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Tantra - A Suprema Compreensão (Osho)
A trilha sem pegadas
Transcender a dualidade é
visão soberana.
Dominar abstrações é prática régia.
A trilha da não-prática é o caminho de todos os Budas.
Quem pisa essa trilha alcança o estado de Buda.
Transitório é este mundo;
como fantasmas e sonhos ele não tem substância alguma.
Renuncia a ele, abandona teus parentes,
corta os laços da luxúria e do ódio,
e medita em bosques e montanhas.
Se, sem esforço,
permaneceres desprendidamente em estado natural,
logo Mahamudra conseguirás,
e obterás a não-obtenção.
Há dois caminhos. Um é o
caminho do guerreiro, do soldado; o outro é o caminho do
rei, o Caminho Real. A Ioga é o primeiro, e o Tantra é o
segundo. Portanto, precisas conhecer, primeiro, o que é o
caminho do soldado, do guerreiro e, só então, poderás
compreender o que Tilopa quer dizer quando se refere ao
Caminho Real.
Um soldado tem de lutar,
polegada por polegada; um soldado tem de ser agressivo, um
soldado tem de ser violento; o inimigo deve ser destruído,
ou conquistado.
A Ioga tenta criar um
conflito dentro de ti. Oferece-te nítida distinção entre o
que é errado e o que é certo, o que é bom e o que é maus, o
que pertence a Deus e o que pertence ao diabo. E quase todas
as religiões, exceto Tantra, seguem o caminho da Ioga.
Dividem a realidade e criam um conflito interior; através
desse conflito, prosseguem.
Por exemplo, tens ódio em
ti. O caminho do guerreiro é destruir o ódio interior.
Sentes cólera, ganância, desejo sexual e milhões de coisas -
o caminho do guerreiro é destruir tudo o que é errado,
negativo, e desenvolver tudo quanto seja positivo e certo. O
ódio deve ser destruído e o amor, desenvolvido. A cólera
deve ser completamente destruída e a compaixão, criada. O
sexo deve se afastar e dar lugar ao brahmacharya, ao puro
celibato. A Ioga imediatamente corta-te com uma espada em
duas partes: o certo e o errado; e o certo deve vencer o
errado.
Que farás? A cólera está em
ti - que sugere a Ioga que faças? Sugere que cries o hábito
da compaixão, que cries o oposto, que o tornes tão habitual
a ponto de começares a funcionar como um robô - daí ser
chamado o caminho do soldado. Por todo o mundo, através da
história, o soldado tem sido treinado para uma existência de
robô: tem de criar hábitos.
Os hábitos funcionam sem a
consciência, não precisam de percepção; podem mover-se sem
ti. Se tens hábitos - e toda a gente os tem - podes observar
isso. Um homem tira seu maço de cigarros do bolso -
observa-o - ele pode não estar consciente do que está
fazendo. Tal como um robô, ele procura o bolso. Se ele
estiver intimamente inquieto, imediatamente sua mão irá até
o bolso, apanhará um cigarro, começará a fumar. Certamente
atirará fora a parte que resta; pode ter realizado todos
esses gestos sem ter consciência de que os estava
realizando.
Ensinamos ao soldado uma
existência de robô. O soldado tem de fazer e obedecer; não
precisa estar consciente. Quando recebe ordem para virar à
direita, tem de virar; não pode pensar se deve ou não virar,
porque, se começar a pensar, então será impossível, as
guerras não poderão continuar neste mundo. Pensar não é
necessário, nem a consciência é necessária. O soldado deve,
apenas, ter a percepção suficiente para entender as ordens;
é tudo. Um mínimo de percepção: a ordem é dada, e,
imediatamente, como um mecanismo, ele a está cumprindo. Não
que ele se volte para a esquerda, quando lhe ordenam que se
volte para a esquerda - apenas ouve e volta-se. Não está se
voltando; cultivou aquele hábito. Está, apenas, acendendo ou
apagando a luz - apenas um botão e a luz se acende. Dizem: -
“Virar à esquerda!”, o botão é apertado e o homem se move
para a esquerda.
William James contou que,
certa vez, estava sentado num café e um velho soldado da
reserva - na reserva havia mais de vinte anos - ia passando
com uma cesta de ovos. Subitamente, William Jones fez uma
brincadeira. Gritou “Atenção!” e o pobre homem parou, na
posição comandada. Os ovos caíram-lhe da mão e se quebraram.
Ele ficou muito zangado, veio correndo e disse - “Que tipo
de brincadeira é essa?”
Mas William James
argumentou: - “Não precisas obedecer. Todo mundo é livre
para gritar ‘atenção’. Não és forçado a atender. Quem te
disse que atendesses? Devias ter seguido teu caminho.”
Disse ao homem: - “Isso não
é possível, porque é automático. Já há vinte anos estou fora
do meio militar, mas o hábito está profundamente enraizado.”
Mediante muitos anos de treinamento, um reflexo condicionado
é criado.
A expressão “reflexo
condicionado” é boa. Foi criada por um psicólogo russo,
Pavlov. Diz que simplesmente refletes; alguém atira algo em
teus olhos, nem pensas em piscar ou fechar os olhos, e eles
simplesmente fecham-se. Uma mosca vem voando e fechas os
olhos; não precisas pensar, não há necessidade: é um reflexo
condicionado - acontece, simplesmente. Está nos hábitos do
teu corpo, em teus ossos. Acontece, simplesmente! Nada pode
ser feito contra isso.
O soldado é treinado para
existir como um robô. Deve existir através de reflexos
condicionados. O mesmo se dá na Ioga. Tu te zangas e a Ioga
diz: - “Não fiques zangado, é melhor que cultives o oposto,
a compaixão.” Aos poucos, tua energia começa a mover-se no
hábito da compaixão. Se perseverares por um longo tempo, a
cólera desaparecerá completamente e tu sentirás compaixão.
Mas estarás morto, não vivo. Serás um robô, não um ser
humano. Terás compaixão, não porque tenhas compaixão, mas só
porque cultivaste um hábito.
Podes cultivar um mau hábito
e podes cultivar um bom hábito. Alguém pode cultivar o
hábito do fumo, outro alguém pode cultivar o hábito de não
fumar; uns cultivam o estilo não-vegetariano de alimentação,
outros cultivam o estilo vegetariano - mas ambos cultivam e,
no julgamento final, ambos são iguais porque ambos vivem de
hábitos.
Essa questão deve ser
ponderada muito profundamente, porque é muito fácil cultivar
um bom hábito, mas é muito difícil tornar-se bom. E o
substituto de um bom hábito é barato, pode ser conseguido
facilmente.
Agora, particularmente na
Rússia, estão desenvolvendo uma terapia: a terapia de
reflexos condicionados. Dizem que as pessoas não podem
deixar seus hábitos. Alguém fuma há vinte anos - como
esperar que deixe de fumar? Podem explicar-lhe que aquilo é
mau, os médicos podem dizer-lhe que se trata, mesmo, de uma
situação perigosa, que pode originar um câncer, mas há vinte
anos de longo hábito e, agora, está enraizado; foi ter ao
núcleo mais profundo de seu corpo, está em seu metabolismo.
Mesmo que queira, mesmo que deseje, mesmo que deseje
sinceramente parar, será difícil que o consiga, porque não é
uma questão de desejo sincero: aos vinte anos de contínua
prática - e é quase impossível. Portanto, o que fazer?
Na Rússia dizem que não há
necessidade de fazer nada e não há necessidade de
explicar-lhe nada. Desenvolveram uma terapia: o homem começa
a fumar e eles lhe dão um choque elétrico. O choque, a dor
que ele causa e o fumo reúnem-se, tornam-se associados.
