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Tantra - A Suprema Compreensão (Osho)
Além e mais além
Não devemos dar nem
receber,
mas permanecer natural, porque Mahamudra
está para além de toda aceitação e rejeição.
Já que alaya não é nascida,
ninguém pode obstruí-la ou manchá-la;
conservando-se na região não-nascida
toda aparência se dissolverá em Dharmata
e o egoísmo e o orgulho se desvanecerão em nada.
A mente comum deseja tomar
mais e mais do mundo, de toda parte, de cada direção e
dimensão. A mente comum é uma grande receptora, uma mendiga
e, por mais que mendigue, nunca está satisfeita - é infinita
a mendicância. Quanto mais recebes, mais cresce o desejo,
quanto mais tens, mais queres ter. O querer acaba por
tornar-se uma fome obsessiva. Teu ser não tem necessidade
disso, mas estás obcecado e tornas-te mais e mais infeliz,
porque nada te satisfaz. Nada pode satisfazer a mente que
está constantemente pedindo mais. O “mais” é febril, não é
saudável e não tem fim.
A mente comum come, num
sentido metafórico, não só coisas mas também pessoas. O
esposo gostaria de possuir a esposa tão profundamente, como
se se alimentasse dela; gostaria de digeri-la para que ela
se tornasse parte dele. A mente comum é canibalística. A
esposa deseja o mesmo: absorver o esposo tão completamente
que dele nada sobre. Matam um ao outro. Amigos fazem o
mesmo, os pais fazem o mesmo às crianças e as crianças aos
pais. Todo o relacionamento da mente comum é no sentido de
absorver o outro completamente. É uma espécie de
alimentação.
E há a mente extraordinária,
que é exatamente o oposto da mente comum. Por causa da mente
comum, surgiu a mente extraordinária. As religiões ensinam
algo a respeito dela. Dizem: - “Dá, partilha, oferece!”
Todas as religiões ensinam, basicamente, que não deves
tomar; bem ao contrário, deves dar. A caridade é pregada. E
é pegada a fim de criar uma mente extraordinária.
A mente comum estará sempre
em sofrimento; como o anseio por “mais” não poderá ser
satisfeito, tu a encontrarás sempre deprimida. A mente
extraordinária, que as religiões vêm cultivando, tu a verás
sempre feliz; há nela uma certa animação, porque não está
pedindo mais; pelo contrário, continua dando. Mas, bem no
fundo, ainda é a mente comum.
A animação não pode vir do
mais profundo ser, só pode vir da superfície. Ela deu uma
volta completa e tornou-se o reverso da comum. Está de
cabeça para baixo, está em shirshasan, mas permanece
a mesma. Agora surge um novo desejo, mais e mais; também não
há um fim para ele. Ela estará animada, mas, bem no fundo,
em sua animação poderás perceber uma certa espécie de
tristeza.
Encontrarás sempre essa
espécie de tristeza nas pessoas religiosas. Animadas,
naturalmente, porque dão, mas tristes, porque não é o
bastante. Nada será o bastante.
Assim, há dois tipos de
sofrimento: o sofrimento comum - e podes encontrar esses
sofredores por toda parte, em todos os lugares, por toda a
terra, que está cheia deles, dos que pedem sempre mais e não
podem ser satisfeitos - e o outro sofrimento, o que mostra a
aparência da animação. Vais encontrá-lo em sacerdotes, em
monges, nos mosteiros, nos ashrams, nas pessoas que
estão sempre sorrindo - mas seu sorriso leva uma certa
tristeza oculta. Se observares atentamente, perceberás que
também são sofredores, porque não é possível dar
infinitamente, não temos para isso!
Esses são os dois tipos de
pessoas facilmente encontradiças. O indivíduo religioso é o
ideal pregado pelo Cristianismo, pelo Judaísmo, pelo
Islamismo, pelo Hinduísmo. É melhor do que a mente comum,
mas não chega a ser a última palavra em percepção. É bom ser
infeliz de uma forma religiosa; melhor ser infeliz como um
imperador, do que infeliz como mendigo.
Um homem muito rico estava
morrendo e chamou-me para estar junto dele quando a morte
chegasse; e então fui. No último momento, ele abriu os olhos
e falou ao filho. Aquilo sempre estivera em sua mente; ele
me havia falado a respeito muitas vezes: preocupava-se a
respeito do filho, porque o rapaz era um esbanjador, amava
as coisas materiais, ao passo que ele, o velho, era um homem
religioso. A última frase que disse ao filho foi: - “Ouve: o
dinheiro não é tudo; não podes comprar tudo com o dinheiro.
Há coisas que estão para além do dinheiro; o dinheiro, por
si só, não pode fazer ninguém feliz.”
O filho ouviu, e disse: -
“Podes ter razão, mas, com dinheiro, uma pessoa pode
escolher a tristeza que mais lhe agrade.” Podes não comprar
felicidade, mas podes escolher a tristeza que mais te
agrade; podes ser infeliz à tua maneira.
Um homem pobre é infeliz sem
escolha, um homem rico é infeliz, mas pode fazer escolhas -
essa é a única diferença. O rico escolhe sua própria
infelicidade, há uma certa liberdade. Ao pobre, a
infelicidade simplesmente acontece, como um fadário, como um
destino - ele não tem escolha. O homem religioso escolheu
seu sofrimento, por isso mostra-se animado; o homem
não-religioso sofre porque não escolheu seu sofrimento.
Ambos vivem no mesmo mundo do “mais”, porém o homem
religioso vive como um imperador, partilhando, dando,
fazendo caridade.
O Budismo, o Jainismo e o
Tao criaram um terceiro tipo de mente, que não é comum nem
extraordinária; que, na verdade, não é, em absoluto, mente.
Para dar-lhe um nome, será bom chamá-la de “não-mente”.
Portanto, tenta compreender a classificação. Mente comum e
mente extraordinária - exatamente o oposto, mas ainda na
mesma dimensão do mais. E, depois, a não-mente que o
Budismo, o Jainismo e o Tao criaram. Que é a não-mente? É a
terceira abordagem da realidade.
O Budismo e o Jainismo não
pregam a caridade, pregam a indiferença. Não dizem: - “Dá!”,
porque dar faz parte de tomar, é o mesmo círculo. No tomar,
tomas de alguém; dando, dás a alguém: é o mesmo círculo. As
dimensões não mudam, só muda a direção. O Budismo prega a
indiferença, a não-dominação. A ênfase está na não-possessão
e não em dar. Não deves possuir, isso é tudo. Não deves
tentar possuir coisas ou pessoas; simplesmente abandona o
mundo das posses. Podes dar apenas o que possuis; como podes
dar o que não possuis? Podes dar apenas o que adquiriste
antes; podes dar apenas o que tomaste antes - de outra
maneira, como podes dar? Vens para o mundo sem nada, sem
posses e sais do mundo sem posse alguma.
