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Tantra - A Suprema Compreensão (Osho)
Corta a raiz
A escolha é servidão, a
não-escolha é liberdade.
No momento em que escolhes algo,
cais na armadilha do mundo.
Se podes resistir à tentação de escolher,
se podes permanecer conscientemente sem escolha,
a armadilha desaparece por si mesma,
Porque, quando não escolhes,
não ajudas a presença da armadilha -
a armadilha também é criada pela tua escolha.
A palavra “escolha” tem de
ser muito profundamente compreendida, porque só através
dessa compreensão é que a não-escolha poderá florescer em
ti.
Por que não podes permanecer
sem escolher? Por que, no momento em que vês uma pessoa ou
uma coisa, uma onda sutil de escolha imediatamente penetra
em ti, mesmo que não estejas consciente de que escolheste?
Uma mulher passa e dizes que ela é bonita. Nada está dizendo
sobre a tua escolha, mas escolheste, porque dizer, de uma
pessoa, que ela é bonita, significa: eu gostaria de
escolhê-la. Na verdade, bem no fundo, escolheste; já caíste
na armadilha. A semente caiu no solo, depressa virão os
brotos e nascerá uma planta, uma árvore.
No momento em que dizes
“este carro é bonito”, escolhes. Podes não ter a menor
consciência de que escolheste, de que gostaria de possuir
aquele carro, mas a fantasia entrou na sua mente e um desejo
apareceu. Quando dizes que algo é belo, queres dizer que
gostarias de tê-lo. Quando dizes que algo é feio, queres
dizer que não gostaria de tê-lo.
A escolha é sutil e é
preciso estar minuciosamente consciente quanto a ela. Sempre
que disseres algo, lembra-te disto: dizer não é só dizer, um
simples dizer, pois algo acontece no teu inconsciente. Não
faças a distinção: isto é belo, aquilo é feio, isto é bom,
aquilo é mau. Não faças distinções. Conserva-te distante! As
coisas não são boas, nem más. A qualidade de bondade ou
maldade foi introduzida por ti. As coisas não são bonitas,
nem feias; são, simplesmente, como são. A qualidade de ser
bonito ou feio foi introduzida por ti; é interpretação tua.
Que querer dizer quando
dizer que algo é bonito? Há algum critério para a beleza?
Podes provar que algo é belo? Alguém a teu lado pode estar
pensando: - “Isto é feio!” - portanto, não há nada de
objetivo; ninguém pode provar que coisa alguma seja bela.
Milhares e milhares de livros foram escritos sobre estética;
definir o que é a beleza foi uma longa e árdua jornada para
intelectuais, pensadores e filósofos - não obstante, não o
conseguiram. Escreveram grandes livros, grandes tratados,
andaram à volta do caso inúmeras vezes, mas ninguém foi
capaz de apontar exatamente a definição de beleza. Não, isso
parece impossível, porque nada existe a que se possa chamar
beleza ou fealdade; tudo isso é interpretação.
Primeiro, achas uma coisa
bela. Por isso é que te digo que primeiro crias a armadilha
e, então, cais nela. Primeiro, pensas que um rosto é belo -
mas isso é tua criação, imaginação, é tua mente
interpretando; isso não existe, é apenas psicológico - e,
então, cais na armadilha. Cavas o buraco, tombas nele e,
depois, gritas, pedindo socorro; gritas para que alguém
venha salvar-te.
Nada é necessário - diz
Tantra. Observa, simplesmente, teu próprio estratagema - é
tua própria criação.
Que queres dizer ao afirmar
que algo é feio? Se o homem não estiver na Terra haverá,
aqui, fealdade e beleza? As árvores aí estarão e
florescerão; as chuvas cairão naturalmente, o verão e as
demais estações seguir-se-ão umas às outras - mas não haverá
fealdade ou beleza; tais coisas desaparecerão com o homem e
sua mente. O sol nascerá, o céu ficará cheio de estrelas à
noite, mas nada será belo, nada será feio. Tudo não passava
de rumores criados pelo homem. E se ele não mais estivesse
ali, as interpretações desapareceriam. Que seria bom e que
seria mau?
Na natureza, nada é bom e
nada é mau. E lembra-te: Tantra é a forma desprendida e
natural. Quer levar-te ao mais profundo fenômeno natural da
vida. Quer ajudar-te a sair da mente, porque a mente cria
distinções, diz que isto deve ser escolhido e aquilo deve
ser evitado. Àquilo deves apegar-te, e daquele outro deves
fugir, evitando-o. Observa todo o fenômeno. Basta que lances
um olhar, nada mais é necessário; apenas um olhar para toda
a situação.
A lua é bela. Por quê?
Porque durante séculos tens sido doutrinado no sentido de
que a lua é bela. Durante séculos, os poetas têm cantado a
lua, durante séculos as pessoas têm acreditado nisso e,
agora, essa idéia está enraizada. É verdade que certas
coisas acontecem a propósito da lua: ela nos acalma;
sentimo-nos tranqüilos ao fitá-la, e sua luz enche toda a
natureza de um aroma misterioso, uma espécie de hipnose;
sentimo-nos um tanto sonolentos, contudo acordados, e as
coisas parecem mais belas. A lua empresta uma certa
qualidade de sonho ao mundo e, por isso, chamamos lunáticos
aos doidos. A palavra lunático vem da palavra luna, lua.
Enlouqueceram; foram feridos pela lua.
A lua cria uma espécie de
alienação, uma espécie de loucura, uma neurose. Isso pode
estar relacionado com a água que temos no corpo, tal como o
mar é afetado pela lua e forma as marés. Nosso corpo tem
noventa por centro de água do mar. Se perguntares aos
fisiologistas, eles dirão que nosso corpo é, de alguma
maneira, afetado pela lua, porque ele permanece como uma
parte do mar. Quando todo o mar é afetado, naturalmente, os
animais marinhos são afetados pela lua, já que são parte do
mar; e o homem também veio do mar. Para muito, muito longe
ele viajou, mas não faz diferença; o corpo ainda reage da
mesma maneira. E noventa por cento do nosso corpo é água;
não só água, mas água do mar, com a mesma química e a mesma
salinidade.
No útero, a criança nada
durante nove meses; flutua em água do mar - o útero da mãe
está cheio de água do mar. Por isso é que as mulheres,
engravidando, começam a comer com maior dose de sal. Mais
sal é necessário ao seu útero, para manter o equilíbrio de
salinidade. E a criança passa por todas as fases pelas quais
a Humanidade passou. No início ela é como um peixe, move-se
no oceano do útero materno, flutua. Aos poucos, durante nove
meses, passa por milhões de anos. Os fisiologistas chegaram
à conclusão de que ela passa por todos os estágios da vida
em nove meses.
Pode ser assim; pode ser que
a lua nos afete, mas não há nisso nada concernente à beleza
- trata-se apenas de um fenômeno químico.