Durante sete dias, o homem permanece hospitalizado e, sempre
que começa a fumar, imediatamente, automaticamente, dão-lhe
um choque elétrico. Depois de sete dias, o hábito está
rompido. Se o persuadirem a fumar ele começará a tremer. No
momento em que segura um cigarro, todo o seu corpo treme,
por causa da idéia do choque.
Dizem, então, que nunca mais
fumará: romperam o hábito por meio de um duro tratamento,
por meio de choques. Mas esse homem não se tornará um Buda
porque perdeu um velho hábito através de tratamento de
choques. Todos os hábitos podem ser modificados através do
tratamento de choques. Será ele um Buda? Esclarecido? Porque
não mais tem hábitos nocivos? Não. Ele nem mesmo será um ser
humano, agora - será um mecanismo. Terá medo das coisas; não
poderá fazê-las porque lhe foram dados novos hábitos de
medo.
Essa é a significação
integral de “inferno”: todas as religiões têm usado
tratamentos de choque. O inferno não está em parte alguma,
não há qualquer “céu”. Ambas essas coisas são estratagemas,
velhos conceitos de psicoterapia. Pintaram o inferno tão
horrível que uma criança se toma de medo dele desde o início
de sua infância. Basta mencionar a palavra inferno e o medo
surge; ela treme. Esse é apenas um estratagema para evitar
maus hábitos. Assim, muito prazer, felicidade, beleza e vida
eterna são prometidas no céu, se seguires os bons padrões.
Tudo quando a sociedade disser que é bom, tens de seguir. O
céu ali está para ajudar-te em direção às coisas positivas;
e o inferno ali está para evitar que sigas em direção
negativa.
Tantra é a única religião
que não usou de tais reflexos condicionados, porque Tantra
diz que deves florescer como um ser perfeitamente acordado,
não como um robô. Assim, se compreenderes Tantra, o hábito é
que será mau; não há maus hábitos, não há bons hábitos - o
hábito é mau. E é preciso estar acordado para que não haja
hábitos. Tu vives, simplesmente, momento a momento com
integral consciência, e não através de hábitos. Viver sem
hábitos: esse é o Caminho Régio.
Por que é Régio? Um soldado
tem de obedecer, mas um rei não precisa fazer isso. Um rei
está acima, dá ordens; não recebe ordens de ninguém. Um rei
nunca vai à luta, só os soldados vão. Um rei não é um
lutador. Um rei vive a mais calma de todas as vidas. Isso é
apenas uma metáfora. Um soldado tem de obedecer; um rei
vive, simplesmente, desprendido e natural; não há ninguém
acima dele. Tantra diz que não há ninguém acima de ti. A
quem tens de seguir, através de quem deves organizar teu
padrão de vida, através de quem tens de tornar-te imitador?
- não há ninguém. Vive uma vida desprendida, natural, fluida
- a coisa única é esta: sê perceptivo.
Lutando, poderás adquirir
bons hábitos, mas serão hábitos não naturais. As pessoas
dizem que o hábito é uma segunda natureza. Pode ser, mas
lembra-te da palavra “segunda”. Não é natural; pode
parecê-lo, mas não é.
Que diferença haverá entre
compaixão verdadeira e compaixão cultivada? A compaixão
verdadeira é um resposta - a situação e a resposta. A
compaixão verdadeira é sempre viva: algo aconteceu e teu
coração flui em direção àquilo. Uma criança cai e tu corres
e ajudas a criança a levantar-se; mas isso é uma resposta.
Uma compaixão cultivada, uma falsa compaixão, é, apenas, uma
reação.
Essas duas palavras são
muito significativas: “resposta” e “reação”. A resposta está
viva para a situação, ao passo que a reação é apenas um
hábito arraigado: no passado, foste treinado para ajudar
alguém que cai e, simplesmente, ajudas, mas não pões teu
coração nisso. Alguém se está afogando no rio, tu corres e
ajudas a pessoa somente porque foste treinado para isso.
Permaneces fora do caso, teu coração ali não está, tu não
respondeste. Não respondeste àquele homem, àquele homem que
se estava afogando no rio. Respondeste àquele momento,
seguiste uma ideologia.
Seguir uma ideologia é bom:
ajuda todo o mundo, torna-te um servidor das pessoas, têm
compaixão! Tens uma ideologia, e, através dela, reages. É do
passado que vem a ação; e já está morta. Quando a situação
cria a ação e tu respondes em plena consciência, só então,
algo de belo acontece contigo.
Se reages por causa de uma
ideologia, de velhos padrões de hábitos, nada ganharás com
teu gesto. Podes ganhar, no máximo, um pequeno ego, que não
é, absolutamente, um ganho. Podes começar a gabar-te de
teres salvo um homem que se estava afogando no rio. Podes ir
para a praça pública e gritar fortemente: - “Vejam! Eu
salvei outra vida humana!” Podes ganhar um pouco mais de
ego, por teres feito algo bom; mas isso não é um ganho.
Perdeste uma grande oportunidade de ser espontâneo, de ser
espontâneo na compaixão. Se respondes à situação, então algo
floresce em ti, um desabrochar; e sentirás um certo
silêncio, uma quietude, uma bênção.
Sempre que há uma
resposta, tu florescer por dentro.
Sempre que há uma reação,
permaneces morto;
agiste como um cadáver,
agiste como um robô.
A reação é feia, a
resposta é bela.
A reação é sempre da
parte,
a reação nunca é do todo.
A resposta é sempre do
todo,
tua inteira totalidade
salta para o rio.
Não pensas naquilo,
a situação simplesmente
faz com que aconteça.
Se tua vida se tornar uma
vida de resposta e espontaneidade, um dia te tornarás um
buda. Se tua vida se tornar uma vida de reação, de hábitos
mortos, poderás parecer um Buda, mas não te tornarás um
Buda. Serás um Buda pintado; por dentro serás apenas um
cadáver. Os hábitos matam a vida. Os hábitos são contra a
vida.
Todos os dias, como hábito
adquirido, tu te levantas cedo; às cinco horas estás de pé.
Na Índia, vemos muita gente fazer isso porque, na Índia,
durante séculos, ensinou-se que Brahmamuhurt, antes
de o sol nascer, é o momento mais auspicioso, o momento
sagrado. E é. Mas não podes fazer disso um hábito, porque o
sagrado só existe numa resposta viva. Eles se levantam às
cinco horas, mas nunca verás em seus rostos a glória que
surge quando te levantas cedo como uma resposta.
A vida inteira está se
acordando em torno de ti: a terra inteira está esperando
pelo sol, as estrelas desapareceram. Tudo está se tornando
mais consciente! A terra dormiu, as árvores dormiram, os
pássaros estão prontos para alçar vôo. Tudo está pronto, um
novo dia começa, uma nova celebração.
Quando essa atitude é uma
resposta, então tu te ergues como um pássaro, sussurrando e
cantando; teus pés dançam. Isso não é um hábito, não se
trata de teres de te levantar; não é por tal coisa estar nas
escrituras que, sendo um devoto hindu, te levantas cedo,
pela manhã. Se fizeres disso um hábito, não ouvirás os
pássaros, porque os pássaros não estão registrados nas
escrituras. Não verás o sol que se ergue, porque não basta
levantar-se - tu estás seguindo uma disciplina morta.
Podes até ficar zangado,
podes até ficar contra aquilo porque na véspera te deitaste
tarde e não estás te sentindo bem para te levantares. Seria
melhor que tivesses dormido um pouco mais. Não estavas
pronto, estavas fatigado. Ou a noite passada não foi tão
boa, sonhaste demais e todo o teu corpo sente-se letárgico -
gostarias de dormir um pouquinho mais. Mas não; as
escrituras rezam assim e assim foste ensinado deste tua mais
tenra infância...