No mundo, podes estar em um
destes dois lados: ou do lado dos que anseiam por mais e
mais, por tomar mais e mais, absorver mais e mais e
continuar engordando a si mesmos; ou do lado daqueles que
estão sempre dando e dando, mais e mais, até se tornarem
delgados, delgados, delgados. Buda diz que não deves possuir
e nem escolher nenhum dos lados. Fica, simplesmente, no
estado da não-posse.
Esse homem, esse terceiro
tipo de homem, ao qual eu chamo o homem da não-mente, não
será tão feliz e animado quanto o homem extraordinário. Será
mais silencioso, mais quieto, tranqüilo; terá um profundo
contentamento, mas não alegria. Não verás sequer um sorriso
em seu rosto, não verás uma só estátua de Buda, ou de
Mahavir sorrindo. Eles não são alegres, não são felizes. Não
são infelizes, naturalmente, mas não são felizes - puseram
de parte o mundo da felicidade e da infelicidade. Então,
simplesmente, em repouso, indiferentes às coisas deste mundo
de coisas. É a não-posse: eles estão distantes, desapegados.
Isso é chamado de anashakti, desapego, indiferença.
Esse homem terá certa qualidade de silêncio em torno dele,
poderás sentir esse silêncio.
Tilopa, porém, vai além de
todos os três. Tilopa vai além de todos os três e não é
difícil classificá-lo. Mente comum, pedindo mais; mente
extraordinária, tentando dar mais; não-mente, indiferente,
desapegada, não dando nem recebendo. Como chamaremos à mente
de Tilopa? Tilopa é o quarto tipo; e o quarto é o último e o
mais alto, nada há para além dele. Não é, nem mesmo, uma
não-mente, não é em absoluto uma mente, porque também na
não-mente, a mente está presente, de uma forma negativa. Na
não-mente, a ênfase ainda está em ser indiferente às coisas
do mundo das coisas; o foco está nas coisas. Permanece
indiferente, desapegado! Não estás possuindo coisas, mas
precisas estar alerta para não possuir; tens de manter-te
desapegado, tens de manter-te muito alerta para nada
possuir. Faze disso um ponto bem claro: a ênfase ainda está
nas coisas - sê indiferente ao mundo!
Tilopa diz que a ênfase
deveria estar em teu próprio eu e não nas coisas. Repousa em
ti mesmo, não sejas sequer indiferente ao mundo, porque a
indiferença ainda é uma presença muito sutil do mundo. O
foco deve estar em outro aspecto. Volta a tua vida
completamente para dentro. Não te preocupes com o mundo, com
as coisas, não tentes dar mais, nem sejas indiferente ao
mundo. Faze como se o mundo simplesmente tivesse
desaparecido. Estás centralizado em ti mesmo, estás dentro
de ti, sem nada fazer. Todo o teu foco voltou-se, deu uma
reviravolta total.
É como se o mundo tivesse
desaparecido completamente;
não há nada a dar, nada a
receber,
nada em relação a ser
indiferente.
Só tu existes.
Vives em tua consciência
e ela é teu único mundo.
Nada mais existe.
Esse é o estado para além da
mente e para além da não-mente. Esse é o super-supremo
estado de compreensão, de entendimento. Nada há para além
dele. E eu gostaria de dizer-te: nunca te satisfaças, a
menos que tenhas chegado até aí. Porque o homem é infeliz, o
homem comum. Pede mais e nunca pode satisfazer-se, de forma
que, constantemente, a infelicidade está presente nele e vai
se tornando cada vez maior, maior e maior.
O homem de mente
extraordinária, aquele que a religião cultua é alegre, mas
triste, bem no fundo. Mesmo em sua alegria, há uma corrente
subterrânea de tristeza. É como se ele tentasse sorrir, e o
sorriso não viesse. Ele parece estar posando, como se algum
fotógrafo ali estivesse; tomasse certas atitudes que
realmente não existe. Melhor do que o primeiro; pelo menos
pode sorrir. O sorriso não é muito profundo, mas, pelo
menos, existe. Mas não dura muito tempo. Depressa
acabar-se-á seja o que for que ele tenha a dar, e, então, a
sorridente alegria desaparecerá. Gostaria de dar mais e,
então, estará na mesma aflição anterior, a do homem comum.
Talvez leve algum tempo até
que o segundo homem compreenda e entenda a sua infelicidade,
mas ela virá. A alegria que praticas, nas mesquitas, nos
templos, nos mosteiros, não pode ser muito profunda e não
pode ser um estado permanente. Não será eterna. Irás
perdê-la. A própria natureza dela é tal que só pode ser
momentânea. Por que apenas pode ser momentânea? Porque
chegará um momento - está escrito que chegará - em que não
poderás dar, porque não mais terás. Por isso é que pessoas
que tenham mentes desses dois tipos habituam-se a uma
acomodação. A mente comum e a mente extraordinária são da
mesma qualidade - habituam-se a uma acomodação. E acomodação
encontrarás em toda parte.
Primeiro um homem toma as
coisas e, depois, começa a dá-las. Ou ganhará cem rúpias e
dará dez por cento delas - essa é uma forma possível. Se der
os cem por cento, não terá mais para dar. Continua tomando
coisas e, então, distribui uma parte delas. Os maometanos
dizem que devemos dar um quinto de nossa renda: sê caridoso
com um quinto da tua renda. Por quê? Porque é uma
acomodação. De outra maneira, nada terás para dar. Portanto,
primeiro acumula e, depois, distribui. Acumula para
distribuir, enriquece e, então sê caridoso; assim podes
ajudar, exploras para isso. Que absurdo! Mas é a única
maneira possível: a ponte entre o comum e o extraordinário.
Mesmo a mente comum pensa e
acredita que, quando tiver muito, doará, ajudará as pessoas.
E, naturalmente, também fará isso. Quando tiver bastante,
fará um donativo a um hospital, um donativo a um centro de
pesquisa do câncer, um donativo a uma biblioteca, ou a uma
escola. Primeiro explora, depois doa. Primeiro rouba-te e,
depois, ajuda-te. Ajudantes e ladrões não são diferentes. Na
verdade, são as mesmas pessoas: com a mão direita roubam e
com a mão esquerda ajudam. Pertencem à mesma dimensão.
