
mesma, mas não pode ser o objetivo. Dormir é bom, mas não
pode ser o objetivo. Tantra diz que procures a causa que te
produz a inquietação.
Um ministro do governo da
Índia costumava procurar-me. Estava sempre angustiado a
propósito do seu sono e dizia: - “Dá-me alguma técnica que
me faça dormir.” Mas eu lhe disse: - “Um político não pode
dormir - isso não é possível. Um político não foi feito
para dormir, não se espera que ele durma. E isso é bom; não
vou te dar técnica alguma. Procura o Iogue Maharishi Mahesh
e ele te ensinará uma técnica sem perguntar o porquê.” E ele
foi, realmente.
Depois de três meses, voltou
e disse: - “Deu-me uma sugestão e ela funcionou! Agora está
tudo lindo, agora posso dormir.” Eu lhe disse: “Sempre que
precisares e que sentires que dormir não é o suficiente, que
o estar acordado é necessário, procura-me.” Tu podes dormir,
mas que virá disso? Permanecerás o mesmo. Pela manhã estarás
de novo no ambicioso movimento. Podes pensar que alguma
coisa boa aconteceu, mas só uma coisa aconteceu: agora não
terás consciência das causas, elas terão sido sepultadas em
teu mais profundo inconsciente, pelo mantra, e a
possibilidade de transformação foi adiada.
Não posso dar-te melhor
sono. Gostaria de dar-te melhor despertar, melhor
consciência.
Um político está
constantemente desejando, lutando, competindo, tentando
alcançar postos cada vez mais altos na hierarquia. Ao fim,
nada conquista.
Mulla Nusradin trabalhou
toda a sua vida na política e chegou ao mais alto posto
possível. Então, eu lhe perguntei: - “Que conquistaste?” -
Ele disse: - “Para ser franco, sou o maior escalador de
degraus que há no mundo. Essa foi a minha conquista: escalar
degraus.”
Mas mesmo que alcances o
mais alto degrau da escada, que acontece? Teus presidentes e
primeiros-ministros o alcançaram, são os maiores escaladores
de degraus - mas escalar degraus não é vida. E
continuar nisso, escalando degraus cada vez maiores, o que
vem a ser?
A ambição cria a
inquietação. Eu gostaria que entendesses tua ambição. O
desejo cria inquietação. Eu gostaria que fosses consciente
dos teus desejos. Essa é a maneira do Tantra. Pois, quando a
causa desaparece, a doença desaparece. E, se a causa
desaparece, tu estás transformado. A doença é apenas um
sintoma - não tentes ocultar o sintoma. Deixa-o estar ali,
isto é bom, porque vai te espicaçando, te atingindo e
dizendo que algo está errado. Se não podes dormir, isso é
bom, porque mostra que algo está errado no teu próprio
estilo de vida.
Não vou ajudar-te a obter
melhor sono. Direi: “Tenta entender, isso é um sintoma. Esse
sintoma é amigo, não é um inimigo. Ele está simplesmente te
mostrando que, bem lá no fundo, em teu inconsciente, há
correntes subterrâneas que não te deixam dormir. Procura
entendê-las, absorvê-las, passar através delas,
transcendê-las - e então virá o sono profundo. Não por teres
forçado o sintoma subterrâneo, mas porque a doença
desapareceu. E nesse “adormecimento” uma qualidade de
consciência, totalmente diferente, surge. Então podes estar
profundamente adormecido e, ainda assim, alerta. Não é,
portanto hipnose, não é um estado parecido ao da embriaguez,
não é o que se sente através de uma droga - mesmo muito
sutil, mas ainda assim uma droga. Não te faças um viciado em
drogas.”
Diz Tilopa:
A prática do mantra e
da paramita,
a instrução em sutras
e preceitos,
o ensino das escolas e
das escrituras
não levam à percepção
da Verdade Inata.
Paramita
é uma palavra budista que significa compaixão, servir ao
próximo. Tudo o que os missionários cristãos estão fazendo
pelo mundo é paramita. Serve! Ajuda! Solidariza-te!
Tem compaixão! Mas Tilopa diz que só isso também de nada
adianta.
Observei, também - e conheço
muitas pessoas que são reformadores sociais, grandes
servidores da sociedade - que essas pessoas devotaram toda a
sua vida sacrificando-se pelo progresso da sociedade, mas
sem que nelas próprias tenha havido uma transformação. E não
poderia acontecer de outra forma porque servir ao povo,
servir à sociedade, torna-se uma ocupação, de forma que elas
se tornam ocupadas.