Consideras certos olhos
bonitos. Por quê? Aqueles olhos podem ter uma qualidade, uma
qualidade química ou elétrica; podem estar liberando alguma
energia - e tu te sentes impressionado por eles. Diz-se que
certos olhos são hipnóticos, como os olhos de Adolf Hitler.
No momento em que certos olhos te ficam, algo acontece em ti
e dizes que tais olhos são muito belos. Que queres dizer
quando falas em beleza? Estás sendo impressionado.
Na verdade, quando dizes que
alguma coisa é bela, estás dizendo que foste impressionado
por ela de uma forma agradável, isso é tudo. Quando dizes
que alguma coisa é feia, estás dizendo que foste
impressionado em sentido contrário. És repelido, ou atraído.
Quando és atraído, é belo; quando és repelido, é feio. Mas
és tu, e não o objeto, porque o mesmo objeto pode atrair
outra pessoa.
Isso acontece todos os dias;
gente sempre espantada a propósito de outras pessoas. Dizem:
- “Aquele homem apaixonou-se por aquela mulher, é
espantoso!” Ninguém quer acreditar que tal coisa possa
suceder, pois aquela mulher é feia. Mas, para aquele homem,
aquela mulher é a própria encarnação da beleza. Que fazer?
Não pode haver critérios objetivos; não há nenhum.
Tantra diz que deves te
lembrar de que, sempre que escolhes alguma coisa, sempre que
decides ser a favor disto, ou contra aquilo, trata-se de tua
mente pregando peças. Não digas que algo é belo! Dize,
simplesmente: “Estou impressionado de uma forma agradável”,
assim a base permanece sendo “eu”. Se transferires o
fenômeno todo para o objeto, então teu caso nunca poderá ser
resolvido, porque perdeste o primeiro passo, perdeste a
raiz. A raiz és tu, de forma que, se és afetado, significa
que tua mente é, de certa forma, afetada. E, assim sendo,
essa impressão, essa impressionabilidade cria a armadilha e
tu começas a agir.
Primeiro, criar um belo
homem, depois começas a caça e corres atrás dele. E, depois
de viver alguns dias com um belo homem - ou com uma bela
mulher -, todas as fantasias caem por terra. De repente, tu
te tornas consciente, como se tivesses sido iludido, de que
aquela mulher parece comum. Pensaste que se tratava de uma
Laila ou de uma Julieta, ou pensaste que se tratava de um
Manju ou de um Romeu e, de repente, depois de alguns dias,
os sonhos se evaporaram, a mulher tornou-se comum, o homem
tornou-se comum. Então, sentes-te aborrecido, como se o
outro te houvesse iludido.
Ninguém te iludiu e nada
mudou no homem ou na mulher; tua fantasia é que
desvaneceu-se - porque fantasias não duram muito tempo.
Podes sonhar com elas, mas não podes mantê-las longamente.
Fantasias são fantasias! Assim, se realmente desejas
continuar com a tua fantasia, sempre que vires uma mulher
bonita, foge, imediatamente, para o mais longe que puderes.
Então, poderás recordá-la, sempre, como a mais bela mulher
deste mundo. Então, a fantasia jamais se tornará realidade.
Então, não haverá despedaçamento. Tu sempre suspirarás,
chorarás, cantarás, pela bela mulher - mas nunca te
aproximes dela!
Quanto mais próximo
chegares, maior a realidade, mais a realidade objetiva se
revelará. E, quando há um choque entre a realidade objetiva
e tua fantasia, sabes, naturalmente, qual delas será
derrotada - a tua fantasia. A realidade objetiva nunca é
derrotada.
Essa é a situação. E Tantra
diz que te faças consciente: ninguém te está enganando, a
não ser tu mesmo. A mulher não está tentando ser bonita, não
está criando a fantasia ao redor dela; tu criaste a fantasia
ao redor dela, acreditaste e, agora, estás perdido, sem
saber o que fazer - porque a fantasia não perdura face à
realidade. Um sonho tem de ser interrompido - esse é o
critério.
Os hindus, no Oriente,
estabeleceram um critério para a verdade: dizem que verdade
é aquilo que dura para sempre, para sempre, para sempre; e
inverdade é aquilo que dura apenas um momento. Não há outra
distinção. O momentâneo é a inverdade; o duradouro é a
verdade. A vida é duradoura, a existência é duradoura. A
mente é momentânea; portanto, seja o que for que a mente dê
à vida, será apenas um colorido, uma interpretação. Quando a
interpretação está completa, a mente se modifica. Não podes
manter uma interpretação, porque a mente não pode ser
mantida, por dois momentos consecutivos, numa mesma situação
e num mesmo estado. A mente está sempre se modificando; a
mente é um fluxo. Já se modificou, no momento mesmo em que
sentes que aquele homem é bonito - a mente já se modificou.
Agora, estás te apaixonando por algo que já não está ali,
nem mesmo em tua mente.
Tantra diz: compreende o
mecanismo da mente e corta-o pela raiz. Não escolhas,
porque, quando escolhes, te identificas. Seja o que for que
escolhas, de certa forma, te unirás ao objeto de tua
escolha.
Se gostas de um carro, de
certa forma, tu te unes a ele. Aproximas-te dele cada vez
mais e, se for roubado, algo do teu ser será também roubado.
Se algo de errado acontece ao teu carro, algo de errado
acontece contigo. Se te apaixonares por uma casa, passas a
estar unido àquela casa. Amor significa identificação,
aproximação, como quando colocas duas velas de cera juntas,
próximas, mais próximas, mais próximas, muito, muito
próximas - e elas se tornam uma. Por causa do calor, da
chama acesa, aos poucos elas se tornam uma. Isso é
identificação. Duas chamas se aproximando, e mais, e mais,
tornando-se uma.
E, quando te identificas com
alguma coisa, perdes tua alma. Essa é a significação de
perderes tua alma no mundo: te tornaste identificado com
milhões de coisas e, uma parte de ti tornou-se a própria
coisa.
A escolha traz
identificação.
A identificação traz um
estado de sono hipnótico.
Gurdjieff tem uma única
coisa a ensinar aos seus discípulos: não se tornarem
identificados. Toda a sua escola, todas as suas técnicas,
métodos, situações, estão assentados numa só base: não te
identifiques.
Se choras, identificas-te
com o choro. Não há ninguém observando, não há ninguém vendo
isso; fica alerta e consciente: estás perdido no choro.
Agora tu próprio és as lágrimas, os olhos inchados e
vermelhos e teu coração está em crise. Professores como
Gurdjieff, quando dizem que não te tornes identificado,
dizem: - “Chora, nada há de errado nisso, mas fica de lado e
observa - não te identifiques.” E será uma experiência
maravilhosa, se puderes ficar de lado. Chora, deixa o corpo
chorar, deixa as lágrimas fluírem, não as suprimas, porque a
supressão não ajuda ninguém; mas fica de lado e observa.