O terceiro homem, o homem da
não-mente, está em melhor situação do que os dois primeiros.
Seu silêncio pode ser mais longo, mas ele não está em
beatitude. Não é infeliz, não é angustiado, mas seu estado é
da natureza da negatividade. É como um homem que não está
doente porque os médicos nada encontram de errado nele, e
não está saudável porque não sente nenhum bem-estar. Não
está doente e nem saudável - está exatamente no meio de
ambas as coisas. Não é infeliz, nem é feliz - é,
simplesmente, indiferente. E a indiferença pode dar-te
silêncio, mas o silêncio não é o suficiente. É bom, é belo,
mas não podes te contentar com ele. Cedo ou tarde sentirás
tédio dele.
Isso é o que acontece quando
vais para as colinas. Estás demasiadamente entediado da vida
da cidade - Bombaim, Londres, Nova Iorque - estás entediado
do barulho, do trânsito e de toda a loucura do ir e vir;
então, foges para o Himalaia. Depois de alguns dias,
entretanto, - três, quatro, cinco, no máximo sete - começas
a te sentir entediado do silêncio. As colinas são
silenciosas, as árvores são silenciosas, o vale é silencioso
- não há excitação. Começas a ansiar pela vida da cidade: o
clube, os cinemas, os amigos.
O silêncio não é o bastante,
porque o silêncio tem a natureza da morte, não a natureza da
vida. É bom como um feriado, ou como um piquenique; entrar
no silêncio é bom para saíres de tuas super-preocupações
mundanas durante alguns dias, alguns momentos. Gostarás, mas
não poderás gostar disso para sempre. Depressa estarás
farto: depressa compreenderás que o silêncio não é o
suficiente. Não é nutridor. O silêncio te protegerá do
sofrimento, da felicidade, das excitações, mas não há
alimento nele. É um estado negativo.
O quarto estado é o que
Tilopa nos ensina - não pode ser dito mas ele tenta nos
transmitir através da confiança, amor e fé que Naropa
demonstra -; é um estado de beatitude, silencioso e
beatífico, e tem positividade. Não é simplesmente silêncio.
Não surge da indiferença pela vida, bem ao contrário, surge
da mais profunda experiência do teu próprio ser. Não foi
impelido pela renúncia, floresceu por ser livre e natural.
As diferenças são sutis. Mas, se tentares compreender e se
meditares sobre essas diferenças, todo o caminho da tua vida
ficará claro e então poderás percorrê-lo facilmente.
Nunca te satisfaças antes do
quarto estado, porque mesmo que te satisfaças, mais cedo ou
mais tarde o descontentamento surgirá. A não ser que
alcances satchitananda - a verdade absoluta, a
consciência absoluta, e a beatitude absoluta - ainda não
alcançaste o lar, estás ainda viajando pelo caminho. Está
certo, às vezes repousas a um lado da estrada, mas não faças
desse lugar um lar. A viagem tem de continuar, tens de te
levantar novamente e pôr-te a andar.
Passa do primeiro estado da
mente para o segundo, do segundo para o terceiro e vai além
do terceiro.
Se estás no primeiro estado
da mente, como noventa por cento das pessoas estão, o
pensamento judaico, o islâmico, o cristão podem ser de
auxílio. Eles te retirarão da armadilha comum da
infelicidade - mas ainda estarás no caminho e não te iludas
pensando que chegaste. Tens que ir para além, para além da
alegria que traz a tristeza em si, para além tanto do dar e
do receber, para além da caridade. Quem és tu, para dar? Que
tens tu, para dar? Quem és tu, para ajudar? Não ajudaste nem
a ti mesmo, como queres ajudar outros? Tua própria luz não
está acesa e tentas acender luzes alheias? Podes, na
verdade, apagá-las - teu próprio interior está escuro. Não
podes ajudar, não podes dar, nada tens para dar.
O Budismo, o Jainismo, o
Taoísmo, Lao-Tsé, Mahavir e Sidarta Gautama podem ajudar-te
nesse caso, mas Tilopa diz que não te satisfaças nem mesmo
com a indiferença, com o silêncio, com a atitude desapegada,
com o distanciamento, porque nada disso ainda é real; tu
ainda estás relacionado com o mundo. Tilopa tem condições
para ajudar-te a ir além disso. Pode levar-te ao mais íntimo
centro do teu ser. Pode ajudar-te a centralizar-te, a
enraizar-te em ti mesmo, despreocupado do mundo - e nem
mesmo a despreocupação existirá.
Tudo se dissolveu;
só tu permaneces em tua
pureza cristalina,
só tu permaneces em
absoluta inocência -
como se o mundo não
tivesse surgido,
jamais tivesse estado
ali.
Chegas ao ponto, nesse
quarto estado de consciência, ao ponto em que não foste
nascido, à fonte absoluta do ser; nem mesmo o primeiro passo
foi dado ao mundo, ou então chegaste ao último, deste o
último passo.
Isso é o que a gente do Zen
chama ter atingido a face original. Os Mestres Zen dizem aos
seus discípulos: - “Ide, encontrai vossa face, a que tínheis
antes que fosseis nascidos” ou - “Ide e encontrai a face que
tereis quando estiverdes mortos” (ou quando o mundo não
existia, ou quando o mundo desapareceu) e atinges tua pureza
original. Isso é a natureza.
Agora, tenta compreender
Tilopa:
Não devemos dar nem
receber
mas permanecer
naturais - porque Mahamudra
está para além de toda
aceitação e rejeição.
“Não devemos dar nem
receber”, porque, quando dás, sais de ti mesmo, quando
recebes, sais de ti mesmo. Ambas as coisas são distrações,
ambas levam-te à outra. Ficas embaraçado, tua energia flui
para o exterior. Que dês ou recebas, não importa - o outro
se faz presente, teus olhos estão focalizados no outro e
quando isso acontece tu te esqueces de ti mesmo. Isso é o
que tem acontecido a todos vós. Não vos recordais de vós
mesmos, porque vossos olhos tornaram-se realmente
focalizados, paralisados no outro. Seja o que for que
façais, o fazeis pelo outro, seja o que for que sejais, o
sois pelo outro.
Mesmo que te ausentes do
mundo, tua mente continua, continua. - “Que estarão as
pessoas pensando de mim?” Mesmo que fujas para o Himalaia,
ali sentado pensarás: - “Agora as pessoas devem estar
pensando que eu me tornei um grande sábio, renunciando ao
mundo; nos jornais devem estar falando de mim.” E esperarás
por algum viajante solitário, algum perambulador, que te
alcance e traga notícias do que está acontecendo no mundo a
teu respeito.