Na minha infância, meu avô
era partidário das manhãs. Arrancava-me do meu sono mais ou
menos às três horas - desde então não consigo levantar-me
cedo. Ele me arrastava e eu o maldizia por dentro, mas nada
podia fazer e saía com ele para uma caminhada; cheio de sono
tinha de caminhar ao lado dele. Assim meu avô destruía toda
a beleza do amanhecer.
Sempre que, mais tarde, eu
tinha de sair para uma caminhada matinal, não podia
perdoá-lo. Lembrava-me sempre dele. Destruíra tudo; durante
anos, ele esteve continuamente me arrastando - contudo fazia
algo bom; pensava que me estava ajudando a formar um estilo
de vida. Mas essa não é a maneira certa: eu sonolento e ele
me arrastando. O caminho era bonito, a manhã era bonita, mas
ele destruía toda a beleza, ele me despojava. Só depois de
muitos anos pude recuperar-me e andar pela manhã sem me
lembrar dele. Antes sua lembrança estava comigo. Mesmo
depois de morto, ele me seguia, como uma sombra, pela manhã.
Se fazes do levantar-te cedo
um hábito, se o fazes como algo forçado, então a manhã
torna-se feia. Nesse caso é melhor continuar a dormir. Mas
sê espontâneo! Há dias em que não serás capaz de levantar-te
- nada há de errado nisso, não estás cometendo um pecado. Se
te sentes sonolento, o sono é belo - tão belo como qualquer
manhã e tão belo como o nascer do sol, porque o sono
pertence ao Divino, assim como o sol. Se tens vontade de
descansar o dia inteiro, isso é bom!
Isso é o que o Tantra diz:
Caminho Régio, ou seja, agir como um rei, não como um
soldado. Não há ninguém acima de ti para forçar-te a dar-te
ordens; obedecer não deve, realmente, ser um estilo de vida.
Aquele é o Caminho Régio. Deves viver momento a momento,
gozando momento a momento, e a espontaneidade deve ser a
forma. Por que te preocupas com o amanhã? Este momento é o
bastante. Vive-o! Vive-o em sua totalidade. Responde, mas
não reajas. Nada de hábitos - esta é a fórmula.
Não estou dizendo para que
vivas num caos, mas para que não vivas através de hábitos.
Talvez, só por viver espontaneamente, uma forma de vida
evolua em torno de ti, mas não será forçada. Se gostas da
manhã todos os dias, e, por esse prazer te levantas cedo não
por hábito, então levanta-te cedo todos os dias e faze-o
durante toda a tua vida, que isso não será um hábito. Não te
estás forçando a levantar-te - acontece. Isso é belo, gozas
isso, amas isso.
Se acontece por amor, não é
um estilo, não é um hábito, não é um condicionamento, não é
uma coisa morta, cultivada. Menos hábitos, e estarás mais
vivo. Nenhum hábito, e estarás completamente vivo. Os
hábitos te cercam como uma crosta morta e tu és encerrado
por ela; ficas como numa cápsula, como uma semente; uma
célula te rodeia e é dura. Sê flexível.
A Ioga te ensina a cultivar
o oposto de tudo o que é mau. Luta contra o mal e atende o
bem. Se há violência, mata a violência em teu íntimo,
torna-te não-violento, cultiva a não-violência. Faze sempre
o oposto e força-o a tornar-se teu padrão. Essa é a maneira
do soldado, um pequeno ensinamento.
Tantra é o Grande
Ensinamento - o Supremo. Que diz Tantra? Tantra diz: não
cries conflitos dentro de ti. Aceita ambas as coisas pois,
através dessa aceitação, acontece uma transcendência; não
uma vitória, mas uma transcendência. Em Ioga, há vitórias,
em Tantra, não. Em Tantra existe apenas transcendência. Não
que te tornes não-violento contra a violência; simplesmente
passa para além de ambas essas coisas, simplesmente te
tornas um terceiro fenômeno - uma testemunha.
Certa vez, eu estava sentado
num açougue. O açougueiro era um homem muito bom e eu
costumava visitá-lo. Era noite e ele já estava fechando
quando um homem chegou e pediu uma galinha. Eu sabia, pois
alguns minutos antes ele me dissera que tinha vendido tudo
naquele dia, que apenas restara uma galinha. Assim, ele
ficou muito feliz. Entrou, trouxe a galinha, atirou-a na
balança e disse: - “São cinco rúpias.”
O homem disse: - “Está bem,
mas vou fazer uma festa, muitos amigos virão e essa galinha
parece muito pequena. Gostaria de levar uma que fosse
maior.”
Bem, eu sabia que não havia
mais nenhuma galinha, aquela era a única. O açougueiro
meditou por um momento, levou a galinha de volta para outro
compartimento, ficou ali por um certo tempo, voltou, atirou
uma galinha na balança - a mesma - e disse: - “Está é de
sete rúpias.”
O homem falou: - “Sabes de
uma coisa? Vou levar as duas.”
Então o açougueiro ficou,
realmente, num embaraço.
E Tantra causa o mesmo
embaraço ao Todo, à Existência mesmo. Tantra diz: levarei as
duas.
Não há duas. O ódio não é
senão o outro aspecto do amor. E a cólera nada mais é do que
o outro aspecto da compaixão. E a violência nada mais é do
que a outra face da não-violência. Tantra diz: - “Sabe de
uma coisa? Ficarei com as duas. Aceito as duas.” E,
subitamente, através dessa aceitação, há uma transcendência,
porque não há duas coisas. Violência e não-violência não são
duas coisas. Cólera e compaixão não são duas. Amor e ódio
não são dois.
Eis por que sabes, observas,
mas estás tão inconsciente que não reconheces o fato. Teu
amor se transforma em ódio dentro de um segundo. Como é
possível que sejam dois? Nem mesmo um segundo é necessário:
neste momento amas e, no momento seguinte, odeias a mesma
pessoa. Pela manhã amas a mesma pessoa, à tarde a odeias, à
noite tornas a amá-la. Na verdade, amor e ódio não são as
palavras certas: ódio-amor, cólera-compaixão - são um só
fenômeno e não dois. Por isso é que o amor se torna ódio e o
ódio pode tornar-se amor; a cólera pode fazer-se compaixão e
a compaixão pode tornar-se cólera.
Tantra diz que, a partir do
momento em que tua mente estabelece divisão, começas a
lutar. Crias primeiro a divisão: condenas um aspecto e
aprecias outro. Crias primeiro a divisão, depois o conflito
e ficas perturbado. E ficarás perturbado. Um iogue está
constantemente perturbado porque tudo quando faz não produz
a vitória final; no máximo, sua vitória pode ser temporária.
Podes recalcar a cólera e
agir compassivamente, mas sabes bem que a recalcaste para o
inconsciente e que ela ali está; a qualquer momento, um
pouco de descuido e ela borbulhará, virá à tona. Por isso é
preciso estar sempre a recalcá-la. É tão feio estar sempre
recalcando as coisas negativas - a vida toda é desperdiçada.
Quando gozarás o Divino? Não tens espaço, nem tempo. Estás
lutando contra a cólera, a ganância, o sexo, o ciúme e mil
outras coisas. Esses mil inimigos aí estão; tens de
manter-te constantemente alerta, não podes nunca relaxar.
Como é possível que sejas desprendido e natural? Estarás
sempre tenso, esgotado, sempre pronto à luta, sempre
receoso.
Os iogues tornam-se
temerosos até de dormir, porque, dormindo, não podem estar
atentos. No sono, tudo quanto recalcaram vem à superfície.