Se, de repente, por um
milagre divino, a sociedade é transformada, e não existe
mais mendigos para serem servidos, pobres para serem
socorridos, nem pessoas doentes, nem hospitais, nem loucos -
se isso acontecesse subitamente, podes imaginar o que
aconteceria aos teus grandes servidores da sociedade?
Suicidar-se-iam. Não havendo ninguém para servir, que
fariam? Estariam perdidos. Que aconteceria aos missionários
cristãos? Se não houvesse ninguém para converter, forçar,
dirigir, atrair para o seu caminho, se todos se tornassem
cristãos, que fariam eles? Para onde iriam com suas grandes
missões? Teriam de suicidar-se. Se a revolução realmente
acontecesse, qual seria o destino de nossos revolucionários?
Que fariam eles? Subitamente despojados de sua tarefa,
desempregados, começariam a pedir a Deus: “Traze de volta a
antiga sociedade, precisamos de leprosos para servir,
precisamos de mendigos para ajudar.”
Tu podes ocupar-te ou com
teu próprio negócio, ou com outras pessoas, mas a mente
sempre precisa de ocupação. A mente precisa que te esqueças
de ti mesmo e te ocupes com alguma coisa. Isso é uma fuga à
Verdade Inata. É Tilopa quem o diz.
O Tantra tem uma coisa muito
bela para dizer-te, que é: primeiro, antes que comeces a
servir seja a quem for, sê absolutamente egoísta. Como podes
servir alguém a não ser que tenhas alcançado primeiro teu
ser interior? Sê absolutamente egoísta! Se tua luz interna
está ardendo tu tens possibilidade de ajudar outros - de
outra forma teu serviço será um mal. E o mundo está
mergulhado em tanto mal por causa da quantidade de
revolucionários, de reformadores sociais, de servidores
autonomeados. Eles criam o mal, eles criam o caos, e isso é
natural porque ainda não alcançaram sua própria verdade e já
se puseram a ajudar os outros. Se tens a luz interior, podes
partilhar essa luz com outrem, mas se não a tens, como podes
partilhá-la? Como podes partilhar o que não possuis?
Um homem procurou Buda -
devia ser um grande revolucionário, como Marcuseou outros -
e perguntou-lhe: - “Dize-me: como posso servir a outrem?
Tenho em mim profunda compaixão e gostaria de fazer toda a
gente feliz.” Buda olhou para ele e, ao que se conta, ficou
triste. O homem disse então: - “Por que ficaste triste?” -
Buda respondeu: - “O que desejas é difícil, porque tu mesmo
não pareces feliz e, contudo, queres ter, como missão, o
fazer a toda a gente feliz. Como podes partilhar aquilo que
não possuis?”
Primeiro, sejas,
e desde que sejas, já não se tratará de ter uma missão.
Desde que estejas jubiloso já não terás de sair de teu
caminho para ajudar os outros - teu próprio ser é um
auxílio, onde quer que estejas e tu não fazes disso uma
profissão. Da forma que fores, onde quer que estiveres,
ajudas. Se te sentares junto de uma árvore, ajuda a árvore.
Não conscientemente, não com qualquer esforço da tua parte,
mas só por estares perto da árvore a estarás ajudando e ela
então florescerá em ti - tu acordaste a árvoe. Algum dia
aquela árvore se tornará um buda e tu terás tido parte
nisso, tu participaste. E quando a árvore se tornar um Buda
e todo o universo comemorar isso, tu também comemorarás -
deste parte de ti à árvore, partilhaste.
Senta-te junto a um rio e
partilha do teu ser com ele; move-te para que cada movimento
teu torne-se a tua compaixão - nada há a fazer. Se fazes,
algo está errado. Como podes fazer o que é amor? O
amor não é um ato, é um estado de ser. Tu amas, tu tens a
luz, tuas portas estão abertas, quem quer que deseje entrar
no santuário interior de teu ser, está convidado a fazê-lo.
E quem quer que acenda sua própria luz na tua fonte de luz,
encontra-te pronto para isso.