Tu não tens tua própria
face, tens, apenas, as opiniões de outros sobre ti. Alguém
diz que és belo e começas a pensar que és belo. Alguém diz
que és feio, tu te sentes magoado e trazes, como uma ferida,
o fato de alguém ter dito “feio” - tu te tornaste feio. Tu
não passas de um amontoado de opiniões alheias, tu não sabes
quem és. Sabes apenas o que os outros pensam que és. E isso
é estranho, porque esses outros que pensam quem tu és não
conhecem a eles próprios - conhecem-se através de ti. Esse é
um belo jogo: conheço-me através de ti, tu te conheces
através de mim e ambos não sabemos quem somos.
O outro tornou-se importante
demais, toda a tua energia se fez obcecada pelo outro.
Sempre pensando nos outros, sempre recebendo algo deles e
dando algo a eles.
Tilopa diz que não devemos
dar nem receber. Que está ele dizendo? Está dizendo que não
devemos partilhar? Não. Se tomas isso nesse sentido estás
interpretando mal. Ele está dizendo que não devemos nos
preocupar em dar ou receber: se podes dar naturalmente,
muito bem, mas então nada há na mente, não há acumulação da
idéia de que deste alguma coisa. Essa é a diferença entre
dar e partilhar.
Um doador sabe que deu e
gostaria que reconhecesses isso, que lhe desses o recibo: -
“Sim, tu me deste.” Deves agradecer-lhe, deves ser grato
pelo que ele te deu. Isso não é uma dádiva; é também uma
barganha. Na verdade, tu gostarias de dar-lhe algo em troca.
Mesmo que seja a tua gratidão, está certo, mas algo de que
ele gostasse: isso é uma barganha, ele dá para receber.
Tilopa não está dizendo que não devas partilhar. Está
dizendo que não te preocupes com dar e recebes. Se tens, e
se, naturalmente, acontece que tens vontade de dar, dá. Mas
isso deve ser como uma partilha, um presente. Essa é a
diferença entre presentear e dar.
Um presente não é uma
barganha: nada é esperado, absolutamente nada, nem mesmo
reconhecimento, nem mesmo um aceno de apreciação - não, nada
é esperado. Se não falas nisso, não haverá ferida na pessoa
que te faz o presente. Na verdade, se mencionares, ela
ficará um tanto embaraçada, porque nada era esperado. Ela
sente-se grata a ti, por teres apreciado o seu presente.
Poderias tê-lo recusado, havia essa possibilidade. Poderias
ter dito não; mas como foste gentil em não dizer não! Tu
aceitaste o presente - isso é o bastante. A pessoa sente-se
grata a ti. Um homem que te faz um presente sempre se sente
grato porque o aceitaste. Poderias ter recusado. Isso é o
bastante.
Tilopa não está dizendo que
não dês, não está dizendo que não recebas, porque a vida não
pode existir sem que se dê e se receba. Mesmo Tilopa tem de
respirar, mesmo Tilopa tem de mendigar seu alimento, mesmo
Tilopa tem que ir ao rio para beber. Tilopa tem sede,
precisa de água, Tilopa tem fome, precisa de alimento,
Tilopa sente-se sufocado num aposento acanhado e sai para
respirar profundamente. Está recebendo da vida a cada
momento - não podemos existir sem receber. Há quem tenha
tentado, mas essas pessoas não são naturais, são o
supra-sumo do egoísmo.
Os egoístas sempre tentam
ser independentes em tudo. Os egoístas sempre tentam existir
como se nada precisassem de ninguém. Isso é loucura, é
absurdo! Tilopa não pode fazer tal coisa. Ele é um homem
muito, mas muito natural - não encontrarás homem mais
natural do que Tilopa. E se compreendes a natureza, ficarás
surpreendido ao encontrar, ao descobrir um fato extremamente
elementar, que é o seguinte: ninguém é dependente, ninguém é
independente - toda a gente é interdependente. Ninguém pode
reivindicar: “Eu sou independente.” Isso é tolice! Não podes
existir por um só momento em tua independência. E ninguém é
absolutamente dependente.
Essas duas polaridades não
existem. Quem parece dependente também é independente e quem
parece independente é também dependente. A vida é uma
interdependência, é uma partilha mútua. Mesmo o imperador
depende de seus escravos; e até os escravos não dependem do
imperador - pelo menos podem suicidar-se, pelo menos essa
independência têm.
O absoluto não existe aqui.
A vida existe na relatividade. Como é natural, Tilopa sabe
disso. Prescreve a forma natural - como não poderia fazê-lo?
Sabe que a vida é dar e receber. Tu partilhas, mas não deves
preocupar-te com isso, não deves pensar nisso - deves deixar
que isso aconteça. Deixar acontecer é totalmente diferente,
então nem pedes mais do que podes receber nem pedes para dar
mais do que podes dar. Simplesmente, dás o que naturalmente
pode ser dado, simplesmente recebes o que naturalmente pode
ser recebido. Não te sentes obrigado por ninguém e não fazes
ninguém sentir-se obrigado por ti. Sabes apenas que a vida é
uma interdependência.
Existimos mutuamente,
somos membros uns dos outros.
A consciência é um vasto
oceano e ninguém é uma ilha.
Nós nos encontramos e nos
fundimos uns nos outros.
Não há fronteiras.
Todas as fronteiras são
falsas.
Isso Tilopa sabe - então,
que diz ele?
Não devemos dar nem
receber, mas permanecer naturais...
No momento em que pensas que
recebeste tu deixas de ser natural. Receber está certo, mas
pensar que recebeste torna-te desnatural. Dar é belo, mas no
momento em que pensas que deste, o gesto torna-se feio, tu
deixas de ser natural. Dás, simplesmente porque não podes
evitar: tens, então dás; tens de dar. Recebes, simplesmente
porque não podes evitar isso: és parte do Todo. Mas não há
ego tão natural criado através de receber ou através de dar
- esse é o ponto a ser compreendido. Tu nem acumulas nem
renuncias - tu permaneces natural, simplesmente.
Se as coisas vem ter
contigo, tu as aprecias. Se tens mais e o mais se torna uma
carga, tu partilhas. Trata-se apenas de um profundo
equilíbrio, tu apenas permaneces natural. Não apegar-se a
nada, não renunciar; nem sentimento de posse, nem sentimento
de não-posse. Repara nos animais, nos pássaros: não recebem
nem dão. Todos gozam o Todo, do Todo todos partilham, no
Todo todos partilham. Os pássaros, as árvores, os animais
existem naturalmente. O homem é o único animal antinatural -
por isso é que a religião é necessária.