Isso pode ser conseguido,
porque teu ser íntimo é uma testemunha; nunca é ele que está
agindo. Sempre que pensas que ele é o dono da ação, te
identificas. Ele jamais é o dono da ação. Andas por toda a
terra, mas teu ser íntimo não dá um só passo. Podes sonhar
milhões de sonhos, mas teu ser íntimo jamais terá qualquer
sonho. Todos os movimentos são superficiais. Bem na
profundidade de teu ser não há movimentos. Todos os
movimentos permanecem na periferia, tal como uma roda que se
move, sem que em seu centro algo se mova. O centro mantém-se
tal como é e, ao redor do centro, a roda se move.
Lembra-te do centro! Observa
teu comportamento, tuas ações, tuas identificações, e uma
distância será criada; aos poucos passa a existir uma
distância - o observador e aquele que age tornam-se dois.
Podes ver a ti mesmo rindo, podes ver-te chorando, podes
ver-te caminhando, comendo, fazendo amor; podes agir de mil
maneiras, tudo pode se movimentar - mas tu permaneces como
observador. Não saltes para te tornares um com o que quer
que estejas vendo.
Essa é a dificuldade. Quando
algo acontece, começas a dizer: “estou com fome”, e te
identificas com a fome. Mas, olha bem para dentro: tu és a
fome, ou é a fome que te está acontecendo? Tu és a fome, ou
estás apenas consciente de que a fome está acontecendo em
teu corpo? Não podes ser a fome, pois, se o fosses, quando a
fome desaparecesse, onde estarias? Depois de comeres bem, o
ventre repleto e tu saciado, onde estarias se fosses a fome?
Evaporado? Não, tu te tornas, imediatamente, a saciedade.
Antes que a fome desapareça, surge uma nova identificação e
passas a ser a saciedade.
Foste uma criança e sabias
que eras uma criança: agora, onde estás, já que não és mais
uma criança? Ficaste jovem, ou ficaste velho - quem és tu,
agora? Estás, de novo, identificado com a juventude, ou com
a velhice.
O mais íntimo ser é apenas
um espelho. Ponha-se qualquer coisa diante dele, e ele a
refletirá; ele se torna uma testemunha apenas. A doença ou a
saúde, a fome ou a saciedade, o verão ou o inverno, a
infância ou a velhice, o nascimento ou a morte - qualquer
coisa que aconteça acontece diante do espelho; jamais
acontece ao espelho.
Isso é a não-identificação,
isso é cortar a raiz, a própria raiz - tornar-se um espelho.
Para mim isso é sannyas: tornar-se como um espelho.
Não te faças uma sensível chapa fotográfica, isso é
identificação. Seja o que for que se coloque diante da
câmera, a chapa fotográfica imediatamente recebe,
identifica-se com o objeto. Torna-te um espelho. As coisas
vêm, passam e o espelho permanece vazio, desocupado, vago.
Isso é o não-eu de Tilopa. O
espelho não tem eu com que se identifique. Reflete,
simplesmente; não reage, simplesmente responde. Não diz: -
“Isto é belo, aquilo é feio.” Uma mulher feia coloca-se
diante dele, e o espelho fica tão feliz como quando uma
mulher bonita está diante dele. Não faz distinções. Reflete,
seja o que for, mas não o interpreta. Não diz: “Vai-te
daqui, tu me perturbas muito”, ou “chega mais para perto, és
tão bela.” O espelho nada diz. O espelho simplesmente
observa, sem fazer nenhuma distinção, amigo ou inimigo. O
espelho não tem distinções a fazer.
Quando alguém passa e
afasta-se do espelho, ele não se agarra a esse alguém. O
espelho não tem passado. Tu passaste e o espelho não irá
apegar-se nem um pouco ao teu fantasma. O espelho não se
apegará à tua sombra por tempo algum. Não tentará reter o
reflexo do que aconteceu diante dele. Não. Tu passaste, o
reflexo se foi; nem por um só segundo o espelho busca
reter-te. Essa é a mente de um Buda. Estás diante dele, e
ele fica repleto de ti. Tu te vais, foste. Nem uma só
lembrança fulgura. Um espelho não tem passado, e também um
Buda não o tem. Um espelho não tem futuro, um Buda também
não o tem. Um espelho não espera: - “Agora, quem vai chegar
diante de mim? A quem refletirei? Gostaria que fosse tal e
tal pessoa e não tal outra pessoa.” O espelho não escolhe,
permanece sem escolha.
Tenta esconder a metáfora do
espelho, porque é a situação real da nossa consciência
interior. Não te identifiques com as coisas que acontecem em
torno de ti. Permanece centralizado e enraizado em teu ser.
As coisas acontecem e continuarão a acontecer, e, se tu
puderes centralizar-te em teu espelho-consciência, nada será
igual - tudo se transformará. Permaneces virgem, inocente,
puro. Nada pode se tornar impureza em ti, absolutamente
nada, porque nada reténs. Tu refletes. Por um momento alguém
ali está, mas, então, se vai. Teu vácuo permanece intocado.
Mesmo quando um espelho
está refletindo alguém,
nada está acontecendo ao
espelho.
O espelho não se modifica
de forma alguma;
o espelho permanece o
mesmo.
Isso é cortar a própria
raiz.
Há dois tipos de pessoas.
Uma que está sempre lutando contra os sintomas e continua
lutando, não contra a causa-raiz, mas apenas contra os
sintomas da doença. Por exemplo, tens uma febre de quarenta
graus. Podes fazer uma coisa: tomar um banho de chuveiro, um
banho frio: isso esfriará teu corpo e baixará a febre - mas
estás lutando contra o sintoma, porque a temperatura não é a
doença. A temperatura é, simplesmente, a indicação de que
algo de errado está acontecendo ao teu corpo. O corpo está
agitado, por isso é que a temperatura subiu; o corpo está em
crise, algo parecido a uma guerra está se passando no corpo;
algum germe está lutando com outros germes, por isso é que a
temperatura subiu. Sentes o calor - o calor não é o
problema, o calor é apenas um sintoma. Esse calor é muito,
muito teu amigo, porque mostra apenas que deves fazer alguma
coisa, que dentro existe uma crise. E, se tratares apenas
dos sintomas, matarás o doente. Pôr gelo em sua cabeça não
adiantará. Dar-lhe um banho de chuveiro não adiantará. Isso
será destrutivo, porque trará uma frescura falsa, de
superfície. Como, só por dar-lhe um banho frio, esperas que
a inquietação interior, a luta interna entre os germes
cesse? Ela continuará e acabará por matar-te.
O tolo está sempre tratando
dos sintomas. O homem sensato procura a causa, a raiz. Não
tenta refrescar o corpo; tenta modificar a causa-raiz, a
razão de estar o corpo se tornando quente. E, quando a raiz
é modificada, a causa é modificada, a temperatura desce por
si mesma. A temperatura não é o problema. Mas, na vida, há
mais tolos do que sensatos. Na medicina nós nos tornamos
mais sensatos, mas na vida ainda não.