Podem ter conseguido o celibato, enquanto estão acordados,
mas nos sonhos isso é impossível - nos sonhos surgem belas
mulheres, flutuando para dentro deles. E nada podem fazer.
Aquelas belas mulheres não estão vindo de nenhum céu, como
está escrito nas histórias hindus: Deus as mandou. Por que
Deus estaria interessado no iogue? Um pobre iogue, não
fazendo mal algum a ninguém, simplesmente sentado no
Himalaia, de olhos fechados, lutando contra seus próprios
problemas - por que Deus estaria interessado nele? E por que
ele mandaria Ele apsaras, belas mulheres, para
afastá-lo de seu caminho? Por quê? Não há ninguém ali. Não
há necessidade de ninguém mandar ninguém. O iogue está
criando seus próprios sonhos.
Tudo o que recalcas vem à
tona nos sonhos. Os sonhos são a parte que o iogue negou. E
tuas horas que passas o são tão tuas quanto teus sonhos são
teus. Assim, se amas uma mulher em tua hora de vigília, ou a
amas durante o sono, não há diferença; nem pode haver,
porque não é uma questão de existir, de fato, uma mulher,
ali, ou não; é uma questão que diz respeito a ti próprio. Se
amas uma figura, uma figura de sonho, ou se amas uma mulher
de verdade, não há diferença, realmente - uma mulher de
verdade também é uma figura, por dentro. Jamais conheces
realmente uma mulher, conheces apenas a figura.
Estou aqui. Como sabes que,
realmente, estou aqui? Talvez seja apenas um sonho, talvez
esteja sonhando que estou aqui. Qual será a diferença, se
sonhas que estou aqui ou se me vês realmente aqui? Como
estabelecerás a distinção? Qual é o critério? Porque, esteja
eu aqui, ou não, não faz a menor diferença: tu me vês dentro
de tua mente. Em ambos os casos - sonho ou realidade -, teus
olhos recebem os raios, tua mente interpreta e diz que há
alguém ali. Tu jamais viste uma pessoa real; não podes
vê-las.
Por isso é que os hindus
dizem que este mundo é maya, um mundo ilusório. Tilopa diz:
“Transitório, fantasmagórico, espectral, visionário é este
mundo. Por quê? Porque, entre o sonho e a realidade, não há
diferença. Em ambos os casos, estás confinado à tua mente.
Vês apenas as figuras; jamais viste a realidade - e nem
poderás vê-la, porque a realidade só poderá ser vista quando
tu fores real. Se tu és um fenômeno espectral, uma sombra,
como podes ver o que é real? A sombra só pode ver a sombra.
Poderás ver a realidade apenas quando a mente for
abandonada. Através da mente tudo se torna irreal. A mente
projeta, cria, dá colorido, interpreta - tudo se forma
falso. Daí a ênfase, a contínua ênfase em como abandonar a
mente.
Tantra diz: não lutes. Se
lutares, poderás continuar tua luta por muitas vidas e nada
acontecerá por esse caminho, porque, em primeiro lugar,
cometeste um engano - onde viste dois, havia apenas um. E se
perderes o primeiro passo, não poderás, sem ele, atingir a
meta. Toda a tua passagem será uma contínua perda. O
primeiro passo tem de ser dado com absoluta certeza; de
outra maneira jamais atingirás a meta.
E o que é absolutamente
certo? Tantra diz que é ver um em dois, ver um em muitos. No
momento em que vires um na dualidade, já se terá iniciado a
transcendência. Esse é o Caminho Régio.
Agora tentaremos compreender
o sutra.
Transcender a
dualidade é visão soberana.
Transcender, não vencer -
transcender. Essa palavra é muito bela. Que significa
transcender?
Observa uma criancinha
brincando com seus brinquedos. Tu lhe dizes que os guarde e
ela fica zangada. Mesmo quando vai dormir leva seus
brinquedos e a mãe tem de removê-los depois de ela
adormecer. Pela manhã, a primeira coisa que pergunta é onde
estão seus brinquedos e quem os levou dali. Mesmo seu sonho
refere-se aos brinquedos. Então, de súbito, um dia, a
criança esquece os brinquedos. Durante alguns dias, eles
permanecem num canto de seu quarto e, então, são removidos
ou deitados fora. Nunca mais ela pergunta onde estão. Que
aconteceu? Ela os transcendeu; tornou-se madura. Não foi uma
luta e uma vitória; não houve luta contra o desejo de ter
brinquedos. Não. De súbito, um dia, ela percebeu que aquilo
é infantil, que ela não era mais uma criança. De súbito,
compreendeu que brinquedos são brinquedos, não são a vida
real; e que ela estava pronta para a vida real. Voltou as
costas aos brinquedos. Nunca mais eles apareceram em seus
sonhos, nunca mais pensou neles. E, ao ver outras crianças
brincando com brinquedos, sorri; sorri, um riso de quem
conhece, um riso sábio. Diz: - “É uma criança, ainda
infantil, brincando com brinquedos.” Ela transcendeu.
A transcendência é um
fenômeno muito espontâneo. Não deve ser cultivada. Tu
simplesmente amadureces. Vês, simplesmente, o quanto certas
coisas são absurdas... e transcendes.
Um jovem aproximou-se de
mim, muito preocupado. Tinha uma bela esposa, mas a moça
possuía um nariz um tanto comprido. Ele estava preocupado e
me perguntou: - “Que fazer?” Mesmo a cirurgia plástica já
havia sido tentada, porém o nariz ficara um pouco mais feio,
porque nada havia de errado com ele e, quando tentamos
melhorar algo que nada tem de errado, esse algo torna-se
feio, mais feios; torna-se um transtorno. Agora, o rapaz
estava mais perturbado e perguntou-me o que devia fazer.
Falei-lhe sobre os
brinquedos, dizendo: - “Um dia terás de transcender. Isso é
infantil - por que estás tão obcecado com um nariz? O nariz
é apenas uma pequenina parte e tua esposa é bonita, uma
pessoa tão bonita - por que a estás entristecendo com essa
questão do nariz? Ela também se tornou vulnerável a
propósito do nariz. E esse nariz acabou por se fazer todo o
problema da vida. E todos os problemas são assim! Não penses
que teu problema é algo maior - todos os problemas são
iguais ao teu. Todos os problemas são criados pela
infantilidade, juvenilidade; nascem da imaturidade.
O jovem estava tão
preocupado com o nariz que nem olhava para o rosto da
esposa, pois a cada vez que via o nariz, sentia-se
perturbado. Realmente, não conseguimos superar tão
facilmente certas coisas. Mesmo que não olhes para um rosto
por causa do nariz, ainda assim tu te lembrarás desse nariz.
Mesmo que tentes fugir, o caso ali está. Estás obcecado.
Assim, eu disse a ele que meditasse sobre o nariz da esposa.
Disse ele: - “Quê? Eu nem
posso olhar para ele.”
Mas eu retorqui: - “Isso vai
ajuda; simplesmente medita sobre o nariz. Antigamente, as
pessoas costumavam meditar sobre a ponte de seus próprios
narizes; portanto, o que há de errado em meditar sobre a
ponta do nariz de tua esposa? Tenta isso!”
Perguntou: - “Mas que virá
dessa meditação?”
“Tenta, apenas - disse-lhe
eu - e depois de uns tantos meses vem contar-me o que
aconteceu. A cada dia, faze com que ela se acomode à tua
frente e começa a meditar sobre o nariz dela.”
Um dia ela chegou, correndo
para mim e disse: - “Que tolice andei fazendo! De súbito,
transcendi. Toda a loucura daquilo se tornou visível - agora
já não há problema.”