Os animais não precisam de
religião alguma, os pássaros não precisam de religião alguma
- porque não são antinaturais. Só o homem precisa de
religião. E quanto mais o homem se torna antinatural, de
mais religião necessita. Assim, lembra-te disto: quanto mais
uma sociedade se torna desnatural, tecnológica, mais
religião será necessária.
As pessoas me perguntam por
que na América há tanta procura de religião, tanta agitação,
tanta busca. Porque a América é o país menos natural destes
dias, o mais tecnológico, o mais técnico. Criou-se uma
tecnocracia e tudo tornou-se antinatural. Teu ser íntimo tem
sede de liberdade em relação à tecnologia. Teu ser íntimo
tem sede do natural e toda a tua sociedade tornou-se
antinatural, mais culta, mais civilizada - mais antinatural.
Quando uma sociedade se torna demasiadamente culta, a
religião aparece para equilibrar isso. É um equilíbrio
sutil. Uma sociedade natural não precisa dele.
Diz Lao-Tsé: - “Ouvi dos
antigos que havia um tempo em que as pessoas eram naturais,
não existia religiões. Quando as pessoas eram naturais,
jamais pensavam em céu nem em inferno. Quando as pessoas
eram naturais, jamais pensavam em preceitos morais. Quando
as pessoas eram naturais, não havia códigos nem leis.”
Lao-Tsé diz que por causa da lei as pessoas fizeram-se
criminosas, por causa da moralidade tornaram-se imorais e
por causa de demasiada cultura... e a China conheceu
demasiada cultura, nenhum outro país conheceu tanta cultura.
Confúcio fez do “como dar
cultura a um homem” uma disciplina absoluta - três mil e
trezentas regras de disciplina. Subitamente, Lao-Tsé surgiu
para estabelecer o equilíbrio, porque Confúcio teria matado
toda a sociedade - três mil e trezentas regras? - isso é
demais. Faria o homem tão culto que ele desapareceria
inteiramente, não seria mais um homem! Lao-Tsé aparece e
atira todas as regras à poeira; diz que a única regra, a
regra de ouro, é não haver regras. Isso é equilibrado.
Lao-Tsé é religião, Confúcio é cultura.
A religião é necessária como
um remédio, ela é medicinal. Se estás doente, precisas de
remédio, quanto mais doente, naturalmente, mais remédios.
Uma sociedade adoece quando o natural se perde. Um homem
fica doente quando o natural é esquecido. E Tilopa é
inteiramente pela naturalidade e pelo desprendimento.
Lembra-te também que o
desprendimento e o natural estão sempre juntos - porque não
podes tentar tão arduamente ser natural até o ponto de te
tornares antinatural. Assim é que as manias são criadas.
Conheci pessoas, maníacas, que fizeram algo absolutamente
antinatural de um ensinamento natural. Por exemplo: é bom
ter alimento orgânico, nada há de errado nisso, mas se
ficares demasiadamente preocupado, tão minuciosamente
preocupado que a todo momento só pensas em alimento
orgânico, sem permitires nada de inorgânico ao corpo, então
foste além do necessário.
Conheço pessoas que
acreditam em terapia natural, naturopatia, e se tornaram tão
pouco naturais através da sua naturopatia que nem podes crer
como tal coisa aconteceu. E acontece. Se isso se torna um
cansaço para a mente, então já se tornou desnatural. A
palavra “desprendido” tem de ser constantemente lembrada, de
outra maneira, tu te tornarás um maníaco, podes obter algo,
mas podes fatigar-te tanto que mesmo o natural se torna
antinatural.
Desprendimento e
naturalidade é o que diz Tilopa e essa é a totalidade de seu
ensinamento. Não está dizendo que não deves dar e não deves
receber - portanto um significado diferente têm aquelas
palavras.
Não devemos dar nem
receber, mas permanecer naturais...
Aqui está escondida a
significação: permanecer natural. Se, permanecendo natural,
acontece que dês - muito bem! Se, permanecendo natural,
alguém te dá algo e tu recebes, também está bem. Mas não
faças disso uma profissão. Não cries ansiedade por causa
disso.
... porque Mahamudra
está para além de toda aceitação e rejeição.
Lao-Tsé ensina a aceitação.
E Tilopa ensina algo para além da rejeição e da aceitação.
Tilopa é, realmente, um dos maiores Mestres.
Tu rejeitas algo e tornas-te
antinatural - isso podemos entender. Tens cólera interior e
rejeitas isso por causa de ensinamentos morais e por causa
das dificuldades em que a cólera te coloca - conflitos,
violência. E viver com a cólera não é fácil, porque se
queres viver com a cólera não podes viver com mais ninguém.
Ela cria aborrecimentos e então os professores de moral ali
estão, sempre prontos a ajudar-te dizendo: “Suprime isso,
expulsa isso, não te encolerizes, rejeita a cólera/1” Tu
começas a rejeitar.
A partir do momento em que
rejeitas, começas a tornar-te antinatural, porque o que quer
que tenhas foi a natureza que te deu - quem és tu para
rejeitar o que ela te deu? Uma parte da mente faz o papel de
mestre da outra parte da mente? - mas ambas são parte da
mesma coisa. Não é possível. Podes continuar fazendo esse
jogo. Mas a parte que constitui a cólera não se importa com
a outra parte que está tentando suprimi-la, porque, chegado
o momento, ela irrompe. Assim, não há preocupação para a
parte que é cólera, a parte que é sexo, a parte que é
avidez. Tu continuas lutando, desperdiçando, prendendo-te a
milhões de formas e sempre permanecendo dividido, em
conflito, fragmentado.
Desde que rejeitas,
tornas-te antinatural. Não rejeites. Está claro,
imediatamente a aceitação vem: se não rejeitas, então
aceitas. Isso é sutil, delicado. Tilopa diz que mesmo na
aceitação há uma rejeição, porque quando dizes: - “Sim, eu
aceito”, bem no fundo já rejeitaste. De outra forma, por que
dizes: - “Eu aceito?” Que necessidade há de dizer que
aceitas? A aceitação só tem significado se há rejeição, de
outra forma nada quer dizer.
As pessoa vêm ter comigo e
dizem: “Sim, nós te aceitamos.” Eu vejo seus rostos, ouço o
que estão dizendo. Sem saber o que estão fazendo elas já me
rejeitaram. Estão forçando suas mentes para me aceitar e uma
parte de suas mentes está rejeitando. Mesmo quando dizem
“sim”, há um “não”; o próprio “sim” leva em si o “não”. O
“sim” é apenas uma expressão superficial, uma decoração. Por
dentro eu posso ver seu “não” vivo e aos pontapés; no
entanto elas dizem “Nós aceitamos” - quando já rejeitaram.