Na vida continuamos a fazer
coisas tolas. Se estás zangado começas a brigar,
encolerizado. A cólera nada mais é do que uma temperatura,
uma febre. Se estás realmente zangado, teu corpo torna-se
quente, mas isso mostra apenas que, na corrente de teu
sangue, alguns elementos químicos foram liberados. Também
não está aí a raiz. Esses elementos químicos foram liberados
por uma certa razão: porque criaste uma situação na qual a
briga ou a fuga se fazem necessárias.
Quando um animal se vê em
situação de perigo, tem duas escolhas: uma é brigar e a
outra é escapar. Em ambas as escolhas, certos elementos são
necessários ao sangue, porque, quando brigas, precisas de
mais energia do que habitualmente. Quando brigas, precisas
de mais sangue em circulação do que de costume. Quando
brigas, precisas de fontes de emergência de energia para
funcionar - o corpo tem fontes de emergência de energia.
Reúne venenos, hormônios, muitos outros elementos nas
glândulas e, quando chega a ocasião e a necessidade se
apresenta, ele os libera na corrente sanguínea.
Por isso é que, quando estás
zangado, tornas-te três vezes mais forte do que de costume.
Quando te encolerizas, consegues fazer coisas que nunca
consegues comumente: podes atirar uma pedra grande, que, em
outras ocasiões, não conseguirias sequer soerguer. Na briga
isso é necessário - e a natureza provê. Se tens que escapar
e fugir, então também precisarás de energia, porque o
inimigo te irá ao teu encalço, quererá alcançar-te.
O homem criou uma
civilização, uma sociedade, uma cultura, onde situações
animalescas não se fazem presentes, mas, no fundo, o
mecanismo se conserva o mesmo. Sempre que estás numa
situação em que sentes que alguém te agredirá, que alguém
vai bater-te, insultar-te, fazer-te algum mal, imediatamente
o corpo enfrenta a situação: libera venenos na corrente do
sangue, tua temperatura se eleva, teus olhos ficam
vermelhos, teu rosto enche-se de mais sangue - estás pronto
para a fuga, ou para a briga.
Isso também não é o
principal, já que se trata apenas de um auxílio dado pelo
corpo. Cólera no rosto, cólera no corpo não são coisas
reais; apenas seguem tua mente, acompanham a tua
interpretação. Passas por uma rua deserta numa noite escura,
vês um poste com uma lâmpada e pensas que é um fantasma -
imediatamente o corpo liberta elementos na corrente
sanguínea; o corpo está preparando a briga com o fantasma,
ou a fuga. Tua mente interpretou o poste com a lâmpada como
um fantasma e, imediatamente, o corpo seguiu-te. Pensas que
alguém é teu inimigo, o corpo segue-te. Pensas que alguém é
teu amigo, o corpo segue-te.
A causa-raiz está, portanto,
na mente, na tua interpretação. Buda diz: - “Pensa que a
terra inteira é tua amiga.” Por quê? Jesus diz: - “Perdoa
mesmo a teus inimigos.” Não só isso, mas: - “Ama até mesmo
teus inimigos.” Por quê? Buda e Jesus estão tentando mudar a
tua interpretação. Mas Tilopa ainda vai mais longe. Ele diz
que, mesmo quando pensas que todos são amigos, continuas a
pensar em termos de amizade e inimizade. Mesmo que ames teu
inimigo, pensas que ele é teu inimigo. Amas porque Jesus
assim disse. Estarás, naturalmente, em melhor situação do
que aquele que odeia o inimigo, menos cólera haverá em ti.
Mas Tilopa diz que pensar que alguém é inimigo, pensar que
alguém é amigo é dividir - e já caíste na armadilha. Ninguém
é amigo, ninguém é inimigo. Esse é o mais alto ensinamento.
Às vezes, Tilopa ultrapassa
mesmo Buda e Jesus. Talvez pelo fato de Buda estar falando
às massas e Tilopa estar falando a Naropa. Quando falas com
um discípulo muito desenvolvido, podes trazer o mais alto
para um nível mais baixo. Quando fala às massas, tens de
fazer uma acomodação. Estive falando às massas,
continuamente, durante quinze anos, e então, gradualmente,
senti que precisava desistir disso. Estive falando a
milhares de pessoas. Mas quando falas com vinte mil pessoas,
tens que fazer uma acomodação, tens que descer; de outra
forma será impossível que elas te entendam. Vendo isso,
desisti. Agora, gosto de falar apenas a Naropas. E tu podes
não ter consciência disso, mas, mesmo que uma única pessoa
nova venha até aqui, e que eu não tenha consciência de que
ela se acha aqui, ela modifica toda a atmosfera. Ela te traz
para baixo e, de repente, sinto que fiz uma acomodação.
Quanto mais alto sobes, mais
alta é a tua energia e mais alto o ensinamento que te pode
ser oferecido. E chega o momento em que Naropa se torna
perfeito - Tilopa permanece silencioso. Então, não há
necessidade de dizer nada, porque mesmo o falar se torna uma
acomodação. Então, o silêncio é suficiente, o silêncio é o
bastante; então, o sentarem-se juntos é o bastante. Então, o
Mestre senta-se com o discípulo, nada fazem, apenas se
conservam juntos - e, só então, a mais alta cintilação
acontece.
Assim, depende dos
discípulos. Depende de ti, do quanto me permitas dar-te. Não
é apenas para tua própria compreensão, naturalmente, mas
dependerá de ti o quanto eu possa trazer à terra, porque
isso terá de vir através de ti.
Jesus teve discípulos muito
comuns, porque estava iniciando algo e teve de fazer
acomodações - com coisas tolas. Jesus foi apanhado na mesma
noite em que os discípulos lhe perguntaram: - “Mestre,
dize-nos: no Reino de Deus estarás, naturalmente, sentado à
direita de Deus, ao lado direito do trono - mas nós, que
somos doze, qual será a nossa situação hierárquica? Onde nos
sentaremos? Quem estará a teu lado? E a seguir?” Jesus
estava para morrer e os tolos discípulos estavam lhe fazendo
uma pergunta absurda, preocupados com a hierarquia existente
no Reino de Deus, com quem estaria perto de Jesus.
Naturalmente, Jesus estará ao lado de Deus, isso eles podiam
ver; mas, então, quem estaria ao lado de Jesus?
Egos tolos. E Jesus teve de
fazer acomodações com essa gente. Por isso é que os
ensinamentos de Jesus não puderam chegar à altura onde Buda
chegou facilmente. Buda não estava falando com tolos, nunca,
em sua vida, alguém lhe fez uma pergunta tola. Mas nada se
compara a Tilopa.