Ele não estava vitorioso,
porque, na verdade, não havia inimigo para ser vencido. Tu
não tens inimigos - isso é o que Tantra diz. A vida toda é
profundamente amorosa em relação a ti. Não há ninguém para
ser destruído, ninguém para ser conquistado; ninguém é
inimigo, não há um desafeto para ti. A vida toda te ama. De
toda parte o amor flui.
E em teu íntimo, também não
há inimigos; os inimigos foram criados pelos sacerdotes,
eles criaram um campo de batalha, transformaram-te num campo
de batalha. Dizem: - Combate isto, isto é mau! Criaram
tantos inimigos, que estás cercado por eles e perdeste o
contato com toda a beleza da vida.
Eu te digo: a cólera não é
tua inimiga, a ganância não é tua inimiga e nem a compaixão
é tua amiga, nem a não-violência é tua amiga - porque,
amigos ou inimigos, tu permaneces com a dualidade.
Olha apenas para o todo do
teu ser e verás que ele é um. Quando o inimigo se torna
amigo e o amigo se torna inimigo, toda a dualidade está
rompida. De repente, há a transcendência, de repente há o
acordar. E eu te digo que isso é súbito; quando lutas, tens
de lutar polegada por polegada, mas aqui não se trata
absolutamente de uma luta. Essa é a maneira dos reis - o
Caminho Régio.
Tilopa diz: “Transcender a
dualidade é visão soberana.” Transcende a dualidade!
Observa apenas, e verás que
não há dualidade.
Bodhidharma foi à China, uma
das mais raras jóias jamais nascidas. O Rei veio vê-lo e
disse: - “Às vezes sinto-me bastante perturbado. Às vezes há
muita tensão e muita angústia em mim.”
Bodhidharma fitou-o e disse:
- “Vem amanhã cedo, às quatro horas, e traze toda a tua
angústia, as ansiedades, as perturbações contigo. Lembra-te,
não venhas sozinho - traze todas elas.
O Rei olhou para Bodhidharma
- que tinha um aspecto muito estranho, capaz de matar alguém
de medo - e disse: - “Que estás dizendo? Que significa o que
disseste?”
Bodhidharma disse: - “Se não
me trouxeres essas coisas, como poderei pôr-te em bom
estado? Traze todas e tudo será acertado.”
O Rei pensou: - “É melhor
não ir. Às quatro horas da manhã ainda está escuro e este
homem parece meio louco. Com esse grande cajado na mão
poderá até bater-me. E que quer ele dizer quando fala em
acertar tudo?”
Não pôde dormir a noite
inteira, porque a figura de Bodhidharma o perseguia. Pela
manhã sentiu que seria melhor ir, “porque, quem sabe? Talvez
ele possa fazer alguma coisa.”
Assim, foi, resmungando,
hesitante, mas lá chegou. A primeira coisa que Bodhidharma
perguntou - e ele estava sentado diante do templo, com o
cajado na mão, parecendo ainda mais perigoso no escuro -
foi: - “Então, vieste! Onde estão aqueles outros dos quais
me falaste?”
O Rei disse: - “Tu falas por
enigmas; não há nada que eu pudesse trazer. Eles estão
dentro de mim.”
Disse Bodhidharma: - “Muito
bem. Dentro e fora, as coisas são coisas. Senta-te, fecha os
olhos e tenta procurá-los dentro. Agarra-os imediatamente,
avisa-me e olha para o meu cajado. Eu vou acertar com eles!”
O Rei fechou os olhos - nada
mais podia fazer -, fechou, pois, os olhos, um tanto
amedrontado; olhou para dentro, aqui e ali, observou e,
subitamente, tornou-se consciente de que quanto mais olhava
nada via - nem ansiedade, nem angústia, nem perturbação.
Caiu em profunda meditação. Passaram-se horas, o sol começou
a nascer e no rosto dele havia um tremendo silêncio.
Então, Bodhidharma
disse-lhe: - “Abre os olhos, agora. Isso já é o bastante!
Onde estão aquelas coisas? Pudeste agarrá-las?”
O Rei sorriu, fez uma
reverência, tocou os pés de Bodhidharma, e disse: - “Tu
realmente as acertaste, porque não as encontrei e, agora,
sei o que se passava. Em primeiro lugar, não estavam ali.
Pensei que existissem porque nunca entrei dentro de mim
mesmo para olhá-las. Estavam ali porque eu não estava
presente lá dentro. Agora sei; fizeste o milagre.”
E foi isso o que aconteceu.
Isso é transcendência; antes de resolver um problema,
verifica, em primeiro lugar, se há mesmo um problema.
Primeiro crias o problema e, depois, começas a buscar uma
solução. Primeiro crias a pergunta e, depois, dás a volta ao
mundo e sei que, se observares a pergunta, ela desaparecerá;
não haverá necessidade de uma resposta. Se observares a
pergunta, a pergunta desaparecerá - e isso é transcendência.
Não é uma solução, já que não existe pergunta alguma para
ser respondida. Não estás doente. Observa internamente e não
encontrarás a doença: então, que necessidade há de uma
solução?
Cada homem é como deve
ser.
Cada homem nasce como
rei.
De nada carece,
não precisa melhorar.
E as pessoas que tentam
melhorar-te destroem-te; são os verdadeiros fabricantes do
mal. E há muitas que permanecem à espreita, como gatos
espreitam camundongos: tu te aproximas, elas saltam sobre ti
e começa, imediatamente, a melhorar-te. Há muitos melhores,
por isso é que o mundo está nesse caos; há gente demais
tentando melhorar-te.
Não permitas que ninguém
te melhore.
Tu já é a última palavra.
Tu não és apenas o alfa,
és também o ômega.
Tu és completo, perfeito.
Mesmo que te sintas
imperfeito, lembra-te de que Tantra diz que a imperfeição é
perfeita. Não precisas preocupar-te com isso. Parecerá muito
estranho dizer que tua imperfeição é também perfeita, que
nada lhe está faltando. Na verdade, pareces imperfeito, não
porque sejas imperfeito, mas porque estás fazendo crescer a
perfeição. Isso parece absurdo, ilógico, porque pensamos que
a perfeição não pode crescer; porque imaginamos a perfeição
como aquilo que alcançou o último ponto de crescimento - mas
essa perfeição está morta. Se não pode crescer, a perfeição
está morta.
Deus continua crescendo,
pois não é perfeito dessa forma, a de não precisar crescer.
Ele é perfeito porque nada Lhe falta, mas vai de uma
perfeição a outra, crescendo sem cessar - Deus é evolução,
não da imperfeição, para a perfeição, mas da perfeição para
uma maior perfeição, para ainda maior perfeição.
Quando a perfeição não tem
futuro, está morta. Quando a perfeição tem um futuro, uma
abertura, um crescimento, ainda um movimento, então torna-se
parecida à imperfeição. E eu gostaria de dizer-te: sê
imperfeito e em crescimento, porque isso é a vida. E não
tentes ser perfeito, senão deixarás de crescer. Então serás,
como uma estátua de Buda, pedra morta.
Por causa desse fenômeno - a
perfeição que continua crescendo - sentes-te imperfeito.
Deixa que assim seja. Permite que assim seja. Esse é o
Caminho Régio.
Transcender a
dualidade é visão soberana;
dominar abstrações é
prática régia.
As abstrações existem; tu
perderás tua consciência muitas e muitas vezes. Meditas,
sentas-te para a meditação, um pensamento surge e,
imediatamente, te esqueces de ti mesmo, segues o pensamento,
és envolvido por ele. Tantra diz que há apenas uma coisa a
ser dominada - a abstração.