Se não há rejeição, como
podes aceitar, como podes dizer “eu aceito”? Se não há luta
como podes dizer “eu me rendo”? Se podes entender isso,
então uma aceitação acontece para além da rejeição e da
aceitação, então uma rendição acontece para além tanto da
luta como da rendição - então isso é total... porque
Mahamudra está para além de toda aceitação e rejeição.
E quando permaneces
simplesmente natural, nem rejeitando nem aceitando, nem
lutando nem te rendendo, nem dizendo "não" nem dizendo
"sim", mas permitindo coisas, então seja o que for que
aconteça, acontece, não tens escolha própria. O que quer que
aconteça tu simplesmente anotas que aconteceu, nada tentas
modificar, nada tentas transformar. Não estás preocupado em
melhorar a ti próprio, simplesmente permaneces tal qual és.
Isto é muito, muito árduo para a mente, porque a mente é uma
grande melhoradora.
A mente sempre diz: “Podes
chegar mais alto. Podes tornar-te grande. Podes polir aqui e
ali e assim te tornas de ouro puro. Melhora, transforma,
transmuta, transfigura a ti mesmo!” A mente repete
incessantemente: - “É possível obter mais, é possível, faze
isso!” Então vem a rejeição. E quando rejeitas parte de ti
mesmo, entras em profunda perturbação. Porque aquela parte é
organicamente tua, tu não a podes expulsar. Podes cortar o
corpo mas não podes cortar o ser, porque o ser conserva-se
integral. Como podes cortar o ser? Não há espada que possa
fazer tal coisa.
Se teus olhos vão contra ti,
podes atirá-los fora, se tua mão comete um crime, podes
cortá-la, se tuas pernas encaminham-te para o pecado, podes
amputá-las - porque o corpo não é a tua pessoa, já é
separado, podes cortá-lo. Mas como cortarás a tua
consciência? Como cortarás o teu ser mais íntimo? Ele não
tem substância, não podes cortá-lo. Ele é como um vácuo -
como podes cortar o vácuo? Tua espada o atravessaria e ele
permaneceria integral. Se tentares demasiadamente, tua
espada pode partir-se, mas o vácuo permanecerá indiviso, não
poderás cortá-lo.
Teu ser mais íntimo tem a
natureza do vácuo,
é um não-eu, não tem
substância.
Existe, mas não é
matéria.
Não podes cortá-lo, não
há possibilidade disso.
Não rejeites - mas
imediatamente a mente diz: “Então está bem, aceitamos.” A
mente jamais te deixa a sós. A mente segue-te, como uma
sombra. Onde quer que vás a mente diz: “Está bem, eu vou
contigo, só para auxiliar, como um ajudante. Quando quer que
precises eu te ajudarei. Não rejeites - naturalmente, está
certo! Tilopa está certo: aceita!” E se ouvires a mente,
novamente cais na mesma armadilha. Rejeição e aceitação são
ambas aspectos da mesma cunhagem.
Tilopa diz:
...porque Mahamudra
está para além de toda a aceitação e rejeição.
Não aceites. Não rejeites.
Na verdade, não há nada a fazer. Não te pedem que faças
nada. Pedem-te, simplesmente, que sejas desprendido e
natural: sê tu mesmo e deixa que as coisas aconteçam. O
mundo inteiro está seguindo sem ti: os rios vão para o mar,
as estrelas se movem, o sol levanta-se pela manhã, as
estações seguem-se umas às outras, as árvores crescem,
florescem e desaparecem, o Todo se está movendo sem ti - não
podes deixar que tu mesmo sejas desprendido e natural e se
mova com o Todo? Isso, para mim, é sannyas.
As pessoas vêm ter comigo e
pedem: “Dá-nos uma disciplina definida. Tu só nos dás
sannyas e nunca falas de disciplina. Que esperas que
façamos?” Eu nada espero. Eu quero que sejam desprendidas e
naturais. Quero que sejam o que são e deixem as coisas
acontecerem - seja o que for que aconteça, seja o que for,
incondicionalmente, bom ou mau, sofrimento ou felicidade,
vida ou morte - o que quer que aconteça, deixem que
aconteça. Não interfiram. Relaxem. Toda a existência
continua e continua perfeitamente bem; por que estão
preocupados com vocês?
Não há necessidade de
melhorar,
não há necessidade de
mudar.
Fica, apenas, desprendido
e natural
e o melhoramento vem, de
livre iniciativa,
as mudanças se seguem, e
serás completamente transfigurado -
mas não por ti mesmo.
Se tentas isso, estás
fazendo como alguém que se quer levantar puxando pelos
cordões do próprio sapato. Tolice! Não tentes tal coisa.
Será como um cão tentando agarrar a própria cauda. Em certas
manhãs de inverno, quando o sol acaba de se erguer, podes
encontrar muitos cães fazendo isso. Estão sentados,
silenciosos, satisfeitos, mas, de repente, divisam a própria
cauda a seu lado - e ela lhes parece tentadora. E como podem
eles saber, pobres cães, que aquela cauda lhes pertence?
Essa é a tua situação: no mesmo barco viajas. Vem a tentação
muito forte, a cauda parece deliciosa, pode ser comida! O
cão tenta, de início bem devagar e silenciosamente, a fim de
que a cauda não se assuste; mas, faça ele o que fizer, a
cauda simplesmente se move, cada vez para mais longe. Tem
início então uma atividade febril e o cão começa a ficar
alerta: “Que é que essa cauda está pensando?” Aquilo se
torna um desafio. Agora ele salta e quanto mais ele salta,
mais salta a cauda. O cão pode até enlouquecer.
É isso que todos os
inquiridores espirituais estão fazendo a eles mesmos.
Perseguindo a própria cauda, numa manhã de inverno, quando
tudo é belo; preocupando-se desnecessariamente, com sua
cauda. Deixem-na em paz! Sejam naturais e desprendidos -
quem pode agarrar a própria cauda? Tu saltas mas a cauda
salta contigo e tu te sentes frustrado. É quando vens ter
comigo e dizes: - “Kundalini não se está elevando.”
Que posso eu fazer? Estás caçando tua própria cauda e
perdendo uma bela manhã ao fazeres isso. Poderias ter
repousado com a tua cauda, silenciosamente: muitas moscas
viriam, por iniciativa própria, e terias um bom desjejum.