Tilopa nunca falou às
massas. Procurou um só homem, uma só alma desenvolvida,
Naropa, e disse: - “Por tua causa, Naropa, eu direi coisas
que não podem ser ditas; por tua causa e por causa da tua
confiança, tenho de fazer isso.” Por isso o ensinamento foi
dado, levantou vôo para o mais distante recanto do céu.
Agora, tenta entender o
sutra:
Corta a raiz de uma
árvore, e as folhas murcharão;
corta a raiz da tua
mente, samsara tomba.
A luz de qualquer
lâmpada dissipa, num momento,
as trevas de longos
kalpas [longas eras, milênios];
a luz forte da mente,
num simples lampejo,
queimará o véu da
ignorância.
Corta a raiz de uma
árvore, e as folhas murcharão.
Contudo, as pessoas costumam tentar o corte das folhas. Essa
não é a maneira; assim a raiz não pode murchar. Pelo
contrário, se cortas as folhas, mais folhas virão à árvore;
se cortas uma folha, três folhas virão, porque, com o corte
das folhas, as raízes tornam-se mais ativas, a fim de
proteger a árvore. Por isso, todo jardineiro sabe como
tornar uma árvore densa e espessa - é só podá-la. Ela se
tornará cada vez mais espessa, espessa, espessa, porque
lançaste um desafio às raízes: cortas uma folha e as raízes
enviarão três para proteger o corpo da árvore, porque as
folhas são a superfície do corpo das árvores.
As folhas não existem para
teu prazer, para que as contemples e te sentes à sua sombra;
não; as folhas são a superfície do corpo da árvore. Através
das folhas, a árvore absorve os raios do sol, através das
folhas a árvore libera vapor, através das folhas a árvore
entra em contato com o cosmos. As folhas são a pele da
árvore. Cortas uma folha, e as raízes aceitam o desafio:
mandam três para substituí-la, tornam-se mais alertas, não
podem permanecer adormecidas. Alguém está tentando destruir
a árvore e elas têm de protegê-la - o mesmo acontece em
relação à vida, porque a vida também é uma árvore.
Possui raízes e folhas. Se
cortas a cólera, três folhas virão substituí-la e ficarás
três vezes mais colérico. Se cortas o sexo, ficarás
anormalmente obcecado pelo sexo. Corta qualquer coisa e
observa como aquilo vai te acontecer três vezes mais. E a
mente dirá: - “Corta mais, não foi o bastante!” Então,
cortarás mais e mais terás por esses cortes - cairás em um
círculo vicioso. E a mente continuará a dizer: - “Corta
mais, ainda não foi o bastante.” Por isso é que tantas
folhas estão aparecendo. Podes cortar todos os ramos, mas
não fará diferença, porque a árvore existe na raiz, não nas
folhas.
Tantra diz para não tentares
cortar as folhas - cólera, ganância, sexo, não te preocupes
com eles, é tolice. Procura a raiz e corta a raiz - a árvore
murchará por si mesma, espontaneamente. As folhas
desaparecerão, os ramos desaparecerão, simplesmente porque
cortaste a raiz.
A identificação é a raiz e
tudo o mais nada é senão folhas. Estar identificado com a
ganância, estar identificado com a cólera, estar
identificado com o sexo - isso é a raiz. E lembra-te: tanto
faz estares identificado com a ganância, ou com o sexo, ou
mesmo com a meditação. Amor, Moksha, ou Deus, não faz
diferença; é a mesma identificação. Estar identificado é a
raiz; tudo o mais não passa de folhas. Não cortes as folhas,
deixa-as, nada há de errado com elas.
Por isso é que Tantra não
acredita em melhorar o teu caráter. Melhorar teu caráter é
apenas dar-te uma boa forma - se podares uma árvore, ela
poderá tomar a forma que lhe quiseres dar, mas permanecerá a
mesma. O caráter é apenas a forma externa - ele pode mudar,
mas tu permaneces o mesmo, não acontece a transmutação.
Tantra vai mais ao fundo, e diz: - “Corta a raiz!” Por isso
é que Tantra se vê tão mal compreendido - porque Tantra diz:
- “Se és ganancioso, sê ganancioso; não te incomodes com a
ganância. Se és sexual, sê sexual, não te incomodes
absolutamente com isso.” A sociedade não pode tolerar um
ensinamento assim. - “Que esta gente está dizendo? Vão criar
o caos. Destruirão toda a ordem.” Mas não entenderam que só
Tantra pode modificar a sociedade, o homem, a mente - nada
mais o pode; que só Tantra trará a verdadeira ordem, a ordem
natural, um florescimento natural da disciplina interior,
nada mais do que isso. Mas esse é um processo muito profundo
- precisas cortar a raiz.
Observa a ganância, observa
o sexo, observa a cólera; a dominação, o ciúme. Uma coisa
deve ser lembrada: não te identifiques; simplesmente
observa, torna-te um espectador. Gradualmente, a qualidade
de testemunha cresce e passas a ser capaz de notar todas as
nuances da ganância. São muito sutis. Passas a ser capaz de
ver o quanto são sutis as funções do ego, como são sutis
suas formas. Não é uma coisa grosseira. É muito sutil e
delicada e profundamente oculta.
Quanto mais observares, mais
teus olhos se farão capazes de ver, mais perceptivos se
tornarão e, quanto mais vires, mais profundamente caminharás
e maior distância se estabelecerá entre ti e aquilo que
fazes. A distância ajuda porque, sem distância, não pode
haver percepção. Como podes distinguir uma coisa que está
demasiado próxima? Se estiveres muito próximo a um espelho,
não poderás ver teu reflexo. Se teus olhos estiverem tocando
o espelho, como poderás ver? Uma distância é necessária. E
nada pode dar-te distância, a não ser o testemunho. Tenta e
verás.
Dirige-te ao sexo; nada
haverá de errado nisso, desde que permaneças um observador.
Observa todos os movimentos do corpo, observa a energia
fluindo para dentro e para fora, observa como a energia vai
descendo, observa o orgasmo, o que acontece durante o
orgasmo, como os dois corpos se movem ritmadamente, observa
as batidas do coração - cada vez mais rápidas - e o momento
em que parecem enlouquecidas. Observa o calor do corpo, o
sangue circulando mais. Observa a respiração, que se faz
louca e caótica. Observa o momento em que tua vontade
extravasa seus próprios limites e tudo se torna
involuntário. Observa o momento em que poderias ter voltado,
mas para além do qual não há retorno. O corpo se torna tão
automático para além do qual não há retorno. O corpo se
torna tão automático que qualquer controle é impossível.
Exatamente no instante anterior à ejaculação, tu perdes o
controle, o corpo domina.
Observa o processo
voluntário e o processo não-voluntário. O momento em que
tens o controle e poderias voltar - o retorno era possível
-, e o momento em que não podes voltar, o retorno tornou-se
impossível - agora o corpo dominou completamente, perdeste o
controle. Observa tudo; e há milhões de coisas a observar.