Como? Só de uma maneira:
quando um pensamento vier, conserva-te testemunha. Encara-o,
permite que ele passe pelo teu ser, mas não te prendas de
forma alguma a ele, a favor ou contra. Pode ser um mau
pensamento, um pensamento voltado para matar alguém - não o
repilas, não digas: este é um mau pensamento. No momento em
que dizes alguma coisa sobre um pensamento, tu te ligas a
ele e cais na abstração. Aquele pensamento pode levar-te a
muitas coisas, de um pensamento a outro. Um bom pensamento
vem, um pensamento compassivo; não digas: “Oh! Que lindo!
Sou um grande santo. Tão belos pensamentos estão surgindo
que eu gostaria de dar salvação ao mundo inteiro. Gostaria
de libertar toda a gente.” Não digas isso. Bom ou mau,
conserva-te como testemunha.
Mesmo assim, a princípio,
muitas vezes te distrairás. Então, que fazer? Se estás
absorto, sê absorto. Não te preocupes demais com isso,
quando não, essa preocupação se tornará obsessiva. Sê
distraído! Por alguns minutos permanecerás absorto e, então,
subitamente, recordarás: “estou distraído” e estarás de
volta. Não te sintas deprimido. Não dias “não está certo que
me distraia”, pois estará novamente criando o dualismo: mau
e bom. Distraído? Pois está bem, aceita isso e volta. Mesmo
com a distração, não cries um conflito.
Isso é o que Krishnamurti
vem dizendo sempre. Usa, para tanto, um conceito paradoxal.
Diz que, se estás desatento, deves ser atentamente
desatento. Isso é certo! De repente descobres que estiveste
desatento, dás atenção a isso e retornas ao ponto de
partida. Krishnamurti não tem sido compreendido pelo fato de
ele seguir o Caminho Régio. Se ele fosse um iogue, seria
muito facilmente entendido. Por isso diz, constantemente,
que não há método: no Caminho Régio não há método. Insiste
em dizer que não há técnica: no Caminho Régio não há
técnica. Insiste em dizer que escritura alguma te ajudará:
no Caminho Régio não há escritura.
Absorto? No momento em que
recordares, no momento em que prestares atenção e
descobrires que estiveste distraído, retorna! Isso é tudo!
Não cries conflito algum. Não digas que foi mau, não te
sintas deprimido, frustrado, por te haveres novamente
abstraído. Nada há de errado com a distração - goza também
isso.
Se puderes gozar a
abstração, ela te acontecerá cada vez menos. E um dia virá
em que não haverá abstração - mas não será uma vitória. Tu
não recalcaste os fios da distração de tua mente para a
profundeza do inconsciente. Não. Tu permitiste que eles
viessem. Também eles são bons.
Esta é a maneira de ser do
Tantra, que diz que tudo é bom e sagrado. Mesmo que haja
abstração, distração, de certa forma ela é necessária. Podes
não ter consciência do porquê dessa necessidade, entretanto
ela existe. Se puderes sentir-te bem com tudo o que
acontece, só então estarás seguindo o Caminho Régio. Se
começas a combater o que quer que seja, é porque saíste do
Caminho Régio e te tornaste um soldado comum, um guerreiro.
Compreender a dualidade é
visão soberana;
dominar abstrações é
prática régia;
a trilha da não-prática é
o caminho de todos os Budas.
Nada deve ser praticado,
porque a prática cria hábitos. É preciso que nos tornemos
mais conscientes, não mais praticantes. O belo acontece
através do espontâneo e não através da prática. Podes
praticar amor, podes receber treinamento para o amor. Na
América, cogita-se de criar alguns cursos de treinamento
para o amor, porque as pessoas esqueceram-se, mesmo, de como
se ama. É algo realmente estranho! Mesmo os animais, os
pássaros e as árvores não perguntam a ninguém, não vão a
colégio algum e amam. E muitas pessoas me procurar...
Há alguns dias apenas, um
jovem escreveu-me uma carta. Dizia: - “Eu compreendo; mas
como ama? Como proceder? Como me aproximar de uma mulher?”
Parece ridículo que tenhamos perdido completamente o caminho
desprendido e natural. Nem mesmo o amor não é possível sem
treinamento. E, se fores treinado, tornar-te-ás repulsivo,
porque, então, tudo o que fizeres será parte do treinamento.
Não será verdadeiro; será uma representação. Não será a vida
real; será como se se tratasse de atores.
Os atores criam amor,
representam cenas amorosas, mas já reparaste que os atores
são fracassados no que se refere ao amor? Suas vidas
amorosas são, quase sempre, um fracasso. Teoricamente isso
não deveria acontecer, porque durante vinte e quatro horas
por dia eles praticam o amor. Com tantas mulheres, com
tantas histórias, de formas diversas praticam o amor; são
amantes profissionais e deveriam ser perfeitos ao
apaixonarem-se, mas, quando se apaixonam, tornam-se, quase
sempre, fracassados.
As vidas amorosas de atores
e atrizes são sempre fracassos. Por quê? É a prática;
praticaram demais e, agora, o coração não pode funcionar.
Continuam a fazer, simplesmente, gestos mecânicos; beijam,
mas sem beijar; só os lábios se juntam. Só os lábios se
juntam e não há transferência de energia ali, seus lábios
estão fechados, frios. E, se os lábios estão frios, o beijo
é repulsivo, anti-higiênico. É, apenas, a transferência de
milhões de germes, doenças, células - e só.
O beijo é repulsivo, se a
energia interior não está presente. Podes abraçar uma
mulher, ou um homem - os ossos se encontram, os corpos se
chocam, mas não há transferência da energia interior. A
energia não está presente. Apenas te movendo por meio de
gestos mecânicos. Podes, mesmo, fazer amor. Podes cumprir
todos os gestos do amor, mas isso será mais uma ginástica do
que amor.
Lembra-te: a prática mata a
vida. A vida é mais viva quando não praticada. Quando ela
flui em todas as direções, sem qualquer esquema, sem
qualquer disciplina forçada, então encontra sua própria
ordem, sua própria disciplina.
A trilha da não-prática é
o caminho de todos os Budas;
quem pisa essa trilha
alcança o estado de Buda.
Então, o que fazer? Se a
não-prática é o caminho, então, o que fazer? Apenas viver
espontaneamente. Que medo é esse? Por que estás tão temeroso
de viver espontaneamente? Claro que pode haver perigos,
riscos - mas isso é bom! A vida não é como um trilho de
estrada de ferro, com os trens movendo-se sempre no mesmo
trilho, manobrando. A vida é como um rio: cria seu próprio
caminho; não é um canal. Um canal não serve; um canal é uma
vida de hábitos. O perigo existe, mas o perigo é vida, está
envolvido na vida. Só os mortos estão para além do perigo.
Por isso é que as pessoas se tornam mortas.
Vossas casas mais se parecem
a sepulturas. Estais demasiadamente preocupados com a
segurança. E o excesso de preocupação em relação à segurança
mata, porque a vida é insegura. Assim é! Nada se pode fazer
quanto a isso; ninguém pode tornar a vida segura. Todas as
seguranças são falsas, todas as seguranças são imaginárias.
Uma mulher ama-te hoje, amanhã - quem sabe? Como podes estar
seguro do amanhã? Poder ir ao tribunal e registrar, firmar
um laço legal que diga que ela permanecerá também amanhã
como tua esposa. Ela pode permanecer como tua esposa, em
virtude do laço legal, mas o amor pode desaparecer. O amor
não conhece legalidade. E, quando o amor desaparece, a
esposa permanece esposa e o marido permanece marido, então
há um clima de morte entre eles.