Nunca procures alguém a quem
ajudar. Quando o fizeres, uma coisa é certa, não és a pessoa
indicada. Quando começas a fazer alguma coisa, uma coisa é
certa, estás criando o mal. Estás unicamente metendo o nariz
em negócios alheios. Deixa que sejam eles mesmos. Já será
bastante compaixão da tua parte o não perturbá-los. Não
tentes modificá-los. Não sabes o que está fazendo.
Só o Iluminado pode ajudar:
o auxílio flui, espontaneamente. Como uma flor que
desabrocha, o vento toma-lhe a fragrância e a espalha por
sobre toda a terra. Isso é muito sutil e indireto, jamais
atinge alguém diretamente. Um Mestre verdadeiro jamais tenta
modificar alguém diretamente. Ele é uma fragrância sutil,
envolve-te.
Se estiveres aberto, um
pequeno sopro entrará em ti. Se não estiveres aberto, ele
esperará à porta, sem sequer bater; do contrário poderá
perturbar teu sono. Trata-se do teu sono, tens o
direito de dormir o quanto desejares; não compete a ninguém
acordar-te.
Eu posso ter acordado; eu
posso, como tu, estar para ser acordado; mas isso é uma
coisa minha, não tua. Se estás bem adormecido, sonhando
lindos sonhos, quem sou eu para perturbar-te? Esperarei. Com
um aroma vou rodear-te. Se esse aroma chegar até ti, se esse
aroma te despertar, ótimo. Mas não se trata de um esforço
direto; é algo muito, muito indireto. E, lembra-te sempre:
só as pessoas que são absolutamente indiretas podem ser de
algum auxílio. O auxílio direto é para políticos, o auxílio
indireto é para os sábios.
a instrução em sutras
e preceitos,
e o ensino das escolas
e das escrituras
não levam à percepção
da Verdade Inata.
Por quê? Porque ela já ali
está. Não precisa ser trazida. Estás procurando algo que já
tens dentro de ti, em sua total beleza e perfeição. Nada tem
de ser feito. Agir é absolutamente impróprio. Só tens de
voltar ao lar. O hóspede já ali está, mas o anfitrião está
fora - tu não estás dentro. Com os teus desejos o que fazes
é afastar-te cada vez mais. Gostarias de ter uma bela casa e
um belo automóvel e mais isto e mais aquilo, e estás te
afastando, estás te afastando. Não tens tempo para voltar ao
lar.
A meditação nada mais é do
que o retorno ao lar, só para descansar um pouco, lá dentro.
Não é o cantarolar do mantra, não é sequer uma oração. É
apenas a volta ao lar e a tomada de um pequeno repouso. Não
ir a parte alguma é meditação, só o estar onde está é
meditação. Não há outro “onde” - só o estar onde estás,
apenas ocupando o espaço onde estás. O desejo te leva a
longas viagens, no tempo e no espaço - o desejo nunca te
leva ao lar que é teu; está sempre a levar-te para algum
outro lugar.
Porque, se a mente,
quando tomada por algum desejo,
procura encontrar um
objetivo,
apenas oculta a Luz.
Por isso estás perdendo -
por estares fora estás perdendo, procurando estás perdendo,
investigando estás perdendo, tentando alcançar estás
perdendo. Nada é necessário da tua parte - o Divino te deu
tudo quanto de pode ser dado. Não somos mandados ao mundo
como mendigos, mas como imperadores. Olha um pouco para
dentro. Por alguns momentos não vás a parte alguma, nada
desejes, não penses no futuro, não penses no passado, fica
apenas aqui e agora e, de repente, lá está - sempre esteve -
e tu começas a rir.
Quando perguntaram a Lin-Chi
o que fez quando alcançou a Iluminação, qual a primeira
coisa que fez, ele disse: - “Como poderia fazer? Sorri, e
pedi uma xícara de chá. Sorri! Que estivera eu a fazer,
procurando algo que ali já estava?” Todos os Budas têm rido
e todos os Budas têm pedido uma xícara de chá. Que outra
coisa deve ser feita? Estiveram correndo desnecessariamente,
por aqui e por ali; cansados, voltaram ao lar. Uma xícara de
chá, é, exatamente, a coisa certa.
Porque, se a mente,
quando tomada de algum desejo,
procura encontrar um
objetivo,
apenas oculta a Luz.
Tua procura cria fumaça em
torno da chama. Corres e corres, em muitas voltas, levanta
muita poeira, crias muita fumaça e é o teu próprio esforço
que levanta a poeira e cria a fumaça, escondendo a chama.