Tudo é tão complexo e nada é mais complexo do que o sexo,
porque ele envolve o corpo e a mente - só a testemunha não
se envolve; só uma coisa permanece sempre de fora.
A testemunha é um estranho.
Por sua própria natureza, a testemunha nunca pode tornar-se
alguém que está de dentro. Procura essa testemunha e, então
põe-te no topo da colina: tudo se passa no vale, sem que
tenhas a menor participação. Simplesmente vês: que tens com
aquilo? É como se tudo se estivesse passando com uma outra
pessoa. O mesmo acontece com a ganância e com a cólera: são
muito complexas. E apreciarás, se puderes observar, o
negativo, o positivo, todas as emoções. Lembra-te,
simplesmente, de uma cois: tens que ser um observador,
porque, então, a identificação se romperá, então a raiz será
cortada. E, desde que a raiz é cortada, de vez que descubras
que não és aquele que atua, tudo se modifica de repente. E a
modificação é súbita, não há graduação nela.
Corta a raiz da árvore
e as folhas murcharão;
corta a raiz da tua
mente e samsara tomba.
No momento em que cortes a
raiz da mente, a identificação, a samsara, tomba com ela,
todo o mundo se desmorona como um castelo de cartas. Basta
uma pequena brisa de consciência, e toda a casa cai. De
súbito, ali estás; não mais no mundo pois transcendeste.
Podes viver da mesma maneira antiga, fazendo as antigas
coisas, mas nada será antigo, porque tu já não és antigo. És
um ser perfeitamente novo - isso é um renascimento. Os
hindus o chamam dwij, duas vezes nascido. Um homem
que a isso chegou é duas vezes nascido; a Iluminação é um
segundo nascimento: é o nascimento da alma. Isso é o que
Jesus quer dizer quando fala em ressurreição. A ressurreição
não é o renascimento do corpo, é um novo nascimento da
consciência.
corta a raiz da tua
mente, samsara tomba.
A luz de qualquer
lâmpada dissipa, num momento,
as trevas de longos
kalpas [longas eras, milênios];
Assim, não te preocupes em
saber como a luz súbita poderá dissipar as trevas de tantos,
tantos milhões de vidas. Dissipa-as porque as trevas não têm
densidade, não têm substância. Por um momento, ou por
milhares de anos, é o mesmo. A ausência não aumenta, nem
diminui; a ausência permanece a mesma. A luz é substancial,
é algo, mas as trevas são apenas uma ausência. A luz surge e
as trevas já desapareceram.
Não que as trevas se tenham,
realmente, dissipado, porque nada há para ser dissipado. Não
que, quando acendas a luz, as trevas desapareçam - nada há
para desaparecer. Na verdade, nada havia, só ausência de
luz. A luz vem e as trevas já não existem.
a luz forte da mente,
num simples lampejo,
queimará o véu da
ignorância.
Os budistas usam mente
em dois sentidos: mente com m minúsculo e Mente com
maiúscula, M. Quando usam Mente, com maiúscula,
referem-se à testemunha, à consciência. Quando usam mente,
com m minúsculo, referem-se ao testemunhado. E ambas
são mente, por isso é que usam a mesma palavra para as duas;
há apenas uma pequena diferença, quando se usa a maiúscula.
Com a maiúscula tu és a testemunha, e com a minúscula és o
testemunhado - pensamentos, emoções, cólera, avidez, tudo.
Por que usar a mesma
palavra? Por que criar a confusão? Há uma razão para isso:
quando a Mente, com maiúscula, se ergue, a mente, com m
minúsculo é, simplesmente, absorvida por ela. Tal como os
rios deságuam no oceano, os milhões de mentes, em torno da
Grande Mente, caem todos nela; a energia é reabsorvida.
Avidez, cólera e ciúme são
energia movendo-se para fora, centrífugas. De repente,
quando a Mente, com maiúscula, se ergue, a testemunha
queda-se, silenciosamente observando, e todos os rios mudam
seu curso. Estavam se movendo centrifugamente, em direção à
periferia, e, de repente, voltam-se, tornam-se centrípetos,
e começam a cair na Grande Mente - tudo é absorvido. Por
isso é que o mesmo nome é usado.
A luz forte da Mente,
num simples lampejo,
queimará o véu da
ignorância
Apenas em um instante toda
ignorância é queimada - é a súbita Iluminação.
Quem quer que se
agarre à mente
não vê a verdade que
está além da mente.
Se te agarras à mente, aos
pensamentos, às emoções, então não serás capaz de ver o que
fica para além da mente - a grande Mente - porque, se estás
preso, como verás? Se te agarras, teus olhos estão fechados
por que te agarras. E, se te agarras ao objeto, como podes
ver a essência? Esse apego tem de desaparecer.
Quem quer que se
agarre à mente [se identifica e]
não é a verdade que
está além da mente.
Quem quer que lute
para praticar o Dharma
não encontra a verdade
que está para além da prática.
Toda prática é da mente.
Qualquer coisa que faça é da mente. Só o testemunho não é da
mente, lembra-te disso.
Assim, mesmo quando
estiveres meditando, permanece como testemunha; vê,
continuamente, o que está acontecendo. Estás rodopiando em
meditação de Derviche? Rodopia, rodopia tão depressa quanto
puderes, mas, por dentro, permanece testemunha, vendo teu
corpo rodopiando. O corpo continua, cada vez mais rápido,
mais rápido e, quanto mais rápido girar o corpo, mais
profundamente sentirás que o centro não se está movendo.
Estás imóvel; o corpo girando como uma roda e tu imóvel,
exatamente no centro. Quando mais depressa gira o corpo,
mais profundamente compreendes que não te estás movendo;
assim, a distância é criada.
Seja o que for que estiveres
fazendo, mesmo a meditação, - eu não faço exceção - não te
agarres nem mesmo à meditação, porque virá o dia em que até
esse apego terá de ser posto de parte. A meditação se torna
perfeita quando ela própria também é abandonada. Quando há
meditação perfeita, não precisas meditar.
Portanto, mantém
constantemente a percepção de que a meditação é apenas uma
ponte e tem de ser atravessada. Uma ponte não é um lugar em
que possas morar. Tens de atravessá-la e seguir além. A
meditação é uma ponte; deves ser observador também a
respeito disso, pois, de outra maneira, podes parar de te
identificares com a cólera, com a ganância, e começar a te
identificares com a meditação, com a compaixão. Então,
estarás novamente na mesma armadilha. Através de outra
porta, entraste na mesma casa.
Aconteceu isto, certa vez:
Mulla Nusradin foi ao bar da cidade; já estava bem
embriagado, de forma que o dono do bar lhe disse: - “Vai
embora! Já estás bêbado e eu não te posso dar mais bebida.
Volta para tua casa.” Mas ele continuou insistindo e o dono
do bar teve de pô-lo para fora.