Por causa da segurança,
criamos o casamento. Por causa da segurança, criamos a
sociedade. Por causa da segurança, sempre nos movemos no
caminho canalizado.
A vida é selvagem.
O amor é selvagem.
E Deus é absolutamente
selvagem.
Ele jamais entrará nos teus
jardins, porque eles são demasiadamente humanos. Ele não irá
às tuas casas, pois são demasiadamente pequenas. Ele jamais
será encontrado em teus caminhos canalizados. Ele é
selvagem.
Lembra-te: Tantra diz que a
vida é selvagem. Temos de viver entre todos os perigos,
entre todos os riscos - e é belo, porque nisso há aventura.
Não tentes fazer da tua vida um esquema fixo; deixa que ela
tome seu próprio curso. Aceita tudo, transcende a dualidade
através da aceitação, permite que a vida tome seu próprio
curso - e chegarás, com toda a certeza chegarás. Este “toda
a certeza” eu digo não para tornar-te seguro, mas porque é
um fato; eis por que o digo. Não é a tua certeza de
segurança. Os que são selvagens sempre a alcançam.
Transitório é este mundo:
Como fantasmas e sonhos,
ele não tem substância alguma.
Renuncia a ele e abandona
teus iguais,
corta os laços da luxúria
e do ódio,
e medita em bosques e
montanhas.
Se, sem esforço,
permaneceres
desprendidamente em estado natural,
logo Mahamudra alcançarás
e obterás a não-obtenção,
o não-aquisitivo.
Este sutra deve ser muito
profundamente entendido, porque é possível que te
equivoques. Tem havido muitos equívocos em relação a este
sutra de Tilopa. Todos os que o comentaram, diante de mim,
perderam o ponto essencial. Há uma razão. Este sutra diz:
Transitório é este mundo; este mundo é feito do mesmo
material com que são feitos os sonhos. Entre os sonhos e
este mundo não há diferença. Caminhando ou adormecido, tu
vives num mundo de sonho de tua propriedade. Lembra-te: não
há um mundo; há muitos mundos, tantos como há pessoas. Cada
uma delas vive em seu próprio mundo. Às vezes nossos mundos
se encontram e se chocam, às vezes se fundem, mas nós
permanecemos fechados em nossos próprios mundos.
Transitório é este mundo
[criado pela mente],
Como fantasmas e sonhos, ele
não tem substância alguma.
Isso é o que os físicos
também dizem. Ele não tem substância alguma. A matéria
desapareceu completamente do vocabulário dos físicos nestes
últimos trinta ou quarenta anos. Há setenta ou setenta e
cinco anos atrás, Nietzsche declarou: - “Deus está morto.” E
disse isso para enfatizar que só a matéria existia - e o
século ainda não se havia completado. Exatamente vinte e
cinco anos depois da morte de Nietzsche - ele morreu em 1900
-, em 1925, os físicos compreenderam que nada sabemos sobre
Deus, mas de uma coisa estamos certos: a matéria está morta.
Não há nada de material em torno de nós, tudo não passa de
vibrações, vibrações entrecruzadas que criam a ilusão da
matéria.
É como no cinema: nada há na
tela, apenas luzes elétricas entrecruzando-se e criando um
mundo de ilusão. E já há filmes tridimensionais: criam
perfeitamente uma ilusão de tridimensionalidade. Exatamente
como um filme sobre a tela é o mundo, porque ele é, todo, um
fenômeno elétrico; só tu és real, só a testemunha é real,
tudo o mais é um sonho. E o estado e Buda surge quando
transcendes todos esses sonhos e nada resta para ser visto:
apenas o que via está sentado, silencioso. Não há nada, não
há objeto a ser visto; apenas o que via restou - então
obtiveste o estado de Buda, a realidade.
Transitório é este mundo:
Como fantasmas e sonhos,
ele não tem substância alguma.
Renuncia a ele e abandona
teus parentes...
Estas palavras: “Renuncia a
ele e abandona teus parentes” foram mal entendidas. Houve
uma razão para isso; todos os que não as entenderam eram
renunciantes e pensaram que Tilopa estava falando daquilo em
que acreditavam. Mas Tilopa não podia dizer tal coisa,
porque vai contra todas as suas concepções. Se o mundo é
como um sonho, que significação tem renunciar a ele? Podes
renunciar à realidade, mas não podes renunciar a um sonho -
seria tolice demais. Podes renunciar a um mundo substancial,
mas não podes renunciar a um mundo fantasma. De manhã, sobe
ao topo da tua casa, chama todos os que estão próximos e
declara: - “Renunciei aos sonhos! Na noite passada tive
sonhos demais e renunciei a eles.” Quem te ouvir rirá; todos
pensarão que enlouqueceste - ninguém renuncia aos sonhos.
Todos acordam, simplesmente; ninguém renuncia aos sonhos.
Um Mestre Zen acordou, certa
manhã, e disse a um de seus discípulos: - “Tive um sonho a
noite passada. Quer interpretá-lo para mim, dizer-me o que
significa?”
O discípulo disse: -
“Espera! Deixa-me trazer-te uma xícara de chá.”
O Mestre tomou a xícara de
chá e perguntou: - “E agora, o sonho?”
Disse o discípulo: -
“Esquece-te dele, porque um sonho é um sonho e não precisa
de interpretação. Uma xícara de chá é interpretação
suficiente - acorda!”
O Mestre falou: - “Certo,
absolutamente certo! Se tivesses interpretado meu sonho, eu
te expulsaria do meu mosteiro, porque só os tolos
interpretam sonhos. Fizeste bem; de outra maneira, terias
sido definitivamente expulso e eu nunca mais olharia para
tua cara.”
Quando tiveres um sonho, o
que precisas é de uma xícara de chá e fim de conversa.
Freud, Jung e Adler ficariam muito preocupados se ouvissem
essa história, porque desperdiçaram sua vida inteira
preocupados se ouvissem essa história, porque desperdiçaram
sua vida inteira interpretando sonhos alheios. Um sonho tem
que ser transcendido. Simplesmente por saberes que se trata
de um sonho, tu o transcendes - isso é a renúncia.
Tilopa tem sido erroneamente
interpretado porque há, no mundo, renunciantes demais,
condenadores. Pensaram que ele estava dizendo que se
renunciasse ao mundo. Não era isso o que ele estava dizendo.
Dizia: - “Aprende que ele é transitório; isso é renúncia.”
“Renuncia a ele” - diz Tilopa e quer dizer: aprende que ele
é um sonho.
Abandona teus parentes
- e pensaram que ele estivesse dizendo: - “Deixa tua
família, tuas relações, tua mãe, teu pai, teus filhos.” Não,
ele não estava dizendo isso, não podia dizer isso; é
impossível que Tilopa diga tal coisa. Não deves pensar que
alguém é tua esposa, pois esse “ser meu” é um fantasma, um
sonho. Não deves dizer: - “Esta criança é meu filho”, porque
esse “ser meu”, esse “meu” é um sonho. Ninguém é teu,
ninguém pode ser teu. Renuncia a essas atitudes que dizem
que alguém é teu - marido, esposa, amigo, inimigo; renuncia
a todas essas atitudes. Não construas pontes: “meu”, “teu” -
põe de lado essas palavras.
Se puseres de lado essas
palavras, renunciarás aos teus parentes: ninguém é teu. Isso
não significa que devas escapar, que devas fugir de tua
esposa, porque, se fugiras, mostrarás que pensas que ela é
substancial. Fugir sempre mostrará que ainda pensas que ela
é tua, caso contrário, por que foges?