Descansa um pouco, deixa a poeira assentar sobre a terra. Se
não correres depressa demais, se não estiveres apressado,
não criarás fumaça. Aos poucos, as coisas se aquietam e a
luz interior é revelada.
Essa é a coisa mais
fundamental no Tantra, a que diz que já és perfeito. Nenhuma
outra visão diz isso. Elas dizem que tens de alcançar a
perfeição, dizem que tens de seguir, lutar, fazer muitas
coisas e que a trilha é árdua. Muito raramente alguém
alcança a meta, porque ela está muito, muito distante.
Durante milhões de vidas a pessoa tem de tentar e, então,
consegue. A perfeição tem de ser alcançada. Tantra diz que é
por isso que não a alcanças. A perfeição não precisa ser
alcançada. É preciso somente perceber que ela aí está.
Tantra oferece-te a
Iluminação aqui e agora - não é preciso tempo, não é preciso
adiamento. Tantra diz que se repousas, só esse repouso
ajuda, pois com a tua inquietação estás criando fumaça em
toda a tua volta e estás de tal forma apressado que não
consegues ouvir. Se alguém diz: - “Repousa”, responderás -
“Não tenho tempo para repousar. Preciso atingir as meta e
ela está muito distante. Se repousar, perco-a.” Tantra diz
que se o perdes é porque estás correndo. Tantra diz que a
perdes por estar tão apressado.
Aquele que observa os
preceitos tântricos, ainda discrimina,
trai o espírito de
samaya.
Cessa toda a
atividade, abandona todos os desejos,
deixa que os
pensamentos subam e desçam,
coisa que eles farão
como as ondas no oceano.
Aquele que nunca
prejudica o não-perdurável,
nem o princípio da
não-distinção,
defende os preceitos
tântricos.
Muito. Muito simples. Mas tu
és demasiadamente complicado, tu estás muito conturbado
interiormente, pois, se assim não fosse, seria muito, muito
fácil.
Cessa toda a
atividade, abandona todos os desejos,
deixa que os
pensamentos subam e desçam,
coisa que eles farão
como as ondas no oceano.
Como fazê-lo? Se fores até o
oceano, senta-te, simplesmente, na praia e fica a olhar. As
ondas sobem e descem, vem a maré, há um fluxo e um refluxo,
o oceano passa por muitos aspectos. E que fazes?
Simplesmente fica sentado e observas. O mesmo se dá em
relação à mente. Ela também se parece a um oceano: as ondas
sobem e descem, às vezes há um fluxo e muita turbulência,
outras vezes há um refluxo e tu te sentes um tanto
silencioso.
E este é o caso, realmente:
a consciência integral é como o oceano. E tua mente não é
apenas tua: tua mente é parte da mente coletiva. Em torno de
ti há um oceano de consciência. Tal como os peixes no
oceano, somos peixes na consciência - dentro e fora, deste
lado e daquele, acima e abaixo, ali está o oceano, ali estão
as ondas do oceano. Quem és para perturbares isso? Quem és
para fazer com que isso se torne quieto e silencioso? Como
podes fazê-lo?
Assim, sempre que uma pessoa
se torna interessada demais e ansiosa por acalmar a mente,
cria muitas perturbações para si própria. Pois isso não é
possível! E quando tentas algo impossível ficas frustrado.
Pensas, então, em mil e uma causas que impedem de acontecer
o que desejas. O simples fato é que não pode acontecer!
Tantra diz: Observa! Não é da tua conta que os pensamentos
subam e desçam. Eles vêm por sua própria iniciativa e vão
por sua própria iniciativa. Por que te envolves com eles?
Quem és para acalmá-los? Eles não te pertencem, pertencem ao
vasto oceano que te rodeia. Tu ali não estás, eles é que
estão. Um dia tu não mais existirás, mas eles permanecerão.
Agora a Ciência concorda com
isso: cada pensamento é uma onda. É por isso que um rádio
emite pensamentos. Eles passam através das paredes, das
colinas, dos nossos corpos, nada os impede de passar. Algo
que é emitido em Nova Yorque tu ouves aqui. Atualmente, os
cientistas investigam a possibilidade de podermos captar
pensamentos do passado, já que os pensamentos nunca morrem.