Caminhou ele uma longa
distância, procurando outro bar. Então, voltou ao mesmo bar,
porém entrando por outra porta. Entrou, olhou para o dono do
bar um tanto suspeitosamente, porque o rosto lhe pareceu
familiar, e pediu bebida de novo; o homem disse: - “Eu te
disse, de uma vez por todas, que esta noite não te vou dar
nada! Vai-te embora daqui!” Insistindo, de novo, de novo foi
posto para fora.
Caminhou uma longe distância
em busca de outro bar, mas, na cidade, só havia um. De novo
através de uma terceira porta, ele entrou, olhou para o dono
do bar, que lhe pareceu figura demasiadamente familiar, e
disse: - “Que história é essa? Tu és o dono de todos os
bares desta cidade?”
Isso acontece. Tu és posto
para fora através de uma porta e entras através de outra. Tu
te identificas com a cólera, com a luxúria e, depois, te
identificas com a meditação. Estavas identificando com o
prazer sexual e, agora, ficaste identificado com o êxtase
que a meditação oferece. Nada é diferente - a cidade só tem
um bar. Não tentes entrar novamente no mesmo bar, várias
vezes. Em qualquer lugar que entres encontrarás o mesmo
proprietário - isso é, a testemunha. Presta atenção nisso,
para não desperdiçares muita energia. Para que não viajes
grandes distâncias para entrar, de novo, no mesmo lugar.
Quem quer que se
agarre à mente
não vê a verdade que
está além da mente.
Que há além da mente? Tu.
Que há além da mente? Percepção, consciência. Que há além da
mente? Satchitananda, a Verdade, a Consciência, a
beatitude.
Quem quer que lute
para praticar Dharma,
não encontra a verdade
que fica para além da prática.
E, o que quer que pratiques,
lembra-te: a prática não te pode levar ao natural, ao livre
e natural, porque prática significa praticar algo que não
existe. Praticar significa, sempre, praticar algo
artificial. A natureza não precisa ser praticada, não há
necessidade, ela já existe. Tu aprendes algo que não existe
em ti. Como podes aprender algo que já existe em ti? Como
podes aprender a natureza, Tao? Ela já está ali! Tu nasceste
nela. Não há necessidade de encontrar um professor que te
possa ensinar - e essa é a diferença entre um professor e um
Mestre.
Um professor é alguém que te
ensina algo; um Mestre é alguém que te ajuda a desaprender o
que já tiveres aprendido. Um Mestre te ajuda a desaprender.
Um Mestre serve para dar-te o sabor da não-prática. Tu já a
trazes em ti, mas, por causa do aprendizado, tu a perdeste.
Através do desaprender, irás reavê-la.
A Verdade não é uma
descoberta, é uma redescoberta.
Já existia em ti, em
primeiro lugar.
Quando vieste ao mundo,
ela estava contigo,
quando nasceste nesta
vida, ela estava contigo,
porque tu és a Verdade.
Não pode ser de outra
maneira. Não é algo externo; é intrínseco a ti, é teu
próprio ser. Assim, se praticas, diz Tilopa, não conhecerás
aquilo que está além da prática.
Lembra-te, incessantemente,
que a prática de qualquer coisa é uma parte da mente, da
pequena mente, da periferia externa e tens que ir além
disso. Como ir além? Pratica, nada há de errado em praticar,
mas sê alerta; medita, mas sê alerta - porque na
significação final do termo, meditação é testemunho.
Todas as técnicas podem te
auxiliar, mas não levam exatamente à meditação; levam apenas
a um tatear no escuro. De repente, um dia, fazendo alguma
coisa, tu te tornarás uma testemunha. Meditando como o
dinâmico, ou kundalini, ou rodopiando, um dia a
meditação surgirá de súbito, mas não estarás identificado
com ela. Estarás sentado, silenciosamente atrás dela,
observando-a - nesse dia a meditação aconteceu; nesse dia, a
técnica deixou de ser um obstáculo, um auxílio. Podes gozar
o momento, se quiseres, como um exercício - ele dá uma certa
vitalidade, mas não é necessário agora; agora a meditação
verdadeira aconteceu.
Meditar é testemunhar.
Meditar significa tornar-se uma testemunha. A meditação não
é, absolutamente, uma técnica! Isso poderá confundir-te,
pois continuo dando-te técnicas. No sentido definitivo, a
meditação não é uma técnica; a meditação é uma compreensão,
uma percepção. Mas precisas de técnicas, porque essa
compreensão final está muito distante de ti, profundamente
escondida em ti, mas, ainda assim, muito distante de ti.
Podes consegui-la neste mesmo momento, mas não a
conseguirás, porque teu momento continua, tua mente
continua. Este mesmo momento é possível e, contudo,
impossível. As técnicas ligarão as brechas; são apenas
pontes sobre os espaços.
Assim, no princípio, a
técnica é meditação; ao fim rirás: a técnica não é
meditação. A meditação é uma qualidade totalmente diferente
de ser; não tem nada a ver com coisa alguma. Mas acontecerá
apenas ao final, não penses que aconteceu no princípio,
pois, de outra maneira, a brecha não será atravessada.
Esse é o problema em relação
a Krishnamurti e este é o problema em relação a Maharishi
Mahesh - são dois pólos opostos. Mahesh pensa que a técnica
é meditação, de forma que, quando estás dominando uma
técnica - meditação transcendental, ou outra -, aconteceu a
meditação. Isso é certo e é errado. Certo, porque, no
início, o principiante tem de dominar alguma técnica, já que
sua compreensão não está bastante amadurecida para entender
o Definitivo. Assim, e aproximadamente, a técnica é
meditação.
É como com uma criancinha
que aprende o alfabeto. Dizemos a ela que a letra m é
como a que usamos para macaco; o macaco representa a
letra m. Apresentamos-lhe o m ao lado do
macaco e a criança começa a aprender. Não há relação entre
um macaco e um m. O m pode ser representado
por um milhão de coisas e, ainda assim, é diferente do fato
de ser uma dessas coisas. Mas, a uma criança, é preciso
mostrar algo, e um macaco está mais próximo dela: pode
entender um macaco mas não o m. Através do macaco,
poderá entender o m - mas isso é apenas o princípio,
e não o fim.
Mahesh está certo no
princípio, levando-te para o caminho; mas, se ficares preso
a ele, estarás perdido. Deve ser deixado; é como a escola
primária: boa até certo ponto, mas não é preciso permanecer
para sempre na escola primária. A escola primária não é a
universidade e a escola primária não é o universo. Temos de
ir adiante. É uma compreensão primária essa de que a
meditação é uma técnica.
Então, está Krishnamurti, no
pólo oposto. Ele diz que não há técnicas, nem meditações,
que não percas teu tempo com técnicas, que a meditação é
simples percepção, percepção sem escolha. Perfeitamente
certo! Mas ele está tentando ajudar-te a entrar na
universidade, sem passar pela escola primária. Pode ser
perigoso, porque está falando sobre o Definitivo, mas não
podes entender isso agora, com o teu entendimento - não é
possível, ficarás louco. Se deres ouvidos a Krishnamurti
estarás perdido, porque compreenderás intelectualmente que
ele está certo, mas, em teu ser, saberás que nada está
acontecendo.