Isto aconteceu: um hindu
sannyasin, Swami Ramteerth, voltou da América. Estava no
Himalaia e sua esposa veio vê-lo, o que o deixou um pouco
perturbado. Seu discípulo, pessoa de mente muito penetrante,
Sardar Poorn Singh, estava sentado ao lado dele. Observou e
sentiu que o Swami ficara perturbado. Quando a esposa se
foi, Ramteerth arrancou, subitamente, suas vestes de cor
laranja. Poorn indagou: - “Que é isso? Eu estava observando
e vi que ficaste um pouco perturbado; senti que não eras tu
mesmo.”
O outro respondeu: - “É por
isso que estou arrancando estas roupas. Encontrei tantas
mulheres e nunca me perturbei. Nada há de especial nessa
mulher - a não ser que ela é minha esposa. Esse “minha”
ainda está presente. Não sou digno de usar estas roupas. Não
renunciai ao “minha”, renunciei apenas à esposa. A esposa
não é o problema; nenhuma outra mulher me perturbou, mas
chega a minha mulher - mulher comum como qualquer outra - e,
de repente, fico perturbado. A ponte ainda está aí.” Morreu
vestido com roupas comuns, jamais usou as de cor laranja.
Dizia: - “Não sou digno.”
Tilopa não dirá que
renuncies à tua esposa, a teu filho, aos teus parentes. Não.
Ele está dizendo que renuncies às pontes, que as deixes e
isso é um problema teu, nada tem a ver com tua esposa. Se
ela continua a pensar em ti como seu marido, é problema
dela, não teu. Se o filho continua a pensar que és seu pai,
isso não é problema, ele é uma criança que precisa
amadurecer.
Eu te digo: Tilopa se refere
à renúncia quanto aos sonhos interiores, às pontes, ao mundo
interior.
... e medita em bosques e
montanhas.
E, com isso, também não está
dizendo que fujas para os bosques e montanhas. Houve quem o
interpretasse assim e muitos fugiram de suas esposas e
filhos e foram para as montanhas - coisa absolutamente
errada. O que Tilopa está dizendo é mais profundo, não é tão
superficial, porque podes ir para a montanha e permanecer na
praça pública. A questão é a tua mente. Podes sentar-te no
Himalaia e pensar na praça pública, em tua esposa, em teus
filhos e no que estará acontecendo a eles.
Isto aconteceu: um homem
renunciou à sua esposa, filhos família e veio a Tilopa para
ser iniciado como seu discípulo. Tilopa estava estagiando
num templo fora da cidade. O homem veio. Quando entrou
estava sozinho e Tilopa também estava sozinho. Tilopa olhou
em torno dele e disse: - “Vieste, está bem, mas por que essa
multidão?” O homem também olhou para trás, porque ali não
havia ninguém. Tilopa disse: - “Não olhes para trás! Olha
para dentro! - a multidão está aí.” O homem fechou os olhos
e a multidão ali estava: sua esposa chorava ainda, seus
filhos estavam chorosos e tristes, tinham permanecido na
fronteira da cidade, ponto até onde o haviam acompanhado -
amigos, família, outras pessoas, todos estavam ali. E Tilopa
disse: - “Vai-te embora; deixa a multidão. Eu inicio
pessoas, não multidões.”
Não; Tilopa não dirá que
renuncies ao mundo e vás para a montanha. Ele não é tão
tolo. Não pode dizer isso - é um homem Desperto. O que ele
quer dizer é o seguinte: que renuncies aos teus sonhos, às
pontes, aos relacionamentos - não às relações; se renuncias
à tua mente vais encontrar-te, de repente, nos bosques e nas
montanhas. De repente, estás sozinho. Só tu estás ali, mais
ninguém.
Podes estar na multidão e
sozinho, e podes estar sozinho e na multidão. Podes estar no
mundo, e não ser do mundo. Podes estar no mundo, e pertencer
aos bosques e montanhas.
Esse é um fenômeno interior.
Há bosques e montanhas interiores; Tilopa não pode dizer
nada sobre montanhas e bosques externos, porque eles também
são sonhos. Um Himalaia é um sonho, tanto como a praça do
mercado em Poona, porque um Himalaia é um fenômeno externo,
como o é a praça do mercado. Os bosques também são sonhos.
Precisas entrar no interior - ali é que a realidade está.
Tens que entrar cada vez mais na profundeza de teu ser;
então chegarás ao Himalaia verdadeiro, alcançarás os
verdadeiros bosques do teu ser, chegarás aos picos e vales
do teu ser, às alturas e profundidades do teu ser. Tilopa
quer dizer:
Se, sem esforço,
permaneceres
desprendidamente em estado natural,
E é esse o significado,
porque ele é partido do estado desprendido e natural. Fugir
da esposa e dos filhos não é natural, não é, absolutamente,
ser desprendido. Um homem que deixa sua esposa, filhos,
amigos e o mundo torna-se tenso, não pode ser desprendido.
Pelo simples esforço da renúncia, a tensão aparece.
Ser natural quer dizer ficar
onde se está. Ser natural, quer dizer: onde te encontrares,
fica. Se és marido, está bem; se és esposa, que belo; se és
mão, está certo, tem de ser assim. Aceita o que quer que
seja, onde quer que esteja e seja o que for que te aconteça;
só então poderás ser desprendido e natural; de outra maneira
será impossível que o sejas. Teus chamados monges, sadhus,
gente que fugiu ao mundo, são, na verdade, covardes que
estão sentados em seus mosteiros; não podem ser desprendidos
e naturais, têm de estar tensos; fizeram algo que não é
natural; foram contra o fluxo natural.
Sim, para algumas pessoas
pode ser natural. Por isso não estou dizendo devas forçar-te
a estar na praça do mercado, porque, então, irás para o
outro extremo e farás, novamente, a mesma tolice. Para
algumas pessoas é inteiramente natural estar num mosteiro;
então, têm de estar num mosteiro. Para algumas pessoas pode
ser inteiramente natural ir para as montanhas e elas são
para as montanhas. O que deve ser lembrado, como critério, é
ser desprendido e natural. Se és natural no mercado, ótimo.
O mercado também é Divino. Se te sentes desprendido e
natural no Himalaia, ótimo. Nada há de errado nisso.
Lembra-te apenas de uma coisa: sê desprendido e natural. Não
forces! E não queiras criar tensão dentro do teu ser.
Relaxa.
... logo Mahamudra
alcançarás...
Permanecendo desprendido e
natural, logo chegarás ao clímax orgástico com a Existência.
... e obterás a
não-obtenção.
E alcançarás aquilo que não
pode ser alcançado. Por quê? Por que dizer que isso não pode
ser alcançado? Porque não pode ser transformado num
objetivo. Não pode ser alcançado pela mente orientada para
um objetivo. Não pode ser alcançado pela mente atingidora.
Há muitas pessoas aqui que
seguem a linha da mente atingidora. Estão tensas, porque
fizeram meta do que não pode ser feito meta. Isso te
acontece! - e não o podes alcançar. Não o podes alcançar -
ele é que vem ter contigo. Só podes ser passivo, desprendido
e natural e esperar pelo tempo exato, porque tudo tem sua
estação apropriada. Por que tens pressa? Se estás apressado,
ficas tenso e em constante expectativa.
Por isso é que Tilopa diz:
... e obterás a não-obtenção. Não é meta. Não pode
ser transformado em alvo aquilo que desejas obter; não podes
dirigir-te a ele como uma flecha, não. A mente, apontada
para um alvo, é uma mente tensa.
De súbito chega, quando
estiveres pronto;
nem mesmo os passos serão
ouvidos.
De súbito chega.
Nem mesmo tens
consciência de que está chegando.
Floresceu.
De súbito, vês o
florescimento
e ficas repleto de
fragrância. |