Será possível, algum dia, captar Tilopa dizendo a Naropa: -
“Por tua causa, por causa da tua confiança, eu direi aquilo
que não pode ser dito.” Isso será possível, porque os
pensamentos nunca morrem. Aquele pensamento de Tilopa deve
estar algures, junto a uma estrela. Se pudermos captá-lo - e
a ciência poderá consegui-lo algum dia, pois quando, de Nova
Iorque, um pensamento é emitido, leva algum tempo para
chegar a Poona e continua viajando até que, em alguns
milhões de anos, alcança uma estrela -, se pudermos
captá-lo, poderemos novamente ouvi-lo.
Os pensamentos são um oceano
em torno de nós; existem independentemente de nós - sejamos
apenas testemunhas. Por isso, tantra diz:
Aceita-os!
A maré alta vem, é bela;
a maré baixa vem, é bela.
Grandes e fortes ondas
tentam alcançar o céu;
tremenda energia -
observa!
Então vem um oceano
calmo, tranqüilo,
e a lua nele se reflete,
bela - observa.
E, para observares, terás
de permanecer inteiramente silencioso.
Os pensamentos podem
continuar a vir à praia,
batendo-se contra as
rochas,
mas tu permanecerás calmo
e quieto,
eles não te afetarão.
Assim, o verdadeiro problema
não está nos pensamentos, mas em ser afetado por eles. Não
lutes contra os pensamentos, torna-te simplesmente uma
testemunha e não serás afetado. Esse é um silêncio mais
rico; lembra-te que Tantra prefere sempre as mais ricas
experiências. É possível criar um silêncio mortal, o
silêncio que encontras num cemitério. Podes forçar tanto a
tua mente que todo o teu sistema nervoso se torna
paralisado. Então não haverá pensamentos, porque um sistema
nervoso muito delicado é necessário para recebê-los. O
oceano ali estará, mas tu não serás receptivo, tua
receptividade perdeu-se.
Isso é o que está
acontecendo com muitos iogues - os chamados iogues. Eles
insistem em embotar seu sistema nervoso. Comem menos, de
forma que energia nenhuma vai ter ao cérebro. No jejum, a
energia não pode ir para o cérebro, o corpo necessita dela
em primeiro lugar. Vivem eles de tal maneira que, aos
poucos, todo o seu sistema cerebral se torna paralisado,
obtuso. Sentam-se numa só postura, monótona, repetem um
mantra, monótono. Se durante alguns anos alguém repetir
continuamente um mantra, é natural que o sistema nervoso se
torne inerte, pois na ausência de novas sensações a
vitalidade se perde.
Na verdade, tal homem não se
tornou silencioso - tal homem tornou-se mais estúpido. E
terá um olhar estúpido, que é o que existe nos rostos de
muitos e muitos iogues. Não verás neles inteligência, verás
algo inerte, morto, petrificado. Esses iogues não chegaram
ao silêncio - apenas perderam seus cérebros, anularam-se
completamente, morreram. Nada acontece no seu interior,
porque nada pode acontecer sem um delicado sistema nervoso -
muito delicado, muito receptivo, sensível.
Assim, este deveria ser o
critério: se vires no rosto de um iogue algo radiante,
inteligência, percepção, sensibilidade - como se alguma
coisa houvesse florescido dentro dele - esse iogue
realizou-se. Só então aconteceu o silêncio. Do contrário,
alguém pode estar silencioso - as pessoas estúpidas são
silenciosas, os idiotas são perfeitamente silenciosos -
porque não podem pensar - mas que tipo de silêncio é esse?
Um idiota não é um iogue. Um
idiota simplesmente nasceu de tal forma que o seu sistema
cerebral não está funcionando. Podes fazer o mesmo com teu
próprio cérebro, jejuando, praticando posturas iogues,
ficando de cabeça para baixo durante horas. Nesse sentido,
shirshasan é perfeito: ficas de cabeça para baixo
durante horas e assim matas teu sistema nervoso, porque teu
cérebro existe apenas se, a cada minuto, recebe a quantidade
certa de energia e sangue, uma vez que os nervos são muito
delicados, pequenos e frágeis. Sequer podem ser vistos a
olho nu. Teu cabelo parece muito fino mas não é. Se
colocares dez mil nervos um sobre o outro, só então
atingirão a grossura de um frio de cabelo. Assim, se o
sangue corre depressa, ele os destrói; como uma inundação.