Mas, como caças a cauda, as moscas se assustam e com elas a
possibilidade de um bom desjejum. Ao contrário, simplesmente
esperas! Só o saber que as coisas não podem ser melhoradas
já as faz o melhor que podem ser.
Tu só precisas apreciar.
Tudo está pronto para a
celebração, nada falta.
Não te prendas a atividades
absurdas - e aperfeiçoamento espiritual é uma das atividades
mais absurdas.
...permanece natural -
porque Mahamudra
Está para além de toda
a aceitação e rejeição.
Já que alaya não é
nascida...
Alaya
é um termo budista: significa morada, a morada interior, a
vacuidade interior, o céu interior.
Já que alaya não é
nascida
Ninguém pode
obstruí-la ou manchá-la.
Não te preocupes! Desde que
teu ser íntimo nunca nasceu, não pode morrer; desde que
nunca nasceu, ninguém pode manchá-lo ou obstruí-lo. É
imortal! E desde que o Todo te deu vida, desde que a vida
vem do Todo, como pode a parte melhorá-la? Da fonte tudo
provém, deixa que a fonte forneça - e a fonte é eterna. Tu
te postas desnecessariamente no caminho, tu começas a
empurrar o rio que já está fluindo em direção do mar...
ninguém pode obstruí-lo ou manchá-la. Tua pureza
interior é absoluta! Não podes manchá-la. Essa é a essência
do Tantra.
Todas as religiões dizem que
precisas alcançá-la - Tantra diz que já a alcançaste.
Todas as religiões dizem que
tens de trabalhar duramente para isso - Tantra diz que já
estás perdendo por causa de tua dura atividade.
Por favor, relaxa um pouco;
só relaxando atingirás o Inatingível.
... ninguém pode
obstruí-la ou manchá-la.
Podes ter feito um milhão de
coisas - não te preocupes com os carmas, porque nenhum ato
teu pode manchar ou tornar impuro o teu ser interior.
Essa é a base do mito do
nascimento virginal de Jesus. Não quer dizer que Maria, a
mãe de Jesus, fosse virgem - é uma atitude tântrica. Em suas
viagens pela Índia Jesus encontrou muitos tântricas - e
compreendeu o fato de que “virgindade” não pode ser
destruída, que toda criança nasce de uma virgem. Os teólogos
cristãos aflingiram-se muito para provar que Jesus nascera
de uma virgem. Não há necessidade disso! Toda a criança
nasce de uma virgem, porque a virgindade não pode ser
manchada.
Como podes manchar a
virgindade? Toma dois seres, marido e mulher, ou dois
amantes, movendo-se em profundo orgasmo sexual - como podes
manchar com isso a virgindade? O ser interior permanece como
testemunha, não é parte daquilo. Os corpos se encontram, as
energias se encontram, as mentes se encontram; há um momento
beatífico através disso, mas o ser interior permanece
testemunha - fora daquilo. A virgindade não pode ser
manchada. Ainda assim, no Ocidente se preocupam em como
provar que Jesus nasceu de uma virgem.
E eu digo que nem mesmo uma
só criança jamais nasceu de uma mãe que não fosse virgem.
Todas as crianças são nascidas da virgindade.
A cada momento, faças o que
fizeres, tu estás fora daquilo. Ação alguma deixa cicatrizes
em ti, não pode deixar. E, desde que relaxes e compreendas
isso, não te preocuparás sobre o que fazer, ou não fazer.
Deixas as coisas tomarem seu próprio curso. Flutuas
simplesmente como uma nuvem branca, sem te moveres para
parte alguma, unicamente gozando o movimento. O próprio
perambular é belo.
...ninguém pode
obstruí-la ou manchá-la.
conservando-se na
região não-nascida
toda aparência se
dissolverá no Dharmata.
Dharmata
significa que tudo tem sua própria natureza elementar. Se
permanecer em tua morada interior, tudo aos poucos se
dissolverá em seu próprio elemento natural. Tu é que és o
agitador. Se permaneces dentro do teu ser, no alaya,
no céu interior, naquela pureza absoluta, então, como no
céu, as nuvens podem ir e vir e não deixam marcas. As ações
vêm e vão, os pensamentos vêm e vão, muitas coisas
acontecem, mas dentro, bem na profundidade, nada acontece.
Ali tu simplesmente és.
Só há existência ali.
As ações não chegam até
lá, nem os pensamentos.
Se permaneces desprendido e
natural naquela morada interior, gradualmente verás que
todos os elementos se movem em sua própria natureza. O corpo
é feito de cinco elementos. A terra, aos poucos, irá para a
terra, o ar para o ar, o fogo para o fogo. Isso é o que
acontece quando morres: cada elemento vai para seu próprio
repouso - Dharmata significa a natureza elementar de
todas as coisas -, tudo se move para a sua própria morada.
Tu te moves para a tua própria morada e então tudo se move
para a sua. Não há perturbação.
Há duas maneiras de viver e
duas maneiras de morrer. Uma delas é viver como toda a gente
está vivendo: mesclando-se a tudo, esquecendo completamente
o céu interior. A outra forma de viver é o repouso interior
e permitindo que as forças elementares façam seu próprio
caminho. Quando o corpo sente fome, move-se e procura
alimento.
O homem Iluminado permanece
dentro da sua morada. O corpo sente fome e ele observa. O
corpo começa a mover-se para saciar a fome e ele observa. O
corpo encontra o alimento, sente-se saciado, ele observa.
Continua observando. Já não é um ator. Nada está fazendo -
não é aquele que faz. O corpo tem sede, ele observa. O corpo
ergue-se e se move; são as forças elementares que trabalham
por sua própria conta. Dizes, desnecessariamente: “Tenho
sede!” - não tens! Estás confuso. O corpo tem sede e o corpo
encontrará seu caminho. Irá para onde está a água.
Se permaneces dentro, verás
tudo acontecer por si mesmo. Até as árvores encontram suas
nascentes, sem ego e sem mente. As raízes se movimentam para
encontrar uma nascente; às vezes movimentar-se-ão muitas
centenas de pés para encontrar uma nascente. Isto tem sido
uma das coisas mais espantosas para os botânicos, que não a
podem explicar. Temos ali uma árvore: em direção ao norte, a
cem pés de distância, há uma nascente, um pequeno manancial
escondido dentro da terra. Como sabe a árvore que as raízes
devem estender-se dentro da terra. Como sabe a árvore que as
raízes devem estender-se para o norte e não para o sul? São
cem pés de distância, de modo que nem mesmo a adivinhação é
possível - e a árvore não possui mente, não tem ego. Mas,
devido à existência das forças elementares, a árvore por si
própria começa a lançar raízes em direção ao norte e, um
dia, alcança o manancial.