Muitos seguidores de
Krishnamurti vieram ter comigo. Dizem que intelectualmente
compreendem. - “É natural, ele está certo, não há técnica; a
meditação é percepção - mas o que fazer?” E eu lhes digo
que, no momento em que se pergunta o que fazer, se está
pedindo uma técnica. Krishnamurti não te ajudará. Será
melhor procurares Maharishi Mahesh. Mas algumas pessoas se
prendem a Krishnamurti e outras a Mahesh.
Não sou qualquer um dos dois
- sou ambos; e, então, fico extremamente confuso. Ambos são
claros, seu ponto de vista é simples, não há complexidade no
compreender Mahesh ou Krishnamurti. Se entendes a linguagem,
podes entendê-los, não há problema. O problema surge comigo,
porque eu sempre falarei sobre o princípio e nunca
permitirei que se esqueça o fim. E sempre falarei sobre o
fim e ajudarei a começar desde o princípio. Tu ficarás
confuso e dirás: - “Que queres dizer com isso? Se a
meditação é simples percepção, então como chegar a ela
através de tantos exercícios?”
Tens que passar por eles,
pois só então te acontecerá a meditação, aquela que é
simples compreensão.
Ou dizes: - “Se as técnicas
são tudo, então por que continuas dizendo, sempre e sempre,
que as técnicas têm de ser abandonadas, postas de lado?” E
sentes: “Algo aprendido tão profundamente, com tanto esforço
e duro trabalho, tem de ser novamente abandonado?” Gostarias
de permanecer agarrado ao começo. Eu não o permitirei. Já
que estás no caminho, eu te irei empurrando até o ponto
final.
Isso é um problema: se estás
comigo, é um problema a ser encarado, atacado, e
compreendido. Parecerei contraditório. E sou. Sou um
paradoxo - porque estou tentando ensinar-te tanto o
princípio como o fim, o primeiro passo e o último.
Tilopa fala do Definitivo. E
diz:
Quem quer que lute
para praticar o Dharma
não encontra a verdade
que está para além da prática.
A fim de saber o que
há além da mente e da prática
[não devemos nos
agarras]
é preciso cortar
completamente a raiz da mente,
e ficar despido.
Isso é o que eu chamo
testemunhar: ficar despido. Só estar despido é o bastante; a
raiz está cortada. Esse estar despido torna-se uma espada
afiada.
Assim, deves
afastar-te de todas as distinções
e permanecer
tranqüilo.
Livre, natural, despido
dentro de ti mesmo - essa é a palavra final.
Mas segue devagar, porque a
mente é um mecanismo muito delicado. Se estiveres
demasiadamente apressado e ingerires uma dose muito grande
de Tilopa, podes não conseguis absorvê-la e digeri-la. Vai
devagar. Toma apenas porções que possas absorver e digerir.
Mesmo eu, que estou aqui,
direi muitas coisas, porque sois muitos; e tomarei muitas
dimensões, porque sois muitos. Mas deveis absorver apenas o
que for alimento para vós; digeri isso.
Um desses dias, um
sannyasin veio ver-me; um sincero inquiridor, um
perplexo, porque eu falei sobre Ioga e Tantra, dizendo que
Tantra é o ensinamento maior e Ioga é o ensinamento menor.
Ele tinha estado praticando Hatha Ioga durante dois anos e
sentia-se bem. Estava perplexo sobre o que deveria fazer.
Não te tornes perplexo tão facilmente. Se te estás sentindo
bem com Ioga, segue tua inclinação natural. Não permitas que
eu te faça confuso. Posso parecer confundidor, para ti, mas
segue, simplesmente, tua inclinação natural - livre e
natural. Se isso é bom, é bom para ti. Por que te
preocupares, em saber se é mais alto, ou mais baixo? Que
seja mais baixo. O ego entra nisso, o ego diz: - “Se é algo
mais baixo, então porque segui-lo?” Isso não ajudará. Segue.
Está certo para ti. Mesmo que seja mais baixo, que há de
errado com isso? Chegará o momento em que, através do mais
baixo, alcançarás o mais alto.
Uma escada possui duas
extremidades: uma delas é a mais baixa e a outra é a mais
alta. Assim, Tantra e Ioga não são coisas opostas, mas são
complementares. Ioga é o primário, básico, a partir da qual
tens de começar. Mas não deves agarrar-te a ela. Chega o
momento em que tens de transcender a Ioga e passar para
Tantra. Finalmente, terás de deixar a escada toda - Ioga e
Tantra. Sozinho contigo mesmo, profundamente repousado, tudo
esquecerás.
Olha para mim: não sou
iogue, nem tântrico.
Nada faço - nem prática,
nem não-prática.
Não me agarro ao método,
ou ao não-método.
Estou aqui, simplesmente,
repousando, sem fazer nada.
A escadaria não existe
para mim, agora;
o caminho desapareceu,
não há movimento, o
repouso é absoluto.
Quando se chega ao lar,
nada há a fazer;
apenas tudo esquecemos e
entramos em repouso -
Deus é o repouso
definitivo.
Lembra-te disso, porque às
vezes estarei falando de Tantra, já que muitos serão
auxiliados por ela; e às vezes estarei falando de Ioga, pois
há muitos que por ela serão ajudados. Pensa, apenas, em tua
própria inclinação, segue teus próprios sentimentos; estou
aqui para ajudar-te a ser tu mesmo, não para confundir-te.
Mas tenho de dizer muitas coisas, porque tenho de ajudar a
muitos. Assim, que farás? Apenas me ouvirás. Digere o que
achares nutriente, mastiga bem, digere; que aquilo se torne
teu sangue e teus ossos, a própria medula de teus ossos -
mas segue apenas tua própria inclinação.
E, quando eu falo de Tantra
fico absorvido, porque assim é que sou; não posso ser
parcial; sou total, seja o que for que faça. Se estou
falando sobre Tantra, estou totalmente entregue a Tantra:
nada importa, só Tantra importa; mas isso pode dar-te uma
falsa impressão. Não estou falando comparativamente, nada me
importa. Tantra é a flor mais alta, a definitiva. Isso,
porque eu olho totalmente para ela. Quando falo de Ioga,
acontece o mesmo, porque sou total. Mas a questão não é Ioga
ou Tantra - é a minha totalidade, a que eu levo a tudo.
Quando eu a levo para Ioga e Patanjali, estarei dizendo,
também, que são o máximo.
Portanto, não fiques
confuso: lembra-te, sempre, de que é a minha totalidade e a
minha qualidade o que eu ponho nisso. Se te puderes lembrar
disso, serás ajudado; mesmo através do meu ser paradoxal,
não ficarás confuso. |