O homem desenvolveu seu
cérebro, coisa que nenhum animal o fez, porque o homem
ergue-se sobre os pés. Devido a isso é que menos sangue pode
subir à cabeça; isso é contra a gravitação. A gravitação
orienta o sangue para baixo e é por isso que só uma pequena
parcela de sangue atinge a cabeça a cada momento. De outra
forma aquele sistema sutil não poderia existir. Os animais
não o podem ter porque andam sobre as quatro patas e seus
cérebros ficam no mesmo nível de seus corpos. Se ficares de
cabeça para baixo, fazes o shirshasam. Por um só
minuto isso pode ser bom, ou mesmo por um só segundo isso
pode ser bom, já que apenas age como um banho. O sangue
apenas alcança o ponto e já desce, porque voltas à tua
posição normal: ele limpa. Mas se fazes o shirshasam
durante vários minutos seguidos, ou durante horas seguidas,
isso matará todo o teu sistema cerebral. O fluxo é grande
demais, o cérebro não pode resistir.
Os iogues encontraram muitas
formas de destruir o cérebro. Desde que ele está destruído
tu não podes ver o oceano - mas o oceano existe, os
pensamentos existem. É como se o teu rádio-receptor
estivesse quebrado. Não pense que as transmissões não estão
passando pela sala, porque estão. É o teu mecanismo receptor
que não está funcionando. Conserta o rádio, liga-o - e
imediatamente ele começará a captá-las.
O cérebro é exatamente igual
a um centro receptor. Se o destróis ele fica silencioso, mas
aquele não é o silêncio do Tantra. E eu não ensino esse
silêncio - ele é como a morte. Não vais a parte alguma
através dele - estás é desperdiçando a tua vida. E um
instrumento muito sutil, que te pode fazer perfeitamente
inteligente, um instrumento que pode ser tão perceptivo a
ponto de te permitir festejar toda a celebração da
existência, tu o destruíste.
Mais sensitividade é
necessária, mais poesia é necessária.
Mais vida, mais
beleza, tudo mais é necessário.
Que farás, então? Procura o
silêncio tântrico. Observa as ondas: quanto mais as
observares mais poderás apreciar-lhes a beleza. Enquanto as
observa, as mais sutis nuances do pensamento te serão
reveladas. Isso é belo - mas tu permaneces como testemunha,
tu permaneces na praia. Tu estás apenas sentado na praia, ou
deitado ao sol, deixando que o oceano faça seu próprio
trabalho - não interferes nele.
Se não interferires, o
oceano, pouco a pouco, não interferirá contigo. Ele
continuará bramindo em toda a volta, mas não te penetrará. É
belo em si mesmo, mas está separado; uma distância existe.
Essa distância é a meditação verdadeira, o verdadeiro
silêncio.
O mundo caminha e caminha,
tu não és afetado, tu permaneces no mundo, mas não está no
mundo. Tu permaneces no mundo, mas o mundo não está em ti.
Tu passas através do mundo, intocado, sem medo. Permaneces
virgem. Faças o que fizeres, aconteça o que te acontecer,
isso não fará diferença.
tua virgindade
conserva-se perfeita,
tua inocência conserva-se
absoluta,
tua pureza não é
destruída.
Aquele que observa os
preceitos tântricos, ainda discrimina, trai o espírito de
samaya.
Tilopa diz que se estás
tentando manter o caminho tântrico, os preceitos tântricos,
então deves lembrar: não discrimines. Se discriminares
poderás ser um filósofo mas não um seguidor tântrico. Não
discrimines. Não digas que isto é bom e aquilo é mau.
Abandona toda a discriminação. Aceita tudo tal como é.
Cessa toda a
atividade, abandona todos os desejos,
Descansa em ti mesmo,
volta ao lar;
Deixa que os
pensamentos subam e desçam,
O que eles farão, como
as ondas no oceano.
Aquele que nunca
prejudica o não-perdurável,
Nem o princípio da
não-distinção,
Sustenta os preceitos
tântricos.
Quem nunca prejudica o
princípio da não-distinção, quem nunca discrimina segue o
caminho certo.
E... quem nunca prejudica
o não-perdurável.
Esta é uma das mais belas
coisas no Tantra. Tantra diz que te conserves sem lar, que
não mores em parte alguma, que não te identifiques, que não
te agarres a nada. Conserva-te sem lar porque na carência de
lar encontrarás teu lar verdadeiro. Se começares a morar
aqui e ali, perderás o lar. Não te agarres a ninguém, a
nada, a nenhum relacionamento. Aprecia, mas não te agarres.