A árvore se estende para o
céu... Na selva africana as árvores são muito altas; têm de
ser porque a floresta é tão densa que se as árvores não se
elevassem muito não conseguiriam alcançar o sol, a luz, o
ar. Assim, crescem cada vez mais altas, mais altas,
procurando seu caminho. Até mesmo as árvores podem encontrar
suas nascentes - por que tu te preocupas?
Por isso Jesus disse: -
“Considera os lírios do campo que não trabalham nem fiam;
nada fazem e tudo acontece.”
Quando estás no interior de
tua morada, tuas forças elementares começam a funcionar em
sua pureza cristalina. Não saias. O corpo sente fome, o
corpo mesmo se move - e é tão belo ver o corpo movendo-se.
É, realmente, uma das mais maravilhosas experiências, essa
de ver o próprio corpo mover-se e encontrar a nascente ou o
alimento. Há uma sede de amor e o corpo se move por si
mesmo. Tu continuas sentado em tua morada quando, de
repente, vês ações que não te pertencem: tu nada fazes, tu
simplesmente observas.
Compreende isso e terás
atingido o Inatingível. Compreende isso e compreenderás tudo
o que há para compreender.
Conservando-te na
região não-nascida
toda aparência se
dissolverá em Dharmata
e o egoísmo e o
orgulho se desvanecerão em nada.
E quando vires que as coisas
estão acontecendo por si mesmas, como poderás reunir um ego,
gabar-te dele?
Como poderás dizer “eu”
quando a fome tem seu próprio caminho,
satisfaz a si mesma,
torna-se saciedade;
quando a vida tem seu
próprio caminho,
satisfaz a si própria,
procura a morte e o repouso?
Quem és tu para dizer “eu
sou”?
O orgulho, o eu, o
egoísmo, tudo se dissolve.
Então, nada fazes,
então nada queres -
simplesmente ficas em teu
ser interior
e a relva cresce por si
mesma...
Tudo acontece por si
mesmo.
Isso é difícil de entender,
porque foste educado, condicionado; disseram-te que tens de
agir, que tens de ser de ação, que tens de estar
constantemente alerta, movendo-te, lutando. Foste educado em
um meio que diz que tens de lutar por tua sobrevivência,
pois de outra forma estarás perdido, de outra forma nada
alcançarás. Foste educado com o veneno da ambição em ti. E
no Ocidente, particularmente, uma palavra insensata - “força
de vontade” - existe. Isso é simplesmente absurdo. Nada há
que se pareça a alguma “força de vontade” - é uma fantasia,
um sonho. Não há necessidade de vontade alguma. As coisas
acontecem por si mesmas, isso é da sua natureza.
Isto aconteceu: O Mestre de
Lin-Chi morreu. O Mestre era o homem famoso, mas Lin-Chi era
ainda mais famoso do que o Mestre, porque o Mestre era homem
silencioso e, através de Lin-Chi é que de fato se tornara
famoso. Pois bem, o Mestre morreu - através também de
Lin-Chi sabia-se que ele era um Iluminado - e milhares de
pessoas se juntaram para prestar-lhe homenagem e dar-lhe o
último adeus. Viram que Lin-Chi chorava, as lágrimas
correndo como uma criancinha cuja mãe tivesse morrido. As
pessoas não podiam acreditar naquilo porque pensavam que ele
tivesse alcançado - e ali estava ele, chorando como uma
criancinha. Isso é certo se a pessoa é ignorante, mas se a
pessoa está Acordada, e quando ela própria tem ensinado que
a natureza interior é imortal, eterna, nunca morre... e
então?
Uns tantos, que eram muito
íntimos de Lin-Chi, vieram dizer-lhe: - “Isto não é bom, que
dirá de ti o povo? Já corre um boato, as pessoas julgam que
estavam erradas ao pensar que tinhas alcançado. Todo o teu
prestígio está em jogo. Pára de chorar! Um homem como tu não
precisa chorar.”
Lin-Chi respondeu: - “Mas
que posso fazer? As lágrimas vêm! É o seu Dharmata. E
quem sou eu para estancá-las? Nem rejeito nem aceito:
conservo-me dentro de mim. Agora as lágrimas estão fluindo,
nada pode ser feito. Se o prestígio está em jogo, que
esteja. Se as pessoas pensam que não sou Iluminado, isso é
com elas. Que posso eu fazer? Há muito tempo abandonei
aquele que faz. Não há mais aquele que faz. Isto
simplesmente acontece. Estes olhos estão chorando por sua
própria iniciativa, porque não poderão mais ver o Mestre - e
ele era alimento para estes olhos, eles vivam desse
alimento. Sei muito bem que a alma é eterna, que ninguém
jamais morre, mas como ensinarei isso a estes olhos? Que
lhes direi? Eles não ouvem, não têm ouvidos. Como ensinar a
estes olhos que não chorem, não lacrimejem, que a vida é
eterna? E quem sou eu? Isso é assunto deles. Se têm vontade
de chorar, que chorem.”
Permanecer desprendido e
natural significa isto: as coisas acontecem, mas tu não és o
agente. Nem aceitando, nem rejeitando, o egoísmo se
dissolve. O próprio conceito da força de vontade torna-se
vazio e impotente, murcha, simplesmente, e o orgulho se
desvanece em nada.
É difícil entender uma
pessoa Iluminada. Não há conceitos que ajudem. Que pensas de
Lin-Chi? Ele diz: - “Eu sei, mas os olhos estão chorando,
deixemos que chorem, eles se sentirão relaxados. Não mais
poderão ver esse homem; esse corpo logo será cremado e eles
se sentem nutridos por ele; não conhecem nenhuma outra
beleza senão a deste homem, não conhecem outra graça.
Viveram muito tempo sendo nutridos por esse homem, pela sua
figura, pelo seu corpo. Agora, é natural, sentem-se
sedentos, esfaimados; agora, naturalmente, sentem que o
próprio chão está desaparecendo sob eles - e estão
chorando!”
Um homem natural apenas
senta-se em seu próprio interior e deixa que as coisas
aconteçam!
Ele não “faz”.
E Tilopa diz que, só
então, Mahamudra aparece,
o último, o realmente
último orgasmo com a Existência.
Então, não mais está
separado.
Então, teu céu interior
tornou-se um com o céu exterior.
Não há dois céus, agora,
só há um céu. |