O apreciar não constitui um problema desde que não comeces a
agarrar-te; assim que a mente apegada entra em cena, já não
estás fluindo e então vem o bloqueio. Não habites onde quer
que seja e habitarás em ti próprio. Não te apegues a nada e
só então poderás repousar em ti próprio.
Assim, dois princípios são
básicos: não prejudiques o princípio do não-perdurável e não
prejudiques o princípio da não-distinção.
O que abandona o
desejo insaciável
E não se prende a isto
nem àquilo
Percebe o significado
real dado nas escrituras.
Através das escrituras não
podes chegar à Verdade. Mas se chegares à Verdade,
entenderás as escrituras. As escrituras não passam de
testemunhas, elas dão testemunho. Não podes aprender a
Verdade através delas, mas desde que conheças a Verdade,
elas te darão testemunho. Todas as escrituras do mundo
dirão: “Sim, tu alcançaste.” Isso é que é a Verdade. As
escrituras vêm de pessoas que alcançaram. Seja qual for sua
linguagem e simbologia, sejam quais forem suas metáforas,
desde que alcances, penetras através de todas as metáforas,
de todas as simbologias, de todas as linguagens.
As pessoas me perguntam: -
“Que fazes aqui? Às vezes falas de Tantra e Tilopa, às vezes
falas de Ioga e Patanjali, outras vezes de Lao-Tsé e
Chuang-Tsé, dos taoístas e do Tao e, ainda em outras vezes,
saltas para Heráclito e Jesus: que fazes aqui?” - Estou
falando sobre a mesma coisa. Não estou falando sobre nenhuma
outra coisa. Heráclito ou Tilopa, Buda ou Jesus, não há
diferença para mim. Eu próprio estou falando. Eles são
apenas justificativas - pois, uma vez que alcances, realizas
todas as escrituras do mundo. Então, não há mais escritura
hindu, escritura judaica, escritura cristã. Tu te tornas o
apogeu de todas as escrituras.
Sou cristão, hindu,
muçulmano, porque não sou nenhum. E a Verdade, uma vez
conhecida, está para além de todas as escrituras. Todas as
escrituras apontam para ela, as escrituras não são mais do
que dedos apontando para a lua; os dedos podem ser milhões -
a lua é a mesma. Desde que sabes isso, sabes tudo.
Através das escrituras tu te
tornarás um sectário: será cristão porque te agarras à
Bíblia, serás muçulmano porque te agarras ao Corão, serás
hindu se te agarrares ao Gita - mas não serás religioso. A
religiosidade existe apenas quando a Verdade aconteceu para
ti. É quanto tu não te agarras a nada e todas as escrituras
começam a agarrar-se a ti. É quanto tu não segues ninguém e
todas as escrituras te seguem, tornam-se como tuas sombras.
E todas as escrituras são o mesmo porque dizem a mesma
coisa. Suas metáforas, assim como sua linguagem, são
diferentes naturalmente, mas as experiências são as mesmas.
Buda diz: - “Onde quer que
proves a água do mar, em toda a parte a encontrarás
salgada.” - Prova-a no Corão, ou na Bíblia, ou no Tora, ou
no Talmude, o gesto é sempre o mesmo. As escrituras não te
podem conduzir. Na verdade, elas estão mortas sem ti. Quando
alcançares a Verdade, a vida aparecerá, subitamente, em
todas as escrituras. Através de ti elas tornam-se novamente
vivas, através de ti elas renascem.
Isso é o que estou fazendo,
dando renascimento a Tilopa. Ele esteve morto durante
centenas de anos. Ninguém falou dele, ninguém o fez
renascer. Podes encontrá-lo se fores capaz. Ele está
novamente perto daqui. Se fores receptivo, sentirás seus
passos. Ele tornou a materializar-se.
Através de mim ,eu farei
nascer todas as escrituras. Através de mim elas podem
novamente vir a este mundo. Eu posso tornar-me uma âncora. E
é isso que estou fazendo. E é isso o que eu gostaria que
fizesses em tua própria vida, algum dia.
Quando compreendes,
quando chegas a saber,
então traze toda a
beleza do passado de volta
e dá a esse passado o
renascimento, renova-o,
de forma que todos os
que o conheceram
possam estar de novo
sobre a terra
e viajar por aqui, e
ajudar as pessoas. |